Privilégio em primeira pessoa

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Venho participando de um grupo de estudos sobre pensadoras latino-americanas e as reflexões geradas pelas leituras e debates neste espaço caíram como uma bomba sobre o meu mundo encapsulado. A redoma de vidro trincou e nada mais ficou no mesmo lugar desde o primeiro texto discutido. Ainda que eu me considerasse uma cidadã consciente, crítica, responsável e atenta ao modus operandi da sociedade, fui tomada por uma avalanche de constatações que tiraram a pretensa paz de espírito e sacudiram minha alma revolucionária. Então, fiquei pensando no tanto e em como é importante abandonarmos nossa zona confortável de privilégios para assumirmos, em primeira pessoa, o compromisso de transformar o mundo ao nosso redor em um lugar de bem estar para além do nosso umbigo.

Também fiquei refletindo sobre o quanto esse tipo de colocação se tornou um clichê e permeia certos grupos de pessoas que, assim como eu, acreditam que percebem as desigualdades sociais, a disputa de poder entre grupos de interesse e as injustiças praticadas nas diferentes instâncias da sociedade. Repetimos, frequentemente, que é preciso rompermos a nossa bolha e agirmos coletivamente, mas nossas palavras, muitas das vezes, estão calcificadas e não provocam movimento nenhum em nós mesmos. Não saímos do lugar (de privilégio). Em outros momentos, jogamos esse tipo de pensamento ao vento de forma aleatória, na tentativa de reproduzi-lo em larga escala, sem agirmos concretamente. Queremos que os ventos gritem nos ouvidos dos outros enquanto nós mesmos mantemos nossa escuta centrada apenas naquilo que nos interessa alcançar.

Alguns de nós não fazem a mínima ideia da realidade em que vivemos, embora, assim como eu, se consideram conhecedores ou conhecedoras dos problemas que arrastam o mundo para o caos. Queremos denunciar o flagelo humano, mas sequer reconhecemos o nosso lugar de fala e perdemos a noção tangível da distância que nos separa dos perrengues dos outros. Assim como eu, são pessoas que pensam ter clareza do seu papel e até procuram desempenhá-lo de maneira potencializada para impactar seu entorno, mas, ainda assim, ignoram suas concepções eurocentradas, baseadas na supremacia branca.

E se até aqui o cenário sugerido parece irreal ou simplesmente descontextualizado, façamos o esforço da objetividade: nós ocupamos, sim, um lugar de privilégio, sem nos darmos conta de que ele foi construído às custas do apagamento de outros lugares e, por mais que acreditemos ter alguma consciência disso, nem sempre nos dispomos a abrir mão dos nossos benefícios para operar a renovação que o mundo demanda. Des-cobrirmos o véu do idealismo que vestimos ao olharmos as coisas que acontecem embaixo do nosso nariz pode ser um choque e tanto porque nunca nos imaginamos como opressores. Na maior parte do tempo, nos identificamos com o lugar do oprimido. Somos ingênuos ou talvez levados a acreditar realmente na imparcialidade dos nossos atos (falhos).

Há quem possa argumentar que a nossa postura diante dos fatos decorre da educação tendenciosa que recebemos desde sempre. É impossível discordar disso, reconheço. Aprendemos como as coisas são e funcionam pelos olhos de outras pessoas que também aprenderam com outras pessoas que… sabe-se lá até onde remonta essa cadeia de copia-e-cola, não é mesmo?! Naturalmente, vamos perpetuando os olhares, mesmo quando eles são filtrados por interesses particulares e estão infiltrados por valores contrários à garantia dos direitos universais. A força das crenças socialmente construídas é efetiva e nos submete aos paradigmas, sem muito ou nenhum questionamento. É no andar dessa carruagem que organizamos nossas instituições (escola, família, Estado etc.), estabelecemos normas e leis, ditamos padrões estéticos e culturais e por aí vai.  Dessa maneira, estruturamos e legitimamos o preconceito, o racismo, a desigualdade e por aí segue.

Ocorre que mudar a lente dos nossos óculos, mesmo que seja de forma gradativa, é necessário e possível, desde que estejamos dispostos a olhar nossos próprios preconceitos, medindo a força de opressão que praticamos nas relações que mantemos. Usamos o lugar de privilégio para consolidar nosso status social de forma tão sutil que, muitas vezes, passa despercebido por nós. São micro ações (uma piada, um jeito de falar, um termo, um rótulo, uma opinião ou forma de pensar etc.), mas a falta de compreensão sobre a inflexibilidade que isso gera em nós reforça nossas atitudes e limita nosso repertório comportamental diariamente. A dinâmica social fica, assim, comprometida como um todo.

Alguém me disse que o mundo tem mazelas demais para nos apegarmos aos pequenos detalhes daquilo que a sociedade nos impõe porque “sempre foi assim e é difícil mudar alguma coisa”. Isso é inaceitável! Basta um rápido resgate histórico para entendermos como as circunstâncias são minuciosamente delineadas para impedir a mobilidade social. E somos nós mesmos que fazemos isso, mesmo usando como desculpa nossa herança cultural e social de maneira fatalista. Somos nós que restringimos as expectativas sobre as pessoas e as oportunidades concedidas a elas pela estrutura que criamos.

Assim como eu, tenho a certeza de que muitos outros pais e educadores desejam que as próximas gerações cresçam em um mundo onde os privilégios sejam compartilhados igualmente e de forma equânime. Precisamos de uma sociedade em que possamos admitir, em primeira pessoa, nossas falhas históricas e repará-las também em primeira pessoa. Por isso, ao me dar conta do privilégio que é poder traçar essas linhas e acessar pessoas que, igualmente, estão dispostas a fazer a autocrítica e a criar caminhos para rompermos as nossas bolhas, me sinto animada a fazer o convite: bora expandir nossas ações também para a primeira pessoa do plural!

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Do vinil ao streaming

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Alguns dias atrás, li um pequeno anúncio questionando a lógica de uma plataforma que traduzia algumas profissões como sendo supostamente masculinas ou femininas: o médico, em vez de a médica; a enfermeira, em vez de o enfermeiro. Há algum tempo já vinha reclamando sobre isso com várias pessoas, mas sempre ouvia a mesma justificativa: é o programa que desconhece o pronome indefinido. Às vezes, fico me perguntando se o programa não é apenas o espelho do humano que o desenvolveu e, portanto, somos nós que não reconhecemos as múltiplas possibilidades do existir.

Convenhamos, o mundo se transforma apenas se modificarmos a nós mesmos. Podemos avançar tecnologicamente, passear no espaço, inventar o que for e, ainda assim, carregamos em nossa bagagem valores e ideias que moldam a forma como concebemos nosso universo simbólico e material. Assim, a tarefa simples de traduzir uma frase com a ajuda de um aplicativo pode revelar séculos de dominação do patriarcado sem nos darmos conta do que isso representa no dia a dia da sociedade. Os algoritmos estão aí para “nos colocar na linha”, mas há quem pense que fazer esse tipo de constatação é procurar chifre em cabeça de cavalo. Uma dessas pessoas me disse que o mundo já tem problemas demais para convertermos essa questão em um cavalo de batalha. Mas, no caso, tenho para mim que seria um cavalo cheio de chifres de verdade e não um unicórnio fantasmagórico.

O fato é que estamos tentando delinear novos contornos para as nossas sociedades e é fundamental nos atentarmos para todas as variáveis que perpetuam as relações de forças, buscando trazer reflexões sobre como elas reproduzem verdades que nos levam ao preconceito e estimulam a discriminação. Um aplicativo comum de tradução pode servir de meio para repensarmos nossas posturas e, na qualidade de pais e educadores, temos o compromisso de olhar isso sempre de perto. Como dizem os sábios: “de pequenino é que se torce o pepino”. Portanto, mãos à obra e atenção ao tipo de ferramenta que dispomos para apreendermos o mundo.

É quase assustador ler o relatório da PwC – uma rede internacional de consultoria e auditoria – afirmando que o consumo global de dados na internet aumentou mais de 30% em 2020, quando comparado ao ano anterior. Nessa estatística estão considerados todos os tipos de uso: educação, lazer, trabalho profissional, serviços em geral. É um aumento significativo e até podemos assumir que isto seja uma provável resposta ao contexto global em que estamos vivendo. Por outro lado, trata-se de uma tendência em crescimento permanente e de forma cada vez mais intensa e acelerada. Isto é inegável!

Se passamos lentamente do gramofone para as vitrolas, foi em muito menos tempo que começamos a rebobinar a fita cassete com a ajuda de uma caneta e mais rapidamente ainda entramos na era dos CDs. No piscar dos olhos, fomos introduzidos ao mundo dos streamings e, praticamente, nos mudamos para as nuvens. Hoje, esse espaço virtual tornou-se uma espécie de cofre seguro em que depositamos todas as informações valiosas que queremos proteger. Subimos o essencial para a nuvem, sempre confiando que, em algum lugar do planeta, um provedor potente vai tomar conta de tudo por nós.

Nossa dependência tecnológica vem se acentuando e parece não ter retorno. Dificilmente as pessoas voltarão a enviar cartas pelo correio, raras são aquelas que ainda usam máquinas de fotografia com filme de rolo, poucas mantêm aparelho de telefone fixo em casa, e por aí vai. Chega a ser impensável nos mantermos longe dos dispositivos que nos conectam em tempo real com quase absolutamente tudo e todos. Quer dizer, se estivermos inseridos na parcela privilegiada da população com fácil acesso à internet, o que torna tudo isso ainda mais complexo de ser repensado. Avançamos na modernidade e continuamos dinossauricamente reproduzindo as desigualdades sociais. As oportunidades de uso da tecnologia são restritas e economicamente seletivas.

Tentava amadurecer isso tudo na minha cabeça quando me deparei com uma situação muito peculiar, ao acompanhar um ecocardiograma. A médica em questão manejava o aparelho com tamanha agilidade que chegava a ser até engraçado. Eram muitos botões e inúmeros cliques com apenas uma das mãos, enquanto ela segurava sobre o tórax do paciente o que parecia ser um joystick. No final do exame, ousei perguntar se ela costumava jogar videogame e, rindo, foi logo respondendo: Sim, a vida inteira! E esse painel lembra aqueles videogames sofisticados, né?

Sim, totalmente, pensei eu, me lembrando imediatamente do relatório da PwC que apontava também que os games estão entre os dados cujo consumo cresce mais rápido. Não há área, do supérfluo ao indispensável, que tenha deixado de ser afetada direta ou indiretamente pela tecnologia. Mergulhamos de cabeça nesse universo, mas isto, por si só, não pressupõe um problema. A questão central aqui é o quanto nossos olhos estão vendados neste mergulho: se ignoramos as ideologias por trás dos programas e dos algoritmos, se menosprezamos sua capacidade de produzir desigualdades digitais, se a usamos como estratégia de dominação ou de alienação ou, ainda, de cooptação. São essas ameaças que precisam ser identificadas e combatidas.

Temos um compromisso intergeracional de tornar o mundo – concreto ou virtual – um espaço de bem viver. E, neste exercício, não basta sermos inclusivos, precisamos ter equidade. Não basta sermos sustentáveis, é necessário sermos justos. Não basta termos valores, é fundamental aplicá-los eticamente. Não basta dialogarmos, é imprescindível mantermos uma comunicação militante. Não basta expressarmos empatia, temos que partir do básico: engajamento coletivo e político.

Termos consciência das artimanhas ideológicas do mundo digital é apenas um passo. Coexistirmos na contemporaneidade depende tanto da nossa capacidade tecnológica quanto psicoafetiva para fazermos a transição entre os mundos e liderarmos a transformação social necessária em primeira pessoa. Portanto, não nos deixemos seduzir pelos encantos e facilidades que as inovações nos apresentam e, tampouco, nos iludir pelos algoritmos.

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Mulheres que Iluminam o Mundo – versão em português

A versão em português do livro Mulheres que Iluminam o mundo já está disponível no site para download gratuito:

https://mulheresqueiluminamomundo.wordpress.com/

Mas vocês também podem ler a versão flip (online) pelo link abaixo:

https://www.flipsnack.com/EurekaMiolomole/mulheres_port_27jul.html

Além de revelar o cotidiano das mulheres em diferentes culturas com textos informativos e poéticos, o livro está repleto de imagens belíssimas que mostram aspectos particulares em cada país (e são 17 países na África e Ásia!).

O livro foi organizado por mim, em parceria com a Andréa Bomilcar, do Instituto Rizoma, e uma Rede de pessoas maravilhosas (27 autoras e 30 pessoas no apoio logístico e técnico). Esta obra acabou de ser lançada pela Editora Eureka e já tem a versão em inglês disponível também, no mesmo site.

Boa  leitura!!

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Interessados… pero no mucho!

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A melhor situação possível é quando o universo oferece algo interessante, que seja também do interesse do interessado. Pode parecer um simples jogo de palavras, mas cada uma delas carrega um mundo complexo de possibilidades e, ao serem colocadas lado a lado, formam um grande desafio. Demasiado clichê? Não, mas bastante comum para quem trabalha com educação ou tem filhos. Atingir esta confluência no cotidiano significa vencer os mais diversos conflitos: alunos desmotivados com os estudos, educadores insatisfeitos com suas funções, filhos reclamando das decisões dos pais. A lista pode ser longa, mas nem precisamos nos estender muito para compreender o ponto central aqui.

No final do terceiro bimestre letivo, a mãe foi convocada pelo coordenador pedagógico do ensino médio para conversar sobre o comportamento do filho nas aulas de física e química. O aluno, tido como desinteressado, passava a maior parte do tempo lendo outros materiais. Ocorre que ele planejava prestar o vestibular no mês seguinte, para a área de ciências sociais e humanas, na melhor faculdade do Brasil que oferecia o curso do seu interesse, e aquelas matérias não estariam incluídas na prova. O jovem, então, aproveitava o tempo dessas aulas para estudar, silenciosamente, os conteúdos das outras áreas.

Para o coordenador, mesmo que o aluno já tivesse notas suficientes para ser aprovado no colégio, física e química eram interessantes para outros vestibulares. Dessa forma, o interessado estava sendo intimado a participar igualmente de todas as aulas, pois se não passasse naquela faculdade desejada, teria que prestar outras instituições com exames genéricos, incluindo tais matérias.

É certo que o aluno não estava inspirado a se colocar de frente e por inteiro nas aulas de física e química. Aquele conteúdo já havia sido vencido em dose suficiente para garantir sua aprovação no ensino médio e deixou de ser útil, simplesmente perdeu a relevância. Ao contrário do coordenador, o interessado tinha total confiança de que seria aprovado também na faculdade de seu interesse e estava decidido a estudar apenas aquilo que considerava interessante para garantir isso. Quanto conflito de interesses! O que a mãe poderia dizer ao coordenador nesta situação?

Mas o final dessa história é dispensável. O que vale aqui é pensarmos como determinamos o que deve ou não ser interessante em nosso sistema de educação, seja formal ou informal. Dizer que algo é interessante pressupõe uma série de elementos considerados dentro de uma lógica específica. Isto é, sugere que alguém está decidindo parcialmente o conteúdo a ser consumido como padrão generalizado. No caso, a escola seguia os parâmetros curriculares criados para que os alunos pudessem passar em qualquer vestibular. A base é a mesma para todos e não há espaço para acolher interesses particulares.

Do ponto de vista do sistema, é até compreensível esperarmos que os interessados assimilem, naturalizem e reproduzam o que decretamos como interessante. É realmente complicado atendermos as aspirações de diferentes pessoas no contexto coletivo. Acabamos nivelando as demandas ou, mais do que isso, doutrinamos os interesses para garantir melhor o funcionamento da engrenagem social. Então, é provável que uma mãe “conservadora” defendesse aquele coordenador e exigisse do filho igual atenção em todas as matérias, mesmo que isto custasse o interesse do jovem. Poucos métodos pedagógicos e um grupo muito reduzido de famílias valorizam, de fato, as peculiaridades no processo de aprendizagem.

Somos tão condicionados a seguir manuais, tanto na educação formal quanto na informal. Outro dia mesmo, conversava com uma mãezinha de primeira viagem preocupada com sua filha e que tentava comparar sua evolução com a descrição disponível nos livros de pediatria. Evidente que existe um desenho considerado “normal” na tabela do desenvolvimento, mas cada criança tem seu próprio ritmo, interesse e potencial. Não podemos impor que todos os alunos estudem física e química no mesmo nível, nem que todos os bebês sigam rigorosamente a curva de crescimento desejada pelos pediatras. Há que se garantir espaço para a expressão das características individuais e isto cabe a nós, pais e educadores.

Promover uma educação responsável, autônoma, inclusiva, solidária e democrática, colocando o interessado no lugar de protagonista do seu processo de tornar-se é tarefa primordial se quisermos realmente transformar nosso planeta em um lugar amoroso. Claro, ninguém dorme em um mundo de provações e acorda no paraíso. Essa transição é um trabalho diário, demanda paciência. E a paciência vem de mãos dadas com a persistência. Mas é preciso ter clareza e honestidade sobre os interesses que estão sendo colocados à frente desta caminhada antes de convidarmos o interessado para o nosso mundo de conveniências. Na verdade, nossa primeira tarefa como pais e educadores é tonar este mundo realmente mais interessante, capaz de promover experiências genuínas porque incentivamos nossas crianças a escolherem seus destinos com o coração e a percorrerem o caminho com afeto, sem nos preocuparmos com os manuais e as teorias formadoras de modelos a serem seguidos.

Não há formulas ideais para isso, mas na impossibilidade de sermos “a escola que sempre sonhamos, sem imaginarmos que pudesse existir”, como diria o nosso querido educador Rubem Alves, podemos criar outras pontes para facilitar a travessia dos nossos filhos. Podemos acompanhá-los atentamente enquanto desenham sua curva particular de crescimento e incentivá-los a encontrar seu próprio caminho. Podemos apoiá-los quando definirem seus sonhos como sendo interessantes, protegendo seus interesses e garantindo que outras matérias, para além da física e da química, possam “equipá-los para a vida”.

Interessar o interessado é um processo sutil de percepção da natureza da alma humana, que demanda desapego do preestabelecido para tocar na espontaneidade do outro e reconhecer seu verdadeiro potencial. E nós, pais e educadores, somos a aposta do universo nesse intenso processo de elevar o outro aos seus próprios olhos para que possam se ver refletidos e investirem na beleza do mundo ao seu redor.

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Mulheres que iluminam o mundo

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Texto originalmente publicado no livro Mulheres que Iluminam o Mundo. Acesse o site para baixar gratuitamente o livro.

Existem várias formas de ser mulher, delineadas no tempo e no espaço por uma série de elementos socialmente construídos como cultura, crenças religiosas, ideologias e estereótipos de gênero. Mergulhar nesse universo nos desafia a compreender que, embora geograficamente separadas, estamos muito mais próximas umas das outras do que imaginávamos, e cultivamos um ponto em comum: a luta histórica para fortalecer e desempenhar nosso papel transformador com autonomia e independência.

Somos bilhões de mulheres com referências únicas e nossas realidades expressam a singularidade do feminino marcada por diferentes níveis de liberdade e de opressão. Todas nós contribuímos, de alguma maneira, para o desenvolvimento das sociedades. Nem sempre reconhecidas e muitas vezes subjugadas, sustentamos importantes pilares e influenciamos a vida no cotidiano em que nos encontramos. Somos raras, mas comuns. Somos sensíveis e firmes. E estamos em todos os lugares.

Podemos nos definir pela suavidade da brisa na primavera e também pela força das tempestades de verão. Guardamos em nós todas as estações e carregamos na alma as contradições e os paradoxos de um mundo em transição. A busca pela igualdade e equidade é o alimento que nutre nossos passos e nos inspira a incessantes conquistas. Seguimos sempre em frente, a passos curtos em alguns momentos, tropeçando no preconceito e no estigma que tendem a nos desacreditar da nossa capacidade de ação e de superação. O empoderamento da mulher vem sendo tecido de maneira sólida e consistente pelas mais variadas redes espalhadas em todos os continentes.

Encontramos novos caminhos para insurgir e quando estes parecem se esgotar em função de forças contrárias, concebemos alternativas que nos permitem continuar avançando. Transcender as limitações que nos são impostas torna-se somente uma questão de tempo, e a história nos lembra vivamente do nosso potencial para sermos o que quisermos, onde quer que estejamos. Não importa o país, o continente, a sociedade, a cultura, nossas origens – essa é a trajetória das mulheres.

Mas precisamos reconhecer que, apesar da luta coletiva por direitos, nem todas somos ouvidas, mesmo atualmente. Muitas vozes são caladas por diferentes níveis e tipos de violência. Alguns deles, inclusive, sob a tutela da tradição cultural e do Estado. O relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em março de 2020 aponta que o preconceito em relação à mulher atinge aproximadamente 90% da população mundial – entre homens e mulheres –, e que 28% da amostra do mesmo estudo realizado em 75 países e territórios acredita ser justificável um homem bater em sua companheira. Parte do nosso mundo continua educando mulheres sob uma ótica de gênero distorcida, perpetuando as disparidades e promovendo constante impacto em sua identidade.

De fato, existem várias formas de ser mulher e nenhuma delas é desprovida de algum tipo de luta. É assim que entendemos o universo feminino. Há movimentos transformadores em todos os países e eles ocorrem por diferentes meios. O meu foi organizar, junto com uma Rede de pessoas maravilhosas (27 autoras e 30 pessoas no apoio logístico e técnico), um livro digital que retrata a vida das mulheres em 17 países da África e da Ásia. Esta obra acabou de ser lançada pela Editora Eureka, em parceria com o Instituto Rizoma, e encontra-se disponível para download gratuito (acesse o site aqui).

Ela celebra as conquistas já alcançadas por tantas mulheres, em diferentes culturas, a partir da perspectiva de algumas delas. O livro nos mostra que nossas lutas deixaram de ser anônimas e passaram a construir novos paradigmas, alicerçando grupos e fortalecendo ações que visam à garantia dos nossos direitos. Ao visitarmos cada país por meio das imagens e textos deste livro, entendemos que ainda há um longo percurso pela frente até que possamos consolidar nossas conquistas, mas também fica evidente que as mulheres sempre iluminaram o mundo e continuarão ascendendo em suas culturas.

Deixo o convite para vocês acessarem o livro, unindo forças, apoiando e valorizando os passos das mulheres, apreciando e divulgando este lindo trabalho.

Gratidão!

Texto originalmente publicado no livro Mulheres que Iluminam o Mundo.

Acesse o site para baixar gratuitamente o livro: https://mulheresqueiluminamomundo.wordpress.com/

ou use o link de acesso à versão flip para leitura online exclusivamente: https://www.flipsnack.com/EurekaMiolomole/livro_wtetw_ingles.html

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Eu continuo com fome

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– Por favor, vocês têm algum doce sem açúcar? – perguntou a senhora para a moça da lanchonete, que foi logo acenando um enfático “não” com a cabeça.

– Bem, e aquelas são tortas salgadas? – continuou a freguesa.

– Sim, todas elas. Qual a senhora prefere? – respondeu aliviada a atendente.

– Tem alguma delas sem glúten e sem lactose? – a freguesa insistiu esperançosa.

– Sem o quê? Senhora, aqui é uma lanchonete normal. Não vendemos dessas coisas sem nada.

Frustrada, a senhora foi embora com as mãos vazias e a cabeça cozinhando. Lembrou-se da época em que os antigos comiam uma variedade de coisas e não se ouvia falar em alergias e intolerância a quase tudo. Analisou a dificuldade para conciliar a vida saudável com a correria urbana, mas continuava ouvindo o dia complicado no trabalho ecoar pela boca do estômago que parecia vazio: acho que estou com fome!

Esta cena se repete, cada vez mais, na sociedade moderna e ilustra uma série de questões sobre a nossa relação com o comer e com a comida. Não sou especialista na área, mas me solidarizo com a personagem, pois me lembro bem do constrangimento ao participar de um workshop e ser recepcionada com a pergunta: Ah! Você que é a intolerante?

As restrições e disfunções alimentares vêm sendo relatadas com bastante frequência e muitas delas, eu imagino, podem até ser explicadas pelo metabolismo de cada pessoa. Porém, existem aspectos emocionais associados aos nossos hábitos que merecem atenção. Tenho ouvido muitas queixas e piadas sobre estarmos engordando durante o isolamento social e entendo atribuirmos este fato às condições totalmente atípicas em que nos encontramos. Nem precisa explicação. Por outro lado, não dá para colocar tudo na conta do corona.

O fato é que passar por fases de “descontrole alimentar” significa uma “patrulha” prévia, me explicou uma nutricionista que admiro muito e que defende a alimentação consciente e intuitiva. Afinal, é natural ganharmos ou perdermos peso ao longo da vida e, de acordo com ela, a balança deveria ter um espectro de possibilidades e não um peso único. Isto, sim, seria uma tecnologia inteligente a favor de nos dar uma margem para acolhermos essa variação natural do peso.

É importante ficarmos de olho na saúde, sem nos preocuparmos tanto com a estética. Talvez esta última ainda nos incomode mais por causa dos padrões que a sociedade impõe. Entretanto, já começamos a valorizar menos a aparência física e a transformar as convenções sobre beleza. Está mais tranquilo acolhermos a diversidade de tamanhos e formas dos nossos corpos, graças aos movimentos que combatem a magreza extrema e incentivam fazermos as pazes com o nosso próprio biotipo.

Este assunto é complexo e vai além da categoria de dieta que adotamos no dia a dia. A briga com a balança, a dificuldade de fazer nossos filhos se alimentarem “corretamente” e até mesmo as nossas intolerâncias consomem a nossa atenção. De alguma maneira, escondemos que boa parte dos nossos desacordos com o comer tem um fundo emocional.

Nem tão secretamente assim, eu diria. É possível que este desalinho seja um velho amigo que carregamos nas costas desde que nascemos e ele está sempre se manifestando por apelidos: buraco no estômago, desejo de comer tal coisa, fome do cão. Se analisássemos mais de perto esses codinomes, provavelmente descobriríamos que o vazio e a vontade não estão, necessariamente, relacionados à comida em si, mas aos sentimentos que nos mobilizam internamente. E, neste caso, não tem belisco que sacie nossa fome.

Quando nascemos, uma das primeiras coisas que aprendemos é colocar algo pela boca para mitigar o desconforto. O bebê chora e ganha o peito ou a mamadeira que, geralmente, vem acompanhado do colo afetuoso. A criança chora e ganha um biscoito (mas pode ser uma bolacha, se ela for paulista!) para se distrair. Na adolescência continuamos barganhando outros tipos de recompensas e, assim, vamos estabelecendo um padrão claro: comemos nossas emoções, disfarçadas de guloseimas, sorvetes e outras comidinhas que nos apetecem.

O espaço do diálogo, aquele em que alternamos a fala e a escuta ativa, é preenchido pela pressa, pela comodidade do que já está pronto para consumo imediato, sem muito esforço para digerir. A expressão das emoções é praticamente codificada como “fome” e nos sobrealimentamos com a comida por estar mais à mão do que um abraço. Com dificuldades para processar os sentimentos, nos empanturramos com as experiências gastronômicas que trazem a sensação de plenitude, pelo menos temporária, pois não há receita milagrosa para esses casos.

Comida é para ser comida de verdade e equilibrar as porções, respeitando os limites e necessidades do corpo, é um aprendizado que fica menos difícil se nos dedicarmos, primeiro, a descobrir qual é a nossa fome de fato.  Sempre é bom perguntar: sua fome vem de onde? Da cabeça, do coração, da barriga? Podemos até incentivar as crianças a apontarem com a mão o lugar onde sentem fome. Este é o tipo de ensinamento com alto valor nutritivo para servirmos aos nossos filhos desde sempre. Pais e educadores podem se lançar nessa tarefa de conversar sobre como lidamos com os nossos sentimentos, motivando as crianças e adolescentes a saborearem suas emoções sem aditivos externos.

Refeições cuja sobremesa é uma dose de consciência sobre si mesmo com umas boas colheradas de autoestima são necessárias para nos mantermos emocionalmente saudáveis. Afinal, se não usarmos o afeto para alimentarmos as nossas relações com o mundo, continuaremos sempre com fome e um buraco cósmico enorme na alma.

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Um passinho para trás, por favor!

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Sempre ouvia dizer que devemos manter um olho no peixe e outro no gato e ficava imaginando o felino rondando um aquário, à espreita, pronto para a pescaria naquele exato momento em que o cuidador se distraísse. Cena nem um pouco engraçada e, na maior parte das vezes, associada à desconfiança – do gato, nesse caso. Algo um tanto paradoxal como “confie desconfiando”. Um certo dia, ouvi também a parábola dos camelos e, então, colei os dois ensinamentos com uma mesma conclusão: é preciso ter fé, mas nunca deixar de fazer a nossa parte.

Para quem ainda não conhece a história dos peregrinos que atravessavam o deserto, vou direto ao ponto em que eles montam acampamento para passar a noite e um deles fica encarregado de vigiar os bichos enquanto o outro dorme. Ocorre que o cansaço foi implacável, mas antes de fechar os olhos o sentinela orou pedindo pela proteção dos camelos. Ao acordarem pela manhã, os animais tinham fugido e sendo criticado pelo companheiro, o guardião se justificou dizendo que havia rezado muito para que aquilo não acontecesse. Porém, foi imediatamente advertido: você pode rezar a vontade, só não esquece de amarrar bem os camelos!

As duas metáforas nos falam sobre a necessidade de agirmos preventivamente, de sermos cuidadosos e nos mantermos em estado de vigília. Por outro lado, isto não significa perdermos a fé nos outros ou nas situações. Tampouco é um convite para entrarmos na paranoia de querer controlar absolutamente tudo que se passa ao nosso redor, inclusive a vida alheia. Proteger o peixe ou amarrar os camelos faz parte da brincadeira de lidar com as incertezas da vida. Podemos rezar e vigiar o gato, sem desqualificar nada, nem ninguém.

Se pensarmos nos desafios que enfrentamos atualmente, veremos que agir com cautela tornou-se praticamente o sinônimo de sobrevivência. A todo momento estamos sendo lembrados das medidas protetivas – uso de máscara, higiene das mãos, distanciamento físico – e graças a elas conseguimos evitar muito mais perdas. Mas isto, infelizmente, ainda não foi totalmente assimilado por uma boa parte da população e não adianta pudor nesse caso. Temos que ousar em voz alta: um passinho para trás, por favor! É preciso manter distância física e pronto.

Assim como esse tipo de cuidado tornou-se uma rotina no mundo lá fora, também a realidade de dentro de casa mudou e nos impulsiona a rever uma série de valores e atitudes. Talvez estivéssemos despreparados para a intensidade da vida intrafamiliar e isso vem gerando alguns desequilíbrios. Em muitos lares, a fragilidade emocional tem ficado mais evidente. Aqui também vale lembrar daquele velho ditado: “não cabe uma pedra onde já não existia um buraco”. Ou seja, relações que antes estavam no fio da navalha representam o peixe tenso dentro do aquário, sob a ameaça iminente do gato. É o caso do sentinela que ignorou o risco por causa do seu cansaço, sendo displicente com os camelos.

A verdade é que pais e filhos passaram a compartilhar o espaço da casa por tempo superior ao habitual e de maneira completamente atípica. As dificuldades do trabalho vieram parar na mesa de jantar, competindo com as demandas escolares e, o que é mais grave, as relações interpessoais com “as pessoas de fora” – que poderiam servir como forma de despressurização e enriquecimento pessoal – ficaram restritas às redes sociais. Entretanto, no mundo virtual, o processo de socialização pode não ser tão efetivo assim, impactando claramente o nosso desenvolvimento emocional. Estamos vivendo um momento delicado que depende consideravelmente da nossa sensibilidade para percebermos as nuances das nossas relações de afeto e como as pessoas com quem convivemos estão se sentindo. Na prática, um olho no peixe outro no gato significa, por exemplo, estarmos mais atentos à expressão e reação das crianças – e dos adultos – diante dos eventos cotidianos e, ao mesmo tempo, concedermos a elas o espaço necessário para fortalecerem sua autonomia.

Com o nosso repertório limitado, o estresse exagerado, a ansiedade pela falta de perspectivas melhores, a angústia causada pela tristeza e pelo desânimo, a cobrança por resultados eficazes, acabamos soterrando ainda mais a pedra dentro buraco enorme em que já nos encontrávamos – sem que tivéssemos muita consciência da sua existência – e nos desvitalizamos quase que por completo. Sabemos do cansaço e do possível ataque do gato, mas nos assegurarmos de que as dificuldades fazem parte da caminhada nem sempre nos ajuda a sair da situação indesejada. É preciso mais do que isso. De novo: temos que criar estratégias para amarrarmos os camelos e protegermos o peixe.

Não existe uma formula mágica para fazermos isto, mas um bom começo seria repactuar nossos acordos e hábitos familiares, em um esforço genuíno e coletivo para enfrentarmos o deserto que atravessamos atualmente. O diálogo sincero e realista é um dos melhores ingredientes. Não precisamos sobrevoar os acontecimentos de helicóptero o tempo inteiro, mas mantermos a sintonia com as pessoas, prestando atenção nelas, é bastante recomendável.

Pois é alarmante o crescente número de pessoas relatando seu sofrimento psíquico. Isto virou lugar comum, embora muitos ainda não tenham se dado conta de estarem patinando em areia movediça. De certa forma, criamos uma energia densa no ar e todos nós acabamos afetados por uma corrente de negatividade. Tudo parece mais complicado, sem solução. E, desacreditados, nossa tendência é naturalizarmos as situações de mal-estar a ponto de sequer reconhecermos o olhar triste de um filho ou de um aluno, nem sentirmos falta do sorriso sincero no cônjuge ou no colega de trabalho.

Portanto, vamos ficar de olho nessas pessoas, em seus sinais e, principalmente, nas nossas próprias emoções. Temos que agir ao primeiro sinal de que as coisas não estão bem, pois entrar no vácuo da rotina pode comprometer nossa saúde psíquica. Ignorar nossa vulnerabilidade é arriscado demais. É importante termos em mente que o distanciamento necessário no momento é o físico apenas. Então, nada de sacrificar o gato e condenar o vigilante, pois é hora de cuidarmos da qualidade do afeto e nos fortalecermos para mais um período de desafios. Trata-se de uma situação generalizada e está dada a oportunidade para recuarmos um passinho, a fim de enxergarmos melhor o contexto como um todo porque agir isoladamente apenas boicota a nossa força de superação.

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O instante-decisivo e o instante-já

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No mundo da fotografia, o instante-decisivo é aquele exato momento em que conseguimos registrar um acontecimento inusitado. É a congruência harmônica de vários elementos de um cenário que retratam a sua essência. Capturar a coincidência desses componentes é um feito extraordinário para quem está atrás da lente e equivale ao bilhete de loteria premiado.

Mas Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês reconhecido internacionalmente, defendia que não há nada no mundo que não seja um momento decisivo. De acordo com ele, devemos estar sempre atentos e preparados para imortalizar a raridade do instante. Para isso, podemos construir a cena perfeita em nossa imaginação e, antecipadamente, nos posicionarmos no lugar certo para que ela realmente aconteça. Então…. clique… disparamos o botão da máquina com a certeza de que aquele segundinho mágico jamais se repetirá.

O mais interessante é que, de fato e do ponto de vista neurológico, o cérebro é incapaz de perceber uma situação da mesma forma duas vezes. Isto me lembra também do que afirmava o filósofo Heráclito sobre tomar banho no mesmo rio: as águas passam e o rio se renova a cada instante. Só não entendo por que razão a nossa mente nos trai com frequência, fazendo com que permaneçamos agarrados ao que passou ou ansiosos pelo porvir. Remoemos o passado e fantasiamos o futuro. Quase nunca nos deleitamos no presente.

Com outras palavras e uma poética que lhe é peculiar, Clarice Lispector transcende esse dilema e nos convoca ao “instante-já”. Alinhar os sentidos e os sentimentos para despertarmos a alma e reconhecermos a essência do agoraqui é o que nos permite acolher o instantâneo, aquela ínfima fração do tempo que revela, nela mesma, a sua grandeza. É no instante-já que nos realizamos e somente nele podemos verdadeiramente Ser. É aquele piscar de olhos em que nos flagramos acontecendo na experiência materializada do real imediato.

Todos esses seres “inspiramores” reforçam, cada um da sua maneira, que a nossa única possibilidade de existir é o Ser conjugado no tempo presente. “Foi” e “será” não nos definem, embora representem alguns caminhos percorridos e outros que ainda poderemos trilhar. Mas é no instante-já que podemos clicar o instante-decisivo, no melhor ângulo de nós mesmos, aquele em que o “é” está totalmente integrado no tempo-espaço da nossa existência.

Parece coisa do outro mundo e até pode ser… do mundo interior! Saborear o instante-já é o mesmo que lavar a louça quando estamos lavando a louça; é como sentir cada milímetro dos pés tocando o solo quando estamos caminhando e também corresponde a sentirmos o afeto do abraço quando estamos abraçando. Implica na atenção plena, como proposto na meditação Zen. Trocando em miúdos, significa captar as nuances da vida enquanto ela acontece diante dos nossos olhos e vibra em nosso mundo sutil.

No caso da fotografia, as câmeras nos permitem definir previamente certas configurações que facilitam esse trabalho. Por outro lado, é necessário conhecer bem o equipamento e também manter nossa percepção aguçada já que a originalidade do momento é finita. Mas o que isto representa na vida cotidiana, nesse exato cenário em que nos encontramos? O básico: nos conhecermos melhor, criarmos as nossas estratégias de enfrentamento das dificuldades, quaisquer que sejam elas, e ampliarmos a nossa sensibilidade e potencial de empatia.

Reconhecidamente, estamos vivendo o instante-já mais longo e dramático de nossa história e é natural que nos sintamos desanimados diante de um palco desnudado quase que por completo. Assistimos, para quem tem olhos de enxergar e coração de sentir, os bastidores do desmoronamento de uma sociedade que foi construída sob moinhos de vento. Agora tudo parece colapsar. Enquanto colocamos máscaras concretas para nos protegermos mutuamente, as máscaras sociais estão rolando terra abaixo e revelando uma faceta antes obscura. Quer dizer, muitas pessoas já vislumbravam a grande crise se instalou no quintal da nossa casa, mas ela vem sendo escancarada de uma forma mais intensa e até cruel. Há muitos de nós sofrendo e sofrendo muito.

Esses dias, refletindo sobre o posicionamento de algumas pessoas frente ao mundo atual, me lembrei da separação do joio e do trigo e pensei: é isso: o instante-decisivo está configurado e agora nos cabe reconhecer nele o instante-já para acionarmos o botão da humanidade dentro de nós. É hora de mudarmos o registro dessa travessia dolorosa. Talvez isto tenha que se dar por um exercício mais intuitivo mesmo, sem fórmula milagrosa ou receita mágica. Diante do imprevisto, temos que improvisar, mas dentro da especificidade do instante-já de cada pessoa, precisamos nos esforçar para compor juntos o viver e estar no mundo.

Mesmo que a nossa bússola esteja um tanto desregulada, há caminhos possíveis para des-cobrirmos em conjunto. Há esperança para o caos e ela reside na conjugação lúcida do verbo lutar coletivamente. Formamos um tecido único, capaz de reunir as condições ideais ou favoráveis para eternizarmos esse instante-decisivo de forma positiva e de maneira que, em vez de apenas reagirmos ou resistirmos, possamos construir um novo projeto de sociedade.

A vida acontece em episódios e esta temporada nos ensinou que atualizar o sofrimento diariamente nos levará a lugar nenhum. Estamos na quarta revolução industrial, usufruindo da tecnologia para nos conectarmos com uma diversidade de  pessoas, rompendo as fronteiras geográficas e culturais, criando recursos nunca antes imaginados, abrindo novos caminhos. Mas esse mundo material não pode limitar a nossa capacidade de empatia. É preciso nos solidarizarmos mais e nos responsabilizarmos pelos próximos tanto quanto pelos distantes.

Temos a tarefa de construirmos nosso próprio caminho, mas guardemos em mente que cada tijolinho faz uma enorme diferença na coletividade. Nem sempre a estrada é só de amor, porém as experiências de sofrimento também nos trazem ensinamentos. Esta ideia clichê de que tudo se transforma em aprendizado traz em si um desafio importante: mudar a nossa postura e nos entregarmos ao instante-já. Podemos esperançar, mas devemos precipitar o instante-decisivo da nossa transição planetária.

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Carta para a minha filha

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Querida filha,

Fico muito feliz de poder escrever esta carta para festejarmos juntas o mês de março. Realmente, trata-se de uma conquista importante para as mulheres do mundo inteiro, pois é quando reservamos um dia especial de conscientização sobre as questões que nos envolvem. É até engraçado dizer isto, já que praticamente tudo que ocorre no planeta nos diz respeito. Mas há quem desqualifique nossa participação e contribuição para desenvolver a estrutura da sociedade, e tente restringir nosso espaço. Talvez essas pessoas não entendam que isto é uma grande bobeira, embora historicamente recorrente. Então, filha, busque sempre conhecer os movimentos de mulheres e colabore com eles.

E se alguém disser que as nossas lutas são meros pitis feministas, por favor, não fique quieta. Vá logo contextualizando os fatos e pronto! Quanto mais pessoas refletirem sobre as causas e as consequências da desigualdade entre nós, melhor. Estimule teus amigos, homens e mulheres, sem importar a idade, pois todos devem se engajar neste debate. É necessário entender que representamos aproximadamente a metade da população mundial, mas ainda carregamos no corpo – físico e simbólico – a marca dramática e diversa da violência, do preconceito e do estigma, da opressão moral e do cerceamento de direitos.

Quando penso que você tem uma vida inteira pela frente neste mundo absurdamente misógino, minha menina, quase entro em parafuso. Tenho que reconhecer: continua sendo desafiador ser mulher também nos tempos atuais. Já superamos tantas coisas e muitas delas mudaram. Graças à descoberta da pílula anticoncepcional, do divórcio, da inserção da mulher no mercado de trabalho e até mesmo da invenção dos eletrodomésticos mais básicos, nos libertamos um cadinho mais. Mesmo assim, enfrentamos situações inaceitáveis. Algumas das mudanças foram apenas superficiais e aparentes.

No fundo, filha, a luta continua e temos que nos manter firmes para romper com a ignorância social que teima em nos jogar na fogueira. Dependemos umas das outras para nos fortalecer e reivindicar nosso lugar em todos os níveis e setores da sociedade. Isto deixou de ser uma escolha individual e, mais do antes, passou a ser um exercício coletivo. Sendo assim, minha pequena, cresça se envolvendo com outras mulheres e homens para construírem novos caminhos de liberdade e de equidade. A tarefa é de todos nós!

Eu tenho a certeza de que, se fizermos a nossa parte, as próximas gerações terão mais chances de viverem em pé de igualdade uns com os outros. Basta ver o quanto já fomos beneficiadas pelas ações das mulheres que nos precederam. É isso, filha: temos que honrá-las porque suas conquistas são o nosso compromisso com as mulheres que ainda estão para nascer. Pense bem, minha amada. Somos guerreiras seculares ou, por assim dizer, um verdadeiro elo entre o que foi – o passado – e o vir-a-ser – o futuro.

A luta feminina é a própria narrativa do surgimento das sociedades tal como vivemos nos moldes atuais. Esta sincronia sempre foi costurada pela repressão e disputa de poder. Filha, não estou conspirando, eu juro: a mulher foi praticamente demonizada ao longo do tempo, com o objetivo de descaracterizar seu potencial e salvaguardar a virilidade masculina. Percebe a que ponto chegamos?! Foram necessárias muitas fogueiras e guilhotinas para nos intimidar, e olha que nem sabemos de todas as tramas nos bastidores daqueles acontecimentos. É presumível que os fatos tenham sido omitidos para corroborar a hegemonia de calças compridas, mas isto não significa que a perseguição contra as mulheres, simplesmente por serem mulheres, não existiu. Nosso papel social nunca deveria ser questionado, nem minimizado.

Filha, a verdade é que tomaram como pressuposto a nossa fragilidade, provavelmente com o intuito de constranger nossa capacidade transformadora e embargar a nossa autodeterminação. Acreditavam em uma inferioridade biológica e criaram certos estereótipos para nos impossibilitar de sermos livres, leves e soltas. E posso te garantir, querida, isto não é papo de feminista.  Ainda encontramos muitas sociedades regidas por este paradigma de gênero.

Aliás, meu amor, quero que você entenda: ser mulher é sinônimo de fortaleza, ao mesmo tempo em que exalamos singeleza. Somos uma espécie rara de catalisamor e isto não tem absolutamente nada a ver com as nossas características genéticas, biológicas, físicas, orgânicas. É sério, filhota! Para corpos como o nosso a sociedade atribuiu o rótulo de “mulher”, mas esta questão de gênero precisa ser superada urgentemente. Hoje em dia, temos que pensar no plural – gêneros – e entender, de uma vez por todas, que essa discussão especificamente está para lá de esvaziada.

Há questões mais importantes sobre as quais precisamos nos concentrar. Afinal, o mundo humano está em desalinho com a natureza do planeta e enquanto insistimos na produção de bens e na disputa de poder sobre eles, continuaremos evoluindo para o caos. Nenhum sistema que despreze essa realidade irá sobreviver e perpetuaremos a desigualdade e a violência. Por isso, as flores do dia 8 de março precisam germinar engajamento em todos os dias do ano. E uma coisa é clara, minha pequena: nós, mulheres, podemos – e devemos! – mudar a maneira como educamos nossas crianças – meninos e meninas – para que acolham e respeitem as diferenças e a diversidade.

Filha, esta não era para ser uma carta-desabafo, mas o problema é transversal e estrutural mesmo. Então, peço desculpas por você ainda encontrar tudo muito bagunçado por aqui. Como dizem os sábios, tem horas que é necessário virar a vida do avesso para apreendê-la nos mínimos detalhes, antes de tentar reordená-la. Estamos em obra, minha querida, uma constante e inadiável reforma. E posso te aconselhar tranquilamente: entre santas e hereges, escolha ser o que você quiser, contanto que honre o caminho percorrido pelas nossas ancestrais. Nosso tributo a elas é vivermos intensamente, com responsabilidade, alegria e gratidão, as oportunidades que suas conquistas nos proporcionaram.

Lembre-se sempre, minha amada: não se acaba com o estigma por decreto; a palavra convence, mas é o exemplo que arrasta. Tuas atitudes na intimidade do cotidiano são o passo mais preciso e precioso que você pode dar para garantir teus direitos – e de todas as mulheres – e consolidar teu lugar no mundo – e de todas as mulheres. Coragem, minha menina, leve nossa luta à frente!

Um beijo de cores – todas, sem exceção – no teu coração.

Tua mãe.

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Salve o Ralphie… ou não!

Para mim, os encontros virtuais de domingo deixaram de ser uma válvula de escape e passaram para a categoria dos eventos imprescindíveis para alimentar a esperança, a certeza de que nunca estou sozinha e também para aquecer o coração com uma boa xícara de chá. Poderia ser qualquer outro dia da semana, pois o que importa mesmo é a oportunidade de troca com pessoas queridas e o acolhimento das mútuas angústias em tempos de crise. Um viva para a tecnologia que nos salva do distanciamento físico e da alienação. Um viva aos amigos que mergulham juntos nessa aventura cibernética e na defesa de boas causas.

E que ótimo podermos fazer bom uso da internet; quem dera fosse sempre assim. Para fomentar o debate, por exemplo, atingimos outro patamar. Rapidamente espalhamos informações sobre fatos indevidos e conquistamos aliados na luta. É o caso de abaixo-assinados, petições coletivas, ações e movimentos defendendo ou reivindicando direitos. Se as conquistas decorrentes dessas iniciativas se concretizam eu não sei. Algumas talvez sejam mais efetivas em suas metas do que outras, mas acho legítimo afirmar que todas acabam mobilizando as pessoas de alguma maneira.

Como disse um amigo filósofo: não deixa de ser uma forma de alimentarmos o mundo das ideias. Por vivermos em um logus pensante, é indispensável criarmos e partilharmos os pensamentos. Mas sempre tem aqueles que espalham notícias falsas e polêmicas inúteis. Sendo assim, quanto mais produzirmos ideias simples, acessíveis e virtuosas, carregadas  de amorosidade e cuidado, melhor. Afinal, buscamos nossas referências no mundo pensante, o que torna ainda mais fundamental que ele seja um depositário de incentivos para a mudança mais profunda dos nossos paradigmas e atitudes.

Ideias básicas sobre a necessidade de proteger todos os seres vivos do planeta, envolvendo a igualdade de direitos, a justiça, a corresponsabilidade e a equidade de recursos não são baboseiras. Por mais que pareçam velhas bandeiras ao vento, deveriam nos motivar a novos comportamentos. Então, quando você repassa uma mensagem sugerindo, por exemplo, a reflexão sobre o consumo de cosméticos testados em animais e alguém chama isso de hipocrisia, o problema não está na sua iniciativa. Podemos continuar sendo o grilo falante, pois existe muito Pinóquio entre nós. Além do mais, pode ser que este seja um dos nossos propósitos neste exato momento. E ele é válido. Ele é potente!

De um lado, não dá para esperar que todas as pessoas reagirão positivamente ao nosso estímulo. Alguns serão contrários, outros solidários e está tudo bem. Devemos pensar que cada pessoa age de acordo com as limitações e potenciais que assimilou em sua trajetória. O que fazemos ajuda a plantar uma sementinha, mas se ela vai germinar ou apodrecer independe de nós. Às vezes, é preciso um empurrãozinho para romper as fronteiras do pensamento alheio, mas cabe ao outro a responsabilidade de ampliar sua própria consciência. O tempo de despertar é relativo e sempre gradativo.

Claro, o fato de habitarmos no mesmo planeta faz toda a diferença nesse caso. Enquanto estivermos presos no looping das dúvidas e dos dilemas sobre coisas primordiais para a vida coletiva, fica difícil mesmo fazermos a tal transição planetária. Algumas pessoas desqualificam o nosso chamado e não prestam atenção no que está acontecendo ao seu redor. Elas são tão ensimesmadas e impermeáveis que dá até um desânimo. Por isto, colocar os aprendizados dos domingos filosóficos em prática durante a semana é um desafio à parte. Em todo caso, sejamos insistentes: vamos salvar o Ralphie!

Depois de assistir ao curta-metragem Save Ralph, produzido pela Humane Society International, repassei o vídeo para algumas pessoas com uma lista de empresas que continuam testando fórmulas em animais. As reações foram variadas e levei, inclusive, algumas invertidas por sugerir analisarmos nosso consumo e evitarmos ao máximo tais cosméticos. Que surra! Já estava lambendo as feridas quando ouvi alguém dizer maravilhosamente exatamente o que eu precisava para me recompor: temos todos um papel de igual importância nessa equipe que se chama humanidade, e devemos fazer a nossa parte com fé. Encontrarmos um consenso coletivo é basilar, embora desafiador. Então, sigamos tentando.

Há quem tenha dito que o sacrifício de animais é necessário para o avanço da ciência. Mas a que custo? Assistam ao curta e depois respondam: será mesmo necessária a aplicação de testes em animais ainda que isto lhes cause sofrimento? Talvez eles estejam apenas cumprindo seu papel de auxiliar na descoberta de medicações que venham a salvar vidas humanas. Mesmo assim é questionável e, no caso, estamos falando da indústria de cosméticos. Será que nós realmente precisamos de todos esses produtos para o corpo? E da alma, como cuidamos? Talvez tenhamos nos afastado demais da nossa própria natureza. Desaprendemos a viver em harmonia com a simplicidade da vida, mas é sábio lembrarmos que a natureza não depende de nós, ela nos precede e nos sucederá. Repensemos o nosso lugar.

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