No dia em que perdi o Japão

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Desde que comecei a assimilar melhor a ideia de fazer poucos planejamentos, minha vida mudou completamente. Não porque deixei de me organizar para realizar meus sonhos e desejos, mas passei a criar menos expectativas em relação a como as coisas “deveriam” acontecer. E abro aspas para o sentimento de obrigação sem nenhuma ironia, nem tom de brincadeira, pois desaprender a conjugar o verbo “ter que” é sofrido. Se você vive neste planeta, sabe muito bem a que me refiro.

Essa lição se repete de diversas formas em diferentes momentos. Recentemente mesmo passei mais uma vez por essa matéria. Curiosamente, minha colinha esperta de experiências anteriores não adiantou muita coisa e fui logo reprovada no teste. Ainda bem que não tem nada de mais ficar de recuperação. Sobretudo em questões como esta. Sempre há tempo para aprimorarmos a nossa sapiência.

Organizando um livro que envolve pessoas de vários países, fui surpreendida com a adesão espontânea de uma representante do Japão. Como o país não estava na minha lista de pretensões, isso me deixou muito animada. É o tipo de bônus que costumo chamar de “conspiração do universo”. Pensei: se tivesse incluído no projeto, talvez não teria acontecido. Aleluia!

Por razões pessoais, entretanto, a eventual participante desistiu de se juntar ao grupo. Pronto, no dia em que perdi o Japão, me dei conta de desejar o que não planejava querer. É bem assim: depois que tomamos conhecimento daquilo que seria possível, mas tornou-se inatingível, acabamos sentindo que vai faltar uma peça no quebra-cabeça. Não é uma perda necessariamente, tampouco uma expectativa infrutífera. Mas é, certamente, uma simples casualidade com o potencial de aflorar algumas boas reflexões.

Decoramos as convenções sociais e as adotamos como guia para tudo que fazemos. Na medida em que seguimos as normas, deixamos de questioná-las para ir nos adaptando à cada uma delas, começando com o nosso nascimento: dia agendado para sair do ventre, reloginho acertado para mamar, tempo correto para engatinhar e andar, palavra adequada para começar a falar, melhor idade para ser alfabetizado, quando e o que escolher como profissão e, depois de formados, a lógica do bom emprego que possibilita formar e manter uma família para a vida eterna, amém!

É um terço rezado de joelhos, sob a supervisão da sociedade. E por mais que estas expectativas estejam associadas às gerações dos anos 80 para trás, elas ainda circulam entre nós, mesmo que discretamente. Os nascidos depois da década de 90 já conseguem se libertar com mais frequência do hábito de tudo planejar. O adiamento da vida tornou-se mais raro e as pessoas passaram a se concentrar no momento presente.

Sem dúvida, encontramos também certo exagero no imediatismo, mas a conta me parece bem mais equilibrada nesse aspecto. As expectativas talvez sejam menos aprisionantes e, embora as frustrações continuem parte integrante do cotidiano contemporâneo, a vida não fica tanto no “modo de espera”. Há flexibilidade para aconchegar o não-querido. Sim, o despretendido que nem sabíamos que desejávamos até surgir em nosso caminho, embrulhado de surpresa. E há também mais improviso para lidar com o repentino que se esvai por entre os dedos.

Ao criarmos expectativa para tudo e planejarmos nossos passos detalhadamente, ocupamos quase todas as páginas do nosso projeto de viver com a ansiedade. Sobra pouco espaço para contemplarmos o desconhecido e menos ainda para saborearmos as novas possibilidades, até mesmo quando elas não se concretizam.

Mas, como dizem por aí: nem próximo do céu, nem perto do mar. Encontrar o meio termo também é uma experiência de longo prazo, com altos e baixos recheados de contradições e paradoxos inimagináveis. Planejar demais frustra. Planejar de menos também. Ser surpreendido é bom. E, do mesmo modo, a surpresa pode melar.

Às vezes, acreditamos ter aprendido a lição, mas ela insiste em colocar a nossa sabedoria à prova de tempos em tempos para se certificar de que fazemos nossas as nossas próprias palavras!

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12 respostas para No dia em que perdi o Japão

  1. Severino de Vasconcelos Andrade disse:

    Paradoxo do nosso tempo: “…pois não há tempo a perder. Passei a criar menos expectativas em relação a como as coisas “deveriam” acontecer.” Os saberes nos levam a grandes reflexões, a maior de todas é sobre o tempo. “Se você vive neste planeta, sabe muito bem a que me refiro.” Sua organização mental é perfeita, não é empírica, mas sabe o tempo mental de cada um é semelhante uma senha, eis o seu alerta. (Saudades)

  2. Sulla Mumme disse:

    Andréa!
    Que texto incrível regado de sabedoria. Hoje mesmo estava falando com uma amiga sobre viver o momento presente e sabemos o quanto é
    é difícil não ter expectativa com o futuro. Acredito que fomos domesticados e temos uma herança que ainda se encontra enraizada em nosso ser.
    Estamos caminhando para Nova Era e acredito que novos propósitos de conduzir a vida estão sendo aos poucos implantados na humanidade. Luz Paz Verdade e Amor regem nossos pensamentos, sentimentos e emoções. Gratidão

  3. alda disse:

    Texto maravilhoso, Andrea. É uma pessoa incrível, escreve com a alma. Parabéns Andrea!

  4. mauroguisso disse:

    Seus textos tem sido um elixir nestes tempos difíceis!! Gratidão!!

  5. Meire Regina Cidade disse:

    Tento arduamente não planejar tanto as coisas, mas ainda estou engatinhando nessa matéria. E acabo me decepcionando com muitas coisas. Mas um dia chego lá! Ótimo texto, parabéns!

  6. Nívanda Maria dos Santos disse:

    Andréa que delícia ler um texto permeado de sabedoria e delicadeza. Vale a pena perguntarmos sempre – universo, o que mais é possível? Ou ainda: universo me surpreenda!!
    Somos muito mais felizes ao nos conectarmos com nossa essência como seres infinitos.
    Gratidão minha linda por possibilitar tantas reflexões.

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