(Des)educando a alma

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Há alguns dias, um casal de pais estava conversando sobre educação dos filhos e compartilharam sua preocupação em relação à escola. No centro do dilema estava a dúvida: escolher um método tradicional em que as crianças aprendem, desde cedo, a sobreviver no “mundo real” ou adotar uma pedagogia construtiva que enfatiza sua formação psicossocial e emocional. Para eles, o “mundo real” é essa sociedade competitiva em que vivemos, repleta de cobranças e expectativas. A “escola tradicional”, no caso, cumpriria a função de preparar a criança para se tornar um adulto adaptado às exigências do mercado.

Ouvindo os argumentos do casal, pude visualizar o caminho que percorremos para chegar no mundo em vivemos atualmente. Mergulhei na conversa sem julgamentos. Mas uma inquietação tomou conta das minhas reflexões e conclui, com tristeza: como somos condicionados a enxergar as coisas de uma maneira que, especificamente, serve ao propósito da sociedade. Sequer questionamos esses propósitos, nem o que pretende de nós a sociedade. Simplesmente somos educados para seguir adequando nossas habilidades e força de trabalho para a manutenção daquilo que alguém (ou alguéns) acredita ser o ideal. Ideal para quê?

Claramente, os pais procuram fazer o que é melhor para seus filhos. Queremos que sejam felizes e que se encontrem no caminho. Incentivamos seu crescimento e acompanhamos de perto o desenvolvimento deles, em todos os sentidos. Alguns, mais protetores, outros com mais autonomia. Uns com mais recursos, e uma grande parcela, do jeito que é possível. Mas o objetivo é o mesmo: que o mundo tenha um lugar reservado para nossos filhos.

A questão que bagunçou meus pensamentos ao longo daquela conversa, no entanto, foi essa: que mundo é esse que queremos para nossos filhos? E a minha resposta apontou para uma lógica completamente controversa. A realidade que vivemos nos dias atuais é fruto de uma educação que nos condicionou a seguir regras. Embora tenhamos avançado em tecnologia e no campo da ciência, saindo da idade das cavernas e aprimorando nosso conhecimento, garantimos pouco espaço para a criatividade e menos ainda para as emoções.

Por alguma razão (ou várias), falimos na tarefa de trazer cor e som para a nossa alma e a iluminação depende disso. Deixamos de oxigenar o pensamento com o perfume da paixão pela vida para batermos continência ao relógio da empresa. E aqui, vamos entender o sentido metafórico desta ideia: nos tornamos marionetes e seguimos dedicados a preparar nossas crianças para esta mesma função.

Com um pouco mais de argumentos, o casal parece ter se convencido de que a escola ideal é aquela que (des)educa a alma da gente. Que permite ampliarmos nossos horizontes para conhecermos novas realidades. Melhor ainda, é aquela que nos incentiva a transformar a sociedade e, mesmo que seja por uma frestinha, que abre caminhos para escaparmos da mediocridade e enriquecermos nosso ser como um todo, por meio de outras perspectivas e explicações sobre a vida que sejam, no mínimo, menos discriminatórias e menos limitantes.

Reconhecemos como hipótese razoável o fato de sermos dotados de potencial para alcançar outros mundos dentro do nosso. Mas teimamos em ensinar nossas crianças as fronteiras que as mantém aprisionadas porque, talvez, nós mesmos estejamos engaiolados em nossos paradigmas.

Este mesmo casal relatou uma situação que me deixou ainda mais inquieta. Na saída de shopping, a mãe foi abordada por um suposto psiquiatra sugerindo medicar seu filho porque ele estava “alegre demais” e parecia “agitado”. Pois então, é compreensível que os pais se sintam perturbados com o futuro dos filhos, pois o mundo não está configurado para acolher a natureza das crianças e a palavra de ordem é moldá-las dentro dos limites da sociedade. E para isso só há uma resposta possível: resistência!

Precisamos, devemos e podemos provocar uma rebelião pacífica (mas não passiva!) para libertarmos as crianças dos nossos próprios medos e encorajá-las a desconstruir o mundo que criamos. Há tantas propostas inovadoras hoje em dia que extrapolam os muros escolares. Não é necessário restringirmos essa revolução às instituições de ensino. É nosso papel, como pais, educadores, cidadãos do mundo, buscarmos a transformação indispensável na formação dos filhos. Quem sabe, assim, a alegria nunca será vista como sendo demais.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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2 respostas para (Des)educando a alma

  1. Ricardo disse:

    Ser pai e mãe por si só já é desafiador…e quando analisamos o contexto que estamos vivendo, parece ser ainda mais intenso. O que eu sei, como pai de primeira viagem, é que não existe receita de bolo. Temos que ter um olhar de caridade para si…senão vamos enlouquecer com tanta cobrança e desinformação.

    • Concordo plenamente, Ricardo. Fico pasma com a quantidade de cursos e receitinhas de como educar melhor nossas crianças. É muito saudável deixar o curso da vida agir. Que possamos praticar a generosidade na primeira pessoa também!
      Forte abraço!

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