Privilégio em primeira pessoa

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Venho participando de um grupo de estudos sobre pensadoras latino-americanas e as reflexões geradas pelas leituras e debates neste espaço caíram como uma bomba sobre o meu mundo encapsulado. A redoma de vidro trincou e nada mais ficou no mesmo lugar desde o primeiro texto discutido. Ainda que eu me considerasse uma cidadã consciente, crítica, responsável e atenta ao modus operandi da sociedade, fui tomada por uma avalanche de constatações que tiraram a pretensa paz de espírito e sacudiram minha alma revolucionária. Então, fiquei pensando no tanto e em como é importante abandonarmos nossa zona confortável de privilégios para assumirmos, em primeira pessoa, o compromisso de transformar o mundo ao nosso redor em um lugar de bem estar para além do nosso umbigo.

Também fiquei refletindo sobre o quanto esse tipo de colocação se tornou um clichê e permeia certos grupos de pessoas que, assim como eu, acreditam que percebem as desigualdades sociais, a disputa de poder entre grupos de interesse e as injustiças praticadas nas diferentes instâncias da sociedade. Repetimos, frequentemente, que é preciso rompermos a nossa bolha e agirmos coletivamente, mas nossas palavras, muitas das vezes, estão calcificadas e não provocam movimento nenhum em nós mesmos. Não saímos do lugar (de privilégio). Em outros momentos, jogamos esse tipo de pensamento ao vento de forma aleatória, na tentativa de reproduzi-lo em larga escala, sem agirmos concretamente. Queremos que os ventos gritem nos ouvidos dos outros enquanto nós mesmos mantemos nossa escuta centrada apenas naquilo que nos interessa alcançar.

Alguns de nós não fazem a mínima ideia da realidade em que vivemos, embora, assim como eu, se consideram conhecedores ou conhecedoras dos problemas que arrastam o mundo para o caos. Queremos denunciar o flagelo humano, mas sequer reconhecemos o nosso lugar de fala e perdemos a noção tangível da distância que nos separa dos perrengues dos outros. Assim como eu, são pessoas que pensam ter clareza do seu papel e até procuram desempenhá-lo de maneira potencializada para impactar seu entorno, mas, ainda assim, ignoram suas concepções eurocentradas, baseadas na supremacia branca.

E se até aqui o cenário sugerido parece irreal ou simplesmente descontextualizado, façamos o esforço da objetividade: nós ocupamos, sim, um lugar de privilégio, sem nos darmos conta de que ele foi construído às custas do apagamento de outros lugares e, por mais que acreditemos ter alguma consciência disso, nem sempre nos dispomos a abrir mão dos nossos benefícios para operar a renovação que o mundo demanda. Des-cobrirmos o véu do idealismo que vestimos ao olharmos as coisas que acontecem embaixo do nosso nariz pode ser um choque e tanto porque nunca nos imaginamos como opressores. Na maior parte do tempo, nos identificamos com o lugar do oprimido. Somos ingênuos ou talvez levados a acreditar realmente na imparcialidade dos nossos atos (falhos).

Há quem possa argumentar que a nossa postura diante dos fatos decorre da educação tendenciosa que recebemos desde sempre. É impossível discordar disso, reconheço. Aprendemos como as coisas são e funcionam pelos olhos de outras pessoas que também aprenderam com outras pessoas que… sabe-se lá até onde remonta essa cadeia de copia-e-cola, não é mesmo?! Naturalmente, vamos perpetuando os olhares, mesmo quando eles são filtrados por interesses particulares e estão infiltrados por valores contrários à garantia dos direitos universais. A força das crenças socialmente construídas é efetiva e nos submete aos paradigmas, sem muito ou nenhum questionamento. É no andar dessa carruagem que organizamos nossas instituições (escola, família, Estado etc.), estabelecemos normas e leis, ditamos padrões estéticos e culturais e por aí vai.  Dessa maneira, estruturamos e legitimamos o preconceito, o racismo, a desigualdade e por aí segue.

Ocorre que mudar a lente dos nossos óculos, mesmo que seja de forma gradativa, é necessário e possível, desde que estejamos dispostos a olhar nossos próprios preconceitos, medindo a força de opressão que praticamos nas relações que mantemos. Usamos o lugar de privilégio para consolidar nosso status social de forma tão sutil que, muitas vezes, passa despercebido por nós. São microações (uma piada, um jeito de falar, um termo, um rótulo, uma opinião ou forma de pensar etc.), mas a falta de compreensão sobre a inflexibilidade que isso gera em nós reforça nossas atitudes e limita nosso repertório comportamental diariamente. A dinâmica social fica, assim, comprometida como um todo.

Alguém me disse que o mundo tem mazelas demais para nos apegarmos aos pequenos detalhes daquilo que a sociedade nos impõe porque “sempre foi assim e é difícil mudar alguma coisa”. Isso é inaceitável! Basta um rápido resgate histórico para entendermos como as circunstâncias são minuciosamente delineadas para impedir a mobilidade social. E somos nós mesmos que fazemos isso, mesmo usando como desculpa nossa herança cultural e social de maneira fatalista. Somos nós que restringimos as expectativas sobre as pessoas e as oportunidades concedidas a elas pela estrutura que criamos.

Assim como eu, tenho a certeza de que muitos outros pais e educadores desejam que as próximas gerações cresçam em um mundo onde os privilégios sejam compartilhados igualmente e de forma equânime. Precisamos de uma sociedade em que possamos admitir, em primeira pessoa, nossas falhas históricas e repará-las também em primeira pessoa. Por isso, ao me dar conta do privilégio que é poder traçar essas linhas e acessar pessoas que, igualmente, estão dispostas a fazer a autocrítica e a criar caminhos para rompermos as nossas bolhas, me sinto animada a fazer o convite: bora expandir nossas ações também para a primeira pessoa do plural!

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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