No paradoxo do desejo pelo outro

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Sarawut Intarob @sarawut_intarob

A palavra pode soar um tanto sofisticada, mas o significado de “paradoxo” é bem simples: aquilo que é e não é. Ou seja, algo que não tem lógica, nem nexo, e se apresenta de uma maneira contraditória. Um bom exemplo é quando dizemos “temos muito a conversar, vamos marcar um novo encontro para trocarmos mais ideias” e, alguns momentos depois, adicionamos “vou tentar abrir um espacinho na minha agenda apertada”. Tem também o clássico “eu preciso muito te ver”, seguido de “vai ficar difícil nos encontrarmos se você não vier aqui”. E assim por diante.

Clássicos, aliás, é o que não falta. Tem clichê para todos os tipos de gente e situações. E este parece ser o padrão mais comum das relações humanas no mundo moderno. Nestes casos, a pergunta básica, acredito, tem como o alvo a legitimidade do desejo. Mas este é apenas um ponto de vista. Há quem acredite que tudo se justifica pela complexidade que a vida urbana impõe ao nosso cotidiano. Porém, não se pode negar o fato de que não temos mais liberdade para priorizar o que realmente queremos, nem espaço em nosso cronograma de vida para realizarmos os desejos que nos habitam.

Por outro lado, pode ser que o fato, de fato, não seja fato, mas a ausência do desejo dentro de nós. Provavelmente eles tenham se mudado, sem deixar pistas, nem endereço. Ou talvez estejamos vazios deles. Às vezes, pode ter sido apenas uma vontade daquelas fraquinhas, que não move moinhos e acaba desaparecendo no primeiro sopro. É a casinha de palha do porquinho mais novo que só queria saber de brincar. Tem muita gente que gosta de se aventurar nas relações superficialmente, somente para se divertir.

Outras vezes, nos obrigamos a cumprir tabela só para não fugir do clichê e avançar rapidamente na relação, queimando etapas sem o menor cuidado com o outro. Como aconteceu com o porquinho do meio, ansioso para terminar logo sua casinha de madeira. Aparentemente firme, desmoronou em dois tempos.

Nestes dois casos, pode ter um fingimento qualquer ou, então, uma supervalorização do interesse como forma de expressão meramente, sem que se tenha um desejo genuíno em estabelecer ou aprofundar qualquer relação. Acreditamos que queremos, mas não desejamos. Pensamos estar dispostos, sem estarmos disponíveis.

São poucos os porquinhos mais velhos que constroem casas consistentes. Estes que conhecem a si mesmos e têm realmente clareza do que querem. Estes, capazes de aproveitar o momento presente para realizarem o que desejam, sem reservas. Pessoas assim não têm agenda engessada porque sabem muito bem conciliar o tempo com a oportunidade que se apresenta naquele instante. E aí, sobra espaço e disponibilidade para o encontro desejado com o outro. Não tem lobo mau que insista em ficar por perto!

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Reencontros e despedidas

Mary McLeod

Foto: thanks to Mary Mcleod

Quando nascemos, parece que somos colocados em uma linha do tempo contínua, sem que saibamos exatamente onde é o começo, o meio e o fim. Simplesmente vamos vivendo as experiências que surgem ao longo do caminho, mas não temos uma ideia precisa sobre a duração de cada uma delas. Em alguns casos, temos a impressão de que aquilo que está acontecendo não vai acabar nunca. A alegria é infindável ou, então, a dor é interminável. A situação é tão intensa que esquecemos da impermanência das coisas: tudo passa! E quando menos esperamos, passou. Ontem revivi tudo isto na pele do momento presente e pensei: olha só o universo reafirmando que tudo deve ser saboreado inteiramente, pois é o exercício que nos cabe.

Há uns 36 anos, conheci um jovem pianista muito talentoso. Na época, ele ainda estudava música e não tínhamos muita intimidade. Fazíamos parte da mesma família, mas a convivência era irregular porque as nossas vidas aconteciam em diferentes cantos do mundo. Porém, me lembro da admiração que sentia por ele e, principalmente, pelo que sua coragem em desafiar as tradições e convenções representava para mim. Aquele moço ganhava o mundo e com ele aprendi que todos nós podemos nos aventurar com aquilo que sonhamos. Sua persistência na formação de piano o levou para vários países e o presenteou com inúmeras oportunidades profissionais. Entre idas e vindas, ele voltou a morar no Brasil, mas eu nem tinha conhecimento de muitos detalhes até que, um dia, nos reencontramos em um jantar em sua casa. E eu, que me sentia frustrada por não tocar piano, acabei me tornando sua aluna regular.

Durante um ano, semanalmente, frequentei as aulas com entusiasmo. Entretanto, não estava aprendendo apenas a ler as notas na partitura e a tocá-las nas teclas do piano. Aliás, que piano de cauda maravilhoso. Acho que a vizinhança conseguia distinguir o horário de cada aluno. Muitos, bem avançados. E eu! Em todo caso, eram encontros recheados de cafezinho e papos divertidos. Em muitas ocasiões, seu companheiro também se juntava a nós e as conversas ganhavam um upgrade. Como ele é chef de cuisine, trocávamos receitas e recebi várias dicas gastronômicas. Foi assim que, rapidamente, as aulas deixaram de ser aulas e a amizade deixou de ser apenas amizade. Os laços foram se estreitando.

Frequentemente eu pensava: como a vida da gente é interessante mesmo. Você acha que aquilo vai durar para sempre, mas muda. E, de repente, você torna a viver novas oportunidades com as mesmas pessoas, de um jeito diferente. Então, você pensa: agora sim, estamos juntos! Mas a linha do tempo responde com uma viravolta e somos, de novo, impelidos às despedidas. Ontem, ajudando a fechar a última mala da mudança deles, entendi mais uma vez o conceito do desapego. É importante deixar ficar para trás aquilo que não precisamos mais carregar, pois assim abrimos espaço para a novidade. É saudável deixarmos ir para vivermos o novo e oxigenarmos a nossa alma. É assim que evoluímos, aprendemos e nos tornamos melhores.

Eles partiram morar em outro país. Dizer adeus é uma constante nessa linha da vida. Verdadeiro paradoxo para o coração que sente a dor da saudade que fica e se alegra com a vontade do reencontro. E, como ensina a metáfora do cavalo branco, a gente nunca sabe mesmo o fim da história. Que possamos, então, viver o instante de cada detalhe tal como ele se apresenta no nosso tempo e espaço.

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A morte do homem de ferro

Após intenso lobby do meu filho para que eu fosse assistir Avengers, me deixei convencer. Diria mesmo que senti meus princípios sendo corrompidos quando comprei o bilhete do cinema. Por outro lado, confesso, o fato de estar pagando meia ajudou a desarmar um cadinho a consciência: ao menos não seria tão mais caro comer pipoca diante do telão.

Já havia me preparado psicologicamente para as longas horas de filme sem entender a sequência da história, nem as piadas internas. Mas, para quem mistura doce com salgado, qualquer enredo fica fácil de digerir. Então, basta prestar atenção para não quebrar o dente com os baguinhos da pipoca ou engasgar com as casquinhas, e ajeitar bem o óculos 3D no rosto para não cair, em caso de um vacilo qualquer. No mais, uma vez ali, o segredo é se entregar para a aventura.

Sessão iniciada. Muita agitação e matança com personagens e cenário aparentemente surreais. Porém, com uma lógica muito bem refletida sobre a natureza humana e seus conflitos existenciais. E eu que achava que iria apenas saborear um saco de pipoca. Admito o equivoco e me curvo para o clã da Marvel. Há uma chance, entretanto, de que eu tenha vestido minha capa de psicóloga para justificar o investimento da meia entrada.

De qualquer maneira, foi interessante observar também a reação da plateia. Não faltaram risadas e, mesmo que eu não tivesse noção do que estava acontecendo na tela, aquilo parecia ter muito sentido. Em determinado momento, quando o “homem de ferro” encontra seu pai no passado (desculpem o spoiler!), fiquei com a impressão de que algumas pessoas exalavam coraçãozinhos pela sala. Várias cenas recheadas com sussurros e outras com uma dose de adrenalina pulando da tela e sacudindo os baldinhos de pipoca. Não o meu, claro. Àquela altura do filme, já tinha devorado tudo.

Não compreendo a importância do “homem de ferro” no universo da Marvel. Entretanto, ele me instigou a pensar sobre os homens e as mulheres de ferro que fizeram e continuam fazendo das tripas o coração para se protegerem e protegerem os outros dos estilhaços da nossa sociedade. E, quando o “homem de ferro” morre (de novo: desculpem mais este spoiler!), o cinema ficou completamente mudo. O desconforto generalizado parecia integrar ficção e realidade em um único filme. Não se ouvia absolutamente nenhum outro som na sala, a não ser o barulho do ponto de interrogação caindo sobre as nossas cabeças como um ultimato de fato: e agora, quem vai nos salvar da barbárie que estamos vivendo?

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Te amo até o extremo

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Kazi M.D. Jahirul @kazimd.jahirulislam

Um pulinho pra frente, mãos para o alto. Um pulinho pra trás, as costas se repousam na cadeira. Nos intervalos do apagar e acender das luzes, por causa da oscilação de energia, ela puxava os fios de cabelo para o rosto e depois os devolvia atrás da cabeça. A temperatura caía aos poucos e a chuva apertava lá fora da sala. Era mesmo um tempo inquieto e úmido, fazendo o corpo arrepiar de frio e de susto com o estardalhaçado dos trovões improvisados na janela. Mas o remelexo da adolescente não tinha relação com a tromba d’água, nem com a constante queda da luz. Ela era assim, especial em sua expressão e mantinha o ritual como uma forma de proteger seu mundo particular.

Naquela noite, quando cheguei no saguão da faculdade, ela já estava fazendo sua credencial para o curso. A mãe a acompanhava de perto, amorosamente. Certificava-se com a recepcionista sobre as possíveis saídas da sala e o horário do término da aula. Não queria se atrasar para buscar a filha, nem tampouco esperá-la em lugar incerto. Provavelmente temia perdê-la de vista ou, talvez, apenas desejasse estar ali para acolher a menina após suas descobertas. Como nos momentos em que o passarinho volta ao ninho, depois da experiência do voo livre, e se aconchega entre as asas maternais.

Aguardando na fila, eu observava a cena enquanto pensava sobre a importância daquele cuidado. Em situação genérica, ele significaria um excesso de atenção por parte da mãe de uma jovem já grandinha. Naquele caso, especificamente, sua atitude poderia estar relacionada ao fato da filha conviver com a Síndrome de Asperger. Era um espectro grande de possibilidades, mas nenhuma delas tão relevante quanto a demonstração de amor que enchia meu coração de ternura e me fazia pensar: como é fundamental  nos apoiarmos mutuamente.

Durante as aulas daquela semana, a cena se repetiu todos os dias. Mãe e filha chegavam cedo e se despediam na frente da catraca que dava acesso às salas de aula. A menina se sentava sempre na terceira fileira, fazendo praticamente os mesmos movimentos e sobressaltos. Grudava os olhos no ir e vir da professora e anotava algumas frases, parecendo atenta ao que era falado. Às vezes, se levantava e caminhava de um lado ao outro, no fundo da sala. Depois, voltava a se sentar concentrada em seu mundo. Imagino que ela ia, aos poucos, permitindo a abertura das fronteiras para que as informações fossem ocupando espaço. Ao contrário de muitos de nós, trazia a tarefa de casa pronta e entregava para a professora ler. Textos curtos e apaixonantes.

O curso era sobre escrita afetiva e a magia das palavras parecia tocá-la fundo. Suas contribuições eram de grande sensibilidade. Os demais alunos também colaboravam para tornar nossos encontros especiais. Foi uma oficina de aprender a escrever com a alma e não poderia ter impacto diferente do que esse de experimentar a doçura da vida pelo olhos dos outros. A técnica se tornou a menor parte do exercício de se expressar e cedeu lugar para as emoções.

Alguns participantes estavam percorrendo caminhos diferentes para chegar na simplicidade dos textos e todas as histórias que ouvíamos relatavam o extraordinário no cotidiano. Nasciam da sutileza dos detalhes e sintetizavam o universo que nos rodeia. Novas perspectivas sobre muitas coisas. Sentimentos que revelavam o sentido das experiências. Cada um tinha algo a contar sobre si e sobre o outro. Juntos formávamos um livro recheado de capítulos com estilo próprio. Entretanto, o que mais gritava aos meus olhos nesta edição era a disponibilidade afetiva de todos nós e a entrega daquela mãe.

Sim, a entrega da mãe para com a sua filha continuava capturando minha atenção e me emocionando. De certa forma, me fazia pensar nas situações adversas que passamos na vida e em nossa capacidade para superá-las. E também de como é gostoso estar vivo dentro de alguém e ter alguém vivo dentro da gente. Me fazia sentir esse amor incondicional que pulsa, estabelece pontes, nos conecta com as pessoas, com o mundo e, mesmo diante da mínima possibilidade de entrar no universo do outro, nos lembra da possibilidade de amar para além dos momentos que compartilhamos, para além do corpo físico e de suas características particulares, para além das fronteiras geográficas e das diferenças culturais, para além dos limites que o tempo insiste em nos impor.

Um amor assim deve ser do tipo que trazemos guardado na nossa memória genética e espiritual. Sustenta qualquer desafio facilmente porque não tem medidas. É capaz de enxergar o outro dentro do seu mundo próprio e respeitar sua particularidade. É um amor que estabelece raízes e, com a mesma intensidade, pratica o desapego fortalecendo as asas do outro.

Foi, sem dúvida, uma oficina de reconhecer a alma da palavra e escrever afeto!

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O silêncio que me habita

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Réhahn Photography @rehahn_photography

Imaginar que o silêncio é assustador e solitário apenas demonstra a nossa falta de conhecimento. Sem nenhum julgamento, que fique bem claro. O “desconhecimento”, neste caso, refere-se unicamente ao fato de não termos experimentado, ainda, silenciar a nossa mente. E como isto é mesmo difícil nesse universo tecnológico, que apita a cada minuto com novas informações. Às vezes, nem tão novas assim.

Logo que aderi ao WhatsApp, não me importava com a quantidade de grupos que fui sendo incluída. Alguns, inclusive, sem consulta ou autorização prévia. Provavelmente, não existam muitas pessoas que tenham conseguido resistir ao convite dos amigos para se juntar ao grupo da escola, nem da família que acha que tudo deve ser conversado coletivamente. Tem ainda o grupo do trabalho que se subdivide em “geral”, “nossa área” e “equipe de frente”. Esses são os mais complicados de driblar porque a pressão por uma resposta imediata é intensa. Ainda bem que os chefes já começaram a ser orientados a não invadir a privacidade dos funcionários no final de semana. Pelo menos há uma trégua.

Lembro-me bem de um grupo que criamos para compartilhar informações sobre um projeto novo e, apesar das regras claras que estabeleciam mensagens exclusivas sobre o trabalho, as pessoas teimavam em dizer bom dia e boa noite e a repassar correntes e frases de impacto. Foi necessária muita intervenção divina para inibir os “infratores” e alguns tiveram até que ser exorcizados no particular. A necessidade de expor pensamentos é constante, mas o bom senso nem sempre!

Recentemente, me adicionaram no grupo de um curso que tem mais de duzentos participantes. A proposta da faculdade era veicular informações gerais para facilitar e agilizar nossa vida acadêmica. As pessoas se empolgaram com o canal e começaram a se apresentar individualmente. Não parava de pipocar mensagem e, imediatamente, coloquei o grupo no silencioso. Com muita paciência, fui acompanhando a situação até o dia seguinte. Pensei: quando todo mundo tiver se apresentado, isso toma jeito! Que nada, a conversa começou a evoluir para tantos outros assuntos que ficou impossível ler tudo. Imagina: mais de duzentas pessoas trocando mensagens sobre diferentes assuntos quase que ao mesmo tempo. Não deu para resistir e fui logo saindo do grupo. Será mais prático buscar informações acadêmicas diretamente com a secretaria quando elas forem necessárias.

Em grupos de amigos também é impossível seguir a lógica dos assuntos. Alguém publica a notícia do falecimento de um familiar e dois balõezinhos depois vem outra pessoa anunciar o sucesso da festa na noite anterior. Já aconteceu de enviarem foto íntima no grupo do trabalho e até planiha de projeto no grupo da família.

Com o passar dos posts, eu mesma fui me retirando das diversas listas e reservando esforços para o estritamente necessário. Acredito que este relato seja extremamente comum e que inúmeras pessoas se sintam solidárias com essa decisão, seja porque elas já tenham se excluído de listas do WhatsApp ou porque pretendem escapar de fininho de algum grupo, logo em seguida. Dou o maior apoio!

O excesso de conexão com os outros tem nos afastado de nós mesmos. Confesso que há dias em que a primeira coisa que eu faço quando chego em casa é sentar confortavelmente no sofá e bisbilhotar o que está circulando nas redes sociais. Aproveito a desculpa para responder algumas mensagens e acabo excedendo. Até a minha gata já consegue identificar quando sou abdusida pelo celular. Ela fica me encarando por um tempo e, se demoro demais, ela mia avisando que preciso saltar da espaçonave antes que me perca nas nuvens.

Já fui repreendida por estar em um encontro de família e ficar teclando com amigos do outro lado do continente. Essa facilidade de pesquisar dúvidas na internet que surgiram no papo ao vivo é perigosa. Você pega o celular para checar uma informação e segundos depois já está vendo as fotos que o amigo publicou do congresso sobre o sexo dos anjos lá na Conchinchina. Quase não dá para acreditar na infinidade de janelas que vamos abrindo com poucos cliques. O apelo é forte: talvez seja mais confortável vagarmos pela net do que mergulharmos nas profundezas do nosso ser. Resistir a esse convite para existir no nosso silêncio é um desafio.

Para além da tecnologia, tenho encontrado, cada vez mais frequentemente, pessoas falando alto em lugares e espaços coletivos. Peguei um ônibus intermunicipal recentemente e, como era noturno, esperava fechar os olhos para tirar um cochilo pelo menos. Até teria conseguido, não fosse a dramática história de vida que estava sendo relatada umas quatro poltronas atrás. Se fosse um caso desinteressante, talvez, eu tivesse caído no sono. Quem sabe? Mas, ainda assim, me pergunto: onde está guardada a capacidade de nos colocarmos no lugar de si mesmo e nos aquietarmos?

O silêncio pode ser enriquecedor. Nos dá acesso a lugares mágicos porque nos permite abrir a porta de Narnia e adentrarmos um universo vasto. Uma dimensão particular, certamente, que nos habita e nos fortalece. A quietude tem esse dom de nos afastar dos ruídos externos e reconhecer os sons da nossa alma. Conheço pessoas que se refugiam do convívio social porque apreciam sua própria companhia e aproveitam esses momentos de silêncio para desbravar seus medos e angústias existenciais. E algumas que estão vazias de si e se misturam no barulho da multidão para não escutarem nada, nem mesmo os outros. Estas são muito comuns: elas falam pelos cotovelos e atropelam a fala dos demais interlocutores.

Em um texto que reli esses dias, o autor (David le Breton) defende que o silêncio é uma forma de “resistência política”. Faz muito sentido o que ele explica e sugiro a leitura. Tem pessoas que dizem tudo, silenciosamente. E outras que nos silenciam com suas palavras. Porém, no final do discurso, tudo pode ser uma questão sobre o quanto conseguimos suportar o silêncio e sustentar nossa leveza. O silêncio como resistência é também uma descoberta de si. E como diz Osho: “O silêncio é o domínio da linguagem, mas não se preocupe. O silêncio é o domínio de Deus, e, quando você souber o que é o silêncio, terá algo a falar.”

 

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Que mundinho (extra)ordinário

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“Every storm runs out of rain, just like every dark night turns into day.” GMB Akash @gmbakash

São tantas desgraças acontecendo na face dessa terra que a gente perde até o rumo de casa. Dá uma vontade insana de chutar tudo que vemos pela frente e uma descrença doída pelas pessoas. Para onde olhamos tem coisa ruim tomando espaço. Uma desavença familiar, as contas que não fecham no final do mês, alguém que perdeu o emprego e até a pia da cozinha que inventa de entupir.

E isso é só banalidade porque se esticarmos os olhos um cadinho a mais para o outro lado, nos deparamos com os bandidos no poder, a violência contra a mulher crescendo, os cortes na educação enquanto tem professores apanhando e sendo assassinados, os cortes na saúde enquanto tem pobre morrendo na fila do atendimento médico e os médicos furtando-se do juramento de Hipócretes para não irem trabalhar no meio da floresta.

Pior do que isso não dá pra ficar. Ah! Já deu.  E ficou!

Agora nem precisamos atravessar o continente, pois os conflitos civis já estão nos alcançando e ameaçando a nossa paz. Nossa paz?! Quem, em sã consciência, conseguia ficar tranquilo sabendo das guerras nos territórios árabes, dos naufrágios dos pequenos botes lotados de pessoas que se arriscam para salvar o que sobrou das suas famílias em um “novo mundo”, do abandono e dos estupros nos acampamentos de refugiados e das centenas de congoleses morrendo por causa do ebola? Quem?

O mundo, velho, parece estar despencando ou então despontando dos escombros do inferno. E os noticiários não param de anunciar a nossa falência: corrupção, ganância e descaso em todos os continentes, sem exceção. Na maior parte do dia, é como se estivéssemos vivendo dentro de um filme apocalíptico, daqueles em cujo enredo as trevas se espalham sobre o planeta e as sombras dominam tudo, sugando a nossa fé congelada como um picolé saboroso. A “gangue do mau” vai cooptando os “desertores do bem” porque as pessoas já estão desanimadas e cansadas de lutar. Elas não resistem mais às perversidades a que são submetidas, nem às energias densas e obscuras que ganham força.

Será que está faltando luz nesse mundo? Cadê nossos “avengers”? Já estamos vivendo o ultimato do tempo!!

Mas, espera lá! Para cada um desses eventos mencionados há uma infinidade de outros acontecimentos contrários, em todos os cantos do planeta (dizem até que em outras dimensões também!). Tem muita gente fazendo coisa boa por aqui: gente salvando gente em desastre, gente escondendo gente pra não ser pego pelo fogo cruzado dos malucos atiradores, gente defendendo bicho, gente reflorestando e plantando horta sem agrotóxicos, gente monitorando ministro pra não deixar piorar nossas políticas públicas, gente se voluntariando pra salvar vidas no sertão, gente ensinando pessoas com deficiências diversas a fazerem a diferença, gente promovendo meios para outras gentes crescerem e prosperarem.

A luz nunca faltou, nem deixou de brilhar, e as oportunidades de vida continuam se renovando todos os dias. Pessoas que, aparentemente, não fazem nada estão mudando a realidade onde vivem com pequenas iniciativas e atitudes singelas. Enquanto querem nos fazer acreditar que tudo está sucumbindo, tem um batalhão de anjos e arquanjos vestidos de humanos se infiltrando nos mais variados setores das nossas sociedades para realizar projetos inovadores e autossustentáveis a fim de garantir o bem estar geral.

Todos os dias temos notícias ruins e todos os dias encontramos coisas boas que não param de se opor às tentativas de sabotar o que temos de mais sagrado: nossa luz divina! É uma linda música nova que encanta nosso coração e fecha nossos ouvidos para aquela letra degradante do hit do momento. Um grupo de alunos que se mobiliza para pagar o salário atrasado do professor, mesmo que outros colegas sigam fazendo bullying com os demais. Alguém que visita um doente no hospital, levando apoio moral, um cientista que dedica noites em claro, “fazendo balbúrdia” no laboratório para descobrir um novo medicamento. O padeiro que pula da cama no frio da madrugada pra gente comer pão quentinho no café da manhã. O camponês que se torra no sol e se atola na chuva para assegurar que tenhamos comida.

Todo dia é um santo dia, abençoado por alguém que faz alguma coisa para o nosso mundo ser melhor ou para que os seres que vivem nele sejam melhores. Mas podemos escolher concentrar a nossa atenção na crise humanitária, na crise política e econômica, pois elas estão mesmo presentes em nosso cotidiano. Não há dúvida e nem tampouco podemos ignorar a inflação, o desemprego, a fome, as doenças, a roubalheira dos governantes, o empobrecimento da população, a negligência em áreas estruturais como a saúde e a educação.

Por um lado mais edificante, talvez possamos manter um olho no peixe, outro no gato. E mais, podemos honrar, por meio das nossas atitudes individuais e simples, o extraordinário que faz os nossos dias valerem todos os grandes e pequenos sacrifícios para nos iluminarmos.

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Nada é o que parece ser

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Andrea Silveira – @andreafsilveira

Sempre ouvi dizer que as coisas não são exatamente como parecem ser. Inclusive, me lembro da propaganda de um shampoo contra caspa que usava exatamente este chavão para promover a ideia de que tomamos por pressuposto algo, acreditando que é o que parece, mesmo não o sendo.

Parece um jogo de palavras, mas não é. A ideia pode parecer confusa, mas também não é. O que tem por trás disso é, de fato, uma lógica perfeita. E ela nos intima a aguçar a percepção em tal nível que jamais conseguiremos voltar a olhar “as coisas” sem buscarmos entender em que condições elas se apresentam como são.

As ilusões são criadas e reforçadas a partir do princípio de que tudo é o que é. Ou, como dizem por aí, que as coisas existem por si mesmas. Isto faz com que a gente se apegue a determinadas verdades e as tome como absolutas, aumentando nosso sofrimento. Por isto, drenar as ilusões é um alento muito grande. Aceitar que tudo é relativo e só existe em função das condições em que se apoia é o caminho para encontrarmos a paz interior.

Por exemplo, suponhamos que alguém tenha feito algo muito ou pouco grave. Como consequência, isto nos magoa e ficamos aborrecidos com a pessoa. Somos cobrados a perdoar, mas não conseguimos porque a pessoa agiu errado conosco. Podemos até conceder a ela a indiferença, mas jamais desculpá-la. O enredo é triste e o cenário caótico. Então, vamos tentar desconstruir isso e veremos que tudo é relativo mesmo!

Primeiro, a ideia de gravidade só existe porque atribuímos uma graduação para dar importância a algo. É a nossa percepção, baseada em experiências e referências acumuladas, que interpreta o que está sendo observado e o classifica: bem, mau, grave, irrelevante, feio, bonito, merecido, desmerecido, e assim por diante. Ou seja, a coisa em si não existe. Ela precisa de uma referência para ser reconhecida.

Ainda, o que alguém faz pode não representar aquilo que a pessoa é. Quando confundimos a “ofensa” com o “ofensor”, perdemos de vista a essência e a natureza da pessoa, que é a mesma que a nossa. Se, ao contrário, conseguirmos abstrair a pessoa do comportamento, talvez possamos entender que não há fundamento para ficarmos com raiva dela e que a mágoa não se refere ao “ser”, mas decorre do que percebemos da sua atitude.

Certo e errado também são referências que aprendemos e usamos para rotular o mundo. Mas as perguntas são: qual a história de vida daquela pessoa? Em que condições ela se desenvolveu? E a minha história e condições de aprendizado?

Inúmeras vezes, somos levados a reagir contra essa lógica porque ela faz com que deixemos de culpar tudo e todos, convocando a nossa responsabilidade pelo próprio sofrimento. Como disse uma amiga recentemente: somos nós mesmos que criamos o nosso umbral. Sabe, aquele lugar escuro, frio e pegajoso em que as “almas pecadoras” são aprisionadas nos filmes de vida após a morte, nada mais é do que a nossa mente iludida com todos esses preconceitos e culpas.

As coisas são vazias delas mesmas e somos nós que vamos preenchendo os espaços com as nossas interpretações enviesadas. É a nossa mente equivocada que vai atribuindo significados, valores, conceitos para tudo que observa. De fato, sofrimento e felicidade são potenciais que nós mesmos criamos, na medida em que construímos essas ilusões.

É que a aparência das coisas nos atrai. Talvez, por isto, saímos por aí nos apegando às primeiras impressões como se elas carregassem as respostas para as nossas perguntas existênciais. Ritos, religiões, conceitos providos de aignificados para nos ajudar, aparentemente, encontrar nosso “eu maior” (aliás, o único que somos!).

Porém, ao aceitarmos que as coisas existem apenas em função das suas condições, ampliamos o entendimento daquilo que observamos e vamos nos afastando do sofrimento, possibilitando que a vida seja mais feliz. A sabedoria vai amadurecendo e a gente vai vivendo melhor.

Se percebermos o quanto essas convenções refletem as estruturas rígidas que criamos, nos daremos conta do vazio que representam e nos remeteremos de volta ao próprio vazio que somos. É nesse lugar que podemos repousar a mente, pois é na vacuidade que existimos como possibilidade infinita de vir a ser luz.

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