Um passinho para trás, por favor!

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Sempre ouvia dizer que devemos manter um olho no peixe e outro no gato e ficava imaginando o felino rondando um aquário, à espreita, pronto para a pescaria naquele exato momento em que o cuidador se distraísse. Cena nem um pouco engraçada e, na maior parte das vezes, associada à desconfiança – do gato, nesse caso. Algo um tanto paradoxal como “confie desconfiando”. Um certo dia, ouvi também a parábola dos camelos e, então, colei os dois ensinamentos com uma mesma conclusão: é preciso ter fé, mas nunca deixar de fazer a nossa parte.

Para quem ainda não conhece a história dos peregrinos que atravessavam o deserto, vou direto ao ponto em que eles montam acampamento para passar a noite e um deles fica encarregado de vigiar os bichos enquanto o outro dorme. Ocorre que o cansaço foi implacável, mas antes de fechar os olhos o sentinela orou pedindo pela proteção dos camelos. Ao acordarem pela manhã, os animais tinham fugido e sendo criticado pelo companheiro, o guardião se justificou dizendo que havia rezado muito para que aquilo não acontecesse. Porém, foi imediatamente advertido: você pode rezar a vontade, só não esquece de amarrar bem os camelos!

As duas metáforas nos falam sobre a necessidade de agirmos preventivamente, de sermos cuidadosos e nos mantermos em estado de vigília. Por outro lado, isto não significa perdermos a fé nos outros ou nas situações. Tampouco é um convite para entrarmos na paranoia de querer controlar absolutamente tudo que se passa ao nosso redor, inclusive a vida alheia. Proteger o peixe ou amarrar os camelos faz parte da brincadeira de lidar com as incertezas da vida. Podemos rezar e vigiar o gato, sem desqualificar nada, nem ninguém.

Se pensarmos nos desafios que enfrentamos atualmente, veremos que agir com cautela tornou-se praticamente o sinônimo de sobrevivência. A todo momento estamos sendo lembrados das medidas protetivas – uso de máscara, higiene das mãos, distanciamento físico – e graças a elas conseguimos evitar muito mais perdas. Mas isto, infelizmente, ainda não foi totalmente assimilado por uma boa parte da população e não adianta pudor nesse caso. Temos que ousar em voz alta: um passinho para trás, por favor! É preciso manter distância física e pronto.

Assim como esse tipo de cuidado tornou-se uma rotina no mundo lá fora, também a realidade de dentro de casa mudou e nos impulsiona a rever uma série de valores e atitudes. Talvez estivéssemos despreparados para a intensidade da vida intrafamiliar e isso vem gerando alguns desequilíbrios. Em muitos lares, a fragilidade emocional tem ficado mais evidente. Aqui também vale lembrar daquele velho ditado: “não cabe uma pedra onde já não existia um buraco”. Ou seja, relações que antes estavam no fio da navalha representam o peixe tenso dentro do aquário, sob a ameaça iminente do gato. É o caso do sentinela que ignorou o risco por causa do seu cansaço, sendo displicente com os camelos.

A verdade é que pais e filhos passaram a compartilhar o espaço da casa por tempo superior ao habitual e de maneira completamente atípica. As dificuldades do trabalho vieram parar na mesa de jantar, competindo com as demandas escolares e, o que é mais grave, as relações interpessoais com “as pessoas de fora” – que poderiam servir como forma de despressurização e enriquecimento pessoal – ficaram restritas às redes sociais. Entretanto, no mundo virtual, o processo de socialização pode não ser tão efetivo assim, impactando claramente o nosso desenvolvimento emocional. Estamos vivendo um momento delicado que depende consideravelmente da nossa sensibilidade para percebermos as nuances das nossas relações de afeto e como as pessoas com quem convivemos estão se sentindo. Na prática, um olho no peixe outro no gato significa, por exemplo, estarmos mais atentos à expressão e reação das crianças – e dos adultos – diante dos eventos cotidianos e, ao mesmo tempo, concedermos a elas o espaço necessário para fortalecerem sua autonomia.

Com o nosso repertório limitado, o estresse exagerado, a ansiedade pela falta de perspectivas melhores, a angústia causada pela tristeza e pelo desânimo, a cobrança por resultados eficazes, acabamos soterrando ainda mais a pedra dentro buraco enorme em que já nos encontrávamos – sem que tivéssemos muita consciência da sua existência – e nos desvitalizamos quase que por completo. Sabemos do cansaço e do possível ataque do gato, mas nos assegurarmos de que as dificuldades fazem parte da caminhada nem sempre nos ajuda a sair da situação indesejada. É preciso mais do que isso. De novo: temos que criar estratégias para amarrarmos os camelos e protegermos o peixe.

Não existe uma formula mágica para fazermos isto, mas um bom começo seria repactuar nossos acordos e hábitos familiares, em um esforço genuíno e coletivo para enfrentarmos o deserto que atravessamos atualmente. O diálogo sincero e realista é um dos melhores ingredientes. Não precisamos sobrevoar os acontecimentos de helicóptero o tempo inteiro, mas mantermos a sintonia com as pessoas, prestando atenção nelas, é bastante recomendável.

Pois é alarmante o crescente número de pessoas relatando seu sofrimento psíquico. Isto virou lugar comum, embora muitos ainda não tenham se dado conta de estarem patinando em areia movediça. De certa forma, criamos uma energia densa no ar e todos nós acabamos afetados por uma corrente de negatividade. Tudo parece mais complicado, sem solução. E, desacreditados, nossa tendência é naturalizarmos as situações de mal-estar a ponto de sequer reconhecermos o olhar triste de um filho ou de um aluno, nem sentirmos falta do sorriso sincero no cônjuge ou no colega de trabalho.

Portanto, vamos ficar de olho nessas pessoas, em seus sinais e, principalmente, nas nossas próprias emoções. Temos que agir ao primeiro sinal de que as coisas não estão bem, pois entrar no vácuo da rotina pode comprometer nossa saúde psíquica. Ignorar nossa vulnerabilidade é arriscado demais. É importante termos em mente que o distanciamento necessário no momento é o físico apenas. Então, nada de sacrificar o gato e condenar o vigilante, pois é hora de cuidarmos da qualidade do afeto e nos fortalecermos para mais um período de desafios. Trata-se de uma situação generalizada e está dada a oportunidade para recuarmos um passinho, a fim de enxergarmos melhor o contexto como um todo porque agir isoladamente apenas boicota a nossa força de superação.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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