Eu continuo com fome

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

– Por favor, vocês têm algum doce sem açúcar? – perguntou a senhora para a moça da lanchonete, que foi logo acenando um enfático “não” com a cabeça.

– Bem, e aquelas são tortas salgadas? – continuou a freguesa.

– Sim, todas elas. Qual a senhora prefere? – respondeu aliviada a atendente.

– Tem alguma delas sem glúten e sem lactose? – a freguesa insistiu esperançosa.

– Sem o quê? Senhora, aqui é uma lanchonete normal. Não vendemos dessas coisas sem nada.

Frustrada, a senhora foi embora com as mãos vazias e a cabeça cozinhando. Lembrou-se da época em que os antigos comiam uma variedade de coisas e não se ouvia falar em alergias e intolerância a quase tudo. Analisou a dificuldade para conciliar a vida saudável com a correria urbana, mas continuava ouvindo o dia complicado no trabalho ecoar pela boca do estômago que parecia vazio: acho que estou com fome!

Esta cena se repete, cada vez mais, na sociedade moderna e ilustra uma série de questões sobre a nossa relação com o comer e com a comida. Não sou especialista na área, mas me solidarizo com a personagem, pois me lembro bem do constrangimento ao participar de um workshop e ser recepcionada com a pergunta: Ah! Você que é a intolerante?

As restrições e disfunções alimentares vêm sendo relatadas com bastante frequência e muitas delas, eu imagino, podem até ser explicadas pelo metabolismo de cada pessoa. Porém, existem aspectos emocionais associados aos nossos hábitos que merecem atenção. Tenho ouvido muitas queixas e piadas sobre estarmos engordando durante o isolamento social e entendo atribuirmos este fato às condições totalmente atípicas em que nos encontramos. Nem precisa explicação. Por outro lado, não dá para colocar tudo na conta do corona.

O fato é que passar por fases de “descontrole alimentar” significa uma “patrulha” prévia, me explicou uma nutricionista que admiro muito e que defende a alimentação consciente e intuitiva. Afinal, é natural ganharmos ou perdermos peso ao longo da vida e, de acordo com ela, a balança deveria ter um espectro de possibilidades e não um peso único. Isto, sim, seria uma tecnologia inteligente a favor de nos dar uma margem para acolhermos essa variação natural do peso.

É importante ficarmos de olho na saúde, sem nos preocuparmos tanto com a estética. Talvez esta última ainda nos incomode mais por causa dos padrões que a sociedade impõe. Entretanto, já começamos a valorizar menos a aparência física e a transformar as convenções sobre beleza. Está mais tranquilo acolhermos a diversidade de tamanhos e formas dos nossos corpos, graças aos movimentos que combatem a magreza extrema e incentivam fazermos as pazes com o nosso próprio biotipo.

Este assunto é complexo e vai além da categoria de dieta que adotamos no dia a dia. A briga com a balança, a dificuldade de fazer nossos filhos se alimentarem “corretamente” e até mesmo as nossas intolerâncias consomem a nossa atenção. De alguma maneira, escondemos que boa parte dos nossos desacordos com o comer tem um fundo emocional.

Nem tão secretamente assim, eu diria. É possível que este desalinho seja um velho amigo que carregamos nas costas desde que nascemos e ele está sempre se manifestando por apelidos: buraco no estômago, desejo de comer tal coisa, fome do cão. Se analisássemos mais de perto esses codinomes, provavelmente descobriríamos que o vazio e a vontade não estão, necessariamente, relacionados à comida em si, mas aos sentimentos que nos mobilizam internamente. E, neste caso, não tem belisco que sacie nossa fome.

Quando nascemos, uma das primeiras coisas que aprendemos é colocar algo pela boca para mitigar o desconforto. O bebê chora e ganha o peito ou a mamadeira que, geralmente, vem acompanhado do colo afetuoso. A criança chora e ganha um biscoito (mas pode ser uma bolacha, se ela for paulista!) para se distrair. Na adolescência continuamos barganhando outros tipos de recompensas e, assim, vamos estabelecendo um padrão claro: comemos nossas emoções, disfarçadas de guloseimas, sorvetes e outras comidinhas que nos apetecem.

O espaço do diálogo, aquele em que alternamos a fala e a escuta ativa, é preenchido pela pressa, pela comodidade do que já está pronto para consumo imediato, sem muito esforço para digerir. A expressão das emoções é praticamente codificada como “fome” e nos sobrealimentamos com a comida por estar mais à mão do que um abraço. Com dificuldades para processar os sentimentos, nos empanturramos com as experiências gastronômicas que trazem a sensação de plenitude, pelo menos temporária, pois não há receita milagrosa para esses casos.

Comida é para ser comida de verdade e equilibrar as porções, respeitando os limites e necessidades do corpo, é um aprendizado que fica menos difícil se nos dedicarmos, primeiro, a descobrir qual é a nossa fome de fato.  Sempre é bom perguntar: sua fome vem de onde? Da cabeça, do coração, da barriga? Podemos até incentivar as crianças a apontarem com a mão o lugar onde sentem fome. Este é o tipo de ensinamento com alto valor nutritivo para servirmos aos nossos filhos desde sempre. Pais e educadores podem se lançar nessa tarefa de conversar sobre como lidamos com os nossos sentimentos, motivando as crianças e adolescentes a saborearem suas emoções sem aditivos externos.

Refeições cuja sobremesa é uma dose de consciência sobre si mesmo com umas boas colheradas de autoestima são necessárias para nos mantermos emocionalmente saudáveis. Afinal, se não usarmos o afeto para alimentarmos as nossas relações com o mundo, continuaremos sempre com fome e um buraco cósmico enorme na alma.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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