Interessados… pero no mucho!

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

A melhor situação possível é quando o universo oferece algo interessante, que seja também do interesse do interessado. Pode parecer um simples jogo de palavras, mas cada uma delas carrega um mundo complexo de possibilidades e, ao serem colocadas lado a lado, formam um grande desafio. Demasiado clichê? Não, mas bastante comum para quem trabalha com educação ou tem filhos. Atingir esta confluência no cotidiano significa vencer os mais diversos conflitos: alunos desmotivados com os estudos, educadores insatisfeitos com suas funções, filhos reclamando das decisões dos pais. A lista pode ser longa, mas nem precisamos nos estender muito para compreender o ponto central aqui.

No final do terceiro bimestre letivo, a mãe foi convocada pelo coordenador pedagógico do ensino médio para conversar sobre o comportamento do filho nas aulas de física e química. O aluno, tido como desinteressado, passava a maior parte do tempo lendo outros materiais. Ocorre que ele planejava prestar o vestibular no mês seguinte, para a área de ciências sociais e humanas, na melhor faculdade do Brasil que oferecia o curso do seu interesse, e aquelas matérias não estariam incluídas na prova. O jovem, então, aproveitava o tempo dessas aulas para estudar, silenciosamente, os conteúdos das outras áreas.

Para o coordenador, mesmo que o aluno já tivesse notas suficientes para ser aprovado no colégio, física e química eram interessantes para outros vestibulares. Dessa forma, o interessado estava sendo intimado a participar igualmente de todas as aulas, pois se não passasse naquela faculdade desejada, teria que prestar outras instituições com exames genéricos, incluindo tais matérias.

É certo que o aluno não estava inspirado a se colocar de frente e por inteiro nas aulas de física e química. Aquele conteúdo já havia sido vencido em dose suficiente para garantir sua aprovação no ensino médio e deixou de ser útil, simplesmente perdeu a relevância. Ao contrário do coordenador, o interessado tinha total confiança de que seria aprovado também na faculdade de seu interesse e estava decidido a estudar apenas aquilo que considerava interessante para garantir isso. Quanto conflito de interesses! O que a mãe poderia dizer ao coordenador nesta situação?

Mas o final dessa história é dispensável. O que vale aqui é pensarmos como determinamos o que deve ou não ser interessante em nosso sistema de educação, seja formal ou informal. Dizer que algo é interessante pressupõe uma série de elementos considerados dentro de uma lógica específica. Isto é, sugere que alguém está decidindo parcialmente o conteúdo a ser consumido como padrão generalizado. No caso, a escola seguia os parâmetros curriculares criados para que os alunos pudessem passar em qualquer vestibular. A base é a mesma para todos e não há espaço para acolher interesses particulares.

Do ponto de vista do sistema, é até compreensível esperarmos que os interessados assimilem, naturalizem e reproduzam o que decretamos como interessante. É realmente complicado atendermos as aspirações de diferentes pessoas no contexto coletivo. Acabamos nivelando as demandas ou, mais do que isso, doutrinamos os interesses para garantir melhor o funcionamento da engrenagem social. Então, é provável que uma mãe “conservadora” defendesse aquele coordenador e exigisse do filho igual atenção em todas as matérias, mesmo que isto custasse o interesse do jovem. Poucos métodos pedagógicos e um grupo muito reduzido de famílias valorizam, de fato, as peculiaridades no processo de aprendizagem.

Somos tão condicionados a seguir manuais, tanto na educação formal quanto na informal. Outro dia mesmo, conversava com uma mãezinha de primeira viagem preocupada com sua filha e que tentava comparar sua evolução com a descrição disponível nos livros de pediatria. Evidente que existe um desenho considerado “normal” na tabela do desenvolvimento, mas cada criança tem seu próprio ritmo, interesse e potencial. Não podemos impor que todos os alunos estudem física e química no mesmo nível, nem que todos os bebês sigam rigorosamente a curva de crescimento desejada pelos pediatras. Há que se garantir espaço para a expressão das características individuais e isto cabe a nós, pais e educadores.

Promover uma educação responsável, autônoma, inclusiva, solidária e democrática, colocando o interessado no lugar de protagonista do seu processo de tornar-se é tarefa primordial se quisermos realmente transformar nosso planeta em um lugar amoroso. Claro, ninguém dorme em um mundo de provações e acorda no paraíso. Essa transição é um trabalho diário, demanda paciência. E a paciência vem de mãos dadas com a persistência. Mas é preciso ter clareza e honestidade sobre os interesses que estão sendo colocados à frente desta caminhada antes de convidarmos o interessado para o nosso mundo de conveniências. Na verdade, nossa primeira tarefa como pais e educadores é tonar este mundo realmente mais interessante, capaz de promover experiências genuínas porque incentivamos nossas crianças a escolherem seus destinos com o coração e a percorrerem o caminho com afeto, sem nos preocuparmos com os manuais e as teorias formadoras de modelos a serem seguidos.

Não há formulas ideais para isso, mas na impossibilidade de sermos “a escola que sempre sonhamos, sem imaginarmos que pudesse existir”, como diria o nosso querido educador Rubem Alves, podemos criar outras pontes para facilitar a travessia dos nossos filhos. Podemos acompanhá-los atentamente enquanto desenham sua curva particular de crescimento e incentivá-los a encontrar seu próprio caminho. Podemos apoiá-los quando definirem seus sonhos como sendo interessantes, protegendo seus interesses e garantindo que outras matérias, para além da física e da química, possam “equipá-los para a vida”.

Interessar o interessado é um processo sutil de percepção da natureza da alma humana, que demanda desapego do preestabelecido para tocar na espontaneidade do outro e reconhecer seu verdadeiro potencial. E nós, pais e educadores, somos a aposta do universo nesse intenso processo de elevar o outro aos seus próprios olhos para que possam se ver refletidos e investirem na beleza do mundo ao seu redor.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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