Carta para a minha filha

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Querida filha,

Fico muito feliz de poder escrever esta carta para festejarmos juntas o mês de março. Realmente, trata-se de uma conquista importante para as mulheres do mundo inteiro, pois é quando reservamos um dia especial de conscientização sobre as questões que nos envolvem. É até engraçado dizer isto, já que praticamente tudo que ocorre no planeta nos diz respeito. Mas há quem desqualifique nossa participação e contribuição para desenvolver a estrutura da sociedade, e tente restringir nosso espaço. Talvez essas pessoas não entendam que isto é uma grande bobeira, embora historicamente recorrente. Então, filha, busque sempre conhecer os movimentos de mulheres e colabore com eles.

E se alguém disser que as nossas lutas são meros pitis feministas, por favor, não fique quieta. Vá logo contextualizando os fatos e pronto! Quanto mais pessoas refletirem sobre as causas e as consequências da desigualdade entre nós, melhor. Estimule teus amigos, homens e mulheres, sem importar a idade, pois todos devem se engajar neste debate. É necessário entender que representamos aproximadamente a metade da população mundial, mas ainda carregamos no corpo – físico e simbólico – a marca dramática e diversa da violência, do preconceito e do estigma, da opressão moral e do cerceamento de direitos.

Quando penso que você tem uma vida inteira pela frente neste mundo absurdamente misógino, minha menina, quase entro em parafuso. Tenho que reconhecer: continua sendo desafiador ser mulher também nos tempos atuais. Já superamos tantas coisas e muitas delas mudaram. Graças à descoberta da pílula anticoncepcional, do divórcio, da inserção da mulher no mercado de trabalho e até mesmo da invenção dos eletrodomésticos mais básicos, nos libertamos um cadinho mais. Mesmo assim, enfrentamos situações inaceitáveis. Algumas das mudanças foram apenas superficiais e aparentes.

No fundo, filha, a luta continua e temos que nos manter firmes para romper com a ignorância social que teima em nos jogar na fogueira. Dependemos umas das outras para nos fortalecer e reivindicar nosso lugar em todos os níveis e setores da sociedade. Isto deixou de ser uma escolha individual e, mais do antes, passou a ser um exercício coletivo. Sendo assim, minha pequena, cresça se envolvendo com outras mulheres e homens para construírem novos caminhos de liberdade e de equidade. A tarefa é de todos nós!

Eu tenho a certeza de que, se fizermos a nossa parte, as próximas gerações terão mais chances de viverem em pé de igualdade uns com os outros. Basta ver o quanto já fomos beneficiadas pelas ações das mulheres que nos precederam. É isso, filha: temos que honrá-las porque suas conquistas são o nosso compromisso com as mulheres que ainda estão para nascer. Pense bem, minha amada. Somos guerreiras seculares ou, por assim dizer, um verdadeiro elo entre o que foi – o passado – e o vir-a-ser – o futuro.

A luta feminina é a própria narrativa do surgimento das sociedades tal como vivemos nos moldes atuais. Esta sincronia sempre foi costurada pela repressão e disputa de poder. Filha, não estou conspirando, eu juro: a mulher foi praticamente demonizada ao longo do tempo, com o objetivo de descaracterizar seu potencial e salvaguardar a virilidade masculina. Percebe a que ponto chegamos?! Foram necessárias muitas fogueiras e guilhotinas para nos intimidar, e olha que nem sabemos de todas as tramas nos bastidores daqueles acontecimentos. É presumível que os fatos tenham sido omitidos para corroborar a hegemonia de calças compridas, mas isto não significa que a perseguição contra as mulheres, simplesmente por serem mulheres, não existiu. Nosso papel social nunca deveria ser questionado, nem minimizado.

Filha, a verdade é que tomaram como pressuposto a nossa fragilidade, provavelmente com o intuito de constranger nossa capacidade transformadora e embargar a nossa autodeterminação. Acreditavam em uma inferioridade biológica e criaram certos estereótipos para nos impossibilitar de sermos livres, leves e soltas. E posso te garantir, querida, isto não é papo de feminista.  Ainda encontramos muitas sociedades regidas por este paradigma de gênero.

Aliás, meu amor, quero que você entenda: ser mulher é sinônimo de fortaleza, ao mesmo tempo em que exalamos singeleza. Somos uma espécie rara de catalisamor e isto não tem absolutamente nada a ver com as nossas características genéticas, biológicas, físicas, orgânicas. É sério, filhota! Para corpos como o nosso a sociedade atribuiu o rótulo de “mulher”, mas esta questão de gênero precisa ser superada urgentemente. Hoje em dia, temos que pensar no plural – gêneros – e entender, de uma vez por todas, que essa discussão especificamente está para lá de esvaziada.

Há questões mais importantes sobre as quais precisamos nos concentrar. Afinal, o mundo humano está em desalinho com a natureza do planeta e enquanto insistimos na produção de bens e na disputa de poder sobre eles, continuaremos evoluindo para o caos. Nenhum sistema que despreze essa realidade irá sobreviver e perpetuaremos a desigualdade e a violência. Por isso, as flores do dia 8 de março precisam germinar engajamento em todos os dias do ano. E uma coisa é clara, minha pequena: nós, mulheres, podemos – e devemos! – mudar a maneira como educamos nossas crianças – meninos e meninas – para que acolham e respeitem as diferenças e a diversidade.

Filha, esta não era para ser uma carta-desabafo, mas o problema é transversal e estrutural mesmo. Então, peço desculpas por você ainda encontrar tudo muito bagunçado por aqui. Como dizem os sábios, tem horas que é necessário virar a vida do avesso para apreendê-la nos mínimos detalhes, antes de tentar reordená-la. Estamos em obra, minha querida, uma constante e inadiável reforma. E posso te aconselhar tranquilamente: entre santas e hereges, escolha ser o que você quiser, contanto que honre o caminho percorrido pelas nossas ancestrais. Nosso tributo a elas é vivermos intensamente, com responsabilidade, alegria e gratidão, as oportunidades que suas conquistas nos proporcionaram.

Lembre-se sempre, minha amada: não se acaba com o estigma por decreto; a palavra convence, mas é o exemplo que arrasta. Tuas atitudes na intimidade do cotidiano são o passo mais preciso e precioso que você pode dar para garantir teus direitos – e de todas as mulheres – e consolidar teu lugar no mundo – e de todas as mulheres. Coragem, minha menina, leve nossa luta à frente!

Um beijo de cores – todas, sem exceção – no teu coração.

Tua mãe.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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4 respostas para Carta para a minha filha

  1. Ana Inês Souza disse:

    Lindo texto!

    Obrigada minha linda.

    Como estás em meio a este turbilhão?

    Bj

    Ana

    • Obrigada, Ana!
      Saudade enorme daquelas oficinas de Paulo Freire e das trocas afetivas.
      De saúde física estou bem, mas o turbilhão permanece desinquietando a minha alma. Tempos de transição que desafiam nosso ser e estar no mundo. Que sejamos conscientes e transformadores!
      Um abraço carinhoso e nostálgico!

  2. Elis Alberta (Elis) disse:

    Sem palavras, porque todas as palavras já foram escritas nesse texto. Toda a representatividade está aqui. Qual mulher mãe não se enxergaria nesse texto tão profundo e verdadeiro. Estou com lágrimas nos olhos…. Eu sabia que precisaria ter um momento calmo para ler este texto. Entendo que escritoras que olham o mundo com profundidade não podem ser lidas com pressa, como apenas uma leitura. Essa crônica é um hino, um chamamento importante. É o sentimento de muitas, muitas mães, e mulheres não mães também. Gratidão. Lavou minha alma, e me fez lembrar de conversas com minha filha.
    Eu pude ouvir minha própria voz enquanto lia . …

    • Elis, querida, fico super feliz com teu depoimento. Tocar outras pessoas é um privilégio que elas me concedem e pelo qual sou eternamente grata. Que as nossas vozes ecoem por todos os cantos do mundo, trazendo doçura e força para a luta das mulheres.
      Um forte e afetuoso abraço!!

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