Em que poço nos metemos?

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Semanas atrás, fui convidada para participar do Brindando com Histórias, um projeto super bacana que apresenta histórias com sonoplastia ao vivo e, em seguida, promove a troca de ideias sobre o seu conteúdo. Estava entre amigos muito queridos e o bate-papo foi muito inspiramor. O texto escolhido por eles, As rãs, o pintassilgo e a coruja, é de autoria do Rubem Alves. Aliás, faço parte do time de suspeitos em se tratando dele, pois suas provocações sempre rendem muitas reflexões.

Por isso, foi em vão que tentei processar os estímulos dessa história em uma linha de raciocínio única. A fábula é de tamanha riqueza que poderíamos produzir uma enciclopédia inteira com os seus desdobramentos. Há muitos aspectos para pensarmos e quanto mais mergulhamos nas entrelinhas de suas ideias, maior o impacto das palavras sobre nós. Resta, então, o exercício de explorar diferentes perspectivas e deixar nossa consciência se expandir.

Alguns ângulos foram visitados durante a nossa conversa, mas, de lá para cá, várias pessoas vêm trocando mensagens comigo sobre o assunto, associando este momento de transição com a fábula. De fato, nossa realidade tem tudo a ver com a história. Parece mesmo que caímos no poço fedorento e nunca mais vamos sair dele. O período atual é desafiador e se impõe sobre as nossas vidas com um peso um tanto opressor. Mas tem também o outro lado: aquele que canta em nossos ouvidos caminhos libertadores.

O lado pesado imprime em nós um desânimo generalizado e muita gente se sente completamente deprimida, se colocando na posição das rãs alienadas e subjugadas. Realmente, existe muita coruja querendo nos manter trancafiados e assustados no escuro dos acontecimentos. Por outro lado, um bando de pintassilgos continua tentando abrir nossos olhos para as belezas do mundo. Então, qual é a questão central aqui?

Cada um de nós pode responder isso de forma particular e não existe uma única afirmativa correta para todos. O bom dessas reflexões que o Rubem Alves promove é que podemos vestir a carapuça que nos serve melhor. Entretanto, seu texto deixa claro que, apesar de existirem diferentes perspectivas e papeis, o mais fundamental é reconhecermos a nossa posição. Sem descobrirmos que lugar da história ocupamos, dificilmente conseguiremos protagonizar alguma mudança no enredo.

Dia desses, uma amiga estava desabafando sobre os obstáculos que anda encontrando ultimamente e depois de um tempo concluímos que aquelas dificuldades são praticamente as mesmas de antes. A grosso modo, essa crise mundial não trouxe nada de novo em nossas vidas, apenas revelou o que já estava sendo empurrado para debaixo do tapete. Algumas coisas ficaram logisticamente mais complicadas, mas isto resume este tão falado “novo normal”. Nossa lida é com o velho poço fedorento mesmo.

Muitas pessoas estão se dando conta exatamente disso: não somos diferentes do que éramos antes, mas estamos colocando nossos valores e crenças no centro do holofote e não temos como escapar da tarefa de questioná-los. Certamente, isto gera a necessidade de novas atitudes e comportamentos, mas enquanto não mudarmos nossa mentalidade, seguiremos atuando no papel secundário, deixando o protagonismo para as corujas.

Na fábula, as rãs ficam paralisadas em sua rotina lamacenta. Elas se adaptam ao mundo limitante em que nasceram e ali se escondem. Assim somos nós quando moldamos nosso potencial para caber no lugar em que fomos autorizados a nos manter. E não falta situação-coruja para reforçar a nossa impotência. De certa forma, chega a ser assustador como nos deixamos afetar por elas. É como se as corujas soubessem mais sobre as nossas fraquezas do que nós mesmos sobre a nossa força-pintassilgo.

Esse jogo de poder tende a nos prender no poço esculhambado e não é nada fácil passarmos para o grupo dos 5% das rãs que conseguem bater asas. Não tenho uma formula mágica para isso, mas Rubem Alves deixa uma dica válida em seu texto: o autoconhecimento. Trocando isto em miúdos, significa que o trabalho de desvendar o mundo fora da nossa caixinha não cabe apenas ao pintassilgo. É importante entendermos que nós temos um pouco de coruja, de rã e de pintassilgo e podemos nos concentrar mais no papel deste último, em vez de nos acomodarmos na personagem da rã ou de agirmos como coruja, sendo nosso próprio algoz.

As dificuldades existem e sempre farão parte do nosso aprendizado, e até podemos encará-las como impossibilidades, nos acuando. Acontece que, independente da nossa escolha, o fato é que a experiência do êxtase pela vida está aberta a toda e qualquer pessoa que se dispõe a conhecer as fronteiras do que vivencia como sendo o seu Eu particular. Saber em que “poço” nos metemos também nos permite reconhecer o tamanho do “posso” que alimenta a nossa alma.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Em que poço nos metemos?

  1. Lourdes disse:

    Ótima reflexão para fazer entre o “poço” que nos metemos e o “posso” sair dele de alma lavada!!

  2. Jose Augusto Freitas disse:

    Bom dia Andrea , parabéns pelo texto .

    Atenciosamente :

    José Augusto Freitas

    17-98231.3114 jtconsultor2@gmail.com

  3. Fatima Christofetti disse:

    A relação poço/posso foi perfeita!

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