(Extra)ordinária é a alma

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O dia amanhece dentro de nós, mesmo quando ainda é madrugada e as coisas parecem confusas por causa dos pensamentos emaranhados. Uma espécie de conspiração entre fatos e fantasias toma conta de tudo com a intenção de nos apresentar novas realidades. Apesar de teimarmos em permanecer no lugar seguro, esse desafio nos convida a outras perspectivas e posições. E lá vamos nós, desbravando as possibilidades de ser: a alma é curiosa.

Levantamos para o óbvio aparente, com a certeza de que aquilo que nos é dado está pronto e nada mais precisamos fazer. Esquecemos, entretanto, de que não há garantias para viver e, como cantavam os Secos e Molhados, em nós “nada está como é. Tudo é um tremendo esforço de ser.” E lá vamos nós, colocando a mão na massa e sovando as nossas experiências com garra: a alma é corajosa.

A manhã passa e a tarde chega para se certificar dos passos que conseguimos avançar. Movimentos lentos talvez, mas intensos. Nada melhor do que despertarmos para o mundo dentro de nós e superarmos as ilusões. Todo mergulho é um banho renovador que fortalece o crescimento pessoal, ainda que venha acompanhado de umas pontinhas de sofrimento. E lá vamos nós, curando as nossas feridas e amadurecendo: a alma é resiliente.

O sol repousa no balanço das nossas vivências cotidianas e a cada anoitecer temos mais uma oportunidade para ponderar as perdas e os ganhos do dia. Algumas vezes, essa contabilidade pesa contra nós e denuncia a tarefa incompleta. Mas está tudo bem porque a manhã voltará a despontar, trazendo infinitas chances. E lá vamos nós, escarafunchando as entranhas da vida para melhor conhecê-la: a alma é inquieta.

Mas, ao olharmos ao nosso redor, nem sempre reconhecemos o próprio fazer. Há uma espécie de dissonância entre aquilo que acreditamos que somos, nossa ação no mundo e a essência do Ser. Esta incoerência é natural porque levamos algum tempo para revelarmos nossas verdades para nós mesmos. Até admití-las, os passos podem se desencontrar. E lá vamos nós, errando e aprendendo com as escolhas que fazemos: a alma é livre.

É nesse lugar comum que a vida acontece. Esta é a melhor posição para transitarmos pelas realidades que compõem a nossa jornada. Somos o melhor de nós nesse vácuo em que tudo pode acontecer para nos ensinar alguma coisa. Ficamos bem em nossa própria pele quando conjugamos as verdades em primeira pessoa. Às vezes em que nos perdemos são exatamente aquelas em que penduramos a nossa essência atrás da porta e saímos para passear com o ego. E lá vamos nós, buscando ser fieis a nós mesmos: a alma é íntegra.

Um dia entendemos que é preferível ter os pés descalços, tropeçando nos obstáculos, mas construindo caminhos plausíveis na direção da autorrealização. Nesse dia, deixamos de explorar os atalhos porque constatamos que a estrada é longa de fato, mas vale cada quilometro percorrido com plena atenção e dedicação. Não precisamos economizar na travessia, pois ela oferece lições exatamente de acordo com aquilo que favorece nossa viagem. E é uma via que segue sem retorno. Não há como retomar os mesmos passos. E lá vamos nós, abandonando essas pegadas de forma consciente: a alma é desapegada.

Nossas histórias são pérolas forjadas pelas situações que vivemos, nas circunstâncias precisas em que elas ocorrem. Alcançamos a felicidade sendo felizes, alcançamos o amor amando, alcançamos o coração das pessoas aconchegando todas elas em nosso coração. Sempre que nos expomos às contradições do mundo externo saímos um pouco da superficialidade da nossa caixinha. Esse ato quase heroico é uma convocação para olharmos nossos valores e crenças. Mas, melhor do que isso, é a brecha indispensável para revisitarmos nosso caráter e restaurarmos a dignidade da alma. E lá vamos nós, finalmente entendendo: a alma é (extra)ordinária.

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4 respostas para (Extra)ordinária é a alma

  1. Ricardo disse:

    A alma é poesia!!
    Um texto que deve ser lido com calma para compreender e refletir os ensinamentos. É vida que transborda.
    Gratidão!

  2. Lúcia Helena de Melo disse:

    A alma não se cansa de sofrer. É uma necessidade voraz. É vida que segue. Cada sofrimento é coletado com grande estima. É um tesouro desbravado. É uma teima que se segue. Vencida por si mesmo. Porque não, por todos?
    Texto altamente reflexivo, que trás a incumbência de ser e, ao mesmo tempo com os demais, sermos.
    Obrigada sempre querida Andréa. Ótimo final de semana.

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