Dororidade e sororidade

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Dororidade e sororidade. Dois termos, duas faces da mesma moeda. Luta de uma vida inteira para manter em pé de igualdade o modo de existir em nossas sociedades. Dois conceitos cunhados em épocas diferentes por causa de uma necessidade em comum: colocar-se no lugar do outro para sentir a sua dor e, no ato de genuína empatia, solidarizar-se com a sua caminhada. O princípio é fundamental e elementar: é preciso dororidade para se praticar a sororidade.

Mas, não, este não é um texto teórico sobre o movimento feminista, embora os conceitos sejam muito frequentemente repetidos nesse contexto. Eles nasceram da luta das mulheres que reivindicam, desde sempre, seus direitos primordiais. Sororidade veio primeiro, como um fio que alinhava nossas fragilidades e forças em um bordado que estampa os desafios e as conquistas de sermos mulher neste mundo forjado pelo patriarcado. É a irmandade (“soror” significa “irmã”) que assegura a travessia no enfrentamento do cotidiano e celebra a ruptura com as bordas da sociedade. É a união cultivada para colocar no centro das atenções a coletividade.

E porque nem sempre existem palavras capazes de enunciar a realidade de muitos e o sentimento e o sentido do que tem para ser nomeado, dororidade surge como arremate dessa costura. “É a dor que se transforma em potencia”, explica Vilma Piedade, ativista que deu a luz ao termo. É a ponte necessária para transitarmos pela história da humanidade, reconhecendo que, muitas das vezes, seus pilares foram ameaçados pela correnteza da ignorância, do estigma, da quase total falta de civilidade, causando as doenças do “ismo” (racismo, sexismo, machismo, fascismo).

Juntos, dororidade e sororidade mostram que não há métrica para o sofrimento. Dor é dor e ainda que ela seja relativizada, provoca estragos inconfundíveis. A dor do outro não é maior ou mais intensa, nem menor ou menos importante. É dor que dói, e confessa algo que está fora da ordem e sobrecarrega a alma. Dororidade e sororidade germinaram no ventre do movimento feminista, mas peço licença à irmandade para misturar as causas e dizer que ambas são necessárias para defendermos a humanidade em todos nós, independente da bandeira que levantamos. Vivemos um mundo carente de grandes doses de empatia e solidariedade.

Deveríamos generalizar a dororidade e amplificar a sororidade, consertando as rachaduras sociais. E não se trata de remendar buracos em uma sociedade construída sobre valores distorcidos. É necessário um novo projeto em que a base seja o princípio da igualdade, da amorosidade e tudo que acompanha estes axiomas. Outro dia ouvi alguém falando que nem tudo é dialogável, mas acredito que precisamos, no mínimo, questionar as verdades sobre nós. Afinal, aprendemos a agir de acordo com o nosso meio e isto significa que podemos aproveitar as inúmeras oportunidades para mudarmos nossos paradigmas.

Nossa natureza é de constante movimento. Se sairmos de nossas relações do mesmo jeito que entramos, então, talvez, não tenhamos efetivamente nos conectado com o viver em sociedade. Sermos transformados por essas interações não é um risco que corremos ao andarmos soltos por aí. É um fato indiscutível, simples assim. Só nos cabe reconhecer que tipo de mudança permitimos que elas provoquem em nós para permanecermos atentos ao seu reflexo na maneira como agimos. O efeito colateral dos valores praticados no mundo afeta diretamente nossa estrutura, mas o inverso é verdadeiro. Somos protagonistas do que acontece ao nosso redor.

De novo, esse não é um texto feminista e a intenção é convocar a consciência para matutarmos um pouquinho sobre a importância de aprendermos, ensinarmos e praticarmos a dororidade e a sororidade desde pequenos. É na família, em primeira instância, que moldamos nossa visão de mundo e, em seguida, é para a escola que levamos esses valores e desenvolvemos a nossa base.

Portanto, todos nós – pais, educadores, cidadãos – temos o compromisso de combater o “mal do ismo” em sua raiz, pois os acontecimentos que andam tomando conta das sociedades afora evidenciam o agravo da segregação étnico-racial, reforçada pela internalização e reprodução da ideologia da superioridade branca-ocidental e heteronormativa. Vivemos apartados por categorias, seguindo uma lógica de dominação que inclui falar e decidir no lugar do outro e naturalizar os estereótipos. A urgência da transformação é clara, mas como insiste Edgar Morin, reformar a vida só é possível em comunidade. Precisamos de um “nós” que represente a diversidade da alma humana.

Entre o feito e o percebido, entre o falado e o escutado, entre o pensado e o sentido, entre o desejado e o realizado existem infinitas possibilidades que podem se configurar como tragédia ou libertação, como discórdia ou convergência, como confronto ou aceitação. Cabe a cada um de nós pensarmos na teia em que vivemos, reconhecermos nossa profunda conexão e agirmos – individual e coletivamente – para suprimir as tensões. É preciso dororidade e sororidade para coordenar a desconstrução do mundo e equilibrar suas relações de forças em uma dimensão verdadeiramente ética e política.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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