A bagunça nossa de cada dia

 

Arrumar a rosqueta da parafuseta parece tarefa das mais fáceis. Quase ninguém imagina o desafio que se esconde por detrás dessa incumbência e, tampouco, a grandeza da missão. Talvez este assunto nem merecesse alguma reflexão ou os poucos minutos que este texto demanda para ser lido completamente. Afinal de contas, trata-se de coisa ordinária, que qualquer pessoa acaba tendo que fazer em algum momento da vida, seja em casa ou em outro ambiente qualquer, seja em uma gaveta ou no cômodo inteiro. Mas não subestimemos a oportunidade. As lições camufladas na bagunça do nosso espaço podem ser muito significativas. Basta um paninho de limpeza e uma mente clara para aproveitá-las bem.

De certa forma, e guardadas as suas dimensões, apertar a arruela da grapeta faz a gente compreender o sentido do mundo ao nosso redor porque tudo, absolutamente tudo, se reflete na dinâmica que imprimimos no cotidiano. Um bom exemplo disso é quando abrimos um armário cheio de coisas misturadas e só encontramos aquilo que procurávamos após revirar todas as prateleiras e fuçar nas dezenas de caixas, caixinhas e pastas guardadas aleatoriamente (algumas, inclusive, vazias!).

Olhando de fora, é complicado até imaginar se há alguma lógica naquela configuração. Mas quando colocamos a lupa para funcionar, vamos logo identificando as semelhanças com a nossa própria vida. Mais ou menos, é assim que fazemos: vamos jogando tudo dentro do armário, sem saber o que é útil ou o que ainda serve. Apenas acumulamos porque perdemos o filtro que nos ajudaria a discernir o que realmente é coerente com a gente mesmo.

São aquelas emoções disfarçadas de canetinha sem tinta ou lápis sem ponta que não conseguimos jogar fora, na expectativa (talvez) de que possam ressuscitar um dia. Em um canto qualquer guardamos um pedacinho de papel sem sentido nenhum que nos faz lembrar de algo que já passou e não importa mais, alimentando o vício do apego. Mas esse agarramento transcende o material, pois seguimos o caminho levando tudo dentro da bagagem: o que precisamos, o desnecessário e algumas coisas em dobro. Com muita frequência, corremos adquirir o mesmo item porque não o encontramos já que estava perdido no buraco cósmico que mora dentro do armário.

É quando a rebimboca da parafuseta para de funcionar por excesso de peso e somos intimados a dar um jeito na situação. Não tem por onde escapar e a hora da faxina torna-se o momento mais sensato a ser vivido. Desocupar as estantes é quase o mesmo que passar a vida a limpo. A gente tira tudo para fora, tentando visualizar o que juntou. Analisa cada item e dedica tempo pensando no seu significado e em como ele foi parar ali. Pondera como pretende prosseguir dali em diante e, então, chega a um denominador comum que permite priorizar o que ainda deve manter e exatamente em que lugar.

Estudei alguns anos para aprender a ajudar as pessoas a organizarem sua “bagunça” interna, mas ao me encarregar de ajustar a mola da grampola em alguns lugares por onde me voluntariei, percebi o quanto a estrutura externa requer igualmente um esforço para o qual nem sempre estamos preparados. Somos muito semelhantes nesse sentido. Todo mundo acredita ser capaz de se encontrar na bagunça e escolhe não ir a fundo porque já está acostumado daquele jeito. Mas há limites. Caso contrário, como localizar o produto de limpeza quando ele é um clandestino no armário das panelas?! Isto equivale dizer que, para cada coisa, existe um lugar certo.

Longe de mim fazer a apologia ao compulsivamente organizado. Não exageremos; o lugar certo até pode ser relativizado. Mas há tanto mal-entendido em decorrência da confusão que toma conta do nosso dia a dia que valeria a pena um mínimo de lógica, daquelas que qualquer pessoa entende por causa da sua coerência e não precisa de etiqueta na prateleira indicando o óbvio. Bem, isto é um outro departamento: o dos códigos de guerra secretos que existem para passar uma mensagem que apenas quem criou e os que vão receber sabem decifrar. O restante continua sem entender do que trata e guardando as velas no armário da limpeza.

Enfim, a questão toda é apenas para corroborar o que já se fala pelos corredores. O mundo ao redor é a nossa expressão. Ele não está bagunçado ao acaso. E se a gente não consegue sequer manter a própria casa organizada, como é que espera transformá-lo?

 

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Valeu pela surra!

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Depois de Nietzsche, dessa vez é hora de acender uma luz com os homens comuns. Mas, talvez, seja mesmo o caso de acender uma vela pelos homens confusos e implorar para que a Santa Padroeira das Compras tenha compaixão de todos eles e decodifique a listinha feita por suas esposas. Manhã de sábado, véspera de feriadão e o mundo inteiro parece ter saído de casa com a missão de encontrar o que faltou para completar o jantar da festa. É como se tivessem ouvido um anúncio para o caos, daqueles que mobiliza o medo de estragar a receita do prato principal e teletransporta as pessoas – digo: os maridos – para dentro do supermercado.

Sem nenhum julgamento e muito menos preconceito, as criaturas se engajam na missão como super-heróis, tentando salvar a batalha final sem terem a menor ideia do desafio a que se lançaram. Falta de alternativa, talvez? Vai saber. O que dá para inferir é que as coisas na cozinha ficam mais por conta da esposa ou da mãe e poucos homens sabem a diferença entre “aipo” e “salsão”. Neste caso, está fácil: não existe! Ambos são o mesmo talo, da família das umbelíferas. Mas quando se trata de outros vegetais menos usuais, o desconhecimento do repertório traz uma série de situações cômicas. Basta estar na sessão de hortifrúti para testemunhar o desespero dos corajosos de última hora.

– Senhora, por favor, o que é alho-poró?

– Por acaso é bem esse aqui na frente, senhor.

– E como eu escolho? Tenho que levar com mais folha verde ou esse com mais parte branca?

– Depende; qual é a receita? É para fazer o que?

– Hummm… não tenho certeza.

– Então, leva um meio termo, assim não tem como errar.

– E quanto eu pego? Minha esposa esqueceu de colocar a quantidade.

– Depende também do que ela vai fazer e para quantas pessoas, senhor.

– Vixe…. então acho melhor ligar para ela.

E quando você acredita que vai conseguir escapar de fininho, vira para o outro lado e quase tropeça em outro valente, solicitando ajuda para decidir qual tomate levar: italiano, momotaro ou caqui? Esse, pelo menos, já sabia que precisava chegar em casa em tempo para o molho ao sugo e economizou o telefonema. Resolveu rápido o assunto e zarpou para o caixa express. Mais algumas voltinhas para vencer minha própria lista e outros pedidos de socorro aqui e ali me fizeram observar que alguns homens estavam falando ao telefone. Santo celular. Deve ser o assistente da Padroeira das Compras. Claro, nem todas as conversas giravam em torno da missão impossível, mas uma “discussão” acalorada chamou minha atenção. Alguém, do outro lado da linha, parecia não acreditar na falta do produto requisitado, ao que o senhor, já com uma certa idade e muita segurança insistia em retrucar: “Eu já te disse, meu bem, não tem mais alface lisa aqui.  Eu sei qual é essa alface. Deve ter acabado. Posso levar da crespa mesmo?”

Não fiquei por perto para saber o placar final dessa quebra-de-braço, pois ainda tinha que encontrar a tal da farinha-biju. Então, parti pensando comigo mesma: caramba, a gente poderia ter aula sobre alimentos e como reconhecê-los nas gôndolas dos mercados desde cedo. Isto deveria ser uma matéria obrigatória no ensino básico e, quem sabe, também fizéssemos um tour guiado nas feiras livres para aprendermos a não confundir alho com bugalho. Seria de grande ajuda, independente de qualquer questão de gênero. Mas, na medida em que refletia sobre o tema e ria em segredo, também fiquei me perguntando: por que diabos alguém vai ao supermercado sem saber direito o que vai comprar?!

Hora da vingança. Na frente da prateleira de farináceos fiquei sem palavras. Na falta da farinha-biju, o que levar? Havia umas três marcas desconhecidas e nenhuma delas do jeito que eu precisava. Foi quando um senhor relativamente jovem chegou todo confiante e pegou um pacote delas. Não tive dúvidas:

– Você conhece essa farinha? Já usou?

– Sim, sim. É muito boa. Melhor do que essas outras duas. Pode levar tranquila.

Pronto. Dizem que a língua é o chicote da bunda. Sem julgamento, nem preconceito, voltei para casa com o traseiro marcado. Valeu pela surra!

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Acendendo uma luz com Nietzsche

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A filosofia tem o dom de nos convidar a percorrer outras dimensões. É uma espécie de “pílula vermelha” que dá o acesso ao matrix existencial. Até podemos ficar tentados a escolher o comprimidinho “azul” (cuidado para não confundir as drogas aqui. Eu sei que o “remedinho azul” da modernidade é bastante competitivo, mas não é dele que estamos falando!) e nos manter na superficialidade, mas o apelo da consciência é mais forte quando já estamos na tarefa de virar gente grande. Então, é aquela lenda viva: depois do primeiro mergulho, não tem como voltar atrás. Não porque estejamos impedidos de mudar de ideia, mas porque somos impelidos a sair da inércia. Queremos mais sobre mundo e muito mais de nós mesmos.

O filósofo Nietzsche parece ter levado isso tudo muito à sério, embora, ele mesmo, tenha sugerido rompermos com a certeza de tudo. Assistindo uma aula sobre seus pensamentos recentemente, fiquei impressionada com a sua capacidade de abrir o portal diante dos nossos olhos e nos tirar do mundo dos sonhos. Bem, ele não é nenhum Morpheus, e eu, tampouco, sou Neo. Mas o danado faz parecer que a arte de se colocar em questionamento é libertadora de tal maneira que, mesmo diante do árduo trabalho de descascar nossas próprias camadas, queremos realizar a tarefa até o final. Sem preguiça de enfrentar o desafio que esta viagem representa.

Porém, descobrimos, de fato, que não há “um” único lugar para se chegar, nem “um” fim isolado para se cumprir. É uma viagem sem destino claro e são muitas as faces do nosso ser que precisam ser mexidas até que possamos encontrar o verdadeiro sentido de existirmos, se é que existe, realmente, uma verdade última. Mas as pequenas revelações a que temos acesso nos motivam a continuar buscando respostas, inclusive para as perguntas que ainda sequer formulamos. É assim que abrimos novas janelas e, muitas vezes, nos perdemos no processo porque as nossas indagações estão viciadas na base. Giacoia, o professor apaixonado pelo pensamento de Nietszche, disse com propriedade: “é muito mais importante do que antecipar uma resposta tranquilizadora, saber formular direito uma questão.”

Eles, os pensadores, falam sobre a tragédia da vida e explicam: o que a define são os altos e baixos que nos ocupam nesse eterno exercício de vir-a-ser. Entramos numa oscilação de ondas interessante e descobrimos que não há nada de negativo nisso. Ao contrário, é esse movimento que contribui para nos descobrirmos como únicos. Também entendi nesta aula que são os nossos feitos, ao longo da existência (e até ouso dizer no plural: existências), que nos configuram. Portanto, um viva para a possibilidade de ir abrindo frestas e compondo novas conexões!

Ou seja, que maravilha podermos nos reinventar permanentemente. Afinal, não somos algo que recebemos pronto ao nascer, mas tudo aquilo que construímos ao vivermos a vida que surge como oportunidade em nosso caminho. É fato: não podemos nos tornar aquilo que nunca fomos. Apenas revelamos, para nós e para os outros, o que vamos configurando a partir deste processo de individuação. Palavrinha difícil que esconde nenhum segredo: significa tão simplesmente “ser gente na primeira pessoa”! Trocando em miúdos, só conseguimos chegar naquilo que nos constitui como almas singulares sendo. Então, não há fórmula mágica: podemos apontar quem somos somente quando estivermos prontos. Porém, agora, precisamos acolher a questão libertadora: e quando é que estamos “finalizados”?

A vida é uma verdadeira epopeia, composta de longos versos de exaltação humana. Nem sempre compreendemos sua beleza, mas vamos fazendo, intuitivamente, um pouco de comédia (menos do que seria recomendável), outro tanto de drama (mais do que deveríamos suportar), numa narrativa sem fim sobre os heróis e guerreiros que somos e sobre como fazemos a roda girar no cotidiano do mundo. De certa forma, imprimimos uma dose particular de um realismo que nos aprisiona. É isso, ficamos no palco atuando de acordo com o que esperam de nós e desvalorizamos a preparação que temos nos bastidores, isto é, aquela que nos permite ser livremente por ensaio e erro. Nos submetemos à reprodução de um texto escrito que diminui a nossa capacidade de transcender a tudo e a nós mesmos.

Talvez eu esteja exagerando nas minhas elucubrações, mas essa história filosófica de que é necessário negar o mundo em vivemos para podermos ascender a um outro muito melhor é para deixar qualquer pessoa do avesso. Em especial quando o final do ano está batendo à nossa porta e pedindo uma renovação de votos. Até entendo que o tempo de existir é o existir no tempo e também reconheço que nossas percepções equivocadas à respeito da realidade nos levam a estabelecer um falso padrão a ser seguido, o que limita nosso potencial. Mas está na hora de atendermos ao convite do Chico, o Buarque, e “amar pelo avesso” a nós mesmos.

O mundo mundano é oco, mas nós não. E não fui eu que falei. Estou apenas repetindo: o inferno não são os outros. É o nosso próprio eu iludido, apegado à sua condição de ignorância. Então, só posso desejar muitas “pílulas vermelhas” para todos nós. Que elas sejam eficazes no tratamento da nossa alma e contribuam para ascendermos a um ano de maior engajamento com a missão de nos tornarmos quem somos: sagrados.

Boa sorte na formulação das suas perguntas e um feliz 2020 para quem ousar romper o casulo e acolher sua metamorfose!

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Um par de pés

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Foto: thanks to Alan Nielsen (@alannielsen1969) – Caminhando com Portinari – Terra Virgem Editora – http://alannielsen.com/caminhando-com-portinari/

Quanta inspiração pode provocar um par de pés? Impossível mensurar. Mais fácil é se render ao convite para percorrer os mesmos passos e voltar no tempo. Mas que caminhos foram esses que os trouxeram até a eternidade deste clique? Em que ritmo andaram, que aventuras viveram? Qual seria a história grudada no seus calcanhares? Quantos sapatos apertados foram calçados ou de onde vieram todos os seus calos? Como resolver esses pontos de interrogação quando o interlocutor é anônimo? Talvez, mergulhando na própria imaginação e buscando o sentido, tal qual possibilita o significado dessa palavra, dentro de nós mesmos. Afinal, todos temos histórias impressas em nossas pegadas.

Vale sentir nas entranhas as nem tão estranhas emoções que esta imagem desperta. E também reconhecer a combinação perfeita entre a sensibilidade de quem viu a relevância da poeira sobre a pele, dos pés sobre o campo e da história de vida que aquele corpo carrega, ousando imortalizá-la. Talvez, sem mesmo saber, ao registrá-los, o olhar apaixonado pelo mundo por detrás da câmera tornou urgente a nossa tarefa de pensar as próprias andanças. Colocou em evidência a capacidade que temos de transitar, das mais variadas formas, nos mais diferentes universos simbólicos. Disponibilizou muitos estímulos para nutrir nossas reflexões. A mim, em especial, tocou igualmente um lugar de forças insuspeitáveis: a alma!

E, então, senti, embaixo dos meus pés, o pulsar da minha jornada e a importância das raízes deslocadas do meu mundo. Os pés nesta imagem têm dono, no caso, uma dona. A terra sob eles também. Não sei a quem pertencem, mas, como nada é por acaso, eles fazem parte de mim e me lembram de um conto que começou há 55 anos, mais precisamente num dia 19 de dezembro. Foi quando eu nasci, exatamente naquela mesma região de terras vermelhas, muito sol, calor humano e gente simples.

Era um dia normal, mas sair para a vida foi um desafio à parte. Nasci com os pés primeiro, pronta para visitar todos os cantos deste mundo e já contrariando a ordem natural que estabelece olharmos para o caminho antes mesmo de pisar no chão. Essa lógica subversiva me levaria longe, mas como poderia ser diferente para uma sagitariana? Lançar a flecha para depois correr atrás dela se tornou a minha dinâmica desde então. Pés na estrada, na maior parte do tempo. A alma em outras dimensões, sempre entregue e aberta para as múltiplas experiências, até mesmo quando a vida me convocava a lamber o mel no fio de uma navalha. Mas sempre percorri caminhos de superação, de autoconhecimento, de reafirmação daquilo que nunca deixei de ser: uma peregrina nata.

Procurando sempre manter a consciência aberta e alerta, os ensinamentos do cotidiano tiveram maior ressonância dentro de mim. As lições que precisei aprender ainda ecoam no meu coração e é ele que se mantém a bússola orientadora os meus passos. Sair do casulo foi apenas o primeiro ato; o desenrolar do meu conto passou a ser mera questão do tempo. Às vezes, nem tão bem aproveitado, mas, quando o lugar de prioridade mudava e eu tropeçava no meu desassossego ou me distanciava da minha essência, o chão se abria diante de mim como um sinal de alerta. E eu entendia a cada vez: era hora de acender alguma luz para iluminar novos atalhos. Com persistência e o apoio dos meus aliados na caminhada espiritual, sempre pude seguir em frente, e assim acontece a todos nós. O tempo é generoso e nos concede inúmeras oportunidades.

Trilhas tortuosas, passagens estreitas e muitas vias de mão dupla me mostraram que, quando cada coisa está no seu devido lugar, de acordo com a sua função, chegamos mais perto da iluminação. E o “devido lugar” é tão simplesmente o mundo interior que nos habita. A plena atenção nele nos faz diluir as ilusões e entender melhor a verdade relativa do caminho. Estar centrado no próprio prumo nos autoriza a questionar o devir que nos capturou ou que nos distraiu daquilo que realmente nascemos para ser. Nada é mais virtuoso do que uma alma que reconhece a luz dentro de si e permite que ela ilumine a sua estrada no tempo-espaço.

Olho para esses pés descalços, num campo em terras que nasci, e os acolho como um sinal claro de que toda história tem um impacto sobre nós e está entrelaçada com a nossa existência de alguma maneira. São poucos os graus de separação. Por isto, coloco a minha alma nesta imagem e me fortaleço na simplicidade de ser uma andarilha apenas. Sigo sendo um par de pés na estrada e me sinto realizada pelo encontro com as minhas raízes nesse universo de possibilidades que é viver intensamente o que tem para ser vivido, hoje, e eternamente agradecido. Amém!

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Virando chinesa

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A beleza do tempo – Sapa, Vietnã

 

As histórias do cotidiano são infindáveis. Quando a gente pensa que acabou, está apenas começando. Um tanto parecido com a vida em si: segue a lógica da eternidade: intensa, enquanto o momento presente dura, e tão impermanente quanto o instante-já. É um movimento repleto de prosa e poesia. Contos recheados de jogos de palavras que se formam para explicar os mistérios do caminho, e trocadilhos que ajudam a dar graça para a descoberta inevitável do protagonista de todos os enredos: o tempo. E nada melhor do que as cenas da vida real para resgatarmos alguns capítulos em nossa memória.

Vários anos atrás (não muitos!), desacreditava do “senhor da vida”, o tempo. Duvidava do seu impacto sobre nós, numa tentativa ingênua de negar que tudo passa e nada permanece como antes. Minhas amigas mais velhas (com pouca diferença!) já se enlouqueciam com os cremes anti-tudo e com os novos procedimentos de estética, investindo pesado na leveza do corpo para combater a lei da gravidade. Parte das conversas nas reuniões sociais era pura troca de receitas sobre como driblar o tempo para manter o padrão de beleza da nossa época. Do lado de fora deste círculo vaidoso, tentava apaziguar os comentários dizendo que envelhecer é um processo contínuo que começa com o primeiro sopro de vida. Por alguma razão, minhas amigas não se sentiam confortadas com esta ideia e reforçavam enfaticamente: você também vai chegar lá e quando isto acontecer, entenderá o que estamos dizendo. Hoje, compreendo melhor. Parece que “cheguei lá”, seja “lá” onde for. Como disse em outro texto: o outono está acontecendo. Mas, sem aquela preocupação com as transformações estéticas do processo.

Por outro lado, é interessante descobrir que chegamos na nova estação pelos olhos de outras pessoas. Isto faz a gente se perguntar sobre si mesmo, se observar na linha do tempo e buscar reconhecer suas marcas no corpo e na alma. E, às vezes, basta um olhar de escanteio, a intenção de ser gentil e um pequeno gesto para nos convidar a essa reflexão. Simples como uma afirmativa dentro do vagão do metrô: “por favor, senhora, sente-se aqui”. O aqui, neste caso, é o assento preferencial, reservado para pessoas com mais de 60 anos e outras categorias mais. Indicação clara daquele lugar que minhas amigas chamavam de “lá”.

Confesso que ouvi a frase com certo espanto. Deve ter sido algum engano, pensei de imediato. Não me encaixo em nenhuma das alternativas de prioridade e esta mulher está apenas sendo educada ao me oferecer a preferência. Afinal, ela mesma parece ter a minha idade ou mais. Sim, só poderia ser uma cortesia. Em todo caso, me coloquei a pensar: será que estou dando a impressão de ser mais velha? Seria o meu jeito de vestir? A minha postura, talvez? O penteado? Os poucos cabelos brancos? Se as minhas amigas estivessem por perto, certamente me alertariam: bem que nós te avisamos, não é?!

As estações, do metrô, foram passando, mas eu continuava presa naquela cena. Em alguns momentos ria da minha surpresa com tudo aquilo e, em outros, me dava conta de que, nos últimos tempos, a maturidade vem mesmo captando minha atenção com mais ênfase. Deve ser por causa do “inferno astral”, pois daqui uns dias vou realmente mudar de ciclo e é natural que a gente se sensibilize com esses assuntos. O tempo passa. É fato inexorável. Estava abduzida pelo o vazio fora do vagão, tentando organizar os pensamentos quando meus olhos retornaram daquele nada e me colocaram frente-a-frente com a minha imagem refletida no vidro da janela. Aí, sim, não pude me conter. Escanei, cuidadosamente, o meu perfil e enxerguei o que talvez pudesse explicar aquele gesto de gentileza: estou me transformando numa chinesa!

Discretamente, passei a mão no rosto, tentando esticar um pouco a pele para ter uma referência, e entendi, superficialmente, o que pode estar por trás da decisão de recorrer à cirurgia plástica para dar uma calibrada no visual. Não existe alternativa para o “bigode chinês”, nem para o despencar das pálpebras; é isto ou todo o resto oferecido pela indústria de cosméticos. Uma verdade que joga a gente num beco sem saída. É necessária muita autoestima para não se render ao padrão estético da nossa sociedade. Respirei fundo, me olhei mais uma vez na janela e sorri dizendo: dane-se, já tenho o meu chapéu asiático mesmo!

E foi assim que o meu bigode chinês praticamente desapareceu naquele sorriso. O semblante se transforma, amenizando as rugas, a gente rejuvenesce. A nova imagem me fez pensar que, talvez, esse sinal de expressão seja apenas uma estratégia do corpo para nos fazer lembrar de sorrir mais para as coisas da vida. Esta é a plástica que restaura nossa beleza essencial. É a melhor maneira de envelhecer, mesmo que tenhamos que ocupar, de fato, o assento preferencial.

Então, obrigada, senhora! Vou descer na próxima estação.

 

 

 

 

 

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A voz alta da consciência

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Hora do rush. Não temos como escapar do cenário caótico, turbinado pelo vai-e-vem dos carros, ônibus e das milhares de pessoas que fazem lembrar um formigueiro em plena atividade. Visualmente, chega a ser assustador todos aqueles corpos passando uns pelos outros, alguns se esbarrando, outros se empurrando. É uma enxurrada de gentes, capaz de nos levar de um ponto ao outro pela correnteza incontrolável dos passos. É preciso cuidado e se colocar na direção certa do fluxo, caso contrário, teremos dificuldades para nadar na contramão.

Esse é o cotidiano urbano na grande metrópole e as pessoas estão acostumadas com esse ritmo. Por que razões, nem vou discutir. Que projeto de sociedade está (des)colado nesta rotina, vale questionar. Cada um pode fazer este exercício e buscar entender seu próprio papel na manutenção do sistema, tal como ele é. O que estamos fazendo, individualmente, para contribuir com isso tudo ou para transformar essa realidade cabe a nós mesmos responder. E nem precisa ser em voz alta. Somos senhoras e senhores da nossa consciência e o nosso compromisso primeiro é para com o eu interior. De mais a mais, há tantas maneiras de colaborar para que o mundo seja melhor que fica impossível mensurar a forma mais eficaz e determinar o “jeito certo” de intervir na sociedade.

Hora do rush. Mas eu me sinto um tanto cigarra, sem pressa para chegar, sem compromissos inflexíveis. Atenta à movimentação das formigas, procurando não bloquear o trânsito, tentando respeitar o compasso. Observo o padrão que se repete a cada parada do trem: saem menos pessoas do que as que tentam entrar. Faço as contas rapidamente e concluo que serão necessárias algumas paradas até chegar a minha vez. Mas entro na fila, que só aumenta em todos os lados. Então, ouço uma voz alta, em tom de total repreensão, dizendo: “A senhora não acha uma esculhambação furar a fila?!”

Sem coragem de olhar para a pessoa, continuei com a cabeça voltada para frente, pensativa. Pelo linguajar utilizado, fui logo imaginando que se tratava de alguém com mais idade. Quem fala “esculhambação”, provavelmente viveu sua juventude nos anos 70. Mas a curiosidade driblou a covardia e encarei de frente o senhor de barba e cabelos brancos logo atrás de mim, com uma expressão visivelmente de revolta. Ele tinha razão: furar fila é uma injustiça no meu dicionário também.

A resposta disparou sozinha, em tiro certeiro: “Desculpe, senhor, não sabia que tinha uma fila formada. Eu não reparei.” E assim, a “furona” abandonou seu lugar e foi para o final da fila. Continuei pensativa e, secretamente, comemorei a vitória do meu comparsa de gíria. Aquilo era, de fato, uma esculhambação. As pessoas parecem ter perdido a oportunidade do bom senso, da gentileza, da educação. Se empurram, cortam a frente dos outros, param no meio da passagem, sentam em lugar preferencial sem o direito da prioridade, falam alto no telefone, fingem (?) que apenas elas existem no mundo e se acham merecedoras de todos os benefícios (im)possíveis. É só um jeitinho, só dessa vez, não vai prejudicar ninguém…

Por alguns segundos, fiquei rindo dentro de mim e agradeci mentalmente aquele senhor por ter sido meu porta voz. Ele falou, em voz alta, aquilo que eu mesma pensei logo que a moça cortou a nossa frente. Queria eu ter tido a sua firmeza, mas as pessoas andam se sentindo tão autorizadas a expressarem sua agressividade que venho adotando a política do invisível para evitar confusão: observo, fico indignada, processo aquela negatividade interiormente e devolvo em vibrações de amor. Como sempre diz uma amiga querida: devolvo ao universo com partículas de consciência! Nada de discussões, nem intervenções moralistas. Sim, um dia, essas partículas expandirão na mente das pessoas.

Minha satisfação, entretanto, entrou em choque. Imediatamente recuperei a lucidez e aquilo que parecia um ato de bravura se desfez diante do fato de que duas outras pessoas também haviam furado a fila. Mas eram homens!

Então é assim? – pensei eu. Este senhor se acha no direito de repreender a mocinha, mas não dirige sequer uma palavra aos homens que agiram da mesma maneira que ela?! Que bravura é essa? Estava reunindo esforços para pontuar aquela desigualdade quando o trem chegou, a porta se abriu e fomos empurrados para dentro do vagão. Mas não poderia deixar aquilo passar. Dois pesos e duas medidas?

No hiato dos meus pensamentos, porém, o “herói do metrô” solta mais uma pérola, na maior tranquilidade: “Que esculhambação, heim meus senhores?! Furar a fila é muita falta de civilidade, pra dizer o mínimo. Está faltando cidadania e vergonha na cara. Os senhores pensem bem nessa atitude. Que sociedade é essa?!”

Do outro lado, um silêncio absoluto. Na minha cabeça, fogos de artifício.

Embora continuasse pensando que o justo mesmo teria sido repreender aqueles dois homens no mesmo momento em que a moça levou a bronca, assim eles também seriam “incentivados” a voltar para o final da fila (ou não!), não pude conter a alegria de ouvir minha consciência falando em voz alta novamente, através de outra pessoa.

Hora do rush. A realidade humana se reflete no corre-corre da cidade e escancara a nossa fragilidade ética.

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Vendo o visível, enxergando o invísivel

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Acampamento de Refugiados – Dhaka, Bangladesh

Quando eu era adolescente fiz um um curso de fotografia na escola em que estudei durante o intercâmbio. A ideia de registrar tudo me atraia e, empolgada, adquiri minha primeira câmera. Claro, na época, tudo era manual e ainda usávamos filme de rolo. Isto representava uma emoção à parte, pois era necessário usar o filme inteiro para, então, revelar as fotos, o que poderia levar a viagem toda ou longas semanas. Esperar esse tempo para ver o resultado daqueles cliques que não saiam da cabeça trazia certa ansiedade e, inúmeras vezes, culminava em frustração. Principalmente quando a foto não estava boa o suficiente porque faltava foco, o ângulo não tinha sido adequado, alguém estava de olhos fechados, tinha faltado flash ou a luz havia estourado. Quantos momentos perdidos entre um clique e outro porque era preciso rodar o filme e, nessa fração de segundos, a cena se desconstruía totalmente. Quantos momentos perdidos por causa da sobreposição de imagens, quando a empolgação era tanta que esquecia de avançar o rolo do filme. Mas a aventura era essa: acreditar que estava capturando o mundo e aguardar para ver seus detalhes depois.

Os anos foram passando e continuei fotografando por diversão. Confesso que quase nunca refletia sobre o que poderiam, de fato, significar aquelas ferramentas à minha disposição. Simplesmente clicava tudo o que me interessava e nem sempre interessava as pessoas, que não hesitavam em criticar as imagens dizendo que era muita vida real sem a personagem principal. A expectativa delas era me ver nas fotos e eu raramente entregava a minha câmera para outra pessoa me fotografar. Eu gostava mesmo era de compartilhar o mundo na minha perspectiva. Aquilo sim me colocava de joelhos e mexia com o meu imaginário: como vivem aquelas pessoas? Como aquilo aconteceu? De que maneira aquela realidade está conectada com a minha? Eram muitas indagações sem respostas, até porque eu, provavelmente, não tivesse maturidade suficiente para colocar os pontos de interrogação nos seus devidos lugares.

De qualquer maneira, sempre que apreciava o trabalho de outros fotógrafos, me sentia impelida a pensar sobre a realidade que estava sendo retratada e, aos poucos, fui entendendo que, por meio da fotografia, podemos entrar em contato com um mundo nunca antes imaginado. Estava ali o potencial daquelas ferramentas: um simples retrato se transformando em convite para mergulharmos no universo desconhecido. Afinal, uma imagem, por mais banal que possa parecer, revela nuances de uma longa história. E assim nos enriquece esta arte. E assim me mobilizou essa arte, pois, na incapacidade de aprimorar as habilidades técnicas e na limitação de transitar pelo mundo, passei a buscar nas imagens de alguns fotógrafos a minha própria visão sobre o existir.

E ao fazer isso, comecei a entender melhor a diferença entre ver o que aparece de forma visível aos nossos olhos e enxergar o que a realidade mascara. É interessante como o nosso posicionamento sobre as coisas muda quando a fotografia revela o invisível. Nosso olhar tende a se concentrar no óbvio porque, na maior parte das vezes, é para isso que fomos condicionados a dirigir a atenção. É como se a percepção fosse filtrando os detalhes, numa tentativa de nos manter na zona de conforto e quando, finalmente, este filtro se rompe pelo estado de alerta da nossa consciência, descobrimos que é impossível morar naquela mesma bolha que nos protegia.

Enxergar a realidade com os olhos críticos nos traz o compromisso também de dar visibilidade para o invisível. Que mudanças podem advir a partir desse movimento é difícil dizer. Talvez tudo seja relativo e dependa mesmo é da nossa postura de vida. Se queremos uma sociedade transformada em um lugar de bem estar para todos os seres vivos, denunciar as injustiças é um passo fundamental. Claro que há diferentes maneiras de fazer isso e a fotografia é apenas uma delas. E, mesmo sendo uma alternativa eficaz, há diversas formas de usar essa ferramenta que não necessariamente provoque alguma mudança de paradigma em nós. Mas está tudo certo. As escolhas que fazemos são aquelas que damos conta de fazer naquele dado momento de nossas vidas.

O fato é que podemos descortinar muitas coisas com um único clique. E isso fica evidente quando vemos algumas imagens da realidade social em que vivemos ou em que vivem outras pessoas distantes de nós. Hoje, transito por lugares e não consigo mais ver aquilo que é visível. Há sempre uma causa por trás da imagem, um pedido de socorro, um alerta, uma denúncia. Há também alegria e contentamento, por certo. Afinal, as pessoas e as situações conjugam o verbo amar e desamar o tempo todo, como onda do mar que vai de um jeito e pode voltar de outro. A vida não é uma reta constante e a impermanência de tudo nos ensina isto. Mas é justamente essa a questão: o instante pretensamente eternizado em uma imagem não é exatamente daquele jeito. O que tem de estático em uma fotografia é inversamente proporcional ao que tem de dinâmico naquela mesma imagem.

Por isso, quando registro o rosto de uma garotinha no acampamento de refugiados do Paquistão em Dhaka, não estou constatando apenas suas características físicas, mas a sua história de vida, marcada nos trajes que ela veste, no lugar em que se encontra, na forma como se comporta. E mais, junto com aquela imagem está também configurada a história do mundo, o que ocorreu com a humanidade desde sempre até aquele exato tempo-espaço. O modo como aquelas pessoas se organizaram, o descaso político e humanitário para com as condições em que vivem, entre outros tantos fatores, configuram a parte invisível que a fotografia nos faz enxergar e, diante dela, não tem como a alma se acomodar. A inquietude, porém, é positiva. Ela nos tira da mesmice da vida, mas precisa ser igualmente transformadora e “incomodar” outras tantas almas para que elas também se interessem pelo invisível das nossas sociedades. Assim, não me canso de reafirmar: é preciso termos olhos de ver e enxergar, ouvidos de ouvir e escutar, boca de falar e denunciar, e coração de sentir que a compaixão e a solidariedade são essenciais na nossa travessia!

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