Somos diferentes e não desiguais

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (http://www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Igualdade, liberdade e fraternidade são princípios básicos defendidos na revolução francesa para romper com os privilégios da época. Mas nem precisamos voltar muito o filme da história para entender que aquela luta ainda não terminou. Parece que continuamos vivendo os paradigmas dos séculos passados, com algumas poucas variações. Aliás, os elementos podem ter mudado, mas a estrutura social teima em permanecer produzindo desigualdades.

Há quem conteste, dizendo que diferenças são parte natural do mundo em que habitamos e, portanto, não é a sociedade que as produz. É até plausível concordarmos com isto, afinal, nascer neste planeta significa mergulhar em uma diversidade sem fim e a verdade é que desconhecemos a heterogeneidade da vida por completo. Portanto, está tudo bem dizermos que as coisas do mundo são muito diferentes e as espécies também. Mas o que será que isso significa de fato? Em que momento da nossa existência passamos a qualificar essas diferenças, atribuindo a uns o valor “mais” e a outros o valor “menos”?

Os estudiosos das áreas biológicas certamente nos ajudariam a explicar essas questões, recompondo a trajetória da vida no planeta. Eles, talvez, detalhassem a evolução das espécies em todos os seus processos para corroborar nossas diferenças. Já os historiadores, cientistas políticos, filósofos, antropólogos provavelmente nos levariam a compreender como nós as usamos para criar benefícios para uns e não para outros. E todos eles, à sua maneira, tratariam de concluir: as diferenças são tão reais quanto socialmente produzidas e reforçadas.

Sempre que falamos sobre sermos iguais, há um desconforto em admitir que não somos iguais, mesmo pertencendo à mesma espécie, como se isso fosse “politicamente incorreto”. E, assim, criamos uma celeuma desnecessária que acaba desviando nossa atenção daquilo que é mais importante entendermos: a diversidade é parte natural deste planeta, mas isto não significa desigualdade. É uma lógica muito simples: somos diferentes e não desiguais. Podemos aceitar a distinção, mas não a discriminação. Podemos conviver com a multiplicidade, mas não com a disparidade. De novo, a lógica é bem simples: somos iguais em nossa espécie e não uns melhores que outros, nem melhores que outras espécies. Nós nos complementamos para completar a pluralidade viva do planeta.

Esta tecla está mais do que batida e, ainda assim, seu sonido não ecoa universalmente. Mesmo hoje, enfrentamos uma série infindável de “ismos” patológicos e nem nos damos conta do quanto eles reverberam no nosso cotidiano. Discriminamos, provocamos disparidades, construímos abismos enormes de desigualdade. E tudo isso de forma implícita tanto quanto explícita. Infelizmente, quando as nossas preconcepções estão disfarçadas nas entrelinhas, elas tendem a ser menos combatidas. São pequenos e grandes comentários, piadinhas que consideramos ingênuas e divertidas, historinhas recheadas de  subjugação, respostinhas afiadas na ponta da língua com frases clichês carregadas de valores atrelados à uma posição de privilégio.

Por aí vai. E circula livremente entre nós. Tem um monte de comportamentos naturalizados pela sociedade que desqualificam nossos iguais e outro tanto que motivam a dominação entre as espécies. Sinceramente, nem sei bem ao certo como seria viver nesse mundo se reconhecêssemos nossa real conexão, mas a história nos conta das guerras iniciadas justamente por causa desta incapacidade e de nos olharmos como um todo na diversidade. Ainda ignoramos o fato de que ser igual, sendo diferente, significa desfrutar do direito universal de existir nas mesmas condições, respeitando-se as características e necessidades singulares de cada ser dentro da sua espécie.

Longe de tentar definir e defender os conceitos de igualdade e de equidade, mas vale a reflexão sobre como praticamos esses valores no nosso dia a dia. Muitas vezes, esperamos que a sociedade se transforme em um recanto de justiça, porém, deixamos de fazer a nossa parte até mesmo nas pequenas atitudes e posturas de vida. Quantos de nós admitem seus privilégios e estão dispostos e disponíveis para agir de maneira que todos, sem exceção, também tenham acesso às mesmas oportunidades?

Dizem que quanto mais ampliada a consciência, mais buscamos pensamentos elevados que nos diferenciam das massas e nos tornamos catalisadores em potencial. Isso nos possibilita influenciar outras pessoas. O que fazer e para onde carregamos aquilo que tiver sido feito é a grande questão. É isto que está ao nosso alcance. E se consideramos o meio em vivemos, a abrangência do nosso exemplo pode ganhar proporções muito maiores. Sendo assim, começarmos a grande transformação revendo nossa postura de vida é essencial para o planeta como um todo.

Sempre que penso em coletividade ou em grupo, acabo me lembrando de uma experiência no mercado de peixes. Eu era muito pequena, mas nunca me esqueci do balaio de caranguejos e do pescador que tentava puxar um deles do cesto sem conseguir se livrar dos outros porque estavam todos grudadinhos. Se no passado as lutas eram isoladas e não nos importávamos com o que estava acontecendo ao nosso redor, hoje funcionamos como caranguejos: estamos conectados em (e pela) rede e, sem soltar a mão de ninguém, podemos nos engajar nas diversas e diferentes causas. Somos todos capazes de sustentar as bandeiras que lutam pela igualdade de direitos. Todas elas nos dizem respeito.

E este potencial rizomático otimizado pela tecnologia nos permite enxergar o mundo para além da espécie, do gênero e da tonalidade da pele. Se a cultura, as crenças, os valores e as ideologias tendem a nos diferenciar, cabe a cada um de nós o exercício primeiro de desconstruir a ilusão de que um lado é melhor do que o outro. Como diz a canção “A Força Verdadeira”, do Mundo Pita: “A vovó me disse um segredinho / Qualquer um pode ficar fortinho / Tanto faz ser grande como tanto faz ser bem pequenininho / A verdadeira força vem de lá de dentro da gente / Se você acredita, ela brota feito semente / E pra usá-la, é preciso ser inteligente / É que os maiores cuidam dos menores carinhosamente.

Vale esclarecer, portanto, que isso se chama solidariedade, sororidade, fraternidade e busca pela equidade. Atitudes e posturas que devemos adotar individualmente para acelerar a tão necessária ruptura dos paradigmas que insistem em nos dividir, em vez de somar. Que a nossa matemática seja amorosa!

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Somos diferentes e não desiguais

  1. Rosana Pagani disse:

    Obrigada por este texto! Potente e verdadeiro! Bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s