Na sala de espera

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Certa vez, me disseram que a sala de espera de qualquer lugar é uma fonte inesgotável de lições. Podemos aprender uma variedade de assuntos, dos mais relevantes aos totalmente banais: política, esporte, receitas de bolo, remédios caseiros, educação de filhos, desafios da vida conjugal e, até mesmo, sobre quem matou Odete Roitman. Vale tudo para passar o tempo. Tem pessoas, inclusive, que preferem chegar mais cedo no compromisso para desfrutarem de alguns minutos extras de socialização. Essas nunca reclamam do atraso da consulta médica, por exemplo.

Nesse leque de assuntos não faltam questões pessoais. Aliás, tenho reparado que a sala de espera vem se tornando um espaço neutro para a busca de soluções domésticas. Já vi alguns casais resolvendo a obra da casa ou a reforma do casamento, e pais repreendendo os filhos por algum comportamento divergente. E por aí vai. Vai longe. Tem vezes que atravessa o oceano e as pessoas conversam com um parente que mora em outro continente para aproveitarem o fuso horário. Tem de tudo. Principalmente a ausência completa de bom senso, pois todo mundo fala ao mesmo tempo, em alto e bom tom, abrindo sua privacidade sem o menor constrangimento.

Outro dia, pude saborear uma cena que me colocou a pensar no desdobramento desses eventos peculiares. Por causa das restrições consequentes da pandemia, estávamos em apenas quatro pessoas na sala. Uma delas, o marido, se debruçou sobre o celular e não arredou os olhos da tela enquanto a esposa trocava mensagens de áudio com alguém. Sem nenhuma discrição, ela comentava sobre um tal processo trabalhista e sua advogada, suponho, respondia com detalhes e novas orientações. Sim, dava para ouvir tudinho porque ela colocava a mensagem no viva voz.

No canto oposto da sala, uma senhora esbravejava, também pelo viva voz do telefone, com alguém que parecia íntima conhecedora do processo judicial que ela está movendo contra o antigo empregador. Pelo linguajar, a pessoa que estava na linha não parecia advogada e fazia poucas intromissões na fala da amiga, que se estendeu por vários minutos. Chamou minha atenção a sinceridade da senhora confessando repetidamente: “eu tenho mal humor e pavio curto, mas quando essas duas coisas se juntam em uma mesma situação fica tudo complicado. Nem eu mesma me tolero.

Pelo que entendi, o processo tem a ver com o desentendimento entre colegas de trabalho. Mas tive um pouco de dificuldade para acompanhar as duas histórias paralelamente, embora curiosa. Ambas pareciam tratar de problemas muito similares e cheguei a suspeitar que estavam falando do mesmo local de trabalho. Temi pela nossa segurança e quase ofereci uma consultoria rápida para conciliação de conflitos, mas não quis me arriscar nesta proposta. Já imaginaram se a senhora do sofá da frente estivesse exatamente naquele momento tenebroso de convergência de forças malignas? Sobrariam palavras para me chicotear, com certeza.

De qualquer maneira, acredito que nenhuma intervenção da minha parte seria útil e procurei agir como um marido que empresta os ouvidos enquanto navega no mundo virtual. Claro, nem tão imune ao falatório geral, afinal, tenho uma tendência natural a querer saber mais sobre a vida das pessoas, por mais estranhas (em todos os sentidos!) que elas pareçam. E, com frequência, ocupo a posição da escuta.

Naquele mesmo dia, o motorista do Uber foi contando causos acontecidos dos mais variados, ao longo do trajeto de quase trinta e cinco minutos. Atrás da máscara, suas estórias ficaram um tanto inaudíveis e com o barulho do trânsito, por causa das janelas abertas, o esforço para entendê-lo foi um pouco em vão. Quase desisti, mas resisti solidariamente, tentando não perder o nexo das coisas. Fiquei pensando que, no mínimo, eu poderia retribuir com os meus ouvidos e acolher sua necessidade de falar, já que era praticamente um monólogo. No final da corrida, quem pagou a sessão fui eu. E justamente! Tive a oportunidade de praticar uma série completa de virtudes e ainda chegar em casa com a certeza de que podemos ser mais compassivos, principalmente com aqueles de temperamento forte que queimam o humor no pavio da vela.

Acho que a vida da gente está profundamente marcada por essa incapacidade de escutar e, sobretudo, de apreciar o outro, seja para compreendê-lo ou simplesmente abraçá-lo com os ouvidos. Há alguns anos, li um texto lindo do Jacques Salomé (Quando peço que me escute) e, desde então, sempre penso que muitas pessoas carregam dentro de si palavras desconexas, verbos que não conjugam com seus sentimentos, sentenças gramaticalmente corrompidas pela dureza da sua realidade e bastaria um papel em branco para conseguirem se apropriar delas mesmas. Nosso ouvido pode ser essa folha mágica. É como se a panela de pressão estivesse a todo vapor, quase estourando, e falar, falar, falar, e falar mais um pouco equivalesse àquela levantadinha do pino com a ponta da faca para aliviar a pressão da confusão ou do sofrimento emocional que estão cozinhando há tempos. Nosso ouvido pode ser a ponta cuidadosa dessa faca.

Qual é o código de ética ou a etiqueta em uma sala de espera cheia de gente falando pelos cotovelos? Não é necessário respondermos isto. Mas se as pessoas chegaram ao ponto de contar a vida publicamente enquanto dirigem ou esperam por uma consulta, talvez seja porque o mundo realmente esteja precisando de reza forte e muito bate-folha para mudar a nossa vibração e bendizer a vida coletiva. Então, alma lá, gente, pois falar do nosso desafeto pelos espaços esvaziados de amor só faz ecoar a sombra das nossas lacunas. E, tenho esperança, nós podemos ouvir mais do que uma sopa de letrinhas.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Na sala de espera

  1. Sulla Mumme disse:

    Sensacional ! Aprendi muito nesse texto e vou praticar um pouco mais os meus ouvidos
    para serem ouvintes, isso se chama doação.

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