Tudo certo como dois e dois são cinco

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Transformar o mundo? Não! Não se trata mais de mudar o mundo. Ele é o que é, exatamente do jeito que precisa ser para acolher as mais diferentes necessidades de crescimento espiritual dos seres que aqui transitam. O mundo não está errado, nada nele é injusto e, consequentemente, dispensa os super-heróis que se lançam na tarefa de salvá-lo. Talvez careça de regeneração e renovação das suas forças e potencial para dispor de novas oportunidades de ensinamento, mas tudo o que ocorre nele, desde sempre, por mais triste ou complicado que possa parecer, tem uma razão justa e precisa para existir e um propósito a servir.

Portanto, está tudo certo com a soma dos fatores e cada evento encontra-se em seu devido lugar, na hora exata para amadurecer os frutos que nos alimentarão, de acordo com a nossa singularidade. Claro, por sermos diferentes, há infinitas realidades e também ensinamentos que contemplam, particularmente, nosso aprendizado e impulsionam o processo de iluminação. Assim, compreender que os moinhos são imaginários é fundamental e libertador, pois assimilando essa verdade, conseguimos nos desprender dos fatos que nos parecem reais para encararmos as ilusões da mente com leveza e agirmos em sintonia com o que Somos.

Afinal, transitar nesse mundo é um privilégio concedido para acelerar o desapego e aceitar a impermanência e a relatividade de tudo. Dessa maneira, podemos evitar qualquer ordem de sofrimento, posto que tudo passa e nada resta para sempre da mesma forma. Então, para quê procurar nossas respostas na vida exterior? É desnecessário fugir quando carregamos a dor na alma; ela só se desfaz com o auto-perdão, independente de onde estivermos. Não há o que buscar fora de nós quando a luz divina e sagrada está justamente em nosso Ser; a iluminação vem de dentro e também independe de onde nos situamos. Tudo depende, exclusivamente, de encontrarmos a nós mesmos ali onde Existimos.

Não precisamos ir a lugar algum, nem levantar bandeiras por nenhuma causa. Basta olharmos para o reflexo das experiências espirituais que vivemos e reconhecer que a felicidade não é mesmo desse mundo. Certamente, viver nesse contexto material abre a consciência para a grandeza da nossa existência e predispõe a alma para acolher sua simplicidade. E, para tanto, podemos estar onde estamos, desde que estejamos onde Somos.

É tempo de reforma íntima, nada mais ou diferente disso. Apesar dos constantes flagrantes coletivos, disparadores das mais variadas crises humanas a que temos sido expostos ultimamente, o momento pede concentração nas atitudes individuais. É chegada a hora de vivermos pessoalmente as mudanças que desejamos para o nosso mundo e isso só é possível com as micro-intervenções: estará tudo certo quando agirmos de maneira coerente com a nossa essência divina, sabendo que dois mais dois nunca serão quatro!

 

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Realidade: um sonho (im)possível

Foto: Jose A Morán Fotografias

Foto: Jose A Morán Fotografias

Sonhar pode significar uma projeção da nossa mente para refletir os desejos e expectativas que alimentamos dentro de nós. Mas, ao mesmo tempo em que expressa o reconhecimento do nosso potencial inovador, também representa a negação daquilo que vivemos no cotidiano ou até mesmo a incapacidade de lidarmos com a vida, tal como ela é.

Com muita frequência esperamos receber a oportunidade certa para realizarmos nossos sonhos e, através deles, encontrarmos a felicidade. O tempo passa e demoramos a entender que esse registro é uma ilusão: o momento certo é relativo e talvez nunca alcance os anseios do coração. Depositamos a responsabilidade para concretizarmos nossos propósitos sobre a frágil condição do mundo externo. Condicionamos a materialização do sonho à possibilidade objetiva e quando ela não acontece, simplesmente vamos nos acomodando às verdades temporárias e seguimos cumprindo o destino como se ele fosse uma fatalidade inevitável.

Mesmo infelizes, raramente ou praticamente nunca pensamos em encarar de frente a situação em que estamos vivendo com determinação, a fim de modificar a realidade naquilo que desejamos. Ignoramos por completo a voz interior. Quanto tempo precioso desperdiçado para sonhar o impossível, exatamente por acreditarmos, todas as vezes que nos esbarramos em alguns obstáculos, que as mudanças são inatingíveis ou complicadas demais para serem efetuadas. Onde mesmo escondemos a nossa força transformadora?

Se observarmos com cuidado o estado vibratório do mundo atualmente, perceberemos de imediato um grau preocupante de insatisfação generalizada, tomando conta das pessoas e arrastando muitas delas para o desânimo total. Muita gente com problemas e doenças de todos os tipos e gravidade, sentindo-se impotente e paralisada diante das adversidades. Realmente, muitos de nós já se perderam no olho do furacão e continuam se debatendo, tristemente, para recuperar o fio da esperança.

Talvez, para alguns, a esperança de um sonho coletivo: uma sociedade coerente e generosa com a sua diversidade; um mundo coeso, tão idealizado pelos mais diferentes expoentes da cultura, da filosofia, da utopia. Um sonho que se sonha juntos para torná-lo realidade e que devolve o destino da vida para as nossas mãos. Mas para outros, apenas a esperança despretensiosa de um amor correspondido, capaz de resgatar o coração do limbo e rejuvenescer a existência inteira da alma.

Porém, ao descobrimos que sonhávamos sós, o que fazemos?

Recuamos entristecidos, pois nos damos conta de que exercer o livre arbítrio e tomar as decisões sobre os rumos da própria vida é condição privilegiada de poucas almas: aquelas que ousaram confrontar seus paradigmas e romper com os eventos sui generis do seu entorno, por compreenderem que são as únicas pessoas capazes de alterá-los. Geralmente, nos amedrontamos com a necessidade de mudar a lógica que mantém nossa zona de conforto. Permanecemos desgostosos, mas desejosos de que um dia o sonho seja real.

E, enquanto isso, lá se vai o tempo que não temos, sacrificado pela covardia de fazer da realidade um sonho possível. Onde mesmo escondemos a nossa força transformadora de sonhos?

 

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Saboreando a montanha russa

Foto: banco de imagens da internet

Foto: banco de imagens da internet

A imagem de uma montanha russa descreve claramente nossa passagem por esse mundo: você compra o ticket na chegada e já embarca no vagão com frio na barriga, pois sabe que irá experimentar fortes emoções. A existência dos trilhos não garante a certeza do caminho e, apesar de termos uma noção dos altos e baixos, das curvas à direita e à esquerda, não sabemos exatamente em que momento passaremos por cada uma dessas posições. É sempre uma surpresa e nunca estamos realmente preparados para a viagem.

Cada momento traz uma novidade, mas não necessariamente algo novo. Ainda assim, somos despertados pelos eventos inusitados que mostram a força de viver e consumidos pelos acontecimentos rotineiros que nos jogam de volta para a comodidade das nossas escolhas. Num instante, acolhemos as alegrias com todas as forças da alma, experimentando tudo que se passa ao nosso redor, mas no momento seguinte, nos entristecemos com as adversidades do trajeto, perdendo o paladar para a beleza do tempo presente.

Muitas vezes, o vagão desce tão rapidamente que nos faz querer saltar porque já não aguentamos as sacudidas das incertezas. Quase desistimos de tudo por desacreditar no próprio potencial e passamos a desconfiar do maquinista, achando que ele está demorando demais para mudar o percurso. Em outras circunstâncias, nos agarramos ao menor sinal de amor e quando o vagão sobre novamente, alcançamos níveis tão altos de esperança que nos sentimos no paraíso.

Na verdade, como explica Fernando Pessoa, “por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações. Nunca desembarcamos de nós.” E é então que nos damos conta de que não adianta mudar de brinquedo, pois levaremos sempre conosco essa oscilação natural entre os opostos.

Faz parte do caminho transitar entre certezas e incertezas e o desafio maior não está em encontrar a estabilidade, mas em encontrar satisfação e crescimento em qualquer posição. Altos e baixos, para lá ou para cá, há sempre uma lição contribuindo para o nosso desenvolvimento e a decisão sobre como incorporá-la cabe apenas a nós.

Por mais difícil que seja uma situação, temos a opção de abrandá-la de alguma maneira. Mesmo quando desembrulhamos o presente e nos decepcionamos com o que encontramos dentro do pacote, já vale a diversão de descobrir que o futuro nos reserva um outro tempo. E assim vamos, saboreando a viagem na montanha russa, de olho na luz que parece piscar no final do túnel!!

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Nos meandros do amor

Foto: Md Moazzem Mostakim, thanks to Sourions, la vie est belle

Foto: Md Moazzem Mostakim, do perfil de Sourions, la vie est belle

Quando o amor chega de mansinho e inesperadamente, levamos um tempo para notar a sua presença. Mas logo vamos experimentando uma sensação de leveza na alma e uma alegria no coração e passamos a desconfiar de que alguma coisa nova está acontecendo com os nossos dias.

Essa renovação traz esperança e disposição para enfrentarmos as adversidades e aquilo que antes parecia complicado demais se torna apenas um detalhe pequeno da batalha diária, pois sabemos que iremos vencê-la, de uma forma ou de outra. O amor tem a qualidade de nos tornar fortes e de abrir horizontes. É capaz de espantar as tristezas, a solidão e também de reavivar a nossa fé em nós mesmos, no outro, na humanidade, no mundo tal como ele deveria ser se todos amassem incondicionalmente.

O amor consegue, mesmo que temporariamente, preencher alguns vazios existenciais e nos lançar na suavidade do fluxo vital. Nos faz compreender o sentido do perdão e a importância da parceria para o nosso processo de evolução. Muda a perspectiva sobre a vida como um todo e nos estimula a sermos pessoas mais íntegras e inteiras, hábeis em percorrer os caminhos que um dia desejamos.

É uma essência transformadora de sonhos em realidade, de afeto em carinho físico, de caridade em solidariedade, de vontade em bem-querência eterna. Mesmo sem muita certeza sobre o que vai surgir nas curvas do rio, ele está lá, nos meandros, pronto para nos lembrar da condição primeira que é a entrega sem medo!

Se nos sentimos surpreendidos pelo sopro de vida que o amor infla em nossa rotina é porque, provavelmente, estávamos acomodados demais com a sua ausência, deixando passar despercebido o que tem de mais fundamental na nossa experiência humana: a felicidade.

Experimentar o amor em todas as suas formas é, talvez, a lição mais edificante do processo de evolução espiritual e ela está à disposição de todos nós, em qualquer espaço e tempo. Mas nos dispormos a assimilar esse aprendizado com serenidade é um exercício que demanda iluminarmos os cantos sombrios onde guardamos as mágoas, os desafetos, o orgulho.

Certamente, podemos nos aventurar nos atalhos do pensamento, refletindo exaustivamente sobre tudo, mas é somente quando limpamos as energias mais densas do coração que conseguimos desfrutar, efetivamente, da alegria de reencontrar o amor.

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Quando o mundo desmorona

Foto: Gmb Akash

Foto: Gmb Akash

A vida da gente nos prega cada peça! Somos, constantemente, capturados por histórias inusitadas, surpreendentes e impactantes. Nem todas elas positivas. Há momentos em que o enredo é dramático, chegando à beira do caos sem fim.

Em especial, quando passamos um longo período da vida ocupados com a construção de um mundo perfeito, alicerçado em crenças socialmente estipuladas para garantir a boa convivência nesse ambiente imaculado em que nos colocamos ilusoriamente, o confronto com algumas verdades contrárias pode ser extremamente doloroso e devastador.

A crise se instala, o drama vira uma grande melancolia e a vontade de jogar tudo para o alto e sumir domina, quase que por completo, nosso bom senso, instalando o desespero, a angústia e a impotência generalizada. O que acreditávamos ser válido e legítimo passa a ser questionado. A dúvida sobre cada pensamento e cada experiência vivida aguça nossa paranoia. Desconfiamos de tudo: do que foi, do que não foi e, inclusive, do que deixou de ser. O que era claro fica turvo, o que era correto vira errado, numa convulsão de sentimentos e confusão de ideias.

Fica difícil recuperar o fôlego. O ar comprime até mesmo o fio de cabelo e somos subjugados pelo impulso de arrancar todos eles da cabeça, num ato de autoflagelo, como se fossemos arrebatar o sofrimento dentro de nós. O mundo perfeito desmorona sobre os ombros, uma fenda se abre aos nossos pés e aí…

E aí é hora de se segurar, de sacodir a poeira, de se agarrar à luz, por mínima que se mostre aos nossos olhos. Hora propícia para fazer a limpeza dos arquivos e jogar fora tudo que não serve mais. Hora de esvaziar os compartimentos do orgulho, da arrogância do saber, da ilusão sobre a própria imagem. Hora de tirar a máscara (sim, todos nós temos uma e a usamos em muitos momentos da vida!), olhar o mundo real e construir uma nova realidade. Hora do despertar!

Se ainda acreditamos que viemos para esse mundo para sofrer, também é hora de mudar radicalmente essa concepção. O objetivo da vida não é padecer. O sofrimento é apenas um meio, simples assim. É ele que nos leva à crise. A crise nos faz crescer e crescemos para sermos felizes.

É inconcebível que passemos por tantas situações difíceis para terminarmos nossos dias ancorados na tristeza, na culpa, na revolta. Isso, sim, é uma grande injustiça: sermos contemplados com tantas provações e não aproveitarmos as lições de forma positiva. Como diz o ditado, “nadamos, nadamos e morremos na praia”. Não, isso não!

O mínimo que devemos fazer nesse mundo é sermos felizes. Individualmente felizes significa gerar uma onda de positividade sem precedentes, o que poderá transformar, inclusive, a vibração do planeta. Se não conseguirmos colaborar diretamente com a felicidade daqueles que estão ao nosso redor, por uma razão ou outra, podemos sempre fazer a nossa parte, honrando a oportunidade de vida que recebemos a cada despertar (do dia e como consequência de alguma crise) para sermos plenos na alegria.

Quando o mundo desmorona sobre nós, é porque nossas bases não eram sólidas o suficiente para sustentá-lo. E se ele desmoronou é porque ganhamos uma nova chance para reconstruí-lo. Mesmo que tenhamos poucas horas para nos beneficiar do aprendizado encontrado sobre seus escombros, já terá sido válido viver o caos.

Muita amorosidade, muita paz, fé e disposição para ascendermos à luz!

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Sobre o direito de contar a própria história

Foto: Edward Echwalu, do perfil do Every Day Africa

Foto: Edward Echwalu, do perfil do Every Day Africa

Recentemente, temos nos deparado com inúmeras histórias sobre diferentes fatos da vida diária que, por força cultural ou imposição social, não tínhamos o hábito de contar. Perpetuando o silêncio dos inocentes, das vítimas de violência e daqueles que muitas vezes sofrem agressões e insultos morais, consagramos um modo de viver em sociedade que inverte completamente os papéis: o agressor, independente do que tenha feito, permanece impune, protegido e salvaguardado.

Enquanto isso, voltamos nossos olhares para as vítimas, acusando-as de estarem no lugar errado e na hora incerta, fazendo o improvável, como se estivessem chamando para si o infortúnio merecido. Julgamos e condenamos, não o algoz, mas a sua presa. Acobertamos comportamentos imorais, em nome de uma moral social que se baseia na hierarquia de poder dos brancos sobre as outras cores de pele, dos ricos sobre os pobres, dos homens sobre as mulheres, dos adultos sobre as crianças, dos doutores sobre os operários, dos heterossexuais sobre os homo-bi-trans e assim por diante.

Além do insulto, da surra, do estupro, a vítima ainda sofre mais uma violência: a censura. Vê o direito de falar sobre sua história cerceado, constrangido, totalmente desqualificado. Estratégia bem elaborada para garantir o bom funcionamento do cotidiano e incutir na pessoa a dúvida, o sentimento de culpa e inadequação pela experiência vivida. Até quando vamos sustentar esta prática?

Basta! Violência, em todas as suas formas, é para ser denunciada, assim como a corrupção e outras tantas transgressões contra a igualdade de direitos e a defesa do bem estar pleno dos seres que vivem nesse planeta.

Ocultar, omitir, desviar o assunto e manipular fatos não podem fazer parte do nosso código cultural. Temos que nos sentir livres para vir a público com as nossas experiências e co-responsabilizar a sociedade por aquilo que devemos mudar. Somos todos protagonistas das histórias que vivemos e igualmente comprometidos com o desenrolar das mesmas.

Não precisamos de autorização para falar sobre o que vivemos. Se deixamos de delatar a injustiça e a imoralidade por medo, constrangimento ou pela descrença de que possamos alterar esse cenário, estamos apenas alimentando esse ciclo perverso que liquida nossas chances de construir um mundo fraterno.

Mas, sim, é preciso coragem para revelar nosso próprio sofrimento e nessa arena o combate é interno. Portanto, parabéns àquel@s que superam esse desafio e vencem a correnteza, se fazendo de porta-voz para tant@s outr@s que ainda permanecem nos bastidores.

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Esquerda-direita… direita-esquerda

Foto: Andrew Esiebo, no perfil A Sud del Mondo.

Foto: Andrew Esiebo, no perfil A Sud del Mondo.

A preferência é pessoal, mas o destino coletivo. A ação é individual, mas as consequências envolvem a sociedade. A decisão varia de acordo com cada cidadão, mas a regra é para todos. Encontrar o ponto comum é um exercício complexo, demanda justiça, requer bom senso e, ainda assim, depende de fatores tais como o momento em que estamos vivendo, o lugar onde as coisas acontecem, os nossos hábitos culturais e também a maneira como fomos educados para pensar e agir.

Nesse cenário, torna-se um desafio falar sobre política, opção religiosa, questões relacionadas ao gênero e à sexualidade, preferência artística (em especial no que se refere à música, literatura e cinema), sem contar os temas mais sensíveis como aborto, legalização das drogas, discriminação social e étnica.

Cada pessoa tem uma opinião, enxerga o assunto a partir de uma perspectiva específica e, via de regra, advoga em causa própria. Se antigamente dizia-se que “de médico e de louco, todo mundo tem um pouco”, atualmente podemos estender a máxima para outras categorias, incluindo: dono da verdade, conhecedor da causa, defensor da lei, profeta, crítico da sociedade e, por que não dizer, blogueiro.

Todos nós temos um pouco disso tudo. Alguns mais para a margem esquerda, enquanto outros navegam à margem direita e uns tentam, ilusoriamente, seguir o rio pela correnteza, seja lá de onde derive. Cada indivíduo tem uma posição, defende suas crenças e procura sensibilizar seu entorno para “despertar a consciência alheia”. A dinâmica de funcionamento é semelhante, mas, claro, de acordo com a sua moral pessoal!

Pelo que fazem constar nas redes sociais, os da margem esquerda sabem muito bem o projeto de sociedade que querem ver implantado. Os da margem direita também e o mesmo acontece com aqueles que optam por ficar em cima do muro, aproveitando, oportunamente, um cadinho de lá e de cá. Em todos os casos, há tanto saber quanto ignorância, tanto lógica quanto irracionalidade, tanto amor quanto ódio, tanto verdade quanto relatividade. Todos acertam e todos erram.

Fácil mesmo é avançarmos o sinal da individualidade, sugerindo que, por vivermos em sociedade, temos todos que ser orquestrados por uma única margem regente. E a melhor é aquela defendida por quem está levantando a bandeira, seja ela qual for. Na prática, ficamos de mãos atadas aos pés, perdendo a direção e o sentido da coletividade, sem a certeza do que seria melhor ou pior, simplesmente porque não existe uma única verdade social e moral que contemple todos os seres vivos desse planeta.

A sensação mais comum é a de nos encontramos num beco sem saída, num labirinto hermeticamente fechado em que, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Por isso, é compreensível a ideia de que somente o apocalipse é capaz de transformar o mundo. Por outro lado, a certeza de que a mudança externa deve começar dentro de nós torna esta hipótese muito incipiente. O apocalipse precisa ocorrer na alma humana, independente da margem em que nos encontramos.

No fundo, o que importa agora é tomarmos atitudes individuais. Talvez seja tarde demais para ações coletivas, pois parece que atingimos o ponto em que, realmente, a soma das pequenas mudanças do nosso próprio modo de agir que totalizam grandes transformações.

É urgente que façamos a nossa parte. Trata-se apenas de sermos um rio que segue seu curso natural. O fato de as águas estarem distribuídas à esquerda ou à direita, não vai interferir no processo. Afinal, não irão todas desaguar no mesmo oceano?

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