Nada é o que parece ser

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Andrea Silveira – @andreafsilveira

Sempre ouvi dizer que as coisas não são exatamente como parecem ser. Inclusive, me lembro da propaganda de um shampoo contra caspa que usava exatamente este chavão para promover a ideia de que tomamos por pressuposto algo, acreditando que é o que parece, mesmo não o sendo.

Parece um jogo de palavras, mas não é. A ideia pode parecer confusa, mas também não é. O que tem por trás disso é, de fato, uma lógica perfeita. E ela nos intima a aguçar a percepção em tal nível que jamais conseguiremos voltar a olhar “as coisas” sem buscarmos entender em que condições elas se apresentam como são.

As ilusões são criadas e reforçadas a partir do princípio de que tudo é o que é. Ou, como dizem por aí, que as coisas existem por si mesmas. Isto faz com que a gente se apegue a determinadas verdades e as tome como absolutas, aumentando nosso sofrimento. Por isto, drenar as ilusões é um alento muito grande. Aceitar que tudo é relativo e só existe em função das condições em que se apoia é o caminho para encontrarmos a paz interior.

Por exemplo, suponhamos que alguém tenha feito algo muito ou pouco grave. Como consequência, isto nos magoa e ficamos aborrecidos com a pessoa. Somos cobrados a perdoar, mas não conseguimos porque a pessoa agiu errado conosco. Podemos até conceder a ela a indiferença, mas jamais desculpá-la. O enredo é triste e o cenário caótico. Então, vamos tentar desconstruir isso e veremos que tudo é relativo mesmo!

Primeiro, a ideia de gravidade só existe porque atribuímos uma graduação para dar importância a algo. É a nossa percepção, baseada em experiências e referências acumuladas, que interpreta o que está sendo observado e o classifica: bem, mau, grave, irrelevante, feio, bonito, merecido, desmerecido, e assim por diante. Ou seja, a coisa em si não existe. Ela precisa de uma referência para ser reconhecida.

Ainda, o que alguém faz pode não representar aquilo que a pessoa é. Quando confundimos a “ofensa” com o “ofensor”, perdemos de vista a essência e a natureza da pessoa, que é a mesma que a nossa. Se, ao contrário, conseguirmos abstrair a pessoa do comportamento, talvez possamos entender que não há fundamento para ficarmos com raiva dela e que a mágoa não se refere ao “ser”, mas decorre do que percebemos da sua atitude.

Certo e errado também são referências que aprendemos e usamos para rotular o mundo. Mas as perguntas são: qual a história de vida daquela pessoa? Em que condições ela se desenvolveu? E a minha história e condições de aprendizado?

Inúmeras vezes, somos levados a reagir contra essa lógica porque ela faz com que deixemos de culpar tudo e todos, convocando a nossa responsabilidade pelo próprio sofrimento. Como disse uma amiga recentemente: somos nós mesmos que criamos o nosso umbral. Sabe, aquele lugar escuro, frio e pegajoso em que as “almas pecadoras” são aprisionadas nos filmes de vida após a morte, nada mais é do que a nossa mente iludida com todos esses preconceitos e culpas.

As coisas são vazias delas mesmas e somos nós que vamos preenchendo os espaços com as nossas interpretações enviesadas. É a nossa mente equivocada que vai atribuindo significados, valores, conceitos para tudo que observa. De fato, sofrimento e felicidade são potenciais que nós mesmos criamos, na medida em que construímos essas ilusões.

É que a aparência das coisas nos atrai. Talvez, por isto, saímos por aí nos apegando às primeiras impressões como se elas carregassem as respostas para as nossas perguntas existênciais. Ritos, religiões, conceitos providos de aignificados para nos ajudar, aparentemente, encontrar nosso “eu maior” (aliás, o único que somos!).

Porém, ao aceitarmos que as coisas existem apenas em função das suas condições, ampliamos o entendimento daquilo que observamos e vamos nos afastando do sofrimento, possibilitando que a vida seja mais feliz. A sabedoria vai amadurecendo e a gente vai vivendo melhor.

Se percebermos o quanto essas convenções refletem as estruturas rígidas que criamos, nos daremos conta do vazio que representam e nos remeteremos de volta ao próprio vazio que somos. É nesse lugar que podemos repousar a mente, pois é na vacuidade que existimos como possibilidade infinita de vir a ser luz.

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Caminhos, caminhadas e caminhantes

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Andrea Silveira – @andreafsilveira

O chacoalhar do trem não tirou meu sono. Dormi super bem a noite inteira, depois de ter driblado a ansiedade de começar mais uma aventura. O friozinho na barriga sempre antecede a fila de embarque e enquanto não volto para a casa, ele é meu companheiro permanente. Contudo, nunca se torna um excesso de peso. Ao contrário, ele serve de intuição para algumas decisões de improviso. Se venta demais dentro de mim, espero um cadinho ou me posiciono em outros cantos. Acredito ser fundamental viajar sintonizado consigo mesmo e respeitar o ritmo da gente. Por isso, adoro experimentar novos destinos por conta própria. Ter a liberdade de ser coerente com aquilo que sentimos e damos conta de fazer é o melhor de todas as viagens possíveis.

Alguns amigos sempre desconfiam que sou incapaz de me aquietar e acho mesmo que eles têm razão. A causa é boa e peregrinar mundo afora é uma estratégia terapêutica muito eficaz. Além do que, como diz uma amiga muito querida: viajar é respeitar a alteridade. Esse aprendizado vindo diretamente da prática é transformador. Troquei, tranquilamente, o divã pela estrada. E como ainda não me dei alta, sigo testando os destinos para o caso de alguma referência ter mudado a teoria.

Nem vou listar os benefícios de colocar a alma na estrada porque cada pessoa tem que descobrir por si mesma. O que pode ser bom para mim, talvez desagrade o outro. Vai saber… tem gente que ama seguir trilhas e há também quem adora saltar do trem uma estação antes. Tem gosto para tudo e o mundo é tão diverso e acolhedor que consegue atender à todas as expectativas.

Desta vez, planejei conhecer uma pequena parte do caminho francês que nos leva até Santiago de Compostela, na Espanha. Apesar de ter decidido por poucos quilômetros de caminhada (110 km), em comparação ao trecho original (em torno de 940 km), considero um esforço bastante significativo para uma sedentária disfarçada. Em todo caso, nada melhor do que a vontade para provocar nossos limites e chutar as nossas fronteiras para o alto.

Quem desconhece a fama dos caminhos de Santiago de Compostela talvez sinta-se empolgado com a perspectiva deste relato. É uma caminhada e tanto, passando por lugares e situações inusitadas. Encontro com pessoas de todos os lugares do mundo e encontro do universo dentro de si. Em qualquer caso, é impossível negar o caráter espiritual do caminho. Mas, em cada um de nós, a caminha repercute de um jeito singular. E como digo com frequência: cada um tem o seu “caminho de Santiago” em algum momento da vida e não é, necessariamente, este disponível na Espanha.

Quem já é familiarizado com os depoimentos dos peregrinos pode pensar: “mais um texto sobre a experiência do caminho na net. Que repetitivo!”. Eu mesma li dezenas de blogs e dicas antes de escolher meu itinerário e concordo que dá uma certa preguiça as pessoas falando as mesmas coisas de maneiras diferentes (em que pese que a maioria fala quase do mesmo jeito!). Mas, enfim, queria saciar minha curiosidade com fatos concretos, então, embarquei sem compromisso.

Cheguei em Sarrià no trem matinal, desfrutando da cidade por um bom tempo antes de começar a caminhada no dia seguinte. Fiquei feliz por estar ali, mas com o avanço lento do relógio comecei a desenvolver uma impressão estranha: essa história de andar por esses caminhos é quase que literalmente pra inglês ver. Em poucas horas encontrei vários grupinhos deles. Só fui mesmo mudar de ideia sobre isso quando me deparei com um grupo grande vindo da Indonésia. Que pessoal divertido e festivo. Ajudou a desfazer minha primeira impressão!

Alguns insights rapidamente pularam na minha consciência, amadurecendo as ideias iniciais. Me lembrei de uma consulta recente com o homeopata que questionou minha imposição de tamanho esforço ao corpo físico. Na sequência, a fala de um amigo também muito querido que já havia feito o caminho me incentivava a seguir em frente com o desafio. Mas entre um e outro, em algum ponto, minha voz interior me convenceu a abandonar o tal passaporte de Compostela no fundo da mochila. Esse é o documento no qual você vai coletando carimbos ao longo das etapas para, no final, receber sua certificação em Santiago.

Afinal, quem precisa de carimbo??

Disse esse amigo que cumprir a tradição também pode ser uma curtição. Mas enquanto caminhava eu pensei: é necessário que seja uma coisa que tenha um sentido especial pra gente, caso contrário, ela perde mesmo o valor e o significado. E, então, me lembrei da coleção de tradições que já abandonei e do quanto me sinto muito mais leve e feliz por ter rompido certas convenções.

É isso. Quando sabemos qual é o nosso verdadeiro propósito com aquilo que nos propomos um horizonte de possibilidades se abre diante dos nossos pés e nos convida a criar o próprio caminhar. Não “temos que” nada. E tudo é válido quando toca a nossa alma pequena.

Neste momento, sinto que já ganhei a viagem e se as pernas não corresponderem à demanda da trilha, vou logo pegar um trem, um ônibus ou até mesmo um táxi pra chegar no próximo destino. Que importa como percorro o caminho? O propósito pode ser cumprido de diferentes formas (e meios de locomoção, neste caso).

Estou rindo muito agora. É de deboche comigo mesma. Me meto em cada uma….Mas como sempre digo, não precisa pressa, apenas a entrega. Mas como esse não é um blog sobre Compostela, vou concluir essa caminhada por aqui.

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O avesso do bordado

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Andrea Silveira @andreafsilveira

A agulha espetada na blusa espera, pacientemente, a escolha das linhas e do tecido. Ela conhece sua tarefa decor e salteado. Pontinho para lá, talvez uma laçada no meio, outro pontinho para cá e pronto: um cenário surge no pano, uma bainha é concluída, um cerzido recupera a roupa surrada e assim vai fazendo mágica pelas mãos da bordadeira.

O trabalho é exaustivo e demanda muita coordenação motora, visual e até mesmo emocional. Por exemplo, quanto mais sofisticado um bordado, maior concentração tem que ser dedicada e também um bom planejamento. É necessário traçar algumas linhas para delinear o caminho a ser percorrido pela agulha. Igualmente fundamental é garantir certa luminosidade no ambiente para se enxergar melhor a trama do tecido e dispor ainda de uma dose generosa e paciência, sobretudo quando se trata de rococó.

A delicadeza do tecido pode dificultar um pouco a produção. Quanto mais fino, mais sutil tem que ser o movimento. Não adianta correr e enfiar a agulha de qualquer jeito. Cada etapa do bordado é para ser vivida de maneira especial e atenta aos detalhes. Muita pressa é trabalho perdido porque a bordadeira terá que desmanchar tudo e recomeçar.

Nem sempre, entretanto, é possível recuperar o bordado. Se os pontos estavam muito apertados e enrijecidos, o pano acaba ficando marcado para sempre. Não tem como criar um novo traço, ignorando o erro cometido. Neste caso, é mais recomendável trocar o tecido e começar o bordado do zero. Ou então, improvisar e mudar o panejamento do desenho. Mas isto exige algumas habilidades por parte da bordadeira.

Desprendimento é uma delas. Quanto menos apego ao croqui original do bordado, mais flexibilidade para esboçar novos traços. Assim, as adaptações vão ficando cada vez mais fáceis. Claro, o resultado será outro, mas a criatividade terá rendido boa distração.

Curiosidade é outro requisito em casos dessa natureza. Sempre que olha para fora do seu bastidor, a bordadeira consegue experimentar outros estilos e técnicas. Melhor ainda, se não restringir sua estampa ao esquadro inicial, poderá dispensar a chapa e o carbono para picotar sua imaginação no tecido, sem nenhuma censura. Nada de copiar e colar e, sim, de liberar-se totalmente para seguir sua intuição.

Apesar da possível ousadia da bordadeira, a agulha segue desempenhando sua função, assim como as linhas e o tecido. Tem coisas que nasceram para ser como são, pois assim o sendo, nos permitem fazer o que é coerente para nós. Isto é ser livre de fato: ser o que somos e agirmos como tal.

Por outro lado, é importante termos clareza sobre a nossa essência. Afinal, como poderíamos reivindicar alguma coisa se não a reconhecemos?!

Em relevo ou plano, apertado ou solto, cheio de pontos sofisticados ou apenas algumas simples cruzinhas, são características que podem ir se modificando ao longo do projeto. Porém, o avesso do bordado revela tudo sobre a bordadeira. Às vezes, frente e verso são tão iguais que confundimos os dois. Em outras, a linda estampa da frente apenas esconde um emaranhado de linhas por trás do pano.

Penso que a vida das gentes é semelhante a um bordado. Não precisamos nos ater a um plano perfeito, mas é imprescindível que o nosso avesso não seja um reverso confuso.

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A luz da cabeceira

Nasci nos anos sessenta, mas tivesse vindo ao mundo uma década antes ou depois teria herdado dos astros a mesma motivação para buscar ser uma pessoa melhor. Simplesmente assim: acredito que a trajetória de vida é planejada especificamente para sacudir a nossa alma, até que possamos nos reconhecer luz. Afinal, somos todos uma faísca em potencial. A diferença está nas condições reunidas para favorecer ou dificultar o aprimoramento daquilo que somos.

O planejamento me parece ser igual para todos nós: “vai evoluir, ganhar experiência, vencer medos, superar obstáculos, tornar-se uma alma inteira. Vai! Depois retorna ao lar. Enquanto isso, manteremos uma luzinha acesa para te lembrar deste compromisso.”

Alguns de nós, entretanto, precisam de um holofote potente. Não basta uma luz na cabeceira da cama. Para outros, a luz vem acompanhada de um “grilo falante” que cumpre a tarefa de nos inquietar intensamente. Ele fica nos lembrando do tempo que está passando e das mudanças constantes do mundo.

Porém, o fato de vivermos em transformação não nos torna frágeis. Ao contrário, ajuda-nos a aproveitar o lado positivo desta experiência para darmos sentido aos nossos passos. Claro, este é apenas um ponto de vista. Muita gente, certamente, vai argumentar que transições recorrentes provocam instabilidade, o que pode ser sinônimo de desequilíbrio. Mas, talvez, a questão seja romper com a rigidez da nossa estrutura. Efetivamente, ser flexível nos traz alternativas de crescimento e nos tira do conforto dos sapatos apertados. Quando nos autorizamos a calçar outros modelos, os passos ficam até mais interessantes. E vale, inclusive, usar um pé de cada sapato, ousando na excentricidade das nossas escolhas. Pode confiar: não vamos nos perder por isto, pois “todos os caminhos nos levam a Roma”.

Podemos saborear a alegria de nos aventurarmos ao longo da jornada porque no fundo de nós mesmos já se encontram todos os elementos que nos definem como luz. Tudo que precisamos está bem guardado e, muitas das vezes, só precisamos desentulhar o espaço e desembrulhar o presente. O que não podemos é nos sabotar das mais variadas formas, limitando nosso autoconhecimento. Chega de criar fronteiras que nem mesmo o corpo reconhece. A ignorância de si mesmo pode ser perversa e nos prender no limbo das emoções e ideais tóxicos.

É importante deixar de capengar ou de ficar patinando no ideal da iluminação. A luz na cabeceira ilumina nossa sabedoria interna e aquela voz que nos convida a ir mais além do nosso perímetro humano serve, justamente, para nos acordar e nos atrair para a luz da consciência. É ela que clareia a travessia pelas sombras. É esse raio que relampeja no céu do nosso mundo e abre novas estradas para o centro da nossa luz.

Muitos de nós passam anos meditando em cavernas. Outros tantos se dedicam a práticas sagradas rigorosas. Vários buscam ascender por meio de projetos sociais. São inúmeros caminhos e caminhantes, cada um com a sua crença sobre se salvar das sombras. Mas a luz sempre esteve ali. Bastava valorizar o abajur na cabeceira do carma.

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Milagres do cotidiano

Lee Jeffries @leejeffriesphotografer https://lee-jeffries.co.uk/

 

Renascer todos os dias é um grande aprendizado de desapego: renunciamos aquilo que não nos cabe mais e abrimos espaço para novas possibilidades. Mais leves, podemos escolher novos caminhos porque já experimentamos uma jornada cheia de lições. Claro, nem sempre aprendemos todas elas, mas não precisamos nos preocupar com isto. Quando necessários, os ensinamentos se repetem de outras formas e estamos, constantemente, sendo brindados com diferentes oportunidades de transformação.

Pois é no cotidiano que a vida acontece e que esse milagre do renascimento ocorre da maneira mais singela possível. Por vezes, singela demais e acaba passando desapercebido por nós. Estamos distraídos com a ansiedade do futuro e não enxergamos que magia reside nos tímidos detalhes. Na maior parte do tempo, ignoramos ou não valorizamos as pequenas coisas da vida e mesmo que a nossa intuição sopre nos nossos ouvidos, não reconhecemos os bons ventos. Mas, de novo, não temos que nos preocupar com isto também. Em algum momento da nossa caminhada, voltaremos a ser convidados para a renovação.

O chamado vem de pequenas surpresas feitas por pessoas, lugares e situações diversas, sem aviso prévio. Pelo menos aparentemente, pois há quem acredite que o verdadeiro milagre é precedido de sinais nem tão despretensiosos assim. De insight em insight, o universo vai iluminando a nossa alma e quando nos damos conta, o “desconhecido” que nos habita ascende e se revela. Se espelha no mundo exterior, refletindo nossa essência, e nos faz entender quem somos. Alguns chamam isto de amadurecimento. Eu prefiro dizer que é um despertar mesmo. E mais: renascer todos os dias, em condições adversas, é um milagre de fato!

Para abrir os olhos pela manhã e enfrentar a rotina desse mundo é necessário uma dose extra de fé, além da coragem e da disposição, independentemente dos privilégios a que temos acesso. Se eles são muitos, cabe-nos o desafio de compartilhá-los e de lutar para que outras tantas pessoas também sejam beneficiadas. Se eles são escassos, a batalha fica ainda mais intensa. De qualquer maneira, é preciso reconhecermos que somos parte integrante do cotidiano deste planeta e que a vida por aqui é como uma plantação de tâmaras: o que vale é a boa semeadura porque não comeremos seus frutos nem a médio prazo.

Por isto, cada momento do nosso dia é tão precioso. Cada relação, cada abraço, cada olhar, cada palavra. Não importa se estamos caminhando no centro da cidade ou na beira da praia. Não faz diferença se estamos comendo “mandioca” ou “macaxeira” (literalmente!). A questão fundamental, neste caso, é estarmos presentes onde quer que estejamos, fazendo seja lá o que for, por inteiro: de corpo e alma.

Entretanto, operar esta equação todos os dias, de maneira consciente e lúcida, é tarefa das mais instigantes. Demoramos a aprender que somos capazes de tamanha façanha, mas acabamos conseguindo vencer o desafio com perseverança e humildade. Quando entendemos a melodia que emana dos nossos relacionamentos com o mundo, abrimos nossa alma com sabedoria e amorosidade. E como não chamar isso de milagre?

Vivemos em um emaranhado de ideias e valores que estão, o tempo todo, conspirando entre si e nem sempre a nosso favor. Somos testados, questionados, ensinados a desacreditar e a inventar um jeito de sobreviver nas aparências. Abrimos algumas portas e fechamos outras janelas. Às vezes, invertemos a ordem. Mas a verdade é que, por trás das nossas atitudes, existem infinitas possibilidades de escolha e se não nos dedicarmos a esse processo, nenhum milagre acontecerá. Simplesmente, não dá para ficarmos olhando para o céu, à espera da transformação.

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Felicidade!

Akash é um dos meus fotógrafos favoritos. Nascido em Bangladesh, ele desenvolveu o dom de clicar a realidade e tocar a nossa alma com imagens que despertam a consciência e a compaixão. Ao mesmo tempo em que revela nossas falhas como coletivo humano, seu trabalho também mostra a luz que desponta por detrás de precárias condições de vida e dá visibilidade para as pessoas e situações capturadas por suas lentes.

O retrato de Montaj Mia, por exemplo, traz uma belíssima reflexão sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida e deixa um ensinamento muito claro: a felicidade é um estado inadiável!

Após ter ficado viúvo, ele passou vários anos cuidando dos filhos e se dedicando exclusivamente à sua família. Quando, finalmente, encontrou um novo amor e foi viver esta alegria, passou a ser criticado por amigos e familiares. Ainda bem que ele não se deixou consumir pelos comentários das pessoas. Seguir em frente, experimentando situações felizes pode ser um ato de muita coragem.

Olhando para essa figura de barba e cabelos alaranjados, fica impossível não se questionar sobre sua excentricidade. Para alguns, Montaj pode parecer apenas mais um “maluco beleza” querendo chamar a atenção para si. Mas há também aqueles que compreendem a beleza deste “maluco” nos convidando a apreciar sua conquista, após tantos sacrifícios. E é exatamente para este aspecto que o contorno ensolarado do seu rosto nos invoca.

Quantos de nós foram condicionados a acreditar que a felicidade dos outros vem em primeiro lugar? Quantos de nós tentam satisfazer as expectativas dos outros na maior parte do tempo? Quantos de nós adiam a realização de um sonho para priorizar o desejo de outra pessoa?

Colocada sob pontos de interrogação, a felicidade, neste caso, parece se opor à generosidade na sua forma mais genuína. O desprendimento e o desapego nos levariam ao sofrimento e, consequentemente, à infelicidade. Nesta perspectiva, qualquer sacrifício pelo outro é um castigo e uma prisão. Uma vez neste caminho de abnegação, ninguém pode pegar um atalho para realizar algo em benefício próprio sem que seja crucificado pelos outros. Há um peso em fazer o outro feliz e também um peso em ser feliz.

Na contramão deste cenário, porém, está a compreensão de que é possível conciliar a nossa felicidade com a das pessoas com quem convivemos. Ninguém precisa ser punido por ser feliz, pois a nossa felicidade traz alegria para as outras pessoas e levar felicidade para os outros reforça também a nossa alegria de viver. Se somos pessoas mal resolvidas, como esperar que nossas ações para fazer os outros felizes gerem a energia de amor e de compaixão que transmuta o sofrimento alheio em felicidade? E isto não é apenas um jogo de palavras. É o entendimento, de fato, de que temos ambos: o compromisso de sermos felizes e de levarmos felicidade por onde caminhamos.

Uma coisa não exclui a outra e quando isto acontece, que felicidade é essa?

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Tudo certo como dois e dois são cinco

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Transformar o mundo? Não! Não se trata mais de mudar o mundo. Ele é o que é, exatamente do jeito que precisa ser para acolher as mais diferentes necessidades de crescimento espiritual dos seres que aqui transitam. O mundo não está errado, nada nele é injusto e, consequentemente, dispensa os super-heróis que se lançam na tarefa de salvá-lo. Talvez careça de regeneração e renovação das suas forças e potencial para dispor de novas oportunidades de ensinamento, mas tudo o que ocorre nele, desde sempre, por mais triste ou complicado que possa parecer, tem uma razão justa e precisa para existir e um propósito a servir.

Portanto, está tudo certo com a soma dos fatores e cada evento encontra-se em seu devido lugar, na hora exata para amadurecer os frutos que nos alimentarão, de acordo com a nossa singularidade. Claro, por sermos diferentes, há infinitas realidades e também ensinamentos que contemplam, particularmente, nosso aprendizado e impulsionam o processo de iluminação. Assim, compreender que os moinhos são imaginários é fundamental e libertador, pois assimilando essa verdade, conseguimos nos desprender dos fatos que nos parecem reais para encararmos as ilusões da mente com leveza e agirmos em sintonia com o que Somos.

Afinal, transitar nesse mundo é um privilégio concedido para acelerar o desapego e aceitar a impermanência e a relatividade de tudo. Dessa maneira, podemos evitar qualquer ordem de sofrimento, posto que tudo passa e nada resta para sempre da mesma forma. Então, para quê procurar nossas respostas na vida exterior? É desnecessário fugir quando carregamos a dor na alma; ela só se desfaz com o auto-perdão, independente de onde estivermos. Não há o que buscar fora de nós quando a luz divina e sagrada está justamente em nosso Ser; a iluminação vem de dentro e também independe de onde nos situamos. Tudo depende, exclusivamente, de encontrarmos a nós mesmos ali onde Existimos.

Não precisamos ir a lugar algum, nem levantar bandeiras por nenhuma causa. Basta olharmos para o reflexo das experiências espirituais que vivemos e reconhecer que a felicidade não é mesmo desse mundo. Certamente, viver nesse contexto material abre a consciência para a grandeza da nossa existência e predispõe a alma para acolher sua simplicidade. E, para tanto, podemos estar onde estamos, desde que estejamos onde Somos.

É tempo de reforma íntima, nada mais ou diferente disso. Apesar dos constantes flagrantes coletivos, disparadores das mais variadas crises humanas a que temos sido expostos ultimamente, o momento pede concentração nas atitudes individuais. É chegada a hora de vivermos pessoalmente as mudanças que desejamos para o nosso mundo e isso só é possível com as micro-intervenções: estará tudo certo quando agirmos de maneira coerente com a nossa essência divina, sabendo que dois mais dois nunca serão quatro!

 

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