Adeus ano novo, feliz ano velho

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Sou persistente em afirmar que a vida nos contempla com aquilo que precisamos, na exata proporção da nossa força e naquele momento preciso, melhor dizendo, precioso, em que nos abrimos para a magia do universo dentro de nós. São sinais de fumaça que vêm de todos os lados, defumando as energias densas (e tensas!) que nos aprisionam no lugar comum. E nem precisamos ser bons entendedores para decifrarmos determinadas mensagens, pois elas vêm à galope. Às vezes como trator, passando sobre nossos campos floridos de ilusões. Às vezes como pandemia, para coroar o mundo na sua condição de eterna rendição humana.

É possível que, neste momento, muitos de nós estejam reservando um tempo para se encontrar em meio ao fumacê deste ano. Tradicionalmente fazemos isto no final do período, buscando colher os frutos amadurecidos e renovar nossas promessas para o próximo ciclo de semeadura. Entre nós, algumas pessoas, provavelmente, sentem que estes meses passaram em vão, acreditando que as experiências de reclusão e os esforços para enfrentar a realidade material tenham sido totalmente desperdiçados. Nada valeu a pena. Tudo tornou-se um tédio. Ano perdido. Projetos estagnados. Atraso, retrocesso. Somente perdas. Muitas. De fato, centenas de milhares.

Sem dúvida, 2020 deixou a impressão de termos dado alguns giros de 360 graus. Parece que o “ano novo” nem começou, pois fomos logo entrando em um looping, dia após dia, fazendo, acontecendo e voltando ao mesmo lugar: o sofá de casa. De certa forma, já estávamos em quarentena antes do início da pandemia, vivendo em nossas “bolhas de valores”. Para muitos, o isolamento social era uma realidade concreta, embora mascarada, e o reboliço pandêmico foi insuficiente para provocar a ruptura necessária dos seus paradigmas. Uma espécie de resistência se instalou, sob a forma de medo, ansiedade, depressão, intolerância, indiferença. E o que precisava ser mudado também ficou engessado.

A pobreza continua empobrecida, a riqueza permanece prosperando, a tristeza vai mantendo o coração sofrido e o descaso segue fazendo vítimas em todos os cantos do mundo. Mas esta vida, mecanicamente vivida, desligou nosso piloto automático, exigindo mais atenção e engajamento pessoal. Não teve escapatória para ninguém. Simplesmente, tornou-se impossível virarmos o ano imunes (literalmente!). Fomos todos convocados e, mesmo que os últimos sejam os primeiros a admitirem seu estado de alienação humana, cada um nós, à sua maneira e dentro das suas possibilidades de ampliação da própria consciência, acabou transgredindo ou ainda está na eminência da disruptura.

Palavrinhas interessantes estas, transgressão e disruptura, que abrem caminhos para provocar a alma até que possamos confessar as nossas faltas existenciais: de solidariedade, de compaixão, de empatia, de gentileza, de amorosidade. De um lado, ambas pressupõem o não cumprimento do estabelecido. Implicam na contrariedade do desejado pela norma. Presumem o desprezo, a desobediência, a violação, o desrespeito, a resistência àquilo que se apresenta em nosso caminho. Por outro lado, e graças ao universo tudo pode ser relativizado, tudo isso pode significar ir além, transpor, ultrapassar, cruzar o inesperado e atravessar doze meses desafiadores para que possamos, humildemente, transcender a nós mesmos (e às nossas falhas). Em todos os sentidos, este foi realmente um ano transgressor!

Saímos da pseudoliberdade de transitarmos pelo mundo externo e fomos impelidos compulsoriamente a retornar às nossas raízes para tatear a vastidão emocional que nos habita. Quanta descoberta! Pudemos nos sentir em quatro paredes e nos escutar no silêncio da engrenagem social. Em alguns momentos, travamos longas batalhas com as sombras. Em outros, saboreamos o deleite da própria luz. Oscilações vivenciadas sem uma ordem devidamente estabelecida e muito menos distinta.

Fomos, simultaneamente, tocados pelas perdas notificadas e também pelos incontáveis nascimentos. Sim, a vida no planeta se renovou em meio ao caos! Fomos tomados pelo desespero e resgatados pela fé. As desilusões nos atropelaram, mas deixaram espaço para renovarmos o sonho de um mundo diferente. No infinito das noites e dos dias que demoraram a passar, nossas angústias deixaram de ser uma questão particular e encontraram aliados no inconsciente coletivo. Quase fomos engolidos pela teia do propósito maior, mas podemos dizer que muitos de nós despertaram e aqueles ainda adormecidos não tardarão a colocar sua potência transformadora à disposição do todo.

Dias atrás, recebi um vídeo (Public Media Art #1_WAVE, criado pela d’strict, uma empresa de design digital) que representa perfeitamente tudo isto. É uma metáfora interessante daquilo que somos e vivemos nesse período: fragmentos do universo em ebulição, cuja força criadora foi detida pelas circunstâncias que nós mesmos criamos. No cenário projetado por eles, assistimos ondas se quebrando em diferentes direções, dentro de um imenso aquário de vidro. Águas contidas, mas em movimentos incessantes. Represadas, mas revolucionárias. Esta cena me fez lembrar do desassossegado Fernando Pessoa que dizia “porque eu não sou nada, eu posso imaginar-me a ser qualquer coisa.”

Então, na minha balança, o ano velho foi o novo despertar. Eu o imagino como a gotinha de chuva que caiu das nuvens e se transformou em um mar de possibilidades. Eu o acolho como uma marola sem graça que virou um tsunami de gente querendo fazer o bem. Eu o reconheço como uma alma que se expande e já não admite mais ficar aprisionada na pequenez humana. Foi um ano e tanto, repleto de fatos sem nexos e também de nexos sem nenhum fato. Recheado de acontecimentos disruptivos. Foi um ano para viver a vida além da vida. Um ano de desgarramentos. Por isso, feliz ano velho para todos nós e que possamos continuar reposicionando a vela para aproveitarmos melhor o sopro de alegria deste universo extraordinário de que somos parte e nos entregarmos por inteiro ao seu fluxo.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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6 respostas para Adeus ano novo, feliz ano velho

  1. 2020 foi mesmo um excelente ano no que diz respeito à expansão do mar de possibilidades.
    Um ano de incrível alavancagem energética! 🙂

  2. Sulla Mumme disse:

    Esse texto sensível com uma percepção profunda do que estamos experienciando neste ano 2020 , que tenhamos realmente esse toque de Luz e possamos ultrapassar todos nossos limites. Grandioso presente e oportunidade para nosso despertar, que sejamos Luz na Luz. Gratidão pelo belíssimo texto.

  3. Ricardo disse:

    Esse ano foi, de fato, um mergulho intenso nas próprias emoções. Acredito que, assim como você escreveu, estamos oscilando entre as sombras e a luz…e talvez, possamos nos descobrir mais. Tempo de esperança.

    Gratidão pelas palavras!

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