Pais, coragem

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

É provável que muitas pessoas ainda se lembrem ou, pelo menos, tenham ouvido falar da telenovela “Irmãos Coragem”. Escrita por Janete Clair, ela foi exibida entre 1970 e 71 para narrar a luta de 3 irmãos contra a opressão. Na época, a música de abertura era cantada por Jair Rodrigues e encorajava a busca pela liberdade: “E os campos se abriram em flor / E é preciso coragem / Que a vida é viagem / Destino do amor / Abre o peito coragem, irmão! / Faz do amor sua imagem, irmão! / Quem à vida se entrega / A sorte não nega seu braço e seu chão.”

A trama retratava alguns conflitos familiares e tocava nos obstáculos das relações amorosas, mas o título desse folhetim ficou mesmo registrado no inconsciente coletivo por trazer, como ponto central, a ideia da bravura da alma na superação das adversidades e na ruptura da condição de subjugo. Em associação imediata, passamos a usá-lo como referência para quem anseia pela independência, autonomia, justiça e liberdade. Claro, tudo isto misturado com uma boa dose de determinação.

Os anos se vão e, tenho certeza, continuaremos recorrendo a esse patoá, apenas substituindo “irmãos” por outra categoria de interesse da coragem. E foi assim que, muito recentemente, uma amiga e eu concluímos nossa conversa sobre filhos: Mãe coragem! O mais interessante é que, naquela mesma semana, havia tratado deste assunto com um outro amigo, pai de dois adolescentes: Pai coragem! Nos dois casos, a questão debatida era: em que momento passamos a tratar “nossos” filhos como “adultos”? Seria isso possível, na qualidade de “pais” cuidadosos e dedicados?

Nenhum deles duvida do fato de que o desenvolvimento dos filhos se dá gradativa e processualmente. É inegável que as crianças crescem e se tornam adultas em algum momento da sua trajetória. Do ponto de vista biológico, observamos as transformações no corpo delas e, já tendo passado por essa metamorfose, podemos até nos arriscar e predizer o que vem depois de cada mudança. Eles vão se modificando diante dos nossos olhos, mas nem sempre nosso coração reconhece o salto físico. Não que tentemos negar essa evolução, apenas deixamos isto de lado porque estabelecemos relações afetivas com os filhos e elas se tornam a nossa principal referência.

Do ponto de vista psicoemocional, moral e intelectual, entretanto, também nos tornamos capazes de suspeitar, efetivamente, como está ocorrendo o desabrochar dos filhos. Acompanhamos o nascimento de diferentes lógicas e afetos e como isso tudo vai incitando neles determinados comportamentos e reações. Eventualmente, nos enganamos, mas o lapso faz parte da “brincadeira” de parentar. O antídoto é estarmos atentos aos sinais e nos colocarmos na humilde posição de aprendizes, pois cada experiência é única e nossos filhos não crescem da mesma maneira (nem forma!) que nós.

A reflexão, então, talvez se concentre mais no significado concreto do “des-envolver-se”. Sim, há um jogo de ideias importante aqui: esta palavra sugere crescer, progredir, criar, aprimorar. Sinônimos que apostam na capacidade dos nossos filhos de irem além e que partem do pressuposto do potencial que eles carregam para essa tarefa. Na bagagem há, inquestionavelmente, o sentido de propagar, multiplicar, gerar novos caminhos, conteúdos, formas, conceitos, pensamentos, hábitos, desejos. Desenvolvimento é isso mesmo: desenrolar, prosseguir, estender. E também pode ser entendido como desembrulhar, desempacotar.

É lindo pensar que nossos filhos são como um presente do universo que vem embrulhado em diferentes versões, de acordo com uma infinidade de variáveis. Nós só precisamos ir desembalando delicadamente para não estragar o papel e preservar o máximo possível a integridade da sua alma. Somos designados pais, e não proprietários. Assumimos o compromisso de tutelar seu desabrochar, e não de restringir suas experiências. Cada pacotinho que chega nos convoca a descobrir como devemos desapertar o laço e nos cabe o exercício permanente de empurrá-los para fora do ninho (o que não significa expulsá-los de casa ou de nossas vistas).

Entretanto, é um equivoco pensarmos que ensinamos a voar sem que, nós mesmos, saibamos bater as nossas asas. Da mesma forma, confundimos o processo natural do “deixar-ir” quando super protegemos a cria. Geralmente, nos apoiamos na fantasia de que os filhos não suportariam cortarmos o cordão umbilical. Concordo que essa pode ser uma dificuldade real, mas o desafio é, na maioria das vezes, mais assustador para os pais do que para as “crianças”.

Sempre me lembro do bordão “pior que pai bravo, é pai bonzinho” e entendo que no primeiro está implícita a alteridade necessária para estimular os filhos a se individualizarem, enquanto que, no segundo, residem os medos e anseios próprios pais, que limitam o distanciamento saudável e restringem a autonomia dos filhos. E, por favor, não vamos confundir “bravo” com violência, nem “bonzinho” com amorosidade ou “alteridade” com autoritarismo. A ideia por trás do ditado é que sejamos habilidosos para colaborar com a ruptura da casca, fazendo nossos filhos enxergarem as janelas abertas.

E recorrendo ao que se cantava na abertura do folhetim, vale reforçar que a vida é mesmo uma viagem. Para que nossos filhos possam desfrutar das suas oportunidades, nós, pais, precisamos devolver ao mundo o presente que esteve sob nosso cuidado amoroso. É fundamental acreditarmos (e fazermos nossos filhos acreditarem) que a “sorte” está no caminho para sustentar essa entrega. Portanto, temos que ser “pais coragem” ou melhor dizendo: coragem, pais! Pois é preci(o)so termos um coração valente para deixarmos crescer a vida também fora de nós.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s