Desafios da maternidade

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Conversando com algumas mulheres em um grupo de estudos, algumas delas relataram sua experiência com a maternidade, admitindo sentimentos antagônicos motivados por um paradigma milenar. A ideia incontestável de que a maternidade é uma virtude estabeleceu-se como representação universal e tornou-se um pré-requisito à condição de mulher. “Ser ou não ser mãe” é uma questão que nunca antes se firmou na sociedade. As mulheres incorporaram a expectativa social e assumiram para si o papel de parideiras, sem pestanejar. Sim, em duplo sentido, pois a qualidade do prazer sexual para a mulher permaneceu fora do radar por muito tempo. Sua função na sociedade se limitava ao mundo doméstico – ser esposa-genitora-cuidadora da casa – e a pergunta girava apenas em torno de “quando” isto deveria começar a ocorrer.

Durante séculos, trilhamos esse caminho ora maculando as mulheres que ousavam postergar a maternidade, ora elevando-as ao lugar sagrado das famílias tradicionais. Nos dois casos, a mensagem sempre foi clara no propósito de naturalizar a maternidade como alternativa única no universo feminino tal como se concebia. Jamais passava pela nossa cabeça que a revolução dos gêneros viesse abrir o portal da diversidade, apresentando novas formas de ser mãe: mulheres e homens com ou sem útero, pessoas solteiras, casadas, juntadas, separadas. Gênero e estado civil deixaram de qualificar a experiência da maternidade, mas as mães continuam sendo cobradas a encará-la como um divisor de águas em que, de um lado encontra-se sua liberdade e, do outro, o compromisso de criar filhos.

Efetivamente, no lesco-lesco, quem tem que dar conta de tudo acaba sendo a mãe, ninguém mais. Depois, o mundo se volta contra ela: “a culpa é sempre da mãe!” A sociedade nunca confessa sua parcela de responsabilidade por incutir em nosso imaginário a ideia romântica da maternidade. Somente na prática é que aprendemos que nem sempre conseguimos harmonizar o desenvolvimento pessoal, a carreira e a prerrogativa de ir e vir ao bem querer. A sobrecarga leva, em muitos casos,  à renúncia dos projetos profissionais e também ao desmoronamento dos sonhos pessoais. Tornar-se mãe acaba sendo associado a um grau relativo de isolamento social. Passamos a ser preteridas e evitadas nos círculos de amigos, por razões diversas, e enfrentamos uma longa travessia sozinhas. Algumas chegam a sucumbir.

A sociedade, de fato, não é exatamente “child friendly”. Somos ótimos para preconizar que as pessoas devem ter filhos, mas falhamos como sistema quando se trata de acolher e proteger as mães. Claro que há políticas públicas, embora insuficientes e ineficazes, que garantem algum direito a elas. Mas para citar apenas o menos complexo, há lugares que nem aceitam a entrada de pais acompanhados de crianças pequenas. Inclusive, já testemunhei situações em que os adultos ao redor demonstravam óbvio desconforto com a presença delas. Tolerância zero com choro e birra de criança em público, como se a mãe fosse uma criminosa ou não soubesse educar direito os filhos.

Para as mães, o “deixa a vida me levar” passa a ser acompanhado de elementos que direcionam seu caminho para lugares menos badalados, e em tempos outros, ditados pelas necessidades concretas de um ser agregado para sempre ao seu mundo. Só mesmo contando com uma rede de apoio que permita a maternagem fluir sem culpa. Por outro lado, há quem terceiriza os cuidados dos filhos por completo, e não salvaguarda sequer o “instinto materno”. Tudo bem que este é mais um dos mitos inventados para estabelecer o que é ser uma “boa mãe”. A questão é a falta de espontaneidade no afeto, já que se exagera na aplicação do “não pode, não deve”.

A maternidade nos tempos de hoje é um desafio ainda maior, e conciliar nossas imperfeições com a demanda dos tutoriais que nos ensinam uma variedade de coisas – de trocar fraldas até a como conversar com as crianças – pode ser extenuante. Antigamente, já era difícil seguir a “Vida do Bebê”, bíblia escrita pelo conhecido Dr. De Lamare e publicada pela primeira vez em 1941, imaginem agora. Não há mãe que aguente praticar o passo a passo das influenciadoras das mídias sociais. Ao criticarem os pais e as teorias infantis de tempos atrás, inaugurou-se um universo paralelo repleto de novas regras e quase nenhum espaço para a autenticidade materna. Não sobrou lacuna para a possibilidade do erro e para os sentimentos contraditórios que a maternidade nos instiga com muito mais frequência do que autorizamos.

Parece que ainda vivemos uma tirania em torno da maternidade, porém, com toque refinado de culpabilização institucionalizada por blogueiras que insistem em dar receitinhas sobre como devemos agir nas diferentes situações. Reconheço o valor e a importância das teorias – antigas e novas – sobre o desenvolvimento infantil e sobre como educar adultos saudáveis. Entretanto, acho que perdemos a referência ao continuarmos exigindo que as mães mantenham suas capas de heroínas bem passadas e elegantemente de prontidão. Ser mãe não é “padecer no paraíso”, e o suposto sacrifício pessoal é uma lenda que também deve ser superada coletivamente.

E se vocês chegaram até aqui com a impressão de que estou advogando contra a maternidade ou algo assim, faço questão de reforçar que a realização deste papel tem o potencial para ser uma das experiências mais extraordinárias da vida de alguém. Mas, ainda assim, pode estar recheada de dúvidas, traumas e dificuldades mil. Uma das mães que estava participando do grupo de estudo nos contou que, ao perguntar para a filha de 8 anos o que ela gostaria de fazer na vida adulta, se inquietou com a sua resposta: “Quero ser mãe!” Todas nós rimos, surpreendidas em um primeiro momento, e questionamos: “Com tantas alternativas no mundo moderno, como assim… ela quer ser mãe?!” Depois suspiramos solidárias, constatando nosso lugar de fala e entendendo que precisamos mesmo é de acolher nossas contradições. Ser mãe nem sempre é uma escolha, contudo, isto não diminui o valor e a beleza da maternidade. Então, feliz dia para a mãe-possível que você é. Feliz pessoa para a mãe-possível que você consegue ser!

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O originário que somos

Foto: Enawenê-nawê, durante a Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Mato Grosso, em 2019, de autoria de Wari’u (@cristianwariu), comunicador Xavante.
 
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Bernadete. Este era o nome daquela moça de cabelos coloridos, roupas consideradas extravagantes para a década de 1970, revolucionária, provocando perplexidade nas gerações mais conservadoras e atraindo os jovens com seu estilo musical contestador. Eu me lembro bem do dia em que Bernadete subiu ao palco, do clube da minha cidade, como Baby Consuelo. Éramos poucos fãs na plateia, mas todos muito engajados com a proposta de cantar um mundo justo, no qual nossas raízes seculares são reconhecidas.

Seus sucessos eram também de outros compositores para quem ela emprestava sua voz e dinamismo. Um deles, Jorge Duílio, mais conhecido como Jorge Ben. Juntos colocaram na boca do povo uma reflexão importante sobre o descobrimento do Brasil. Quem viveu naquele tempo de antena sintonizada com as contradições que os livros de história ensinavam nas escolas sabe bem o que significou “Todo Dia Era Dia de Índio”. Um protesto declarado contra um dado histórico equivocado. Uma crítica honesta sobre a supremacia branca eurocentrada. Uma música para sempre atual.

E qual não foi o impacto que a letra produziu em muitos de nós! Venho da época em que aprendíamos que a terra brasilis foi descoberta pelos portugueses e era inconcebível questionarmos essa referência. “Dia de índio” era um só: 19 de abril. Uma celebração datada de 1940 em alusão ao primeiro Congresso Indigenista Interamericano em que se discutiu pautas importantes sobre a realidade dos povos originários nas américas. Um dia apropriado pelo imaginário ocidental para conceder um lugar folclórico aos que eram, de fato e de direito, os donos da terra. Então, ressignificar a verdadeira dimensão daquela composição foi, ao mesmo tempo, libertador e fortalecedor, pois a ironia da música denunciava uma ruptura clara com a ideia do colonizador bonzinho e nos convocava à luta pela terra livre.

Batalha cada vez mais difícil que, além de dizimar milhões de indígenas de diferentes etnias no passado, continua minando sua resistência até o momento presente. E as táticas são praticamente as mesmas: armas de fogo, exploração sexual, disseminação de doenças, saqueamento de suas riquezas, catequização e aculturação. A presença do homem branco em seus territórios é sinônimo constante de devastação, legitimada pelo descaso do poder público para atender interesses econômicos e, muitas vezes, sob a tutela de organizações em missões ditas sociais. A canção já nos ensinava que os povos indígenas são “amantes da natureza, incapazes de maltratar uma fêmea ou de poluir o rio e o mar”, mas o ocidental parece não entender muito bem seu exemplo.

Admito que eu não tenho “lugar de fala” para discorrer sobre a luta dos povos originários, pois o pouco conteúdo que aprendi na escola foi enviesado e minha interação com eles limitadíssima. Contudo, também não vou ocupar o “lugar do silêncio”, pois acredito que deveríamos todos abandonar a crítica alheia para apoiar mais concretamente essa luta. E podemos fazer isso de maneiras diversas, começando pelo mínimo: resgatando o originário que nos habita! Simples assim, pois o termo “indígena” significa “natural do lugar que se habita”. Portanto, precisamos honrar nossas origens.

Nascemos em uma terra cuja pluralidade de etnias e a diversidade de saberes ancestrais são a base do seu patrimônio maior. O equilíbrio ecológico do planeta depende do nosso país e sequer reconhecemos a envergadura da missão dos povos originários. Há quem considere a bandeira ambientalista como “coisa de índio” e quem vive desqualificando parte significativa da nossa miscigenação ao se colocar contra a demarcação das suas terras. Falta-nos compreender que as questões socioambientais dizem respeito a todos nós e, a partir do nosso lugar, podemos apoiar a causa, valorizando a cultura indígena em todos os dias do ano.

Aldear a educação é um passo fundamental para descontruirmos nossa história e revelarmos seus verdadeiros protagonistas. Atestar a influência da cultura indígena no cotidiano da nossa culinária e sua presença na língua e na arte são formas de legitimar o originário em nós. Precisamos falar para as nossas crianças que a população indígena foi reduzida aos milhões, que suas terras continuam sendo invadidas, que os governos seguem precarizando as poucas estruturas que ainda restaram para protegê-los, mas precisamos insistir dizendo que tudo isso tem a ver com todos nós. Não apenas no tempo presente, mas desde antes e para sempre. É necessário mudarmos nossa postura na base.

Curumim, chama cunhatã que eu vou contar” uma coisa importante: Bernadete passou a ser Baby Consuelo e todo mundo entendeu muito bem que esta escolha representava sua persona artística. Depois, ela tornou-se a Baby do Brasil, e reconhecemos nisso a expressão significativa da sua brasilidade. Jorge Duílio se apresentava inicialmente como Jorge Ben, mas quando começou a fazer sucesso no estrangeiro, preferiu ser conhecido como Jorge Ben Jor justamente para marcar sua origem. E nós incorporamos rapidamente sua nova identidade porque é importante restaurarmos, inclusive por meio da linguagem, as concepções que melhor nos representam.

Entrar no novo registro é uma questão de reconhecimento e respeito e não apenas mera semântica. Por isso, é inaceitável que ainda se confunda Índio com Indígena e que se continue reduzindo sua existência a um lugar folclórico. Para ser honesta, nem penso que seja uma “confusão”. Persistir no termo “índio” me parece muito mais um projeto de desqualificação proposital, que reforça a discriminação étnica e nos afasta do originário que somos. Então, precisamos contar para curumins e cunhatãs que a luta indígena é também a nossa luta por um mundo que equilibra o sagrado e a terra que sempre nos acolheu.

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(Des)educando a alma

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Há alguns dias, um casal de pais estava conversando sobre educação dos filhos e compartilharam sua preocupação em relação à escola. No centro do dilema estava a dúvida: escolher um método tradicional em que as crianças aprendem, desde cedo, a sobreviver no “mundo real” ou adotar uma pedagogia construtiva que enfatiza sua formação psicossocial e emocional. Para eles, o “mundo real” é essa sociedade competitiva em que vivemos, repleta de cobranças e expectativas. A “escola tradicional”, no caso, cumpriria a função de preparar a criança para se tornar um adulto adaptado às exigências do mercado.

Ouvindo os argumentos do casal, pude visualizar o caminho que percorremos para chegar no mundo em vivemos atualmente. Mergulhei na conversa sem julgamentos. Mas uma inquietação tomou conta das minhas reflexões e conclui, com tristeza: como somos condicionados a enxergar as coisas de uma maneira que, especificamente, serve ao propósito da sociedade. Sequer questionamos esses propósitos, nem o que pretende de nós a sociedade. Simplesmente somos educados para seguir adequando nossas habilidades e força de trabalho para a manutenção daquilo que alguém (ou alguéns) acredita ser o ideal. Ideal para quê?

Claramente, os pais procuram fazer o que é melhor para seus filhos. Queremos que sejam felizes e que se encontrem no caminho. Incentivamos seu crescimento e acompanhamos de perto o desenvolvimento deles, em todos os sentidos. Alguns, mais protetores, outros com mais autonomia. Uns com mais recursos, e uma grande parcela, do jeito que é possível. Mas o objetivo é o mesmo: que o mundo tenha um lugar reservado para nossos filhos.

A questão que bagunçou meus pensamentos ao longo daquela conversa, no entanto, foi essa: que mundo é esse que queremos para nossos filhos? E a minha resposta apontou para uma lógica completamente controversa. A realidade que vivemos nos dias atuais é fruto de uma educação que nos condicionou a seguir regras. Embora tenhamos avançado em tecnologia e no campo da ciência, saindo da idade das cavernas e aprimorando nosso conhecimento, garantimos pouco espaço para a criatividade e menos ainda para as emoções.

Por alguma razão (ou várias), falimos na tarefa de trazer cor e som para a nossa alma e a iluminação depende disso. Deixamos de oxigenar o pensamento com o perfume da paixão pela vida para batermos continência ao relógio da empresa. E aqui, vamos entender o sentido metafórico desta ideia: nos tornamos marionetes e seguimos dedicados a preparar nossas crianças para esta mesma função.

Com um pouco mais de argumentos, o casal parece ter se convencido de que a escola ideal é aquela que (des)educa a alma da gente. Que permite ampliarmos nossos horizontes para conhecermos novas realidades. Melhor ainda, é aquela que nos incentiva a transformar a sociedade e, mesmo que seja por uma frestinha, que abre caminhos para escaparmos da mediocridade e enriquecermos nosso ser como um todo, por meio de outras perspectivas e explicações sobre a vida que sejam, no mínimo, menos discriminatórias e menos limitantes.

Reconhecemos como hipótese razoável o fato de sermos dotados de potencial para alcançar outros mundos dentro do nosso. Mas teimamos em ensinar nossas crianças as fronteiras que as mantém aprisionadas porque, talvez, nós mesmos estejamos engaiolados em nossos paradigmas.

Este mesmo casal relatou uma situação que me deixou ainda mais inquieta. Na saída de shopping, a mãe foi abordada por um suposto psiquiatra sugerindo medicar seu filho porque ele estava “alegre demais” e parecia “agitado”. Pois então, é compreensível que os pais se sintam perturbados com o futuro dos filhos, pois o mundo não está configurado para acolher a natureza das crianças e a palavra de ordem é moldá-las dentro dos limites da sociedade. E para isso só há uma resposta possível: resistência!

Precisamos, devemos e podemos provocar uma rebelião pacífica (mas não passiva!) para libertarmos as crianças dos nossos próprios medos e encorajá-las a desconstruir o mundo que criamos. Há tantas propostas inovadoras hoje em dia que extrapolam os muros escolares. Não é necessário restringirmos essa revolução às instituições de ensino. É nosso papel, como pais, educadores, cidadãos do mundo, buscarmos a transformação indispensável na formação dos filhos. Quem sabe, assim, a alegria nunca será vista como sendo demais.

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Pais, coragem

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É provável que muitas pessoas ainda se lembrem ou, pelo menos, tenham ouvido falar da telenovela “Irmãos Coragem”. Escrita por Janete Clair, ela foi exibida entre 1970 e 71 para narrar a luta de 3 irmãos contra a opressão. Na época, a música de abertura era cantada por Jair Rodrigues e encorajava a busca pela liberdade: “E os campos se abriram em flor / E é preciso coragem / Que a vida é viagem / Destino do amor / Abre o peito coragem, irmão! / Faz do amor sua imagem, irmão! / Quem à vida se entrega / A sorte não nega seu braço e seu chão.”

A trama retratava alguns conflitos familiares e tocava nos obstáculos das relações amorosas, mas o título desse folhetim ficou mesmo registrado no inconsciente coletivo por trazer, como ponto central, a ideia da bravura da alma na superação das adversidades e na ruptura da condição de subjugo. Em associação imediata, passamos a usá-lo como referência para quem anseia pela independência, autonomia, justiça e liberdade. Claro, tudo isto misturado com uma boa dose de determinação.

Os anos se vão e, tenho certeza, continuaremos recorrendo a esse patoá, apenas substituindo “irmãos” por outra categoria de interesse da coragem. E foi assim que, muito recentemente, uma amiga e eu concluímos nossa conversa sobre filhos: Mãe coragem! O mais interessante é que, naquela mesma semana, havia tratado deste assunto com um outro amigo, pai de dois adolescentes: Pai coragem! Nos dois casos, a questão debatida era: em que momento passamos a tratar “nossos” filhos como “adultos”? Seria isso possível, na qualidade de “pais” cuidadosos e dedicados?

Nenhum deles duvida do fato de que o desenvolvimento dos filhos se dá gradativa e processualmente. É inegável que as crianças crescem e se tornam adultas em algum momento da sua trajetória. Do ponto de vista biológico, observamos as transformações no corpo delas e, já tendo passado por essa metamorfose, podemos até nos arriscar e predizer o que vem depois de cada mudança. Eles vão se modificando diante dos nossos olhos, mas nem sempre nosso coração reconhece o salto físico. Não que tentemos negar essa evolução, apenas deixamos isto de lado porque estabelecemos relações afetivas com os filhos e elas se tornam a nossa principal referência.

Do ponto de vista psicoemocional, moral e intelectual, entretanto, também nos tornamos capazes de suspeitar, efetivamente, como está ocorrendo o desabrochar dos filhos. Acompanhamos o nascimento de diferentes lógicas e afetos e como isso tudo vai incitando neles determinados comportamentos e reações. Eventualmente, nos enganamos, mas o lapso faz parte da “brincadeira” de parentar. O antídoto é estarmos atentos aos sinais e nos colocarmos na humilde posição de aprendizes, pois cada experiência é única e nossos filhos não crescem da mesma maneira (nem forma!) que nós.

A reflexão, então, talvez se concentre mais no significado concreto do “des-envolver-se”. Sim, há um jogo de ideias importante aqui: esta palavra sugere crescer, progredir, criar, aprimorar. Sinônimos que apostam na capacidade dos nossos filhos de irem além e que partem do pressuposto do potencial que eles carregam para essa tarefa. Na bagagem há, inquestionavelmente, o sentido de propagar, multiplicar, gerar novos caminhos, conteúdos, formas, conceitos, pensamentos, hábitos, desejos. Desenvolvimento é isso mesmo: desenrolar, prosseguir, estender. E também pode ser entendido como desembrulhar, desempacotar.

É lindo pensar que nossos filhos são como um presente do universo que vem embrulhado em diferentes versões, de acordo com uma infinidade de variáveis. Nós só precisamos ir desembalando delicadamente para não estragar o papel e preservar o máximo possível a integridade da sua alma. Somos designados pais, e não proprietários. Assumimos o compromisso de tutelar seu desabrochar, e não de restringir suas experiências. Cada pacotinho que chega nos convoca a descobrir como devemos desapertar o laço e nos cabe o exercício permanente de empurrá-los para fora do ninho (o que não significa expulsá-los de casa ou de nossas vistas).

Entretanto, é um equivoco pensarmos que ensinamos a voar sem que, nós mesmos, saibamos bater as nossas asas. Da mesma forma, confundimos o processo natural do “deixar-ir” quando super protegemos a cria. Geralmente, nos apoiamos na fantasia de que os filhos não suportariam cortarmos o cordão umbilical. Concordo que essa pode ser uma dificuldade real, mas o desafio é, na maioria das vezes, mais assustador para os pais do que para as “crianças”.

Sempre me lembro do bordão “pior que pai bravo, é pai bonzinho” e entendo que no primeiro está implícita a alteridade necessária para estimular os filhos a se individualizarem, enquanto que, no segundo, residem os medos e anseios próprios pais, que limitam o distanciamento saudável e restringem a autonomia dos filhos. E, por favor, não vamos confundir “bravo” com violência, nem “bonzinho” com amorosidade ou “alteridade” com autoritarismo. A ideia por trás do ditado é que sejamos habilidosos para colaborar com a ruptura da casca, fazendo nossos filhos enxergarem as janelas abertas.

E recorrendo ao que se cantava na abertura do folhetim, vale reforçar que a vida é mesmo uma viagem. Para que nossos filhos possam desfrutar das suas oportunidades, nós, pais, precisamos devolver ao mundo o presente que esteve sob nosso cuidado amoroso. É fundamental acreditarmos (e fazermos nossos filhos acreditarem) que a “sorte” está no caminho para sustentar essa entrega. Portanto, temos que ser “pais coragem” ou melhor dizendo: coragem, pais! Pois é preci(o)so termos um coração valente para deixarmos crescer a vida também fora de nós.

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Dororidade e sororidade

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Dororidade e sororidade. Dois termos, duas faces da mesma moeda. Luta de uma vida inteira para manter em pé de igualdade o modo de existir em nossas sociedades. Dois conceitos cunhados em épocas diferentes por causa de uma necessidade em comum: colocar-se no lugar do outro para sentir a sua dor e, no ato de genuína empatia, solidarizar-se com a sua caminhada. O princípio é fundamental e elementar: é preciso dororidade para se praticar a sororidade.

Mas, não, este não é um texto teórico sobre o movimento feminista, embora os conceitos sejam muito frequentemente repetidos nesse contexto. Eles nasceram da luta das mulheres que reivindicam, desde sempre, seus direitos primordiais. Sororidade veio primeiro, como um fio que alinhava nossas fragilidades e forças em um bordado que estampa os desafios e as conquistas de sermos mulher neste mundo forjado pelo patriarcado. É a irmandade (“soror” significa “irmã”) que assegura a travessia no enfrentamento do cotidiano e celebra a ruptura com as bordas da sociedade. É a união cultivada para colocar no centro das atenções a coletividade.

E porque nem sempre existem palavras capazes de enunciar a realidade de muitos e o sentimento e o sentido do que tem para ser nomeado, dororidade surge como arremate dessa costura. “É a dor que se transforma em potencia”, explica Vilma Piedade, ativista que deu a luz ao termo. É a ponte necessária para transitarmos pela história da humanidade, reconhecendo que, muitas das vezes, seus pilares foram ameaçados pela correnteza da ignorância, do estigma, da quase total falta de civilidade, causando as doenças do “ismo” (racismo, sexismo, machismo, fascismo).

Juntos, dororidade e sororidade mostram que não há métrica para o sofrimento. Dor é dor e ainda que ela seja relativizada, provoca estragos inconfundíveis. A dor do outro não é maior ou mais intensa, nem menor ou menos importante. É dor que dói, e confessa algo que está fora da ordem e sobrecarrega a alma. Dororidade e sororidade germinaram no ventre do movimento feminista, mas peço licença à irmandade para misturar as causas e dizer que ambas são necessárias para defendermos a humanidade em todos nós, independente da bandeira que levantamos. Vivemos um mundo carente de grandes doses de empatia e solidariedade.

Deveríamos generalizar a dororidade e amplificar a sororidade, consertando as rachaduras sociais. E não se trata de remendar buracos em uma sociedade construída sobre valores distorcidos. É necessário um novo projeto em que a base seja o princípio da igualdade, da amorosidade e tudo que acompanha estes axiomas. Outro dia ouvi alguém falando que nem tudo é dialogável, mas acredito que precisamos, no mínimo, questionar as verdades sobre nós. Afinal, aprendemos a agir de acordo com o nosso meio e isto significa que podemos aproveitar as inúmeras oportunidades para mudarmos nossos paradigmas.

Nossa natureza é de constante movimento. Se sairmos de nossas relações do mesmo jeito que entramos, então, talvez, não tenhamos efetivamente nos conectado com o viver em sociedade. Sermos transformados por essas interações não é um risco que corremos ao andarmos soltos por aí. É um fato indiscutível, simples assim. Só nos cabe reconhecer que tipo de mudança permitimos que elas provoquem em nós para permanecermos atentos ao seu reflexo na maneira como agimos. O efeito colateral dos valores praticados no mundo afeta diretamente nossa estrutura, mas o inverso é verdadeiro. Somos protagonistas do que acontece ao nosso redor.

De novo, esse não é um texto feminista e a intenção é convocar a consciência para matutarmos um pouquinho sobre a importância de aprendermos, ensinarmos e praticarmos a dororidade e a sororidade desde pequenos. É na família, em primeira instância, que moldamos nossa visão de mundo e, em seguida, é para a escola que levamos esses valores e desenvolvemos a nossa base.

Portanto, todos nós – pais, educadores, cidadãos – temos o compromisso de combater o “mal do ismo” em sua raiz, pois os acontecimentos que andam tomando conta das sociedades afora evidenciam o agravo da segregação étnico-racial, reforçada pela internalização e reprodução da ideologia da superioridade branca-ocidental e heteronormativa. Vivemos apartados por categorias, seguindo uma lógica de dominação que inclui falar e decidir no lugar do outro e naturalizar os estereótipos. A urgência da transformação é clara, mas como insiste Edgar Morin, reformar a vida só é possível em comunidade. Precisamos de um “nós” que represente a diversidade da alma humana.

Entre o feito e o percebido, entre o falado e o escutado, entre o pensado e o sentido, entre o desejado e o realizado existem infinitas possibilidades que podem se configurar como tragédia ou libertação, como discórdia ou convergência, como confronto ou aceitação. Cabe a cada um de nós pensarmos na teia em que vivemos, reconhecermos nossa profunda conexão e agirmos – individual e coletivamente – para suprimir as tensões. É preciso dororidade e sororidade para coordenar a desconstrução do mundo e equilibrar suas relações de forças em uma dimensão verdadeiramente ética e política.

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Para que serve o horizonte

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Dharamshala é uma cidade localizada no estado de Himachal Pradesh, no distrito de Kangra, norte da Índia e encostas do Himalaia. É conhecida por acolher a população tibetana no exílio, em McLeod Ganj (a famosa “Little Lhasa”), onde fica um importante monastério budista. Ali, o Dalai Lama costuma proferir seus ensinamentos às milhares de pessoas que estão buscando o “caminho da budeidade” ou, trocando em miúdos, o “caminho da iluminação”. É isso: Buda significa “um ser iluminado” e acredita-se que, ao seguirmos suas recomendações, desenvolvemos a compaixão e atingimos níveis sutis de onisciência.

Bem, cada religião tem um Ser iluminado como referência e uma série de preceitos para pautar a evolução moral dos seus seguidores, mas esta é uma discussão que dispensa muitas linhas. Basta entendermos que precisamos todos ampliar nossos horizontes, então não faz diferença qual luz pisca no final do túnel, desde que ela venha do farol da consciência plena e que nos estimule às virtudes elevadas. Porém, já que para tudo tem um entretanto, é necessário termos clareza sobre o que significa essa coisa de “limiar dilatado”.

Seu sinônimo? Horizonte. Literalmente provido de muitos sentidos e direções, associado àquela linha imaginária entre o céu e a terra. Um traço distante no oceano que captura nossas fantasias e utopias e nos faz remar incansavelmente, na expectativa de revelar que a missão foi cumprida. Na prática, esta é uma satisfação inalcançável, pois as missões são, na verdade, compridas. Ainda assim, o risco que parece fundir o espaço em um grande território sem começo, meio ou fim, configura nosso campo visual para continuarmos acreditando que um dia chegaremos lá, onde quer que seja. E dá-lhe remar, caminhar, desbravar, e vencer a malemolência perturbadora que ameaça o fluxo natural da vida: existir eternamente sendo.

Há muitas formas de nos relacionarmos com o horizonte e nem acho que seja necessário explorarmos nossas crenças filosóficas ou religiosas para concordarmos com o básico: qualquer linha imaginária é vista exclusivamente a partir de um determinado ponto. Isto significa relatividade absoluta, impermanência, mudança constante. Nesse sentido, nada pode ser concebido como estático, concretamente fixo e impermeável. Então, em assim sendo, para que serve o horizonte?

Ele deixou de ser um lugar simbólico para se converter em uma perspectiva na qual depositamos muitos dos nossos desejos e sonhos. Ele extrapolou o real que nossos olhos alcançam e entrou para a esfera do imaginário, indeterminado pelas incontáveis oportunidades e indescritíveis possibilidades. Simplesmente, o horizonte deixou de ser um lugar onde chegamos, para se manifestar também dentro de nós. Ele equivale à uma crise (de qualquer categoria!), que cumpre o mesmo papel: promover o deslocamento e o alargamento do nosso Ser.

Cada pessoa tem um horizonte para chamar de seu e atribui a ele sentidos particulares, mesmo sabendo que ele desponta igualmente para todos nós. Porque é mais ou menos assim: o horizonte é múltiplo e existe para todos, mas nós o vivenciamos dentro da nossa unidade. Entender isto na prática nem sempre é evidente. Nossas experiências de vida emitem sinais constantes de alerta, mas insistimos em ignorar a lição, principalmente quando ela parece óbvia demais. Há uma tendência em julgarmos o aprendizado pela complexidade da prova. É até compreensível, pois quando o desafio é maior, sua superação aguça as nossas potencialidades. Mas o fato é que podemos experimentar o horizonte em situações simples.

E nada melhor do que um relato em primeira pessoa para tornar esse falatório todo mais palatável. Um acontecimento corriqueiro que resume a matéria toda: depois de vários dias participando dos ensinamentos do Dalai Lama em McLeod Ganj, resolvi aproveitar a manhã ensolarada para conhecer um tal de “café da cachoeira”. Uma trilha maravilhosa, cheia de árvores, com micos pulando entre os galhos e pássaros cantando, saía do ponto mais alto do vilarejo e indicava que a subida seria bastante puxada. A linha do horizonte estava bem distante e calculei um bom tempo de caminhada. Mas tudo o que desejava era tomar um café naquilo que soava como um paraíso natural.

Sobe, desce, sobe, desce, sobe, sobe, sobe  e nada do café. Já havia percorrido quase duas horas de trilha montanha acima e estava a ponto de desistir quando encontrei a primeira placa indicando: café da cachoeira à frente. Que alegria; o horizonte se aproximava na direção certa, afinal. Sobe, desce, sobe, desce, desce, e depois uma forte subida por mais de meia hora até avistar a segunda placa. Parei para descansar, cogitando encerrar a aventura. Àquela altura, estava certa de que a linha do horizonte tinha mudado de lugar, mas avancei confiante, acreditando que o café estaria perto. Durante mais uma hora de trilha, fui testada algumas vezes pelas placas. Mas prossegui até encontrar uma tenda com um fogareiro no chão, ao lado de uma nascente praticamente congelada, por onde vertia o filete de água chamado de cachoeira. E não tinha café, apenas chá.

Sentei na rocha para apreciar o lugar e conclui: é isso, o horizonte serve para desafiar a nossa teimosia em buscar o permanente, em nos apegarmos à crença de que tudo que se movimenta não é verdadeiro. O horizonte é um “para além” infinito, com muitas horas de trilha, morro acima e abaixo, que traz o convite curioso do descobrimento daquilo que pode ser, sem que o saibamos. É o próprio caminho da budeidade, que nos coloca frente à inquietante constatação do sempre inatingível e escancara a alma para a sutileza do desgarramento. Ele nos lembra que o mais importante é exatamente o acontecer entre aqui-e-lá.

O horizonte nos ensina que é impossível vivermos nessa pós-modernidade líquida tentando contrapor a natureza do nosso eterno vir-a-ser. É a luz que ilumina a necessidade de nos libertarmos do pensamento domesticado pela lógica do existir-permanente. Ele nos faz entender que, mesmo dentro da nossa pequenez, não somos alguém comezinho. Ao contrário, também somos o horizonte de alguém e como disse Gadamer, filósofo alemão, “adquirir um horizonte significa aprender sempre a ver além do que está próximo”. Esse exercício, quando coletivo, é transformador e é também para isso que serve o horizonte.

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Privilégio em primeira pessoa

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Venho participando de um grupo de estudos sobre pensadoras latino-americanas e as reflexões geradas pelas leituras e debates neste espaço caíram como uma bomba sobre o meu mundo encapsulado. A redoma de vidro trincou e nada mais ficou no mesmo lugar desde o primeiro texto discutido. Ainda que eu me considerasse uma cidadã consciente, crítica, responsável e atenta ao modus operandi da sociedade, fui tomada por uma avalanche de constatações que tiraram a pretensa paz de espírito e sacudiram minha alma revolucionária. Então, fiquei pensando no tanto e em como é importante abandonarmos nossa zona confortável de privilégios para assumirmos, em primeira pessoa, o compromisso de transformar o mundo ao nosso redor em um lugar de bem estar para além do nosso umbigo.

Também fiquei refletindo sobre o quanto esse tipo de colocação se tornou um clichê e permeia certos grupos de pessoas que, assim como eu, acreditam que percebem as desigualdades sociais, a disputa de poder entre grupos de interesse e as injustiças praticadas nas diferentes instâncias da sociedade. Repetimos, frequentemente, que é preciso rompermos a nossa bolha e agirmos coletivamente, mas nossas palavras, muitas das vezes, estão calcificadas e não provocam movimento nenhum em nós mesmos. Não saímos do lugar (de privilégio). Em outros momentos, jogamos esse tipo de pensamento ao vento de forma aleatória, na tentativa de reproduzi-lo em larga escala, sem agirmos concretamente. Queremos que os ventos gritem nos ouvidos dos outros enquanto nós mesmos mantemos nossa escuta centrada apenas naquilo que nos interessa alcançar.

Alguns de nós não fazem a mínima ideia da realidade em que vivemos, embora, assim como eu, se consideram conhecedores ou conhecedoras dos problemas que arrastam o mundo para o caos. Queremos denunciar o flagelo humano, mas sequer reconhecemos o nosso lugar de fala e perdemos a noção tangível da distância que nos separa dos perrengues dos outros. Assim como eu, são pessoas que pensam ter clareza do seu papel e até procuram desempenhá-lo de maneira potencializada para impactar seu entorno, mas, ainda assim, ignoram suas concepções eurocentradas, baseadas na supremacia branca.

E se até aqui o cenário sugerido parece irreal ou simplesmente descontextualizado, façamos o esforço da objetividade: nós ocupamos, sim, um lugar de privilégio, sem nos darmos conta de que ele foi construído às custas do apagamento de outros lugares e, por mais que acreditemos ter alguma consciência disso, nem sempre nos dispomos a abrir mão dos nossos benefícios para operar a renovação que o mundo demanda. Des-cobrirmos o véu do idealismo que vestimos ao olharmos as coisas que acontecem embaixo do nosso nariz pode ser um choque e tanto porque nunca nos imaginamos como opressores. Na maior parte do tempo, nos identificamos com o lugar do oprimido. Somos ingênuos ou talvez levados a acreditar realmente na imparcialidade dos nossos atos (falhos).

Há quem possa argumentar que a nossa postura diante dos fatos decorre da educação tendenciosa que recebemos desde sempre. É impossível discordar disso, reconheço. Aprendemos como as coisas são e funcionam pelos olhos de outras pessoas que também aprenderam com outras pessoas que… sabe-se lá até onde remonta essa cadeia de copia-e-cola, não é mesmo?! Naturalmente, vamos perpetuando os olhares, mesmo quando eles são filtrados por interesses particulares e estão infiltrados por valores contrários à garantia dos direitos universais. A força das crenças socialmente construídas é efetiva e nos submete aos paradigmas, sem muito ou nenhum questionamento. É no andar dessa carruagem que organizamos nossas instituições (escola, família, Estado etc.), estabelecemos normas e leis, ditamos padrões estéticos e culturais e por aí vai.  Dessa maneira, estruturamos e legitimamos o preconceito, o racismo, a desigualdade e por aí segue.

Ocorre que mudar a lente dos nossos óculos, mesmo que seja de forma gradativa, é necessário e possível, desde que estejamos dispostos a olhar nossos próprios preconceitos, medindo a força de opressão que praticamos nas relações que mantemos. Usamos o lugar de privilégio para consolidar nosso status social de forma tão sutil que, muitas vezes, passa despercebido por nós. São microações (uma piada, um jeito de falar, um termo, um rótulo, uma opinião ou forma de pensar etc.), mas a falta de compreensão sobre a inflexibilidade que isso gera em nós reforça nossas atitudes e limita nosso repertório comportamental diariamente. A dinâmica social fica, assim, comprometida como um todo.

Alguém me disse que o mundo tem mazelas demais para nos apegarmos aos pequenos detalhes daquilo que a sociedade nos impõe porque “sempre foi assim e é difícil mudar alguma coisa”. Isso é inaceitável! Basta um rápido resgate histórico para entendermos como as circunstâncias são minuciosamente delineadas para impedir a mobilidade social. E somos nós mesmos que fazemos isso, mesmo usando como desculpa nossa herança cultural e social de maneira fatalista. Somos nós que restringimos as expectativas sobre as pessoas e as oportunidades concedidas a elas pela estrutura que criamos.

Assim como eu, tenho a certeza de que muitos outros pais e educadores desejam que as próximas gerações cresçam em um mundo onde os privilégios sejam compartilhados igualmente e de forma equânime. Precisamos de uma sociedade em que possamos admitir, em primeira pessoa, nossas falhas históricas e repará-las também em primeira pessoa. Por isso, ao me dar conta do privilégio que é poder traçar essas linhas e acessar pessoas que, igualmente, estão dispostas a fazer a autocrítica e a criar caminhos para rompermos as nossas bolhas, me sinto animada a fazer o convite: bora expandir nossas ações também para a primeira pessoa do plural!

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Do vinil ao streaming

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Alguns dias atrás, li um pequeno anúncio questionando a lógica de uma plataforma que traduzia algumas profissões como sendo supostamente masculinas ou femininas: o médico, em vez de a médica; a enfermeira, em vez de o enfermeiro. Há algum tempo já vinha reclamando sobre isso com várias pessoas, mas sempre ouvia a mesma justificativa: é o programa que desconhece o pronome indefinido. Às vezes, fico me perguntando se o programa não é apenas o espelho do humano que o desenvolveu e, portanto, somos nós que não reconhecemos as múltiplas possibilidades do existir.

Convenhamos, o mundo se transforma apenas se modificarmos a nós mesmos. Podemos avançar tecnologicamente, passear no espaço, inventar o que for e, ainda assim, carregamos em nossa bagagem valores e ideias que moldam a forma como concebemos nosso universo simbólico e material. Assim, a tarefa simples de traduzir uma frase com a ajuda de um aplicativo pode revelar séculos de dominação do patriarcado sem nos darmos conta do que isso representa no dia a dia da sociedade. Os algoritmos estão aí para “nos colocar na linha”, mas há quem pense que fazer esse tipo de constatação é procurar chifre em cabeça de cavalo. Uma dessas pessoas me disse que o mundo já tem problemas demais para convertermos essa questão em um cavalo de batalha. Mas, no caso, tenho para mim que seria um cavalo cheio de chifres de verdade e não um unicórnio fantasmagórico.

O fato é que estamos tentando delinear novos contornos para as nossas sociedades e é fundamental nos atentarmos para todas as variáveis que perpetuam as relações de forças, buscando trazer reflexões sobre como elas reproduzem verdades que nos levam ao preconceito e estimulam a discriminação. Um aplicativo comum de tradução pode servir de meio para repensarmos nossas posturas e, na qualidade de pais e educadores, temos o compromisso de olhar isso sempre de perto. Como dizem os sábios: “de pequenino é que se torce o pepino”. Portanto, mãos à obra e atenção ao tipo de ferramenta que dispomos para apreendermos o mundo.

É quase assustador ler o relatório da PwC – uma rede internacional de consultoria e auditoria – afirmando que o consumo global de dados na internet aumentou mais de 30% em 2020, quando comparado ao ano anterior. Nessa estatística estão considerados todos os tipos de uso: educação, lazer, trabalho profissional, serviços em geral. É um aumento significativo e até podemos assumir que isto seja uma provável resposta ao contexto global em que estamos vivendo. Por outro lado, trata-se de uma tendência em crescimento permanente e de forma cada vez mais intensa e acelerada. Isto é inegável!

Se passamos lentamente do gramofone para as vitrolas, foi em muito menos tempo que começamos a rebobinar a fita cassete com a ajuda de uma caneta e mais rapidamente ainda entramos na era dos CDs. No piscar dos olhos, fomos introduzidos ao mundo dos streamings e, praticamente, nos mudamos para as nuvens. Hoje, esse espaço virtual tornou-se uma espécie de cofre seguro em que depositamos todas as informações valiosas que queremos proteger. Subimos o essencial para a nuvem, sempre confiando que, em algum lugar do planeta, um provedor potente vai tomar conta de tudo por nós.

Nossa dependência tecnológica vem se acentuando e parece não ter retorno. Dificilmente as pessoas voltarão a enviar cartas pelo correio, raras são aquelas que ainda usam máquinas de fotografia com filme de rolo, poucas mantêm aparelho de telefone fixo em casa, e por aí vai. Chega a ser impensável nos mantermos longe dos dispositivos que nos conectam em tempo real com quase absolutamente tudo e todos. Quer dizer, se estivermos inseridos na parcela privilegiada da população com fácil acesso à internet, o que torna tudo isso ainda mais complexo de ser repensado. Avançamos na modernidade e continuamos dinossauricamente reproduzindo as desigualdades sociais. As oportunidades de uso da tecnologia são restritas e economicamente seletivas.

Tentava amadurecer isso tudo na minha cabeça quando me deparei com uma situação muito peculiar, ao acompanhar um ecocardiograma. A médica em questão manejava o aparelho com tamanha agilidade que chegava a ser até engraçado. Eram muitos botões e inúmeros cliques com apenas uma das mãos, enquanto ela segurava sobre o tórax do paciente o que parecia ser um joystick. No final do exame, ousei perguntar se ela costumava jogar videogame e, rindo, foi logo respondendo: Sim, a vida inteira! E esse painel lembra aqueles videogames sofisticados, né?

Sim, totalmente, pensei eu, me lembrando imediatamente do relatório da PwC que apontava também que os games estão entre os dados cujo consumo cresce mais rápido. Não há área, do supérfluo ao indispensável, que tenha deixado de ser afetada direta ou indiretamente pela tecnologia. Mergulhamos de cabeça nesse universo, mas isto, por si só, não pressupõe um problema. A questão central aqui é o quanto nossos olhos estão vendados neste mergulho: se ignoramos as ideologias por trás dos programas e dos algoritmos, se menosprezamos sua capacidade de produzir desigualdades digitais, se a usamos como estratégia de dominação ou de alienação ou, ainda, de cooptação. São essas ameaças que precisam ser identificadas e combatidas.

Temos um compromisso intergeracional de tornar o mundo – concreto ou virtual – um espaço de bem viver. E, neste exercício, não basta sermos inclusivos, precisamos ter equidade. Não basta sermos sustentáveis, é necessário sermos justos. Não basta termos valores, é fundamental aplicá-los eticamente. Não basta dialogarmos, é imprescindível mantermos uma comunicação militante. Não basta expressarmos empatia, temos que partir do básico: engajamento coletivo e político.

Termos consciência das artimanhas ideológicas do mundo digital é apenas um passo. Coexistirmos na contemporaneidade depende tanto da nossa capacidade tecnológica quanto psicoafetiva para fazermos a transição entre os mundos e liderarmos a transformação social necessária em primeira pessoa. Portanto, não nos deixemos seduzir pelos encantos e facilidades que as inovações nos apresentam e, tampouco, nos iludir pelos algoritmos.

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Mulheres que Iluminam o Mundo – versão em português

A versão em português do livro Mulheres que Iluminam o mundo já está disponível no site para download gratuito:

https://mulheresqueiluminamomundo.wordpress.com/

Mas vocês também podem ler a versão flip (online) pelo link abaixo:

https://www.flipsnack.com/EurekaMiolomole/mulheres_port_27jul.html

Além de revelar o cotidiano das mulheres em diferentes culturas com textos informativos e poéticos, o livro está repleto de imagens belíssimas que mostram aspectos particulares em cada país (e são 17 países na África e Ásia!).

O livro foi organizado por mim, em parceria com a Andréa Bomilcar, do Instituto Rizoma, e uma Rede de pessoas maravilhosas (27 autoras e 30 pessoas no apoio logístico e técnico). Esta obra acabou de ser lançada pela Editora Eureka e já tem a versão em inglês disponível também, no mesmo site.

Boa  leitura!!

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Interessados… pero no mucho!

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A melhor situação possível é quando o universo oferece algo interessante, que seja também do interesse do interessado. Pode parecer um simples jogo de palavras, mas cada uma delas carrega um mundo complexo de possibilidades e, ao serem colocadas lado a lado, formam um grande desafio. Demasiado clichê? Não, mas bastante comum para quem trabalha com educação ou tem filhos. Atingir esta confluência no cotidiano significa vencer os mais diversos conflitos: alunos desmotivados com os estudos, educadores insatisfeitos com suas funções, filhos reclamando das decisões dos pais. A lista pode ser longa, mas nem precisamos nos estender muito para compreender o ponto central aqui.

No final do terceiro bimestre letivo, a mãe foi convocada pelo coordenador pedagógico do ensino médio para conversar sobre o comportamento do filho nas aulas de física e química. O aluno, tido como desinteressado, passava a maior parte do tempo lendo outros materiais. Ocorre que ele planejava prestar o vestibular no mês seguinte, para a área de ciências sociais e humanas, na melhor faculdade do Brasil que oferecia o curso do seu interesse, e aquelas matérias não estariam incluídas na prova. O jovem, então, aproveitava o tempo dessas aulas para estudar, silenciosamente, os conteúdos das outras áreas.

Para o coordenador, mesmo que o aluno já tivesse notas suficientes para ser aprovado no colégio, física e química eram interessantes para outros vestibulares. Dessa forma, o interessado estava sendo intimado a participar igualmente de todas as aulas, pois se não passasse naquela faculdade desejada, teria que prestar outras instituições com exames genéricos, incluindo tais matérias.

É certo que o aluno não estava inspirado a se colocar de frente e por inteiro nas aulas de física e química. Aquele conteúdo já havia sido vencido em dose suficiente para garantir sua aprovação no ensino médio e deixou de ser útil, simplesmente perdeu a relevância. Ao contrário do coordenador, o interessado tinha total confiança de que seria aprovado também na faculdade de seu interesse e estava decidido a estudar apenas aquilo que considerava interessante para garantir isso. Quanto conflito de interesses! O que a mãe poderia dizer ao coordenador nesta situação?

Mas o final dessa história é dispensável. O que vale aqui é pensarmos como determinamos o que deve ou não ser interessante em nosso sistema de educação, seja formal ou informal. Dizer que algo é interessante pressupõe uma série de elementos considerados dentro de uma lógica específica. Isto é, sugere que alguém está decidindo parcialmente o conteúdo a ser consumido como padrão generalizado. No caso, a escola seguia os parâmetros curriculares criados para que os alunos pudessem passar em qualquer vestibular. A base é a mesma para todos e não há espaço para acolher interesses particulares.

Do ponto de vista do sistema, é até compreensível esperarmos que os interessados assimilem, naturalizem e reproduzam o que decretamos como interessante. É realmente complicado atendermos as aspirações de diferentes pessoas no contexto coletivo. Acabamos nivelando as demandas ou, mais do que isso, doutrinamos os interesses para garantir melhor o funcionamento da engrenagem social. Então, é provável que uma mãe “conservadora” defendesse aquele coordenador e exigisse do filho igual atenção em todas as matérias, mesmo que isto custasse o interesse do jovem. Poucos métodos pedagógicos e um grupo muito reduzido de famílias valorizam, de fato, as peculiaridades no processo de aprendizagem.

Somos tão condicionados a seguir manuais, tanto na educação formal quanto na informal. Outro dia mesmo, conversava com uma mãezinha de primeira viagem preocupada com sua filha e que tentava comparar sua evolução com a descrição disponível nos livros de pediatria. Evidente que existe um desenho considerado “normal” na tabela do desenvolvimento, mas cada criança tem seu próprio ritmo, interesse e potencial. Não podemos impor que todos os alunos estudem física e química no mesmo nível, nem que todos os bebês sigam rigorosamente a curva de crescimento desejada pelos pediatras. Há que se garantir espaço para a expressão das características individuais e isto cabe a nós, pais e educadores.

Promover uma educação responsável, autônoma, inclusiva, solidária e democrática, colocando o interessado no lugar de protagonista do seu processo de tornar-se é tarefa primordial se quisermos realmente transformar nosso planeta em um lugar amoroso. Claro, ninguém dorme em um mundo de provações e acorda no paraíso. Essa transição é um trabalho diário, demanda paciência. E a paciência vem de mãos dadas com a persistência. Mas é preciso ter clareza e honestidade sobre os interesses que estão sendo colocados à frente desta caminhada antes de convidarmos o interessado para o nosso mundo de conveniências. Na verdade, nossa primeira tarefa como pais e educadores é tonar este mundo realmente mais interessante, capaz de promover experiências genuínas porque incentivamos nossas crianças a escolherem seus destinos com o coração e a percorrerem o caminho com afeto, sem nos preocuparmos com os manuais e as teorias formadoras de modelos a serem seguidos.

Não há formulas ideais para isso, mas na impossibilidade de sermos “a escola que sempre sonhamos, sem imaginarmos que pudesse existir”, como diria o nosso querido educador Rubem Alves, podemos criar outras pontes para facilitar a travessia dos nossos filhos. Podemos acompanhá-los atentamente enquanto desenham sua curva particular de crescimento e incentivá-los a encontrar seu próprio caminho. Podemos apoiá-los quando definirem seus sonhos como sendo interessantes, protegendo seus interesses e garantindo que outras matérias, para além da física e da química, possam “equipá-los para a vida”.

Interessar o interessado é um processo sutil de percepção da natureza da alma humana, que demanda desapego do preestabelecido para tocar na espontaneidade do outro e reconhecer seu verdadeiro potencial. E nós, pais e educadores, somos a aposta do universo nesse intenso processo de elevar o outro aos seus próprios olhos para que possam se ver refletidos e investirem na beleza do mundo ao seu redor.

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