Ei, psiu…

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Só falta mesmo criarem um dispositivo nos anúncios que seja capaz de nos engolir por inteiro. O apelo é intenso e a frequência com que aparecem em nossas telas chega a ser assustadora. Inventaram uma tecnologia inteligente o suficiente para invadir a nossa pseudoprivacidade e capturar nossa rotina sem aviso prévio. Se estivermos desatentos, nossas prioridades ficarão confusas e o impulso para assimilar aquela “nova ideia” certamente nos atropelará.

Estou aqui escrevendo em voz alta, mas consciente de que isto não é nenhuma novidade nos dias atuais. Provavelmente, vocês já passaram pela experiência de verem refletidas em suas redes algumas necessidades antes ignoradas ou inexistentes. É uma loucura mesmo o que os algoritmos estão aprontando até com o nosso senso crítico. Mas sempre penso que eles são apenas a ponta da geleira que afundou o Titanic.

Outro dia, inclusive, conversava com uma amiga sobre o caos político e brincamos sobre o risco que corríamos de sermos presas por uma dessas agências secretas que monitoram o céu do planeta e descobrem o que arquivamos nas nuvens sem a autorização de São Pedro. No caso, sussurrávamos o mal sobre alguns governos, afinal, não somos perfeitas (nem mesmo os políticos e seus eleitores, diga-se de passagem e leia-se em letras graúdas). Imaginamos aquelas cenas de filme em que a pessoa se encontra ao telefone, no aconchego do seu lar, e uma escolta armada surge do nada, arrombando a porta para interceptá-la.

Nossas teorias da conspiração talvez não sejam tão teóricas assim como insistem os apaziguadores. Na prática, já tem muita coisa acontecendo atrás daquilo que percebemos como concreto. Podemos até comparar isto à nossa visão do oceano: alcançamos o que está na superfície, sendo trazido pelas ondas, mas existe uma infinidade de outras coisas em suas profundezas que desconhecemos.

Há algumas semanas, tomei conhecimento sobre uma situação bizarra: a mãe, que estava trabalhando na sala, fechou completamente o notebook para conversar com o marido, em outro cômodo da casa, sobre a necessidade de comprar meias quentinhas para a filha. Duas horas depois, quando voltou à sua bancada e abriu o computador, começou a chover anúncio de meias infantis na sua tela. Parece enredo inspirado nas piadas sobre vigilância cibernética e controle refinado da inteligência artificial. Não sei, neste caso, se o Bill Gates também riu das meias, mas talvez os chineses tenham ficado felizes com mais um cliente em potencial.

Aliás, era justamente essa a minha motivação inicial ao pensar neste assunto publicamente. Ando sobressaltada com as propagandas que preenchem os intervalos entre um post e outro na linha do tempo da minha página no Instagram e também entre os stories. É impressionante (e quase surreal!) a variedade de produtos sendo anunciados e fico me perguntando como eles foram parar ali, pois a maioria destoa completamente do meu perfil minimalista. Até desconfiei: será que tenho uma personalidade consumista oculta que foi raqueada de alguma forma e agora está sendo revelada para mim?

É cada trem doido, como diriam os mineiros: de artigos para decoração de casa a joias; de roupas íntimas a enxoval de bebê; de cosméticos corporais a rolo para massagem facial; de travesseiro com sementes relaxantes a corretor de silicone para joanete; de comida vegana e não-vegana a utensílios práticos para cozinhar. Estes, então, ganham disparado em criatividade e na capacidade de nos convencer de que queremos nos tornar os master chefs do milênio.

Confesso que alguns itens parecem sofisticados e futuristas, me fazendo sentir a própria Jane Jetson e fico seriamente questionando minha sobrevivência sem a fiel escudeira Rosie. Nunca imaginei que a fantasia do desenho se tornaria realidade em tão pouco tempo. Por outro lado, me apavoro com tanta bugiganga sendo produzida e consumida neste mundo que está prestes a esgotar seus recursos naturais.

O setor de reciclagem já sustenta uma estrutura complexa e, mesmo assim, não consigo ver a conta fechando. Ao contrário, tudo indica que o consumo promovido pelo mundo virtual está inflacionado, nos bombardeando com coisas que nem imaginávamos possíveis. Em resumo, continuamos consumindo engenhocas poderosas para encher nossas prateleiras. Que, aliás, tem vários modelos diferentes anunciados especialmente para inovar a antiga moda de deixar os sapatos fora de casa.

Ei, psiu… vamos ficar atentos, pois as circunstâncias são favoráveis para nos empurrar na direção do consumo exagerado. Esse estímulo ostensivo para preencher nosso vazio pandêmico pode acabar nos seduzindo para o lado escuro da força. Resistamos como verdadeiros Jedis!

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Ei, psiu…

  1. REGINA Baston disse:

    Nossa a gente não para pra pensar e ao ler a gente percebe que é assim mesmo que está acontecendo 😢 e que é hora de parar, pensar e mudar🙌🙏

    • Exatamente, Regina! Vamos sendo seduzidos e direcionados para o consumo sem perceber totalmente.
      Bora ficar de antena ligada nessa questão da internet que está ainda mais intensa com a pandemia.
      Obrigada pelo teu comentário! 🙂

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