Educar como pintassilgo ou como coruja?

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Há poucas semanas, fui convidada para comentar uma crônica de Rubem Alves que me fez refletir muito. Vou apenas resumir o que ele, sempre brilhantemente, nos brindou como analogia, mas recomendo a leitura do seu texto na íntegra, pois sempre que passamos os olhos em seus escritos, um universo de pontos de interrogação nos deslocam da zona de conforto e isto é muito saudável.

No ponto inicial do seu conto estão duas rãs apaixonadas que acabam caindo em um poço escuro e fedorento, e ali permanecem, formando uma grande comunidade. Elas seguem a rotina da vida até morrerem, deixando para trás uma família de rãs que desconhecem o que existe fora do poço. Um dia, chega um pintassilgo animado e disposto a revelar o mundo para elas, mas pouquíssimas acreditam nele e conseguem abandonar aquele lugar lamacento. A maioria pensava ser um delírio coletivo e outra parte considerável classificava aquilo tudo que o pintassilgo dizia como fantasia. Desencantado com a falta de credibilidade, o pássaro se foi, encontrando-se com a coruja para quem relatou os fatos. Usando sua sabedoria e movida por interesses próprios, a coruja tomou conta do cenário. Manipulou as rãs de tal maneira que elas permaneceram exatamente onde estavam, sendo devoradas uma a uma.

Fiquei revoltada com a coruja. Onde já se viu usar sua sabedoria e esperteza para tapear as rãs? E que decepção esse pintassilgo fofoqueiro, voando direto para os ouvidos do algoz com informações importantes sobre a condição das rãs. Fiquei com pena delas. Essas inocentes criaturas aprisionadas em sua própria ignorância. Precisei de um fôlego profundo e uns bons goles de café para sair do torpor criado pelo meu julgamento equivocado, afinal, o problema não estava na fauna. Nem no poço catinguento.

Primeiro, tentei entender melhor o que significa o fundo do poço. Para alguns é o trabalho, para outros é a vida na materialidade. Para alguns é estar isolado dentro de casa nesse momento de crise, para outros é uma relação afetiva sofrida. Parece que cada um de nós tem um poço para chamar de seu. Muitas vezes, ele é tão profundo que nos enclausura por uma vida inteira. Existe, entretanto, o poço mais raso, que permite a entrada da luz. Mesmo que não enxerguemos bem por qual lado da parede escalar, sentimos nossa curiosidade ser cutucada e nos movemos até encontrar a saída. O poço pode ser uma prisão perpétua, com direito à solitária por longos períodos. Ou, ainda, pode ser apenas um lugar transitório, do tipo que ajuda a nossa reforma íntima e nos fortalece.

Depois, pensando mais um pouco, fiquei indagando: mas o que nos mantém dentro do poço? Talvez esta seja a pergunta libertadora, aquela capaz de nos encorajar a explorar o habitat em que nos encontramos para construir novas possibilidades de vida. Essa é outra questão importante do texto: um alerta para o fato de que, frequentemente, estamos apegados às nossas ilusões sobre as pessoas e sobre o mundo e, neste caso, a tendência é seguirmos de coração e olhos fechados, com as ideias amarradas às convenções e aos conceitos já estabelecidos. Não sobra espaço para enxergarmos outras facetas da realidade. Então, ficar no poço é uma escolha mais fácil e óbvia. Dá menos trabalho continuar sendo rã, embora nos custe esforços sem que saibamos.

E quando seguimos fechados no nosso poço, qualquer distração é bem-vinda. Aliás, quanto mais, melhor. Elas alimentam a nossa estagnação e, assim, não precisamos encarar de frente as situações, nem mudá-las. Seguimos tapando o sol com a peneira. Isto não significa a ausência de sofrimento, pois o grilo falante dentro de nós continua tagarelando nos ouvidos, provocando aquela inquietação para a qual não conseguimos dar o nome verdadeiro. Vamos inventando apelidos: tédio, ansiedade, depressão… até mesmo fome, cansaço ou autopiedade. Mas deixemos o grilo para lá. Já temos bicho demais nessa história!

A questão é que, ao nos aprisionamos dentro do poço, tendemos a acreditar apenas naquilo que parece palpável lá dentro. A falta de oxigenação das ideias e das emoções limita nosso campo de visão e, acostumados que estamos com a mesma perspectiva das coisas, não questionamos os paradigmas. Criamos falsas ideias e mantemos as ilusões.

Por isso, é muito interessante a analogia que coloca o pintassilgo como um desbravador do desconhecido. Ele pode representar uma ameaça às nossas convenções, mas também simboliza o elemento libertador. De qualquer maneira, ele entra no fundo do poço para contestar a ordem existente e nos convida a formar uma nova lógica. A estratégia só se torna desafiadora em função do caráter da fauna: tem pintassilgos insurgentes que nos inspiram a abraçar o mundo, e tem corujas que fazem de tudo para nos subjugar e nos condenar à mesmice.

Isso tudo, finalmente, me fez pensar nos educadores e no papel da escola. Entendo que chegamos às escolas mais ou menos na condição de rã. Ainda bem que existem mestres que reverberam o canto do pintassilgo porque reconhecem a sementinha da transformação dentro de nós. Estes, incansavelmente, insistem em nos elevar até a altura dos nossos próprios olhos para que possamos enxergar a beleza do mundo refletida em nós. Mas, claro, tem também aqueles que, investidos do seu lugar de poder, apenas reforçam o aprisionamento das rãs. Fazem com que continuemos desacreditados de nós mesmos, suplicando por um milagre fora do nosso alcance. Neste caso, mesmo quando o mundo emite seus sinais mágicos, somos desencorajados a acolher o inusitado.

Tenho certeza de que as nossas escolas estão longe de ser poços fedorentos. Talvez algumas se encontrem descuidadas por falta de recursos. Ainda assim, elas tentam sobreviver, de alguma forma, ao clássico descaso com a educação. Independente disso, este espaço de conhecimento tem a importante função de despertar as rãs para o universo de possibilidades fora do poço. E os educadores são os pintassilgos, dispostos a estimular o senso crítico e reforçar o potencial dos aprendizes. A esses pássaros que nos levam em suas asas e nos ensinam a voar, o nosso respeito e agradecimento sempre. Libertar as rãs das armadilhas da coruja é tarefa que merece ser celebrada todos os dias do ano!

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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