Um anjo entre dois mundos

Nasci na madrugada, mas poderia ter esperado o astro rei para me fazer companhia. Preferi o banho da lua, talvez porque soubesse que tão logo eu visse a luz clara do dia eu já estaria aterrissando na realidade deste mundo. Pelo menos, a noite disfarçada no seu brilho prateado ainda permitiu me sentir em trânsito por mais alguns momentos. Sim, não é tarefa das mais fáceis chegar a um mundo desconhecido e repleto de desafios. Isto requer coragem e uma rede de apoio muito disposta a nos mostrar os (novos) caminhos. Mas eu vim, e vim embalada ao som da “anunciação”, para brincar no quintal deste universo sagrado.

Há quem diga que escolhemos onde vamos nascer e também a família da qual faremos parte. Essa crença é considerada mística por muitas pessoas, mas se pensarmos bem, ela faz muito sentido. Tudo é uma questão de afinidade. É como acontece quando estamos viajando pela estrada com o rádio ligado e, ao passarmos por uma colina, sintonizamos imediatamente com a música de determinada estação porque ela consegue emparelhar melhor com a antena do carro. Fica mais fácil captar aquelas vibrações e pronto, já começa a tocar a trilha sonora local.

Pode parecer estranha essa analogia, mas o que importa mesmo é entendermos que nada acontece por acaso e, certamente, o nosso nascimento é recheado de conexões que nem somos capazes de explicar. O fato é que chegamos ao mundo após um bom período de preparação. Nossos pais vão fazendo escolhas por nós, antes mesmo de nascermos. Ganhamos contorno real em tão pouco tempo, mas levamos algumas noites de choro e infindáveis resmungos até ancorar de vez no concreto. Que transição extraordinária!

São idas e vindas em um corpinho minúsculo, feito pra caber a pequenez da nossa alma quando aportamos aqui. Este exercício é exaustivo! Imagine estar em total liberdade e poder se deslocar em frações de segundos, apenas com a força da mente. Então, de repente (não muito de repente, pois somos gestados ao longo de várias semanas), nem conseguimos mais virar o próprio rosto de um lado para o outro, por pura falta de controle motor. Depender de outras pessoas para absolutamente tudo o que diz respeito à nossa sobrevivência física é uma das primeiras lições de humildade renovada ao nascermos. Bendita seja!

Isto é muito bom para refletirmos sobre irmandade, afinal, estamos todos no mesmo barco e uns aprendem a remar antes dos outros apenas por uma questão de tempo. O que vale é que navegamos todos neste mar que nos exige solidariedade e amorosidade para não naufragarmos em nossas experiências. Compartilhar é essencial, mas demanda estarmos abertos a aprender e sermos generosos para disponibilizar ao outro aquilo que recebemos antes.

Mas, espera aí…. pensa que é fácil essa troca?! Nada disso! Hoje em dia, tem tantas coisas tão diferentes que chega a ser até assustador para as gerações anteriores. Verdade! Antigamente, por exemplo, quando os bebês espirravam, os pais corriam fechar as janelas para evitar a corrente de ar. Hoje, eles dizem que isto é “resto de parto” e está tudo bem. Antes, quando os bebês soluçavam, alguém enrolava uma linha de roupa e colava na testa da criança para resolver a questão. E a mandinga funcionava super bem, claro, depois de trocar a fralda e checar se era friagem ou umidade. Atualmente, os pais dizem que soluçar faz parte da fisiologia da criança. Simples assim!

Nada do que se sabia antigamente parece valer. Existem muitas diferenças entre gerações, apesar de “ainda sermos os mesmos e vivermos como nossos pais”.  Isto é até óbvio. Mas essa coisa de excesso de informação e muita explicação sobre tudo acabou distanciando os pais do instinto natural do papel de cuidador e protetor. Tudo se aprende em cursos didaticamente preparados para dizer e mostrar como se deve agir em qualquer circunstância. Tem tutorial e consultoria para tudo, é impressionante! E o que não é vendido em aula, basta digitar algumas palavras no Google e logo se encontra milhares de links com respostas diversas. É uma verdadeira terceirização do instinto parental.

Mas cá estou eu, nascida entre fatos e lendas, conflitos geracionais, valores morais sedimentados em areia movediça, na perplexidade de um mundo em plena transição. Aqui eu nasci, por escolha, por missão. Eu vim, da “bruma leve da paixão”, com a certeza da intensidade da vida que me espera. Vim, flertando com a luz no fim do túnel, que insiste em me ignorar e segue menosprezando o meu desejo de dar umas voltas por aqui, despretensiosamente. Ela fica piscando em linhas já traçadas, como pista de pouso de avião, em que o piloto é obrigado a seguir exatamente aquele trajeto. Vamos ver o quanto isso se sustenta, pois eu cheguei para revolucionar. Não sou do tipo que segue script e obedece teorias científicas.

Meu nome? Meu nome significa transformação, limpeza. É água que potencializa o amor e a vida, deusa do inacessível e do invencível. Nasci para alinhar desejo, ação e sabedoria e ainda não inventaram tutorial capaz de revelar como dominar minha potência transformadora. Seguirei sendo imprevisivelmente eu.

Meu nome? Meu nome é Maya!

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8 respostas para Um anjo entre dois mundos

  1. Alia Taha Junqueira disse:

    Maravilhoso texto…Maya de muito amor e carinho.bjs

  2. mauroguisso disse:

    Lindo artigo!!! Seja muito bem vinda Maya!!!

  3. Sulla Mumme disse:

    Andrea! Que texto magnífico, um presente que deu a Maya, certamente será uma homenagem da madrinha para a vida toda.
    Muito bem escrito com o coração.

  4. Rosana Pagani disse:

    Ah! Emocionada aqui! Que texto sensível, tão verdadeiro! Que a luz esteja sempre com Maya! Assim como está sempre com vc! Te amo por tanta doçura e sou grata ao universo por promover nosso encontro! Bjs amorosos

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