A Editora Pa, Pe, Pi

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

A campainha dos apartamentos não parava de tocar. O condomínio estava sendo alvo de uma romaria literária, meticulosamente organizada por três crianças na faixa dos oito anos de idade. Amigos desde que ainda nem sabiam escrever, esses meninos haviam acumulado boa experiência na arte de inventar histórias e só apagavam a luz quando a “noite do pijama” sofria algum tipo de intervenção materna: agora é hora de dormir e a aventura pode continuar amanhã!

Claro, os cochichos ainda se estendiam por mais um tempo, mas na manhã seguinte, lá estavam eles debruçados sobre os papéis, “imprimindo” suas ideias com a ajuda das canetinhas e lápis coloridos. Era divertido assistir àquela cena porque eles riam das próprias fantasias e, ao mesmo tempo, era gratificante observar a colaboração mútua. Cada um fazia o que tinha mais facilidade e, juntos, sustentavam um grande empreendimento: a Editora Pa, Pe, Pi. O nome surgiu naturalmente das iniciais do nome de cada um e ficou gravado na memória deles (e na minha!) até hoje.

O processo foi rápido, graças ao entrosamento dos amigos e à fértil imaginação coletiva. Em poucas horas estava tudo pronto: conteúdo, criação de arte, reprodução em série e estratégias de venda. E lá foram os el-matrac (termo em árabe que deu origem à palavra “mascate”), bater de porta em porta, como caixeiros-viajantes. Não fazia ideia de como seriam recebidos pelos vizinhos, mas entendia aquela iniciativa como sendo de fundamental importância para todas as partes.

Aprendi nos livros teóricos que, basicamente, os fatores que mais influenciam o gosto da criança pela leitura são a curiosidade e o exemplo. No primeiro caso, me parece até redundância, afinal, qual criança está imune a elevadas doses de bisbilhotice? É tão natural que elas naveguem livremente por um mar de indagações que, inclusive, ganharam uma fase inteira de “por ques” só para legitimar sua inquietação diante do desconhecido. É uma interrogação sem fim que, aliás, pode gerar desconfiança: será que vão emendando um “por quê?” no outro só para irritar os adultos?

Seja qual for a resposta que cada um nós reservou para essa questão, temos todos que concordar com o fato de que a criatividade nas crianças floresce em meio ao desafio de descobrir o mundo. E isso depende diretamente do segundo fator: o exemplo. É aqui que entra a intervenção mais relevante do nosso papel de adultos, sejamos pais ou não. Acredito que, na sociedade em que vivemos, somos coletivamente responsáveis pela educação das crianças, direta ou indiretamente. Por isso torcia para que as portas da vizinhança se abrissem em todos os sentidos. E, graças à generosidade dos meus vizinhos, a Editora Pa, Pe, Pi alcançou seu objetivo. Os meninos venderam todas as cópias do livrinho que editaram e voltaram para casa animados para uma nova empreitada.

O acolhimento dos adultos faz grande diferença na caminhada da criança e do adolescente que está em processo de erupção permanente. Sabemos que pais que cultivam o hábito pela leitura tendem a motivar o mesmo comportamento nas crianças. Mas aqueles leitores menos assíduos, ao envolverem os filhos em uma rotina íntima com a leitura, estarão igualmente marcando uma referência positiva para eles. Há uma teoria bem fundamentada na psicologia que explica: as crianças aprendem por imitação e reforço positivo. Portanto, pais que não se acomodam frente às respostas socialmente convencionadas, acabam estimulando também o senso crítico nos filhos. E, apoiando seus pontos de interrogação, certamente estão colocando ainda mais “lenha na fogueira”.

Mas, na prática, essa verdade não é tão simples. Se assim o fosse, estaríamos garantindo uma sociedade comprometida com o desenvolvimento emocional e afetivo das crianças. Neste quesito, precisamos considerar muitos outros fatores para mantermos o fogo aceso, pois temos assistido a uma triste desvalorização da literatura. E nem podemos culpar a tecnologia por isso, afinal, ela veio para abrir janelas e estender o acesso a todos os tipos de informação. Ela é, de fato, uma aliada para a nossa formação. Imagino o que aqueles três meninos poderiam ter inventado se tivéssemos computador disponível na época. Talvez a Editora Pa, Pe, Pi tivesse ganhado outras proporções.

A literatura na nossa vida tem uma dimensão muito além das questões culturais e quando introduzimos esse hábito dentro de casa, ganhamos um universo inteiro de oportunidades para estreitarmos o elo com as crianças e não perdermos de vista a própria capacidade criativa e imaginativa. A vida afora, seja na escola ou em outros cantos, vai apenas acrescentando à bagagem que dispomos no ponto de partida.

É difícil mensurar o impacto que aquela “noite do pijama” pode ter causado na vida adulta do Pa, Pe, Pi, mas posso tranquilamente afirmar que a literatura é um instrumento motivador, desafiador, transformador e libertador, pois ler abre atalhos em caminhos pré-estabelecidos e concede espaço para novas interpretações sobre o mundo. Permite-nos questionar e entender melhor o que está acontecendo nos diferentes mundos em que habitamos. Por isso, ao invés de nos rendermos às tentativas perversas de atarraxar a “rebimboca da parafuseta” para ajustarem nosso sistema de educação de acordo com pensamentos bitolantes, vamos retomar a tarefa de formar adultos de alma livre e leve para criarem uma sociedade mais coerente com os valores humanos.

Este texto foi originalmente publicado na minha coluna da Eureka Digital. Visitem o site da Editora (www.editoraeureka.com.br) e sigam também o Instagram (@eurekadigitalapp) para acessar outras publicações.

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