Para que serve o horizonte

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Dharamshala é uma cidade localizada no estado de Himachal Pradesh, no distrito de Kangra, norte da Índia e encostas do Himalaia. É conhecida por acolher a população tibetana no exílio, em McLeod Ganj (a famosa “Little Lhasa”), onde fica um importante monastério budista. Ali, o Dalai Lama costuma proferir seus ensinamentos às milhares de pessoas que estão buscando o “caminho da budeidade” ou, trocando em miúdos, o “caminho da iluminação”. É isso: Buda significa “um ser iluminado” e acredita-se que, ao seguirmos suas recomendações, desenvolvemos a compaixão e atingimos níveis sutis de onisciência.

Bem, cada religião tem um Ser iluminado como referência e uma série de preceitos para pautar a evolução moral dos seus seguidores, mas esta é uma discussão que dispensa muitas linhas. Basta entendermos que precisamos todos ampliar nossos horizontes, então não faz diferença qual luz pisca no final do túnel, desde que ela venha do farol da consciência plena e que nos estimule às virtudes elevadas. Porém, já que para tudo tem um entretanto, é necessário termos clareza sobre o que significa essa coisa de “limiar dilatado”.

Seu sinônimo? Horizonte. Literalmente provido de muitos sentidos e direções, associado àquela linha imaginária entre o céu e a terra. Um traço distante no oceano que captura nossas fantasias e utopias e nos faz remar incansavelmente, na expectativa de revelar que a missão foi cumprida. Na prática, esta é uma satisfação inalcançável, pois as missões são, na verdade, compridas. Ainda assim, o risco que parece fundir o espaço em um grande território sem começo, meio ou fim, configura nosso campo visual para continuarmos acreditando que um dia chegaremos lá, onde quer que seja. E dá-lhe remar, caminhar, desbravar, e vencer a malemolência perturbadora que ameaça o fluxo natural da vida: existir eternamente sendo.

Há muitas formas de nos relacionarmos com o horizonte e nem acho que seja necessário explorarmos nossas crenças filosóficas ou religiosas para concordarmos com o básico: qualquer linha imaginária é vista exclusivamente a partir de um determinado ponto. Isto significa relatividade absoluta, impermanência, mudança constante. Nesse sentido, nada pode ser concebido como estático, concretamente fixo e impermeável. Então, em assim sendo, para que serve o horizonte?

Ele deixou de ser um lugar simbólico para se converter em uma perspectiva na qual depositamos muitos dos nossos desejos e sonhos. Ele extrapolou o real que nossos olhos alcançam e entrou para a esfera do imaginário, indeterminado pelas incontáveis oportunidades e indescritíveis possibilidades. Simplesmente, o horizonte deixou de ser um lugar onde chegamos, para se manifestar também dentro de nós. Ele equivale à uma crise (de qualquer categoria!), que cumpre o mesmo papel: promover o deslocamento e o alargamento do nosso Ser.

Cada pessoa tem um horizonte para chamar de seu e atribui a ele sentidos particulares, mesmo sabendo que ele desponta igualmente para todos nós. Porque é mais ou menos assim: o horizonte é múltiplo e existe para todos, mas nós o vivenciamos dentro da nossa unidade. Entender isto na prática nem sempre é evidente. Nossas experiências de vida emitem sinais constantes de alerta, mas insistimos em ignorar a lição, principalmente quando ela parece óbvia demais. Há uma tendência em julgarmos o aprendizado pela complexidade da prova. É até compreensível, pois quando o desafio é maior, sua superação aguça as nossas potencialidades. Mas o fato é que podemos experimentar o horizonte em situações simples.

E nada melhor do que um relato em primeira pessoa para tornar esse falatório todo mais palatável. Um acontecimento corriqueiro que resume a matéria toda: depois de vários dias participando dos ensinamentos do Dalai Lama em McLeod Ganj, resolvi aproveitar a manhã ensolarada para conhecer um tal de “café da cachoeira”. Uma trilha maravilhosa, cheia de árvores, com micos pulando entre os galhos e pássaros cantando, saía do ponto mais alto do vilarejo e indicava que a subida seria bastante puxada. A linha do horizonte estava bem distante e calculei um bom tempo de caminhada. Mas tudo o que desejava era tomar um café naquilo que soava como um paraíso natural.

Sobe, desce, sobe, desce, sobe, sobe, sobe  e nada do café. Já havia percorrido quase duas horas de trilha montanha acima e estava a ponto de desistir quando encontrei a primeira placa indicando: café da cachoeira à frente. Que alegria; o horizonte se aproximava na direção certa, afinal. Sobe, desce, sobe, desce, desce, e depois uma forte subida por mais de meia hora até avistar a segunda placa. Parei para descansar, cogitando encerrar a aventura. Àquela altura, estava certa de que a linha do horizonte tinha mudado de lugar, mas avancei confiante, acreditando que o café estaria perto. Durante mais uma hora de trilha, fui testada algumas vezes pelas placas. Mas prossegui até encontrar uma tenda com um fogareiro no chão, ao lado de uma nascente praticamente congelada, por onde vertia o filete de água chamado de cachoeira. E não tinha café, apenas chá.

Sentei na rocha para apreciar o lugar e conclui: é isso, o horizonte serve para desafiar a nossa teimosia em buscar o permanente, em nos apegarmos à crença de que tudo que se movimenta não é verdadeiro. O horizonte é um “para além” infinito, com muitas horas de trilha, morro acima e abaixo, que traz o convite curioso do descobrimento daquilo que pode ser, sem que o saibamos. É o próprio caminho da budeidade, que nos coloca frente à inquietante constatação do sempre inatingível e escancara a alma para a sutileza do desgarramento. Ele nos lembra que o mais importante é exatamente o acontecer entre aqui-e-lá.

O horizonte nos ensina que é impossível vivermos nessa pós-modernidade líquida tentando contrapor a natureza do nosso eterno vir-a-ser. É a luz que ilumina a necessidade de nos libertarmos do pensamento domesticado pela lógica do existir-permanente. Ele nos faz entender que, mesmo dentro da nossa pequenez, não somos alguém comezinho. Ao contrário, também somos o horizonte de alguém e como disse Gadamer, filósofo alemão, “adquirir um horizonte significa aprender sempre a ver além do que está próximo”. Esse exercício, quando coletivo, é transformador e é também para isso que serve o horizonte.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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2 respostas para Para que serve o horizonte

  1. Lourdes disse:

    Excelente reflexão!!! Um horizonte para cada um e ao mesmo tempo pode ser para todos…

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