Acendendo uma luz com Nietzsche

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A filosofia tem o dom de nos convidar a percorrer outras dimensões. É uma espécie de “pílula vermelha” que dá o acesso ao matrix existencial. Até podemos ficar tentados a escolher o comprimidinho “azul” (cuidado para não confundir as drogas aqui. Eu sei que o “remedinho azul” da modernidade é bastante competitivo, mas não é dele que estamos falando!) e nos manter na superficialidade, mas o apelo da consciência é mais forte quando já estamos na tarefa de virar gente grande. Então, é aquela lenda viva: depois do primeiro mergulho, não tem como voltar atrás. Não porque estejamos impedidos de mudar de ideia, mas porque somos impelidos a sair da inércia. Queremos mais sobre mundo e muito mais de nós mesmos.

O filósofo Nietzsche parece ter levado isso tudo muito à sério, embora, ele mesmo, tenha sugerido rompermos com a certeza de tudo. Assistindo uma aula sobre seus pensamentos recentemente, fiquei impressionada com a sua capacidade de abrir o portal diante dos nossos olhos e nos tirar do mundo dos sonhos. Bem, ele não é nenhum Morpheus, e eu, tampouco, sou Neo. Mas o danado faz parecer que a arte de se colocar em questionamento é libertadora de tal maneira que, mesmo diante do árduo trabalho de descascar nossas próprias camadas, queremos realizar a tarefa até o final. Sem preguiça de enfrentar o desafio que esta viagem representa.

Porém, descobrimos, de fato, que não há “um” único lugar para se chegar, nem “um” fim isolado para se cumprir. É uma viagem sem destino claro e são muitas as faces do nosso ser que precisam ser mexidas até que possamos encontrar o verdadeiro sentido de existirmos, se é que existe, realmente, uma verdade última. Mas as pequenas revelações a que temos acesso nos motivam a continuar buscando respostas, inclusive para as perguntas que ainda sequer formulamos. É assim que abrimos novas janelas e, muitas vezes, nos perdemos no processo porque as nossas indagações estão viciadas na base. Giacoia, o professor apaixonado pelo pensamento de Nietszche, disse com propriedade: “é muito mais importante do que antecipar uma resposta tranquilizadora, saber formular direito uma questão.”

Eles, os pensadores, falam sobre a tragédia da vida e explicam: o que a define são os altos e baixos que nos ocupam nesse eterno exercício de vir-a-ser. Entramos numa oscilação de ondas interessante e descobrimos que não há nada de negativo nisso. Ao contrário, é esse movimento que contribui para nos descobrirmos como únicos. Também entendi nesta aula que são os nossos feitos, ao longo da existência (e até ouso dizer no plural: existências), que nos configuram. Portanto, um viva para a possibilidade de ir abrindo frestas e compondo novas conexões!

Ou seja, que maravilha podermos nos reinventar permanentemente. Afinal, não somos algo que recebemos pronto ao nascer, mas tudo aquilo que construímos ao vivermos a vida que surge como oportunidade em nosso caminho. É fato: não podemos nos tornar aquilo que nunca fomos. Apenas revelamos, para nós e para os outros, o que vamos configurando a partir deste processo de individuação. Palavrinha difícil que esconde nenhum segredo: significa tão simplesmente “ser gente na primeira pessoa”! Trocando em miúdos, só conseguimos chegar naquilo que nos constitui como almas singulares sendo. Então, não há fórmula mágica: podemos apontar quem somos somente quando estivermos prontos. Porém, agora, precisamos acolher a questão libertadora: e quando é que estamos “finalizados”?

A vida é uma verdadeira epopeia, composta de longos versos de exaltação humana. Nem sempre compreendemos sua beleza, mas vamos fazendo, intuitivamente, um pouco de comédia (menos do que seria recomendável), outro tanto de drama (mais do que deveríamos suportar), numa narrativa sem fim sobre os heróis e guerreiros que somos e sobre como fazemos a roda girar no cotidiano do mundo. De certa forma, imprimimos uma dose particular de um realismo que nos aprisiona. É isso, ficamos no palco atuando de acordo com o que esperam de nós e desvalorizamos a preparação que temos nos bastidores, isto é, aquela que nos permite ser livremente por ensaio e erro. Nos submetemos à reprodução de um texto escrito que diminui a nossa capacidade de transcender a tudo e a nós mesmos.

Talvez eu esteja exagerando nas minhas elucubrações, mas essa história filosófica de que é necessário negar o mundo em vivemos para podermos ascender a um outro muito melhor é para deixar qualquer pessoa do avesso. Em especial quando o final do ano está batendo à nossa porta e pedindo uma renovação de votos. Até entendo que o tempo de existir é o existir no tempo e também reconheço que nossas percepções equivocadas à respeito da realidade nos levam a estabelecer um falso padrão a ser seguido, o que limita nosso potencial. Mas está na hora de atendermos ao convite do Chico, o Buarque, e “amar pelo avesso” a nós mesmos.

O mundo mundano é oco, mas nós não. E não fui eu que falei. Estou apenas repetindo: o inferno não são os outros. É o nosso próprio eu iludido, apegado à sua condição de ignorância. Então, só posso desejar muitas “pílulas vermelhas” para todos nós. Que elas sejam eficazes no tratamento da nossa alma e contribuam para ascendermos a um ano de maior engajamento com a missão de nos tornarmos quem somos: sagrados.

Boa sorte na formulação das suas perguntas e um feliz 2020 para quem ousar romper o casulo e acolher sua metamorfose!

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Um par de pés

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Foto: thanks to Alan Nielsen (@alannielsen1969) – Caminhando com Portinari – Terra Virgem Editora – http://alannielsen.com/caminhando-com-portinari/

Quanta inspiração pode provocar um par de pés? Impossível mensurar. Mais fácil é se render ao convite para percorrer os mesmos passos e voltar no tempo. Mas que caminhos foram esses que os trouxeram até a eternidade deste clique? Em que ritmo andaram, que aventuras viveram? Qual seria a história grudada nos seus calcanhares? Quantos sapatos apertados foram calçados ou de onde vieram todos os seus calos? Como resolver esses pontos de interrogação quando o interlocutor é anônimo? Talvez, mergulhando na própria imaginação e buscando o sentido, tal qual possibilita o significado dessa palavra, dentro de nós mesmos. Afinal, todos temos histórias impressas em nossas pegadas.

Vale sentir nas entranhas as nem tão estranhas emoções que esta imagem desperta. E também reconhecer a combinação perfeita entre a sensibilidade de quem viu a relevância da poeira sobre a pele, dos pés sobre o campo e da história de vida que aquele corpo carrega, ousando imortalizá-la. Talvez, sem mesmo saber, ao registrá-los, o olhar apaixonado pelo mundo por detrás da câmera tornou urgente a nossa tarefa de pensar as próprias andanças. Colocou em evidência a capacidade que temos de transitar, das mais variadas formas, nos mais diferentes universos simbólicos. Disponibilizou muitos estímulos para nutrir nossas reflexões. A mim, em especial, tocou igualmente um lugar de forças insuspeitáveis: a alma!

E, então, senti, embaixo dos meus pés, o pulsar da minha jornada e a importância das raízes deslocadas do meu mundo. Os pés nesta imagem têm dono, no caso, uma dona. A terra sob eles também. Não sei a quem pertencem, mas, como nada é por acaso, eles fazem parte de mim e me lembram de um conto que começou há 55 anos, mais precisamente num dia 19 de dezembro. Foi quando eu nasci, exatamente naquela mesma região de terras vermelhas, muito sol, calor humano e gente simples.

Era um dia normal, mas sair para a vida foi um desafio à parte. Nasci com os pés primeiro, pronta para visitar todos os cantos deste mundo e já contrariando a ordem natural que estabelece olharmos para o caminho antes mesmo de pisar no chão. Essa lógica subversiva me levaria longe, mas como poderia ser diferente para uma sagitariana? Lançar a flecha para depois correr atrás dela se tornou a minha dinâmica desde então. Pés na estrada, na maior parte do tempo. A alma em outras dimensões, sempre entregue e aberta para as múltiplas experiências, até mesmo quando a vida me convocava a lamber o mel no fio de uma navalha. Mas sempre percorri caminhos de superação, de autoconhecimento, de reafirmação daquilo que nunca deixei de ser: uma peregrina nata.

Procurando sempre manter a consciência aberta e alerta, os ensinamentos do cotidiano tiveram maior ressonância dentro de mim. As lições que precisei aprender ainda ecoam no meu coração e é ele que se mantém a bússola orientadora os meus passos. Sair do casulo foi apenas o primeiro ato; o desenrolar do meu conto passou a ser mera questão do tempo. Às vezes, nem tão bem aproveitado, mas, quando o lugar de prioridade mudava e eu tropeçava no meu desassossego ou me distanciava da minha essência, o chão se abria diante de mim como um sinal de alerta. E eu entendia a cada vez: era hora de acender alguma luz para iluminar novos atalhos. Com persistência e o apoio dos meus aliados na caminhada espiritual, sempre pude seguir em frente, e assim acontece a todos nós. O tempo é generoso e nos concede inúmeras oportunidades.

Trilhas tortuosas, passagens estreitas e muitas vias de mão dupla me mostraram que, quando cada coisa está no seu devido lugar, de acordo com a sua função, chegamos mais perto da iluminação. E o “devido lugar” é tão simplesmente o mundo interior que nos habita. A plena atenção nele nos faz diluir as ilusões e entender melhor a verdade relativa do caminho. Estar centrado no próprio prumo nos autoriza a questionar o devir que nos capturou ou que nos distraiu daquilo que realmente nascemos para ser. Nada é mais virtuoso do que uma alma que reconhece a luz dentro de si e permite que ela ilumine a sua estrada no tempo-espaço.

Olho para esses pés descalços, num campo em terras que nasci, e os acolho como um sinal claro de que toda história tem um impacto sobre nós e está entrelaçada com a nossa existência de alguma maneira. São poucos os graus de separação. Por isto, coloco a minha alma nesta imagem e me fortaleço na simplicidade de ser uma andarilha apenas. Sigo sendo um par de pés na estrada e me sinto realizada pelo encontro com as minhas raízes nesse universo de possibilidades que é viver intensamente o que tem para ser vivido, hoje, e eternamente agradecido. Amém!

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Virando chinesa

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A beleza do tempo – Sapa, Vietnã

 

As histórias do cotidiano são infindáveis. Quando a gente pensa que acabou, está apenas começando. Um tanto parecido com a vida em si: segue a lógica da eternidade: intensa, enquanto o momento presente dura, e tão impermanente quanto o instante-já. É um movimento repleto de prosa e poesia. Contos recheados de jogos de palavras que se formam para explicar os mistérios do caminho, e trocadilhos que ajudam a dar graça para a descoberta inevitável do protagonista de todos os enredos: o tempo. E nada melhor do que as cenas da vida real para resgatarmos alguns capítulos em nossa memória.

Vários anos atrás (não muitos!), desacreditava do “senhor da vida”, o tempo. Duvidava do seu impacto sobre nós, numa tentativa ingênua de negar que tudo passa e nada permanece como antes. Minhas amigas mais velhas (com pouca diferença!) já se enlouqueciam com os cremes anti-tudo e com os novos procedimentos de estética, investindo pesado na leveza do corpo para combater a lei da gravidade. Parte das conversas nas reuniões sociais era pura troca de receitas sobre como driblar o tempo para manter o padrão de beleza da nossa época. Do lado de fora deste círculo vaidoso, tentava apaziguar os comentários dizendo que envelhecer é um processo contínuo que começa com o primeiro sopro de vida. Por alguma razão, minhas amigas não se sentiam confortadas com esta ideia e reforçavam enfaticamente: você também vai chegar lá e quando isto acontecer, entenderá o que estamos dizendo. Hoje, compreendo melhor. Parece que “cheguei lá”, seja “lá” onde for. Como disse em outro texto: o outono está acontecendo. Mas, sem aquela preocupação com as transformações estéticas do processo.

Por outro lado, é interessante descobrir que chegamos na nova estação pelos olhos de outras pessoas. Isto faz a gente se perguntar sobre si mesmo, se observar na linha do tempo e buscar reconhecer suas marcas no corpo e na alma. E, às vezes, basta um olhar de escanteio, a intenção de ser gentil e um pequeno gesto para nos convidar a essa reflexão. Simples como uma afirmativa dentro do vagão do metrô: “por favor, senhora, sente-se aqui”. O aqui, neste caso, é o assento preferencial, reservado para pessoas com mais de 60 anos e outras categorias mais. Indicação clara daquele lugar que minhas amigas chamavam de “lá”.

Confesso que ouvi a frase com certo espanto. Deve ter sido algum engano, pensei de imediato. Não me encaixo em nenhuma das alternativas de prioridade e esta mulher está apenas sendo educada ao me oferecer a preferência. Afinal, ela mesma parece ter a minha idade ou mais. Sim, só poderia ser uma cortesia. Em todo caso, me coloquei a pensar: será que estou dando a impressão de ser mais velha? Seria o meu jeito de vestir? A minha postura, talvez? O penteado? Os poucos cabelos brancos? Se as minhas amigas estivessem por perto, certamente me alertariam: bem que nós te avisamos, não é?!

As estações, do metrô, foram passando, mas eu continuava presa naquela cena. Em alguns momentos ria da minha surpresa com tudo aquilo e, em outros, me dava conta de que, nos últimos tempos, a maturidade vem mesmo captando minha atenção com mais ênfase. Deve ser por causa do “inferno astral”, pois daqui uns dias vou realmente mudar de ciclo e é natural que a gente se sensibilize com esses assuntos. O tempo passa. É fato inexorável. Estava abduzida pelo o vazio fora do vagão, tentando organizar os pensamentos quando meus olhos retornaram daquele nada e me colocaram frente-a-frente com a minha imagem refletida no vidro da janela. Aí, sim, não pude me conter. Escanei, cuidadosamente, o meu perfil e enxerguei o que talvez pudesse explicar aquele gesto de gentileza: estou me transformando numa chinesa!

Discretamente, passei a mão no rosto, tentando esticar um pouco a pele para ter uma referência, e entendi, superficialmente, o que pode estar por trás da decisão de recorrer à cirurgia plástica para dar uma calibrada no visual. Não existe alternativa para o “bigode chinês”, nem para o despencar das pálpebras; é isto ou todo o resto oferecido pela indústria de cosméticos. Uma verdade que joga a gente num beco sem saída. É necessária muita autoestima para não se render ao padrão estético da nossa sociedade. Respirei fundo, me olhei mais uma vez na janela e sorri dizendo: dane-se, já tenho o meu chapéu asiático mesmo!

E foi assim que o meu bigode chinês praticamente desapareceu naquele sorriso. O semblante se transforma, amenizando as rugas, a gente rejuvenesce. A nova imagem me fez pensar que, talvez, esse sinal de expressão seja apenas uma estratégia do corpo para nos fazer lembrar de sorrir mais para as coisas da vida. Esta é a plástica que restaura nossa beleza essencial. É a melhor maneira de envelhecer, mesmo que tenhamos que ocupar, de fato, o assento preferencial.

Então, obrigada, senhora! Vou descer na próxima estação.

 

 

 

 

 

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A voz alta da consciência

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Hora do rush. Não temos como escapar do cenário caótico, turbinado pelo vai-e-vem dos carros, ônibus e das milhares de pessoas que fazem lembrar um formigueiro em plena atividade. Visualmente, chega a ser assustador todos aqueles corpos passando uns pelos outros, alguns se esbarrando, outros se empurrando. É uma enxurrada de gentes, capaz de nos levar de um ponto ao outro pela correnteza incontrolável dos passos. É preciso cuidado e se colocar na direção certa do fluxo, caso contrário, teremos dificuldades para nadar na contramão.

Esse é o cotidiano urbano na grande metrópole e as pessoas estão acostumadas com esse ritmo. Por que razões, nem vou discutir. Que projeto de sociedade está (des)colado nesta rotina, vale questionar. Cada um pode fazer este exercício e buscar entender seu próprio papel na manutenção do sistema, tal como ele é. O que estamos fazendo, individualmente, para contribuir com isso tudo ou para transformar essa realidade cabe a nós mesmos responder. E nem precisa ser em voz alta. Somos senhoras e senhores da nossa consciência e o nosso compromisso primeiro é para com o eu interior. De mais a mais, há tantas maneiras de colaborar para que o mundo seja melhor que fica impossível mensurar a forma mais eficaz e determinar o “jeito certo” de intervir na sociedade.

Hora do rush. Mas eu me sinto um tanto cigarra, sem pressa para chegar, sem compromissos inflexíveis. Atenta à movimentação das formigas, procurando não bloquear o trânsito, tentando respeitar o compasso. Observo o padrão que se repete a cada parada do trem: saem menos pessoas do que as que tentam entrar. Faço as contas rapidamente e concluo que serão necessárias algumas paradas até chegar a minha vez. Mas entro na fila, que só aumenta em todos os lados. Então, ouço uma voz alta, em tom de total repreensão, dizendo: “A senhora não acha uma esculhambação furar a fila?!”

Sem coragem de olhar para a pessoa, continuei com a cabeça voltada para frente, pensativa. Pelo linguajar utilizado, fui logo imaginando que se tratava de alguém com mais idade. Quem fala “esculhambação”, provavelmente viveu sua juventude nos anos 70. Mas a curiosidade driblou a covardia e encarei de frente o senhor de barba e cabelos brancos logo atrás de mim, com uma expressão visivelmente de revolta. Ele tinha razão: furar fila é uma injustiça no meu dicionário também.

A resposta disparou sozinha, em tiro certeiro: “Desculpe, senhor, não sabia que tinha uma fila formada. Eu não reparei.” E assim, a “furona” abandonou seu lugar e foi para o final da fila. Continuei pensativa e, secretamente, comemorei a vitória do meu comparsa de gíria. Aquilo era, de fato, uma esculhambação. As pessoas parecem ter perdido a oportunidade do bom senso, da gentileza, da educação. Se empurram, cortam a frente dos outros, param no meio da passagem, sentam em lugar preferencial sem o direito da prioridade, falam alto no telefone, fingem (?) que apenas elas existem no mundo e se acham merecedoras de todos os benefícios (im)possíveis. É só um jeitinho, só dessa vez, não vai prejudicar ninguém…

Por alguns segundos, fiquei rindo dentro de mim e agradeci mentalmente aquele senhor por ter sido meu porta voz. Ele falou, em voz alta, aquilo que eu mesma pensei logo que a moça cortou a nossa frente. Queria eu ter tido a sua firmeza, mas as pessoas andam se sentindo tão autorizadas a expressarem sua agressividade que venho adotando a política do invisível para evitar confusão: observo, fico indignada, processo aquela negatividade interiormente e devolvo em vibrações de amor. Como sempre diz uma amiga querida: devolvo ao universo com partículas de consciência! Nada de discussões, nem intervenções moralistas. Sim, um dia, essas partículas expandirão na mente das pessoas.

Minha satisfação, entretanto, entrou em choque. Imediatamente recuperei a lucidez e aquilo que parecia um ato de bravura se desfez diante do fato de que duas outras pessoas também haviam furado a fila. Mas eram homens!

Então é assim? – pensei eu. Este senhor se acha no direito de repreender a mocinha, mas não dirige sequer uma palavra aos homens que agiram da mesma maneira que ela?! Que bravura é essa? Estava reunindo esforços para pontuar aquela desigualdade quando o trem chegou, a porta se abriu e fomos empurrados para dentro do vagão. Mas não poderia deixar aquilo passar. Dois pesos e duas medidas?

No hiato dos meus pensamentos, porém, o “herói do metrô” solta mais uma pérola, na maior tranquilidade: “Que esculhambação, heim meus senhores?! Furar a fila é muita falta de civilidade, pra dizer o mínimo. Está faltando cidadania e vergonha na cara. Os senhores pensem bem nessa atitude. Que sociedade é essa?!”

Do outro lado, um silêncio absoluto. Na minha cabeça, fogos de artifício.

Embora continuasse pensando que o justo mesmo teria sido repreender aqueles dois homens no mesmo momento em que a moça levou a bronca, assim eles também seriam “incentivados” a voltar para o final da fila (ou não!), não pude conter a alegria de ouvir minha consciência falando em voz alta novamente, através de outra pessoa.

Hora do rush. A realidade humana se reflete no corre-corre da cidade e escancara a nossa fragilidade ética.

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Vendo o visível, enxergando o invísivel

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Acampamento de Refugiados – Dhaka, Bangladesh

Quando eu era adolescente fiz um um curso de fotografia na escola em que estudei durante o intercâmbio. A ideia de registrar tudo me atraia e, empolgada, adquiri minha primeira câmera. Claro, na época, tudo era manual e ainda usávamos filme de rolo. Isto representava uma emoção à parte, pois era necessário usar o filme inteiro para, então, revelar as fotos, o que poderia levar a viagem toda ou longas semanas. Esperar esse tempo para ver o resultado daqueles cliques que não saiam da cabeça trazia certa ansiedade e, inúmeras vezes, culminava em frustração. Principalmente quando a foto não estava boa o suficiente porque faltava foco, o ângulo não tinha sido adequado, alguém estava de olhos fechados, tinha faltado flash ou a luz havia estourado. Quantos momentos perdidos entre um clique e outro porque era preciso rodar o filme e, nessa fração de segundos, a cena se desconstruía totalmente. Quantos momentos perdidos por causa da sobreposição de imagens, quando a empolgação era tanta que esquecia de avançar o rolo do filme. Mas a aventura era essa: acreditar que estava capturando o mundo e aguardar para ver seus detalhes depois.

Os anos foram passando e continuei fotografando por diversão. Confesso que quase nunca refletia sobre o que poderiam, de fato, significar aquelas ferramentas à minha disposição. Simplesmente clicava tudo o que me interessava e nem sempre interessava as pessoas, que não hesitavam em criticar as imagens dizendo que era muita vida real sem a personagem principal. A expectativa delas era me ver nas fotos e eu raramente entregava a minha câmera para outra pessoa me fotografar. Eu gostava mesmo era de compartilhar o mundo na minha perspectiva. Aquilo sim me colocava de joelhos e mexia com o meu imaginário: como vivem aquelas pessoas? Como aquilo aconteceu? De que maneira aquela realidade está conectada com a minha? Eram muitas indagações sem respostas, até porque eu, provavelmente, não tivesse maturidade suficiente para colocar os pontos de interrogação nos seus devidos lugares.

De qualquer maneira, sempre que apreciava o trabalho de outros fotógrafos, me sentia impelida a pensar sobre a realidade que estava sendo retratada e, aos poucos, fui entendendo que, por meio da fotografia, podemos entrar em contato com um mundo nunca antes imaginado. Estava ali o potencial daquelas ferramentas: um simples retrato se transformando em convite para mergulharmos no universo desconhecido. Afinal, uma imagem, por mais banal que possa parecer, revela nuances de uma longa história. E assim nos enriquece esta arte. E assim me mobilizou essa arte, pois, na incapacidade de aprimorar as habilidades técnicas e na limitação de transitar pelo mundo, passei a buscar nas imagens de alguns fotógrafos a minha própria visão sobre o existir.

E ao fazer isso, comecei a entender melhor a diferença entre ver o que aparece de forma visível aos nossos olhos e enxergar o que a realidade mascara. É interessante como o nosso posicionamento sobre as coisas muda quando a fotografia revela o invisível. Nosso olhar tende a se concentrar no óbvio porque, na maior parte das vezes, é para isso que fomos condicionados a dirigir a atenção. É como se a percepção fosse filtrando os detalhes, numa tentativa de nos manter na zona de conforto e quando, finalmente, este filtro se rompe pelo estado de alerta da nossa consciência, descobrimos que é impossível morar naquela mesma bolha que nos protegia.

Enxergar a realidade com os olhos críticos nos traz o compromisso também de dar visibilidade para o invisível. Que mudanças podem advir a partir desse movimento é difícil dizer. Talvez tudo seja relativo e dependa mesmo é da nossa postura de vida. Se queremos uma sociedade transformada em um lugar de bem estar para todos os seres vivos, denunciar as injustiças é um passo fundamental. Claro que há diferentes maneiras de fazer isso e a fotografia é apenas uma delas. E, mesmo sendo uma alternativa eficaz, há diversas formas de usar essa ferramenta que não necessariamente provoque alguma mudança de paradigma em nós. Mas está tudo certo. As escolhas que fazemos são aquelas que damos conta de fazer naquele dado momento de nossas vidas.

O fato é que podemos descortinar muitas coisas com um único clique. E isso fica evidente quando vemos algumas imagens da realidade social em que vivemos ou em que vivem outras pessoas distantes de nós. Hoje, transito por lugares e não consigo mais ver aquilo que é visível. Há sempre uma causa por trás da imagem, um pedido de socorro, um alerta, uma denúncia. Há também alegria e contentamento, por certo. Afinal, as pessoas e as situações conjugam o verbo amar e desamar o tempo todo, como onda do mar que vai de um jeito e pode voltar de outro. A vida não é uma reta constante e a impermanência de tudo nos ensina isto. Mas é justamente essa a questão: o instante pretensamente eternizado em uma imagem não é exatamente daquele jeito. O que tem de estático em uma fotografia é inversamente proporcional ao que tem de dinâmico naquela mesma imagem.

Por isso, quando registro o rosto de uma garotinha no acampamento de refugiados do Paquistão em Dhaka, não estou constatando apenas suas características físicas, mas a sua história de vida, marcada nos trajes que ela veste, no lugar em que se encontra, na forma como se comporta. E mais, junto com aquela imagem está também configurada a história do mundo, o que ocorreu com a humanidade desde sempre até aquele exato tempo-espaço. O modo como aquelas pessoas se organizaram, o descaso político e humanitário para com as condições em que vivem, entre outros tantos fatores, configuram a parte invisível que a fotografia nos faz enxergar e, diante dela, não tem como a alma se acomodar. A inquietude, porém, é positiva. Ela nos tira da mesmice da vida, mas precisa ser igualmente transformadora e “incomodar” outras tantas almas para que elas também se interessem pelo invisível das nossas sociedades. Assim, não me canso de reafirmar: é preciso termos olhos de ver e enxergar, ouvidos de ouvir e escutar, boca de falar e denunciar, e coração de sentir que a compaixão e a solidariedade são essenciais na nossa travessia!

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Nós, mulheres, somos raras!

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Sreemangal Tea Garden – Bangladesh

Era final da tarde, o sol estava se recolhendo e as mulheres terminando o primeiro turno de trabalho. Alinhadas com enormes fardos de folha de chá na cabeça, aguardavam sua vez para pesar a produção do dia, antes de voltarem ao lar. Roupas coloridas disfarçavam o cansaço no rosto. Um sorriso tímido escondia a curiosidade sobre a estrangeira que acabara de chegar. Olhos e ouvidos atentos acompanhavam a conversa com o responsável local, em uma tentativa, em vão, de explicar que fotografias não eram permitidas ali. Já era tarde. Várias imagens haviam sido registradas. Não tinha como voltar atrás, a não ser que eu as apagasse do cartão de memória. Mas jamais, porém, conseguiria apagá-las da minha própria memória.

Fotografar é uma arte que eu não domino. Pretensa é a minha vontade de sair pelo mundo e registrar tudo o que eu vejo com técnica impecável. Agora aprendi um pouco mais. Agora aprendi, sobretudo, que sem o enquadramento necessário, não há técnica que facilite nossos registros. Então, deixar que a lente seja direcionada pelos olhos do coração é a melhor estratégia.

Por outro lado, é a nossa visão de mundo que interfere neste olhar. Nosso coração está sintonizado com aquilo que pensamos, com as nossas expectativas sobre a vida. Compreender e conhecer melhor o “cenário” em que estamos mergulhando também faz uma enorme diferença. Sendo assim, é impossível olhar para aquelas mulheres no final de um longo dia de trabalho sem sucumbir em prantos.

Lágrimas de alegria por reconhecer a sua força e capacidade de produzir o sustento da família. Lágrimas de amor por me sentir acolhida em seus olhares compenetrados, acompanhando minha teimosia ao me expor para o responsável local. Mas lágrimas de vergonha pela posição privilegiada em que eu me encontrava. Lágrimas de tristeza pelas condições de trabalho a que elas são submetidas. E, no final, lágrimas de gratidão por viver essas situações com a consciência sempre em estado de alerta e de indignação.

As mulheres que trabalham nas plantações de chá recebem 150 takas (em torno de 1,7 dólares) por dia, pelo trabalho de quase 10 horas corridas. Sua tarefa é colher, pelo menos, 21 quilos de folha de chá ao longo da jornada. O fardo é rigorosamente pesado no final de cada turno e anotado em um caderno, cuidadosamente controlado por um homem, cuja função é de responsável local. Após a pesagem, elas depositam a produção na carroceria de um caminhão, que leva tudo para o processamento na central da fábrica. Só então elas deixam o local em direção às suas casas, geralmente 3 a 4 quilômetros de distância da fazenda, para dar início ao segundo turno de trabalho: cuidar da família e do pequeno espaço em que habitam.

Há tantas coisas a serem questionadas neste cenário: a desvalorização da mulher, as condições em que o trabalho ocorre, a exploração de empresas internacionais sobre a mão-de-obra dos países considerados pobres, o controle do trabalho sob o domínio de homens, e essa mania que estrangeiro tem de chegar nos lugares e criticar tudo o que vê, se achando no direito de denunciar tudo o que está em desacordo com os seus próprios costumes. Difícil ir a fundo em cada uma dessas questões de maneira imparcial. Meu lugar de fala está permeado das minhas raízes, minha lente está comprometida com os meus ideais. E eu nem tenho conhecimento suficiente para discutir todos esses assuntos. Mas tudo isso me impacta significativamente. Sou capturada por sentimentos diversos, inclusive o de revolta e, principalmente, de constrangimento pela humanidade que nos tornamos.

Tentei. Não consegui convencer o responsável local sobre a ingenuidade da minha câmera. Desconfiado das minhas intenções (talvez ele identificasse em minha expressão essa confusão de sentimentos), alegou que muitos jornalistas se fazem passar por turistas para reportar a exploração do trabalho dos “diminuídos”. Segundo ele, historicamente, isto já prejudicou as relações comerciais entre os países e a empresa (no caso, internacional) adotou a política de proibir fotógrafos, sejam eles quais forem. Parece que, no passado, alguns órgãos internacionais pressionaram a política local para que fossem adotadas medidas mais justas de trabalho.

Guardei a câmera, engoli a indignação e estava deixando o local quando algumas das mulheres vieram ao meu encontro e, gentilmente, se deixaram fotografar. Não falo a língua local e a tradução da conversa estava sendo intermediada por outra pessoa, mas pude reconhecer naquela atitude um sinal: não queremos ser invisíveis; queremos, sim, que o mundo nos enxergue! Senti uma alegria saltando pelos olhos, não pelas imagens que poderia registrar, mas por tudo o que aquele gesto delas representava..

Imagens singelas de mulheres fortes. Imagens que revelam a beleza por trás da vulnerabilidade social e cultural. Nenhuma fragilidade constatada, a não ser a do sistema socioeconômico em que vivemos e ao qual nos submetemos no chá das cinco. Na superfície das minhas expectativas encontro um mundo completamente diferente do que considero que deveria ter construído a humanidade. Falimos em nossa tarefa. Destituímos da vida exatamente aquilo que poderia equilibrar nossa existência. Nem ouso dizer o que. Temo, eu mesma, desconhecer.

Só sei que, jamais, pelo resto de minha vida, tomarei outra xícara de chá sem me lembrar daquelas mulheres. Cada gole terá um sabor diferente. Talvez um tanto amargado pela injustiça e pela desigualdade que testemunhei. Entretanto, por mais que eu acredite que as coisas sempre acontecem por alguma razão e nunca por acaso, não concebo nenhuma passividade ou omissão diante da realidade do sofrimento humano. Então, escolho corroborar a desconfiança do responsável local e adicionar ao meu chá doses de solidariedade feminina.

Nós, mulheres, somos raras!

 

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O bálsamo do perdão

Anil Prabhudev

Foto: thanks to Anil Prabhudev

Sempre me disseram, diferentes pessoas e em momentos diversos, que o ressentimento faz muito mal para o nosso coração. Tem até aquela frase célebre, atribuída ao Shakespeare, ensinando: “a raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram”. Muitos ditos populares e ensinamentos religiosos poderiam ser listados aqui para reforçar essa ideia, mas nem precisamos estender o repertório. A lição é clara: nossas mágoas são apenas nossas e causam danos a nós mesmos, muito mais do que aos outros. Claro, também provocam o sofrimento alheio. Afinal, quem nunca se sentiu incomodado (para declarar o mínimo) com os sentimentos negativos que outra pessoa nutre à nosso respeito?

Quando alguém não está bem conosco, a gente acaba sentido o desconforto de alguma maneira. Não tem escapatória. A questão, talvez, seja dramática de equacionar justamente porque coloca em pauta aquilo que sentimos sobre o outro e sobre a situação compartilhada, somando-se àquilo que o outro sente sobre nós e sobre o que foi vivenciado. Cada pessoa com uma razão e um sentir próprios, na maior parte do tempo em divergência, quando se trata de conflitos. Assim, os resultados dessa operação podem ser complexos e devastadores. Acredito que todos nós, muito provavelmente, já passamos por alguma experiência nesse sentido e sabemos como dói.

Existem momentos em que reivindicamos a razão, mas ela não resolve nada porque o que fala mais forte é o sentir. E dói. Dói muito. E, neste campo sofrido, a gente acaba se perdendo no emaranhado de afetos, por vezes, desconexos e desconectados da realidade. Buscamos explicação fora de nós, mas descobrimos que a dor diz muito mais sobre as nossas próprias dificuldades do que gostaríamos de confessar em voz alta.

Portanto, o que difere, aumentando ou diminuindo o ressentimento, é a maneira como enfrentamos o fantasma da mágoa. Sim, ela se instala dentro de nós como uma assombração de plantão, armada para nos assustar e nos fazer recuar diante da mínima possibilidade de reconhecer as nossas faltas… e falhas!

Se não posso falar o que penso e sinto para o outro, comprometo minha própria consciência, que acaba se escondendo atrás deste não-ato. Evidentemente, dizer e demonstrar deveriam sempre ser acompanhados da sinceridade-amorosa. Isto demanda clareza sobre o fato de que só podemos expressar a nossa verdade, sabendo que ela é apenas um interessante ponto de vista. Nada a mais. Por isso, quando falo para o outro, preciso falar daquilo que me toca internamente, sem julgamento sobre o mundo exterior. Caso contrário, perco a capacidade de me posicionar e também de criar oportunidades para que a minha perspectiva seja questionada.

Enquanto pensarmos de forma comum, por exemplo, acreditando que a razão nos pertence, nossa mente permanece no lugar comum. Ao passo que, se olharmos os fatos por diferentes ângulos e com a mente e o coração abertos, há uma chance maior de nos colocarmos no lugar do outro e, por meio da empatia, nos dedicarmos à disciplina de criar uma mente que se oponha à negatividade. Ou seja, nenhum desafeto precisa ser interpretado de forma pessimista, mas não estou aqui sugerindo que a violência, por exemplo, esteja passível de atenuantes. Nem mesmo quando decorre de alguma patologia. Bem, pensando melhor, talvez, nesses casos, devamos buscar aplicar várias doses extras de compaixão e compreensão.

Meu ponto aqui é que oferecer ao outro o benefício do perdão não resolve em nada sua situação. A condição emocional-espiritual dos outros não está em nossas mãos e, muito menos, depende da generosidade do nosso perdão. Este só serve para ressonar a paz em nossa própria alma, deixando o coração sereno e a consciência tranquila. Isto, sim, é libertador. Só podemos perdoar a nós mesmos e aos outros dentro de nós. O que o outro faz com o nosso perdão, não importa. Basta desejarmos que aquela pessoa desfrute da mesma paz que nós.

Recolocar as coisas dentro do coração, nas suas devidas proporções e lugar, estabelecendo o que realmente é essencial para o nosso existir no tempo-espaço, nos ajuda a renunciar ao sofrimento e a caminhar para estados de felicidade verdadeira. O perdão é um processo de purificação da alma. Da nossa, não da alma do outro. E um espírito livre de ressentimentos abre um universo inteiro de otimismo diante da vida, em qualquer tempo-espaço.

Enfim, chega de lamúrias e vamos à tarefa de nos perguntar: o que tenho no fundo do coração? O que estou guardando neste lugar sagrado? O que isso tem de importante? Como isso me ajuda a ser uma pessoa melhor?

 

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