O instante-decisivo e o instante-já

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

No mundo da fotografia, o instante-decisivo é aquele exato momento em que conseguimos registrar um acontecimento inusitado. É a congruência harmônica de vários elementos de um cenário que retratam a sua essência. Capturar a coincidência desses componentes é um feito extraordinário para quem está atrás da lente e equivale ao bilhete de loteria premiado.

Mas Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês reconhecido internacionalmente, defendia que não há nada no mundo que não seja um momento decisivo. De acordo com ele, devemos estar sempre atentos e preparados para imortalizar a raridade do instante. Para isso, podemos construir a cena perfeita em nossa imaginação e, antecipadamente, nos posicionarmos no lugar certo para que ela realmente aconteça. Então…. clique… disparamos o botão da máquina com a certeza de que aquele segundinho mágico jamais se repetirá.

O mais interessante é que, de fato e do ponto de vista neurológico, o cérebro é incapaz de perceber uma situação da mesma forma duas vezes. Isto me lembra também do que afirmava o filósofo Heráclito sobre tomar banho no mesmo rio: as águas passam e o rio se renova a cada instante. Só não entendo por que razão a nossa mente nos trai com frequência, fazendo com que permaneçamos agarrados ao que passou ou ansiosos pelo porvir. Remoemos o passado e fantasiamos o futuro. Quase nunca nos deleitamos no presente.

Com outras palavras e uma poética que lhe é peculiar, Clarice Lispector transcende esse dilema e nos convoca ao “instante-já”. Alinhar os sentidos e os sentimentos para despertarmos a alma e reconhecermos a essência do agoraqui é o que nos permite acolher o instantâneo, aquela ínfima fração do tempo que revela, nela mesma, a sua grandeza. É no instante-já que nos realizamos e somente nele podemos verdadeiramente Ser. É aquele piscar de olhos em que nos flagramos acontecendo na experiência materializada do real imediato.

Todos esses seres “inspiramores” reforçam, cada um da sua maneira, que a nossa única possibilidade de existir é o Ser conjugado no tempo presente. “Foi” e “será” não nos definem, embora representem alguns caminhos percorridos e outros que ainda poderemos trilhar. Mas é no instante-já que podemos clicar o instante-decisivo, no melhor ângulo de nós mesmos, aquele em que o “é” está totalmente integrado no tempo-espaço da nossa existência.

Parece coisa do outro mundo e até pode ser… do mundo interior! Saborear o instante-já é o mesmo que lavar a louça quando estamos lavando a louça; é como sentir cada milímetro dos pés tocando o solo quando estamos caminhando e também corresponde a sentirmos o afeto do abraço quando estamos abraçando. Implica na atenção plena, como proposto na meditação Zen. Trocando em miúdos, significa captar as nuances da vida enquanto ela acontece diante dos nossos olhos e vibra em nosso mundo sutil.

No caso da fotografia, as câmeras nos permitem definir previamente certas configurações que facilitam esse trabalho. Por outro lado, é necessário conhecer bem o equipamento e também manter nossa percepção aguçada já que a originalidade do momento é finita. Mas o que isto representa na vida cotidiana, nesse exato cenário em que nos encontramos? O básico: nos conhecermos melhor, criarmos as nossas estratégias de enfrentamento das dificuldades, quaisquer que sejam elas, e ampliarmos a nossa sensibilidade e potencial de empatia.

Reconhecidamente, estamos vivendo o instante-já mais longo e dramático de nossa história e é natural que nos sintamos desanimados diante de um palco desnudado quase que por completo. Assistimos, para quem tem olhos de enxergar e coração de sentir, os bastidores do desmoronamento de uma sociedade que foi construída sob moinhos de vento. Agora tudo parece colapsar. Enquanto colocamos máscaras concretas para nos protegermos mutuamente, as máscaras sociais estão rolando terra abaixo e revelando uma faceta antes obscura. Quer dizer, muitas pessoas já vislumbravam a grande crise se instalou no quintal da nossa casa, mas ela vem sendo escancarada de uma forma mais intensa e até cruel. Há muitos de nós sofrendo e sofrendo muito.

Esses dias, refletindo sobre o posicionamento de algumas pessoas frente ao mundo atual, me lembrei da separação do joio e do trigo e pensei: é isso: o instante-decisivo está configurado e agora nos cabe reconhecer nele o instante-já para acionarmos o botão da humanidade dentro de nós. É hora de mudarmos o registro dessa travessia dolorosa. Talvez isto tenha que se dar por um exercício mais intuitivo mesmo, sem fórmula milagrosa ou receita mágica. Diante do imprevisto, temos que improvisar, mas dentro da especificidade do instante-já de cada pessoa, precisamos nos esforçar para compor juntos o viver e estar no mundo.

Mesmo que a nossa bússola esteja um tanto desregulada, há caminhos possíveis para des-cobrirmos em conjunto. Há esperança para o caos e ela reside na conjugação lúcida do verbo lutar coletivamente. Formamos um tecido único, capaz de reunir as condições ideais ou favoráveis para eternizarmos esse instante-decisivo de forma positiva e de maneira que, em vez de apenas reagirmos ou resistirmos, possamos construir um novo projeto de sociedade.

A vida acontece em episódios e esta temporada nos ensinou que atualizar o sofrimento diariamente nos levará a lugar nenhum. Estamos na quarta revolução industrial, usufruindo da tecnologia para nos conectarmos com uma diversidade de  pessoas, rompendo as fronteiras geográficas e culturais, criando recursos nunca antes imaginados, abrindo novos caminhos. Mas esse mundo material não pode limitar a nossa capacidade de empatia. É preciso nos solidarizarmos mais e nos responsabilizarmos pelos próximos tanto quanto pelos distantes.

Temos a tarefa de construirmos nosso próprio caminho, mas guardemos em mente que cada tijolinho faz uma enorme diferença na coletividade. Nem sempre a estrada é só de amor, porém as experiências de sofrimento também nos trazem ensinamentos. Esta ideia clichê de que tudo se transforma em aprendizado traz em si um desafio importante: mudar a nossa postura e nos entregarmos ao instante-já. Podemos esperançar, mas devemos precipitar o instante-decisivo da nossa transição planetária.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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2 respostas para O instante-decisivo e o instante-já

  1. Ricardo disse:

    “Há esperança para o caos e ela reside na conjugação lúcida do verbo lutar coletivamente”.

    Uma excelente maneira de trazer a fotografia para o contexto atual e provocar reflexões!

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