Almoços de domingo

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Os almoços de domingo costumam ser uma marca importante na vida de algumas famílias. Esse hábito de reunir todo mundo em torno de uma refeição é conhecido por muitos e inspira diversos poetas e escritores. O Luiz Fernando Veríssimo, por exemplo, tem uma coletânea de crônicas chamada “A Mesa Voadora”, que dá muito o que pensar. O aprendizado disponível no menu do dia, seja ele qual for, é por conta da variação dos pratos e da qualidade das relações afetivas entre as pessoas presentes (e também ausentes!). No mais, tem de tudo: tapas e beijos! Às vezes, mais um do que o outro, mas todos acabam levando sua marmitinha para casa. Sempre resta alguma coisa para fazer a soca!

A gente vai, esperando se fartar de comida, mas volta também com a alma nutrida de afeto (positivo e/ou negativo) e a cabeça cheia de novas ideias ou caraminholas. A cada encontro uma receita nova. A combinação dos ingredientes nunca é a mesma, ainda que não tenha novidade para se degustar. A cada encontro, um reencontro. A gente se sente acolhido e tem a chance de aconchegar outra pessoa. Ou não! De qualquer maneira, a cada encontro, os laços se fortalecem e, talvez, justamente por isso, garantimos a continuidade do evento em família. Mesmo que seja daqueles encontros rompantes em que alguém sai chamuscado pela grelha do churrasco e só volta quando o cardápio  vira pizza.

Para quem adota esse costume em família consanguínea ou entre os amigos escolhidos para serem família, sabe bem que almoçar na tradição tem significados nem sempre palatáveis. Digerir uma refeição pode ser um exercício lento, que se estende durante a semana toda ou leva uma vida inteira para ser processado. Sim, há experiências gastronômicas que ficam cutucando a boca do estômago por tanto tempo que a gente nem se lembra mais do que provocou a gastrite, mas sabe reconhecer aquele gosto azedo de algo que não caiu bem. E não existe chazinho digestivo ou antiácido que emende o drama da úlcera.

Colocado nesta perspectiva, parece mais seguro uma dieta severa aos domingos. Em contrapartida, como iríamos saborear o melhor da vida que é, justamente, conviver na divergência e superar as diferenças para acolher a diversidade?! Uns gostam de arroz sequinho, outros mais cozidos. Uns preferem a carne mal passada, outros são veganos. O café com açúcar para uns se contrapõe ao café puro de outros. Mas, na hora de coar, a gente dá um jeitinho de separar as garrafas e contemplar todo mundo. O menu é extenso: política, religião, visão de mundo, e até mesmo a vida alheia. No final, todo mundo racha a conta porque entre família e amigos é assim que se almoça para todo o sempre. Amém. E bom apetite!

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Quando a primavera floresce no outono

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Foto: thanks to Robert Gary Banhart

Fui promovida, há alguns anos (poucos!), para a categoria das “senhoras”. O processo se deu de forma nada gradativa, nem sutil. Simplesmente, da noite para o dia, comecei a perceber que eu já não era “você” e que as pessoas conversavam comigo mais formalmente. No início, achava engraçado e me sentia importante. Ficava lembrando daquela fase de criança em que desejamos ser tratados como adolescentes e, logo depois, queremos ser vistos como adultos. Quanta pressa desnecessária para chegar na próxima estação! Se ao menos confiássemos que o tempo chega na hora certa, economizaríamos muitas crises existenciais.

Mas parece que não nascemos sábios, só vamos aprendendo com o andar da carruagem e está tudo bem. É assim mesmo essa vida da gente. E as pessoas mais experientes (depois que fui promovida exclui o termo “mais velha” para esses casos!) têm razão ao dizerem que o tempo traz mudanças positivas. Já ouvi compararem nosso envelhecimento à evolução do vinho, alegando que ganhamos maturidade e podemos garantir maior satisfação na abertura da garrafa. Difícil discordar delas. Afinal, nos concentramos em aprimorar o conteúdo, já que o rótulo vai despencando paulatinamente. E está tudo bem também. É assim mesmo esse corpo da gente.

Viver a vida no verão é uma grande aventura e descoberta. Experimentamos de tudo (ou quase tudo), nos permitimos andar descalços pelos atalhos, ousamos algumas contravenções e o mundo sempre parece brilhar como o astro rei. Infelizmente, muitos de nós se tostaram no verão e não conseguiram guardar o bronze para curtir o inverno. Acabaram minguando no outono e não entendem as vantagens de mudar de categoria. Com essas pessoas aprendi que as nossas experiências são como sementes que jogamos no solo. Se a terra é mofa, de nada adiantará, pois elas irão apodrecer antes da primavera. Mas se o solo estiver fresco, a colheita será ainda melhor.

Quando alguém compara o ciclo da vida às estações climáticas, fico sempre pensando que é uma maneira um tanto rígida para definir a linha do tempo. Por mais que isto faça sentido, sou a favor de contrariar a ordem do processo e guardar o melhor de cada estação para aproveitar todas elas a qualquer momento. Acho perfeitamente viável (e desejável) reservar o calor do verão no coração para aquecer o inverno, por exemplo. Só temos a ganhar associando a vitalidade da juventude com a sabedoria da velhice. Escolhemos melhor as nossas batalhas e não persistimos na luta contra os moinhos de vento. Podemos desabrochar a primavera em pleno outono, e isto seria o mesmo que viver a inteireza da nossa alma: deixamos cair aquilo que não nos serve mais para cultivar apenas o perfume das flores. Que delícia!

Então, preferindo estabelecer novas conexões, resolvi aceitar minha promoção com tudo que ela me dá direito: esquecer que os anos marcaram o corpo, usar um par de óculos para enxergar de perto os detalhes da vida, vestir um calçado folgado para percorrer novos atalhos e ir sem pressa para saborear o caminho, seja lá onde ele me levar. Pois podem me chamar de senhora. Sou, sim, senhora de mim!

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A morte que cai bem

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Ainda estava escuro quando despertei com um sonho revelador. Daqueles que tira nossa vontade de dormir e a substitui por caraminholas construtivas. Não fosse assim, bastava virar do outro lado e cochilar até amanhecer. Mas esse tipo de sonho, e imagino que muitas pessoas também tenham essa experiência, é tão carregado de aprendizado que não podemos ignorar a oportunidade para mergulhar em seus sentidos.

Era um carro sem portas, pneus, nem teto. E também não tinha motor, mas se dirigia para um ponto bem determinado: uma luz muito forte prestes a explodir. As pessoas dentro do veículo e eu sabíamos que explodiríamos todos juntos, e aquilo não nos assustava. Ao contrário, sentíamos tranquilidade e segurança, e a certeza de que estar ali era uma escolha. Ponto. Me lembro apenas de tapar os ouvidos e me entregar aliviada: que aventura!

De repente, nos tornamos todos uma luz única. Foram milésimos de segundos, talvez, e uma vida inteira projetada naquela luz. E o maior sentido que encontrei para aquilo tudo é que morremos, de fato, todos os dias. Os ciclos se fecham, as pessoas seguem seus próprios caminhos, o mundo se transforma, e o universo conspira para tornar as experiências em lições que transmutam nossa ignorância em sabedoria de vida. Não é extraordinário isso?!

Tirei as mãos dos ouvidos e escutei um desejo: morrer estando bem comigo mesma e em paz com o mundo ao meu redor. Provavelmente, é um privilégio. Sem dúvida, resultado das nossas escolhas e da maneira como transitamos pelo existir. Há que se esforçar na tarefa de vir-a-ser para alcançar este feito. No caso, eu estava apenas de carona naquele carro volátil, mas entendi que esta possibilidade existe para todos nós.

Abri os olhos pensando que cada momento é único e jamais se repetirá. Isto amplia enormemente nosso compromisso com o viver, pois já afirmava um filósofo: é impossível tomar dois banhos na água do mesmo rio. É precioso descobrir e se abrir para os detalhes da vida porque, a qualquer momento, ela se ampliará dentro de nós e já não seremos mais os mesmos. Como dizia uma poeta: por isso mesmo, só podemos aproveitar o “instante-já”. Único momento em que somos. Então, que sejamos verdadeira e inteiramente.

Acordei sentindo que morrer todos os dias e após cada encontro com o outro e com a gente mesmo exige despedidas serenas e afetuosas. Sabendo que, se quisermos abraçar a chance de fazer e ser a diferença, a hora é aquela e nenhuma outra. Pois o relógio acelera o tempo para a eternidade, mas nada é para sempre. A brevidade da vida nos convoca a vivê-la em sua profundidade e intensidade. Para que tentar de outro jeito?

Levantei. Não da cama. Para a vida. Porque o instante presente é uma escolha permanente. E morrer para viver é a melhor existência possível.

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Meu melhor mergulho

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@andreafsilveira – Fernando de Noronha

Há alguns meses, uma amiga e eu começamos a planejar nossa viagem a Fernando de Noronha. O paraíso prometido, sem dúvida, trouxe muita empolgação e não poupamos esforços para realizar esse sonho. Uma das primeiras sugestões que recebi foi fazer o curso de mergulho antes, pois eu já acumulava duas tentativas mal sucedidas de snorkeling, e seria um desperdício não poder apreciar a vida marinha novamente. Não hesitei. Fiz minha inscrição em uma escola, cujo nome é bem significativo: Dive for Fun (Mergulho para Diversão/Divertir-se).

De fato, me diverti muito fazendo o curso, até chegar na parte prática. Foi quando me deparei com as minhas limitações e, se não for “for fun”, de que adiantaria todo aquele empenho? Então, respeitando o movimento de aceitar aquilo que não dou conta, guardei a parte boa da experiência e fui embora para Noronha “só” para fazer snorkeling. Pelo menos isto eu já poderia garantir. Simples assim!

E como uma coisa simples pode ter se tornado tão extraordinária?!

Acabamos optando pelo “mergulho à reboque”, que utiliza uma prancha no formato hidrodinâmico e nos permite maior controle para afundar ou permanecer na superfície. Alternativa excelente para conciliar as dificuldades pessoais com a experiência de mergulho e a curiosidade sobre a vida marinha. É possível ver muita coisa dessa maneira. Inclusive, para além das tartarugas verdes, filhotes de tubarão, arraias e peixes. Isto tem de monte na ilha. Mas há também um mundo inteiro espelhado no mar. Quem sabe, até mesmo, uma outra dimensão do universo.

Por causa da velocidade da luz dentro da água, tudo fica cerca de 25% maior e isto afeta também a noção de proximidade com o que vemos. Olhar para dentro do oceano trouxe a sensação de estar sobrevoando um vasto território. Em determinados momentos, tive a impressão de flutuar sobre o mundo e enxergar a amplitude da vida.

A perspectiva de cima nos possibilita entender que tudo tem um início, mas é difícil definir exatamente seu ponto de origem. E tudo aponta para um fim. Entretanto, uma pequena mudança no ângulo de visão faz com que o final seja o recomeço. Depois do “acabou”, nasce um novo caminho. Quando chega o “fim”, ainda não é o último capítulo da história. E se tomamos como definitivo alguma coisa, vem a eternidade para nos convencer de que o presente é relativo e a vida é atemporal.

Se esticássemos a vida numa régua, poderíamos supor a medida das nossas experiências. A alegria e o sofrimento teriam lugar certo e seríamos capazes de isolar os acontecimentos. Mas, olhando aquilo que antes era desconhecido e misterioso, entendi de outra forma o conceito de conexão: tudo está absolutamente permeado do oceano. E no êxtase dessa compreensão está a leveza de reconhecer-se inteiro, e não mais como parte.

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No paradoxo do desejo pelo outro

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Sarawut Intarob @sarawut_intarob

A palavra pode soar um tanto sofisticada, mas o significado de “paradoxo” é bem simples: aquilo que é e não é. Ou seja, algo que não tem lógica, nem nexo, e se apresenta de uma maneira contraditória. Um bom exemplo é quando dizemos “temos muito a conversar, vamos marcar um novo encontro para trocarmos mais ideias” e, alguns momentos depois, adicionamos “vou tentar abrir um espacinho na minha agenda apertada”. Tem também o clássico “eu preciso muito te ver”, seguido de “vai ficar difícil nos encontrarmos se você não vier aqui”. E assim por diante.

Clássicos, aliás, é o que não falta. Tem clichê para todos os tipos de gente e situações. E este parece ser o padrão mais comum das relações humanas no mundo moderno. Nestes casos, a pergunta básica, acredito, tem como o alvo a legitimidade do desejo. Mas este é apenas um ponto de vista. Há quem acredite que tudo se justifica pela complexidade que a vida urbana impõe ao nosso cotidiano. Porém, não se pode negar o fato de que não temos mais liberdade para priorizar o que realmente queremos, nem espaço em nosso cronograma de vida para realizarmos os desejos que nos habitam.

Por outro lado, pode ser que o fato, de fato, não seja fato, mas a ausência do desejo dentro de nós. Provavelmente eles tenham se mudado, sem deixar pistas, nem endereço. Ou talvez estejamos vazios deles. Às vezes, pode ter sido apenas uma vontade daquelas fraquinhas, que não move moinhos e acaba desaparecendo no primeiro sopro. É a casinha de palha do porquinho mais novo que só queria saber de brincar. Tem muita gente que gosta de se aventurar nas relações superficialmente, somente para se divertir.

Outras vezes, nos obrigamos a cumprir tabela só para não fugir do clichê e avançar rapidamente na relação, queimando etapas sem o menor cuidado com o outro. Como aconteceu com o porquinho do meio, ansioso para terminar logo sua casinha de madeira. Aparentemente firme, desmoronou em dois tempos.

Nestes dois casos, pode ter um fingimento qualquer ou, então, uma supervalorização do interesse como forma de expressão meramente, sem que se tenha um desejo genuíno em estabelecer ou aprofundar qualquer relação. Acreditamos que queremos, mas não desejamos. Pensamos estar dispostos, sem estarmos disponíveis.

São poucos os porquinhos mais velhos que constroem casas consistentes. Estes que conhecem a si mesmos e têm realmente clareza do que querem. Estes, capazes de aproveitar o momento presente para realizarem o que desejam, sem reservas. Pessoas assim não têm agenda engessada porque sabem muito bem conciliar o tempo com a oportunidade que se apresenta naquele instante. E aí, sobra espaço e disponibilidade para o encontro desejado com o outro. Não tem lobo mau que insista em ficar por perto!

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Reencontros e despedidas

Mary McLeod

Foto: thanks to Mary Mcleod

Quando nascemos, parece que somos colocados em uma linha do tempo contínua, sem que saibamos exatamente onde é o começo, o meio e o fim. Simplesmente vamos vivendo as experiências que surgem ao longo do caminho, mas não temos uma ideia precisa sobre a duração de cada uma delas. Em alguns casos, temos a impressão de que aquilo que está acontecendo não vai acabar nunca. A alegria é infindável ou, então, a dor é interminável. A situação é tão intensa que esquecemos da impermanência das coisas: tudo passa! E quando menos esperamos, passou. Ontem revivi tudo isto na pele do momento presente e pensei: olha só o universo reafirmando que tudo deve ser saboreado inteiramente, pois é o exercício que nos cabe.

Há uns 36 anos, conheci um jovem pianista muito talentoso. Na época, ele ainda estudava música e não tínhamos muita intimidade. Fazíamos parte da mesma família, mas a convivência era irregular porque as nossas vidas aconteciam em diferentes cantos do mundo. Porém, me lembro da admiração que sentia por ele e, principalmente, pelo que sua coragem em desafiar as tradições e convenções representava para mim. Aquele moço ganhava o mundo e com ele aprendi que todos nós podemos nos aventurar com aquilo que sonhamos. Sua persistência na formação de piano o levou para vários países e o presenteou com inúmeras oportunidades profissionais. Entre idas e vindas, ele voltou a morar no Brasil, mas eu nem tinha conhecimento de muitos detalhes até que, um dia, nos reencontramos em um jantar em sua casa. E eu, que me sentia frustrada por não tocar piano, acabei me tornando sua aluna regular.

Durante um ano, semanalmente, frequentei as aulas com entusiasmo. Entretanto, não estava aprendendo apenas a ler as notas na partitura e a tocá-las nas teclas do piano. Aliás, que piano de cauda maravilhoso. Acho que a vizinhança conseguia distinguir o horário de cada aluno. Muitos, bem avançados. E eu! Em todo caso, eram encontros recheados de cafezinho e papos divertidos. Em muitas ocasiões, seu companheiro também se juntava a nós e as conversas ganhavam um upgrade. Como ele é chef de cuisine, trocávamos receitas e recebi várias dicas gastronômicas. Foi assim que, rapidamente, as aulas deixaram de ser aulas e a amizade deixou de ser apenas amizade. Os laços foram se estreitando.

Frequentemente eu pensava: como a vida da gente é interessante mesmo. Você acha que aquilo vai durar para sempre, mas muda. E, de repente, você torna a viver novas oportunidades com as mesmas pessoas, de um jeito diferente. Então, você pensa: agora sim, estamos juntos! Mas a linha do tempo responde com uma viravolta e somos, de novo, impelidos às despedidas. Ontem, ajudando a fechar a última mala da mudança deles, entendi mais uma vez o conceito do desapego. É importante deixar ficar para trás aquilo que não precisamos mais carregar, pois assim abrimos espaço para a novidade. É saudável deixarmos ir para vivermos o novo e oxigenarmos a nossa alma. É assim que evoluímos, aprendemos e nos tornamos melhores.

Eles partiram morar em outro país. Dizer adeus é uma constante nessa linha da vida. Verdadeiro paradoxo para o coração que sente a dor da saudade que fica e se alegra com a vontade do reencontro. E, como ensina a metáfora do cavalo branco, a gente nunca sabe mesmo o fim da história. Que possamos, então, viver o instante de cada detalhe tal como ele se apresenta no nosso tempo e espaço.

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A morte do homem de ferro

Após intenso lobby do meu filho para que eu fosse assistir Avengers, me deixei convencer. Diria mesmo que senti meus princípios sendo corrompidos quando comprei o bilhete do cinema. Por outro lado, confesso, o fato de estar pagando meia ajudou a desarmar um cadinho a consciência: ao menos não seria tão mais caro comer pipoca diante do telão.

Já havia me preparado psicologicamente para as longas horas de filme sem entender a sequência da história, nem as piadas internas. Mas, para quem mistura doce com salgado, qualquer enredo fica fácil de digerir. Então, basta prestar atenção para não quebrar o dente com os baguinhos da pipoca ou engasgar com as casquinhas, e ajeitar bem o óculos 3D no rosto para não cair, em caso de um vacilo qualquer. No mais, uma vez ali, o segredo é se entregar para a aventura.

Sessão iniciada. Muita agitação e matança com personagens e cenário aparentemente surreais. Porém, com uma lógica muito bem refletida sobre a natureza humana e seus conflitos existenciais. E eu que achava que iria apenas saborear um saco de pipoca. Admito o equivoco e me curvo para o clã da Marvel. Há uma chance, entretanto, de que eu tenha vestido minha capa de psicóloga para justificar o investimento da meia entrada.

De qualquer maneira, foi interessante observar também a reação da plateia. Não faltaram risadas e, mesmo que eu não tivesse noção do que estava acontecendo na tela, aquilo parecia ter muito sentido. Em determinado momento, quando o “homem de ferro” encontra seu pai no passado (desculpem o spoiler!), fiquei com a impressão de que algumas pessoas exalavam coraçãozinhos pela sala. Várias cenas recheadas com sussurros e outras com uma dose de adrenalina pulando da tela e sacudindo os baldinhos de pipoca. Não o meu, claro. Àquela altura do filme, já tinha devorado tudo.

Não compreendo a importância do “homem de ferro” no universo da Marvel. Entretanto, ele me instigou a pensar sobre os homens e as mulheres de ferro que fizeram e continuam fazendo das tripas o coração para se protegerem e protegerem os outros dos estilhaços da nossa sociedade. E, quando o “homem de ferro” morre (de novo: desculpem mais este spoiler!), o cinema ficou completamente mudo. O desconforto generalizado parecia integrar ficção e realidade em um único filme. Não se ouvia absolutamente nenhum outro som na sala, a não ser o barulho do ponto de interrogação caindo sobre as nossas cabeças como um ultimato de fato: e agora, quem vai nos salvar da barbárie que estamos vivendo?

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