Do vinil ao streaming

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Alguns dias atrás, li um pequeno anúncio questionando a lógica de uma plataforma que traduzia algumas profissões como sendo supostamente masculinas ou femininas: o médico, em vez de a médica; a enfermeira, em vez de o enfermeiro. Há algum tempo já vinha reclamando sobre isso com várias pessoas, mas sempre ouvia a mesma justificativa: é o programa que desconhece o pronome indefinido. Às vezes, fico me perguntando se o programa não é apenas o espelho do humano que o desenvolveu e, portanto, somos nós que não reconhecemos as múltiplas possibilidades do existir.

Convenhamos, o mundo se transforma apenas se modificarmos a nós mesmos. Podemos avançar tecnologicamente, passear no espaço, inventar o que for e, ainda assim, carregamos em nossa bagagem valores e ideias que moldam a forma como concebemos nosso universo simbólico e material. Assim, a tarefa simples de traduzir uma frase com a ajuda de um aplicativo pode revelar séculos de dominação do patriarcado sem nos darmos conta do que isso representa no dia a dia da sociedade. Os algoritmos estão aí para “nos colocar na linha”, mas há quem pense que fazer esse tipo de constatação é procurar chifre em cabeça de cavalo. Uma dessas pessoas me disse que o mundo já tem problemas demais para convertermos essa questão em um cavalo de batalha. Mas, no caso, tenho para mim que seria um cavalo cheio de chifres de verdade e não um unicórnio fantasmagórico.

O fato é que estamos tentando delinear novos contornos para as nossas sociedades e é fundamental nos atentarmos para todas as variáveis que perpetuam as relações de forças, buscando trazer reflexões sobre como elas reproduzem verdades que nos levam ao preconceito e estimulam a discriminação. Um aplicativo comum de tradução pode servir de meio para repensarmos nossas posturas e, na qualidade de pais e educadores, temos o compromisso de olhar isso sempre de perto. Como dizem os sábios: “de pequenino é que se torce o pepino”. Portanto, mãos à obra e atenção ao tipo de ferramenta que dispomos para apreendermos o mundo.

É quase assustador ler o relatório da PwC – uma rede internacional de consultoria e auditoria – afirmando que o consumo global de dados na internet aumentou mais de 30% em 2020, quando comparado ao ano anterior. Nessa estatística estão considerados todos os tipos de uso: educação, lazer, trabalho profissional, serviços em geral. É um aumento significativo e até podemos assumir que isto seja uma provável resposta ao contexto global em que estamos vivendo. Por outro lado, trata-se de uma tendência em crescimento permanente e de forma cada vez mais intensa e acelerada. Isto é inegável!

Se passamos lentamente do gramofone para as vitrolas, foi em muito menos tempo que começamos a rebobinar a fita cassete com a ajuda de uma caneta e mais rapidamente ainda entramos na era dos CDs. No piscar dos olhos, fomos introduzidos ao mundo dos streamings e, praticamente, nos mudamos para as nuvens. Hoje, esse espaço virtual tornou-se uma espécie de cofre seguro em que depositamos todas as informações valiosas que queremos proteger. Subimos o essencial para a nuvem, sempre confiando que, em algum lugar do planeta, um provedor potente vai tomar conta de tudo por nós.

Nossa dependência tecnológica vem se acentuando e parece não ter retorno. Dificilmente as pessoas voltarão a enviar cartas pelo correio, raras são aquelas que ainda usam máquinas de fotografia com filme de rolo, poucas mantêm aparelho de telefone fixo em casa, e por aí vai. Chega a ser impensável nos mantermos longe dos dispositivos que nos conectam em tempo real com quase absolutamente tudo e todos. Quer dizer, se estivermos inseridos na parcela privilegiada da população com fácil acesso à internet, o que torna tudo isso ainda mais complexo de ser repensado. Avançamos na modernidade e continuamos dinossauricamente reproduzindo as desigualdades sociais. As oportunidades de uso da tecnologia são restritas e economicamente seletivas.

Tentava amadurecer isso tudo na minha cabeça quando me deparei com uma situação muito peculiar, ao acompanhar um ecocardiograma. A médica em questão manejava o aparelho com tamanha agilidade que chegava a ser até engraçado. Eram muitos botões e inúmeros cliques com apenas uma das mãos, enquanto ela segurava sobre o tórax do paciente o que parecia ser um joystick. No final do exame, ousei perguntar se ela costumava jogar videogame e, rindo, foi logo respondendo: Sim, a vida inteira! E esse painel lembra aqueles videogames sofisticados, né?

Sim, totalmente, pensei eu, me lembrando imediatamente do relatório da PwC que apontava também que os games estão entre os dados cujo consumo cresce mais rápido. Não há área, do supérfluo ao indispensável, que tenha deixado de ser afetada direta ou indiretamente pela tecnologia. Mergulhamos de cabeça nesse universo, mas isto, por si só, não pressupõe um problema. A questão central aqui é o quanto nossos olhos estão vendados neste mergulho: se ignoramos as ideologias por trás dos programas e dos algoritmos, se menosprezamos sua capacidade de produzir desigualdades digitais, se a usamos como estratégia de dominação ou de alienação ou, ainda, de cooptação. São essas ameaças que precisam ser identificadas e combatidas.

Temos um compromisso intergeracional de tornar o mundo – concreto ou virtual – um espaço de bem viver. E, neste exercício, não basta sermos inclusivos, precisamos ter equidade. Não basta sermos sustentáveis, é necessário sermos justos. Não basta termos valores, é fundamental aplicá-los eticamente. Não basta dialogarmos, é imprescindível mantermos uma comunicação militante. Não basta expressarmos empatia, temos que partir do básico: engajamento coletivo e político.

Termos consciência das artimanhas ideológicas do mundo digital é apenas um passo. Coexistirmos na contemporaneidade depende tanto da nossa capacidade tecnológica quanto psicoafetiva para fazermos a transição entre os mundos e liderarmos a transformação social necessária em primeira pessoa. Portanto, não nos deixemos seduzir pelos encantos e facilidades que as inovações nos apresentam e, tampouco, nos iludir pelos algoritmos.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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