Nós, mulheres, somos raras!

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Sreemangal Tea Garden – Bangladesh

Era final da tarde, o sol estava se recolhendo e as mulheres terminando o primeiro turno de trabalho. Alinhadas com enormes fardos de folha de chá na cabeça, aguardavam sua vez para pesar a produção do dia, antes de voltarem ao lar. Roupas coloridas disfarçavam o cansaço no rosto. Um sorriso tímido escondia a curiosidade sobre a estrangeira que acabara de chegar. Olhos e ouvidos atentos acompanhavam a conversa com o responsável local, em uma tentativa, em vão, de explicar que fotografias não eram permitidas ali. Já era tarde. Várias imagens haviam sido registradas. Não tinha como voltar atrás, a não ser que eu as apagasse do cartão de memória. Mas jamais, porém, conseguiria apagá-las da minha própria memória.

Fotografar é uma arte que eu não domino. Pretensa é a minha vontade de sair pelo mundo e registrar tudo o que eu vejo com técnica impecável. Agora aprendi um pouco mais. Agora aprendi, sobretudo, que sem o enquadramento necessário, não há técnica que facilite nossos registros. Então, deixar que a lente seja direcionada pelos olhos do coração é a melhor estratégia.

Por outro lado, é a nossa visão de mundo que interfere neste olhar. Nosso coração está sintonizado com aquilo que pensamos, com as nossas expectativas sobre a vida. Compreender e conhecer melhor o “cenário” em que estamos mergulhando também faz uma enorme diferença. Sendo assim, é impossível olhar para aquelas mulheres no final de um longo dia de trabalho sem sucumbir em prantos.

Lágrimas de alegria por reconhecer a sua força e capacidade de produzir o sustento da família. Lágrimas de amor por me sentir acolhida em seus olhares compenetrados, acompanhando minha teimosia ao me expor para o responsável local. Mas lágrimas de vergonha pela posição privilegiada em que eu me encontrava. Lágrimas de tristeza pelas condições de trabalho a que elas são submetidas. E, no final, lágrimas de gratidão por viver essas situações com a consciência sempre em estado de alerta e de indignação.

As mulheres que trabalham nas plantações de chá recebem 150 takas (em torno de 1,7 dólares) por dia, pelo trabalho de quase 10 horas corridas. Sua tarefa é colher, pelo menos, 21 quilos de folha de chá ao longo da jornada. O fardo é rigorosamente pesado no final de cada turno e anotado em um caderno, cuidadosamente controlado por um homem, cuja função é de responsável local. Após a pesagem, elas depositam a produção na carroceria de um caminhão, que leva tudo para o processamento na central da fábrica. Só então elas deixam o local em direção às suas casas, geralmente 3 a 4 quilômetros de distância da fazenda, para dar início ao segundo turno de trabalho: cuidar da família e do pequeno espaço em que habitam.

Há tantas coisas a serem questionadas neste cenário: a desvalorização da mulher, as condições em que o trabalho ocorre, a exploração de empresas internacionais sobre a mão-de-obra dos países considerados pobres, o controle do trabalho sob o domínio de homens, e essa mania que estrangeiro tem de chegar nos lugares e criticar tudo o que vê, se achando no direito de denunciar tudo o que está em desacordo com os seus próprios costumes. Difícil ir a fundo em cada uma dessas questões de maneira imparcial. Meu lugar de fala está permeado das minhas raízes, minha lente está comprometida com os meus ideais. E eu nem tenho conhecimento suficiente para discutir todos esses assuntos. Mas tudo isso me impacta significativamente. Sou capturada por sentimentos diversos, inclusive o de revolta e, principalmente, de constrangimento pela humanidade que nos tornamos.

Tentei. Não consegui convencer o responsável local sobre a ingenuidade da minha câmera. Desconfiado das minhas intenções (talvez ele identificasse em minha expressão essa confusão de sentimentos), alegou que muitos jornalistas se fazem passar por turistas para reportar a exploração do trabalho dos “diminuídos”. Segundo ele, historicamente, isto já prejudicou as relações comerciais entre os países e a empresa (no caso, internacional) adotou a política de proibir fotógrafos, sejam eles quais forem. Parece que, no passado, alguns órgãos internacionais pressionaram a política local para que fossem adotadas medidas mais justas de trabalho.

Guardei a câmera, engoli a indignação e estava deixando o local quando algumas das mulheres vieram ao meu encontro e, gentilmente, se deixaram fotografar. Não falo a língua local e a tradução da conversa estava sendo intermediada por outra pessoa, mas pude reconhecer naquela atitude um sinal: não queremos ser invisíveis; queremos, sim, que o mundo nos enxergue! Senti uma alegria saltando pelos olhos, não pelas imagens que poderia registrar, mas por tudo o que aquele gesto delas representava..

Imagens singelas de mulheres fortes. Imagens que revelam a beleza por trás da vulnerabilidade social e cultural. Nenhuma fragilidade constatada, a não ser a do sistema socioeconômico em que vivemos e ao qual nos submetemos no chá das cinco. Na superfície das minhas expectativas encontro um mundo completamente diferente do que considero que deveria ter construído a humanidade. Falimos em nossa tarefa. Destituímos da vida exatamente aquilo que poderia equilibrar nossa existência. Nem ouso dizer o que. Temo, eu mesma, desconhecer.

Só sei que, jamais, pelo resto de minha vida, tomarei outra xícara de chá sem me lembrar daquelas mulheres. Cada gole terá um sabor diferente. Talvez um tanto amargado pela injustiça e pela desigualdade que testemunhei. Entretanto, por mais que eu acredite que as coisas sempre acontecem por alguma razão e nunca por acaso, não concebo nenhuma passividade ou omissão diante da realidade do sofrimento humano. Então, escolho corroborar a desconfiança do responsável local e adicionar ao meu chá doses de solidariedade feminina.

Nós, mulheres, somos raras!

 

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O bálsamo do perdão

Anil Prabhudev

Foto: thanks to Anil Prabhudev

Sempre me disseram, diferentes pessoas e em momentos diversos, que o ressentimento faz muito mal para o nosso coração. Tem até aquela frase célebre, atribuída ao Shakespeare, ensinando: “a raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram”. Muitos ditos populares e ensinamentos religiosos poderiam ser listados aqui para reforçar essa ideia, mas nem precisamos estender o repertório. A lição é clara: nossas mágoas são apenas nossas e causam danos a nós mesmos, muito mais do que aos outros. Claro, também provocam o sofrimento alheio. Afinal, quem nunca se sentiu incomodado (para declarar o mínimo) com os sentimentos negativos que outra pessoa nutre à nosso respeito?

Quando alguém não está bem conosco, a gente acaba sentido o desconforto de alguma maneira. Não tem escapatória. A questão, talvez, seja dramática de equacionar justamente porque coloca em pauta aquilo que sentimos sobre o outro e sobre a situação compartilhada, somando-se àquilo que o outro sente sobre nós e sobre o que foi vivenciado. Cada pessoa com uma razão e um sentir próprios, na maior parte do tempo em divergência, quando se trata de conflitos. Assim, os resultados dessa operação podem ser complexos e devastadores. Acredito que todos nós, muito provavelmente, já passamos por alguma experiência nesse sentido e sabemos como dói.

Existem momentos em que reivindicamos a razão, mas ela não resolve nada porque o que fala mais forte é o sentir. E dói. Dói muito. E, neste campo sofrido, a gente acaba se perdendo no emaranhado de afetos, por vezes, desconexos e desconectados da realidade. Buscamos explicação fora de nós, mas descobrimos que a dor diz muito mais sobre as nossas próprias dificuldades do que gostaríamos de confessar em voz alta.

Portanto, o que difere, aumentando ou diminuindo o ressentimento, é a maneira como enfrentamos o fantasma da mágoa. Sim, ela se instala dentro de nós como uma assombração de plantão, armada para nos assustar e nos fazer recuar diante da mínima possibilidade de reconhecer as nossas faltas… e falhas!

Se não posso falar o que penso e sinto para o outro, comprometo minha própria consciência, que acaba se escondendo atrás deste não-ato. Evidentemente, dizer e demonstrar deveriam sempre ser acompanhados da sinceridade-amorosa. Isto demanda clareza sobre o fato de que só podemos expressar a nossa verdade, sabendo que ela é apenas um interessante ponto de vista. Nada a mais. Por isso, quando falo para o outro, preciso falar daquilo que me toca internamente, sem julgamento sobre o mundo exterior. Caso contrário, perco a capacidade de me posicionar e também de criar oportunidades para que a minha perspectiva seja questionada.

Enquanto pensarmos de forma comum, por exemplo, acreditando que a razão nos pertence, nossa mente permanece no lugar comum. Ao passo que, se olharmos os fatos por diferentes ângulos e com a mente e o coração abertos, há uma chance maior de nos colocarmos no lugar do outro e, por meio da empatia, nos dedicarmos à disciplina de criar uma mente que se oponha à negatividade. Ou seja, nenhum desafeto precisa ser interpretado de forma pessimista, mas não estou aqui sugerindo que a violência, por exemplo, esteja passível de atenuantes. Nem mesmo quando decorre de alguma patologia. Bem, pensando melhor, talvez, nesses casos, devamos buscar aplicar várias doses extras de compaixão e compreensão.

Meu ponto aqui é que oferecer ao outro o benefício do perdão não resolve em nada sua situação. A condição emocional-espiritual dos outros não está em nossas mãos e, muito menos, depende da generosidade do nosso perdão. Este só serve para ressonar a paz em nossa própria alma, deixando o coração sereno e a consciência tranquila. Isto, sim, é libertador. Só podemos perdoar a nós mesmos e aos outros dentro de nós. O que o outro faz com o nosso perdão, não importa. Basta desejarmos que aquela pessoa desfrute da mesma paz que nós.

Recolocar as coisas dentro do coração, nas suas devidas proporções e lugar, estabelecendo o que realmente é essencial para o nosso existir no tempo-espaço nos ajuda a renunciar ao sofrimento e a caminhar para estados de felicidade verdadeira. O perdão é um processo de purificação da alma. Da nossa, não da alma do outro. E um espírito livre de ressentimentos, abre um universo inteiro de otimismo diante da vida, em qualquer tempo-espaço.

Enfim, chega de lamúrias e vamos à tarefa de nos perguntar: o que tenho no fundo do coração? O que estou guardando neste lugar sagrado? O que isso tem de importante? Como isso me ajuda a ser uma pessoa melhor?

 

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Uma causa pra viver e pela qual lutar

flower-in-hand

Foto: thanks to @flower_inhand

Não importa qual, diziam os existencialistas, mas é necessário ter um sentido de vida. E a verdade é bem essa mesmo: se você não sabe para qual direção caminhar, não tem “vento a favor” que resolva. A ventania logo se transforma em um turbilhão e acaba nos jogando no olho do furacão. E, diga-se de passagem, para se enxergar a partir deste lugar o esforço é bem maior. Como diz o ditado, o melhor é prevenir a tempestade para não ficar à deriva.

Por outro lado, para posicionarmos melhor a vela, é necessário termos uma noção mais ampliada de quem somos e do que queremos para o nosso caminho. Isto é um pré-requisito para transitarmos em um mundo tão complexo como este em que vivemos, pois os estímulos externos são constantes e tendem a capturar nossa atenção. Por isto, olhar para dentro de si, permanentemente, e se tornar a grande pergunta para si mesmo é o que nos possibilita o autoconhecimento. Somente assim encontramos nosso prumo. Porém, este exercício vem sempre acompanhado do desafio de se autodesconstruir. Ou seja, na medida em que vamos lapidando os conceitos sobre nós mesmos que foram sendo incutidos ao longo da vida, nos desapegamos das verdades absolutas dos outros e abrimos espaço para acolher as verdades relativas da vida.

Colocado dessa maneira, pode parecer algo muito complicado de entender. Mas é simples. Traduzindo em miúdos, isto apenas quer dizer que a gente precisa deixar de pensar que sabe tudo, que é dono da verdade e da razão, que se comporta e é do “jeito certo”. É necessário abandonar de vez a crença de que somos perfeitos. Claro, nós vivemos gritando, da boca para fora, que “somos seres humanos falíveis”, mas não perdemos a chance de tentar provar o contrário, principalmente quando estamos diante de situações divergentes. Quando o outro pensa e sente diferente de nós, quando o outro tem crenças e conhecimentos diferentes dos nossos, quando o outro defende uma causa diferente da bandeira que levantamos, tudo se torna duvidoso. Facilmente, o outro se torna o ponto de interrogação ou, então, o “errado” para o qual nosso dedo aponta.

Felizmente, o mundo está mudando intensamente, mesmo que estejamos experimentando a sensação do retrocesso nesses últimos tempos. O engajamento das pessoas com as grandes questões do existir é evidente e cada vez maior. Pessoas, em diversas partes do planeta, estão despertas e ocupando um lugar de fala importante para denunciar o óbvio: a urgência de mudança em todos os sentidos e níveis estruturais.

Talvez, o que deixa a impressão de que as pessoas não estão nem aí com mundo ou com a vida é o fato de defenderem uma causa diferente da nossa e ela parecer insignificante ou banal aos nossos olhos. Não há uma causa apenas para virar bandeira. São tantos acontecimentos, fatos, eventos. O fundamental é nos reconhecermos capazes de lutar por alguma coisa, por menor que seja.

Quando alguém questiona o meu fazer e tenta me cooptar para alguma causa, costumo  repetir para mim mesma: se eu não defendo a causa dos outros, tudo bem. Se os outros não defendem a minha causa, tudo bem também! O mais importante é que as nossas causas tenham como motivação sermos pessoas melhores e construirmos um mundo em que todos os seres vivos, sem exceção, possam compartilhar das experiências edificantes que este planeta nos proporciona.

O mundo pode tutelar, pacificamente, todas as causas que sustentam a ética e promovem justiça, amor e bondade. Simples assim! Se você é “Namastê” e o outro é “Salvem os Golfinhos Rotadores”, se um amigo é “Viva a Democracia” e outro “Vivam os Elefantes Africanos”, tudo bem! Juntos, cada um com a sua bandeira, estaremos gerando vibrações positivas para mudar o planeta. E é disso que precisamos: uma avalanche de transformações em todas as áreas e setores das nossas sociedades.

Agora, se você acha que tem uma causa plausível, mas, com ela e por meio dela, está causando algum tipo de sofrimento, discriminando pessoas, desrespeitando direitos, reprimindo a expressão dos outros, matando seres vivos, tomando posse daquilo que não é teu, sendo injusto ou conivente com a injustiça, então, é natural que você se irrite diante de bandeiras sociais, democráticas, ambientalistas e humanitárias.

Nestes casos, só dá para sugerir uma nova reflexão, levando em consideração a seguinte questão: esta causa realmente promove bem-estar para todos os seres vivos deste planeta? Também dá para acender uma vela de sete dias, fazer oração, mandinga, saravá, pedindo para que o véu da ignorância seja substituído pela luz da sabedoria. E que assim seja!

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As pessoas tóxicas de cada dia

Mehrdad Motejalli

Foto: thanks to Mehrdad Motejalli

É bem provável que todas as pessoas, sem exceção, conheçam, com maior ou menor grau de intimidade, pelo menos um “anão zangado”. Ele se multiplicou como os Gremlins e agora estão espalhados pelo mundo, resmungando pelos cantos e maldizendo as nossas vidas o tempo inteiro. Bem, pode até não ser com essa frequência, mas, certamente, não perdem a oportunidade de torcer o nariz para as situações, diariamente. É quase como se fosse um vício, daqueles que a gente não reconhece e nega quando alguém tenta nos conscientizar sobre o problema. O vício do pessimismo, da maledicência, da negatividade.

É uma espécie de “toxidade” e está muito mais presente no nosso cotidiano do que, de fato, identificamos. A gente até se sente incomodado, mas não sabe bem o motivo. Na vida real, esses “Gremlins rabugentos” podem estar fantasiados daquelas pessoas que acordam e substituem o simples “bom dia!” por “afff… está chovendo!” ou “afff… que sol!”. Também podem aparecer na forma de “críticos sincericidas” que fazem questão de apontar os defeitos e comentar as dificuldades dos outros. Não perdem a chance de ficarem calados e regurgitam o bolor do coração e o azedo do fígado. E tem, ainda, a categoria dos que generalizam as catástrofes dos noticiários, acreditando piamente que só acontecem coisas ruins na maior parte do tempo. Esses são hors-concours; nenhum outro pessimista de plantão consegue superar a rapidez com que se engajam na reprodução de qualquer tragédia.

Em muitos casos, esse tipo de postura de vida está tão enraizada que as pessoas nem se dão conta de que vivem embaixo de uma nuvenzinha carregada de raios fulminantes. Talvez elas usem algum guarda-chuva para se protegerem, mas não conseguem enxergar a tempestade que atraem e criam ao seu redor. E o universo, na sua infinita sabedoria e generosidade, conspira para que essas pessoas recebam exatamente aquilo que elas vibram. Ou seja, elas chamam para si todo tipo de dificuldade e terminam por tentar arrastar junto com elas as pessoas que estão em sua volta. Por mais positivo que o entorno seja, mais cedo ou mais tarde, sucumbe igualmente: o mal-humor tende a se instalar, a irritação parece crescer, as outras pessoas se armam e se colocam na defensiva e, pronto, está comprometida a situação por completo.

É muito difícil conviver com “anões zangados”. Só mesmo a Branca de Neve. O fato é que precisamos cuidar melhor das nossas emoções para não nos deixarmos contaminar pela toxidade das pessoas à nossa volta. Encontrar o “tranquilo-permanecer” em meio delas é um desafio e tanto. Missão impossível, diriam alguns pessimistas. E pode até ser mesmo, mas se pudermos manter em mente que tudo é dependente-relacionado, quanto mais nos abrirmos positivamente, melhores condições reuniremos para nos posicionarmos diante de pessoas assim.

Vale o esforço para reconhecermos, no nosso dia a dia, as bênçãos que são constante e permanentemente emanadas para e por nós. O sofrimento a que pode nos submeter uma pessoa tóxica não pode ser maior do que a nossa motivação positiva pela vida e da bem-querença pelo viver pacifica e amorosamente. O limiar das nossas emoções é muito poroso e a nossa mente ainda é confusa e frágil, por isso temos tantas dificuldades em manter pensamentos e sentimentos equilibrados. Não podemos ter a perspectiva equivocada de que cabe ao outro mudar sua negatividade e deixar de ser tóxico. E, como não temos o dom da Branca de Neve, a melhor atitude é treinarmos a nossa mente para romper com os estados pessimistas em nossa volta. Mas, se necessário for, em último caso, podemos tentar recusar o beijo do príncipe encantado e fingir um sono alienante até recuperarmos o fôlego da compaixão.

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O anjo do bem-mal

Jacob Alexander

Foto: thanks to Jacob Alexander

Um dia desses, me lembrei novamente da história da gotinha que evaporou do rio e teimava se reconhecer como chuva, enquanto precipitava sobre o oceano (https://ascendendoaluz.wordpress.com/2013/08/28/festa-com-as-estrelas/). Verdadeira crise de identidade, tolinha. No frigir dos ovos ou, para manter a lógica aqui, no fluir das águas, somos todas essas coisas e nenhuma delas isoladamente: água do rio, vapor, nuvem que passa, mar profundo!

Então, vamos imaginar ser um rio. Qualquer um. Podemos dizer que nós somos a água que corre entre as duas margens. Cada uma delas com características próprias e uma força particular, nutrindo nossas correntezas, sem pressa, e definindo nosso curso. Ajustar as margens do rio talvez seja tarefa em vão. Tirar um pouco daqui, outro acolá, impede nossas águas de se flexibilizarem entre os dois extremos para nos equilibrar. É como forjar o jeito de ser do rio, quando, o que ele precisa mesmo é aprender a usar sua potencialidade máxima para tornar-se o rio que nasceu para ser: oceano.

Os sábios ribeirinhos das comunidades do velho Madeira sempre me diziam: um rio novo não sabe de antemão qual é o seu curso. Ele vai sendo formado pela correnteza. Já o rio maduro, como um ancião, conhece melhor suas margens e assume sua força própria, ora moldando novos caminhos, ora deixando-se levar para o encontro com outras águas. É a serenidade que o amadurecimento traz. E dá para discordar disso?! Aprendemos a ser, sendo.

Mas um detalhe não pode ser ignorado: quando o rio é grande e volumoso nem sempre enxergamos suas margens. Elas podem parecer distantes demais, seja porque estamos tão distraídos com as nossas qualidades positivas ou tão deprimidos com os aspectos sombrios que teimam em nos cutucar, que nos tornamos limitados em nossa visão. Assim é a vida da gente: quando intensa demais, podemos nos perder nas águas turvas das emoções e temos dificuldade para tatear as fronteiras do nosso ser.

Em uma outra metáfora, passamos a perseguir as miragens, moinhos de ventos. E acabamos frustrados e desapontados quando nos damos conta de que nossas sombras vivem do reflexo da luz que brilha dentro de nós. De certa forma, temos a ilusão de que, para sermos luz, é preciso abandonar a sombra. Isto seria o mesmo que pedir para o rio escolher uma margem apenas.

Quanto maior o nosso auto-apreço, maior a ilusão sobre o nosso eu verdadeiro e mais dificuldade temos para acalentar nosso coração e serenarmos nossa mente. Não existe essa coisa de ser só bem, bom e positivo. Desabrochar a luz é também desbruxar as sombras. Somos anjos do bem e do mal. Nossas forças se unem, os opostos se complementam e, só assim, o rio corre pro oceano sagrado!

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Almoços de domingo

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Os almoços de domingo costumam ser uma marca importante na vida de algumas famílias. Esse hábito de reunir todo mundo em torno de uma refeição é conhecido por muitos e inspira diversos poetas e escritores. O Luiz Fernando Veríssimo, por exemplo, tem uma coletânea de crônicas chamada “A Mesa Voadora”, que dá muito o que pensar. O aprendizado disponível no menu do dia, seja ele qual for, é por conta da variação dos pratos e da qualidade das relações afetivas entre as pessoas presentes (e também ausentes!). No mais, tem de tudo: tapas e beijos! Às vezes, mais um do que o outro, mas todos acabam levando sua marmitinha para casa. Sempre resta alguma coisa para fazer a soca!

A gente vai, esperando se fartar de comida, mas volta também com a alma nutrida de afeto (positivo e/ou negativo) e a cabeça cheia de novas ideias ou caraminholas. A cada encontro uma receita nova. A combinação dos ingredientes nunca é a mesma, ainda que não tenha novidade para se degustar. A cada encontro, um reencontro. A gente se sente acolhido e tem a chance de aconchegar outra pessoa. Ou não! De qualquer maneira, a cada encontro, os laços se fortalecem e, talvez, justamente por isso, garantimos a continuidade do evento em família. Mesmo que seja daqueles encontros rompantes em que alguém sai chamuscado pela grelha do churrasco e só volta quando o cardápio  vira pizza.

Para quem adota esse costume em família consanguínea ou entre os amigos escolhidos para serem família, sabe bem que almoçar na tradição tem significados nem sempre palatáveis. Digerir uma refeição pode ser um exercício lento, que se estende durante a semana toda ou leva uma vida inteira para ser processado. Sim, há experiências gastronômicas que ficam cutucando a boca do estômago por tanto tempo que a gente nem se lembra mais do que provocou a gastrite, mas sabe reconhecer aquele gosto azedo de algo que não caiu bem. E não existe chazinho digestivo ou antiácido que emende o drama da úlcera.

Colocado nesta perspectiva, parece mais seguro uma dieta severa aos domingos. Em contrapartida, como iríamos saborear o melhor da vida que é, justamente, conviver na divergência e superar as diferenças para acolher a diversidade?! Uns gostam de arroz sequinho, outros mais cozidos. Uns preferem a carne mal passada, outros são veganos. O café com açúcar para uns se contrapõe ao café puro de outros. Mas, na hora de coar, a gente dá um jeitinho de separar as garrafas e contemplar todo mundo. O menu é extenso: política, religião, visão de mundo, e até mesmo a vida alheia. No final, todo mundo racha a conta porque entre família e amigos é assim que se almoça para todo o sempre. Amém. E bom apetite!

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Quando a primavera floresce no outono

robert gary

Foto: thanks to Robert Gary Banhart

Fui promovida, há alguns anos (poucos!), para a categoria das “senhoras”. O processo se deu de forma nada gradativa, nem sutil. Simplesmente, da noite para o dia, comecei a perceber que eu já não era “você” e que as pessoas conversavam comigo mais formalmente. No início, achava engraçado e me sentia importante. Ficava lembrando daquela fase de criança em que desejamos ser tratados como adolescentes e, logo depois, queremos ser vistos como adultos. Quanta pressa desnecessária para chegar na próxima estação! Se ao menos confiássemos que o tempo chega na hora certa, economizaríamos muitas crises existenciais.

Mas parece que não nascemos sábios, só vamos aprendendo com o andar da carruagem e está tudo bem. É assim mesmo essa vida da gente. E as pessoas mais experientes (depois que fui promovida exclui o termo “mais velha” para esses casos!) têm razão ao dizerem que o tempo traz mudanças positivas. Já ouvi compararem nosso envelhecimento à evolução do vinho, alegando que ganhamos maturidade e podemos garantir maior satisfação na abertura da garrafa. Difícil discordar delas. Afinal, nos concentramos em aprimorar o conteúdo, já que o rótulo vai despencando paulatinamente. E está tudo bem também. É assim mesmo esse corpo da gente.

Viver a vida no verão é uma grande aventura e descoberta. Experimentamos de tudo (ou quase tudo), nos permitimos andar descalços pelos atalhos, ousamos algumas contravenções e o mundo sempre parece brilhar como o astro rei. Infelizmente, muitos de nós se tostaram no verão e não conseguiram guardar o bronze para curtir o inverno. Acabaram minguando no outono e não entendem as vantagens de mudar de categoria. Com essas pessoas aprendi que as nossas experiências são como sementes que jogamos no solo. Se a terra é mofa, de nada adiantará, pois elas irão apodrecer antes da primavera. Mas se o solo estiver fresco, a colheita será ainda melhor.

Quando alguém compara o ciclo da vida às estações climáticas, fico sempre pensando que é uma maneira um tanto rígida para definir a linha do tempo. Por mais que isto faça sentido, sou a favor de contrariar a ordem do processo e guardar o melhor de cada estação para aproveitar todas elas a qualquer momento. Acho perfeitamente viável (e desejável) reservar o calor do verão no coração para aquecer o inverno, por exemplo. Só temos a ganhar associando a vitalidade da juventude com a sabedoria da velhice. Escolhemos melhor as nossas batalhas e não persistimos na luta contra os moinhos de vento. Podemos desabrochar a primavera em pleno outono, e isto seria o mesmo que viver a inteireza da nossa alma: deixamos cair aquilo que não nos serve mais para cultivar apenas o perfume das flores. Que delícia!

Então, preferindo estabelecer novas conexões, resolvi aceitar minha promoção com tudo que ela me dá direito: esquecer que os anos marcaram o corpo, usar um par de óculos para enxergar de perto os detalhes da vida, vestir um calçado folgado para percorrer novos atalhos e ir sem pressa para saborear o caminho, seja lá onde ele me levar. Pois podem me chamar de senhora. Sou, sim, senhora de mim!

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