Só sei que nada sei

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Se tem uma verdade que desafia os tempos modernos é essa: “só sei que nada sei”. Com tantas alternativas à nossa disposição para ampliarmos o conhecimento, os filósofos gregos ficariam alucinados, mas continuariam pensando com essa mesma clareza: só podemos saber que não sabemos. Há muito que se aprender e também se arrepender de não ter sabido antes ou por somente tomar conhecimento muito depois.

Nesse campo em que as narrativas se chocam e nos confundem, nosso cérebro vai fritando de tal maneira que sua única defesa acaba sendo uma descarga elétrica quase que danosa. Não há Tico, nem Teco que sustentem as sinapses necessárias para processarmos a quantidade de informação jogada nas nossas ondas cerebrais. O brainstorming se transforma em um tsunami e o impacto sobre nosso sossego é imediato.

De maneira alguma defendo a ignorância, embora a versão popular da paz que decorre do não-saber seja bastante atraente. E é fato experimentado por muitas pessoas: o que os olhos relegam o coração não sofre, e quanto mais a nossa consciência se amplia, mais o grilo falante nos inquieta. A equação é simples: quando dessabemos das coisas, elas não nos atormentam. Ah! Mas não tão raso assim: a angústia pela falta é um motivador importante para nos fazer caminhar na busca.

A questão, entretanto, é que atingimos um ponto praticamente contínuo de acesso à informação, que nos convida a permanecer abrindo janelas infindáveis para alcançar o conhecimento. O grau de saturação parece não existir. Uma resposta nos convida a outras perguntas. Uma legenda puxa mais uma sequência de ideias e aciona novos caminhos para dez mil coisas ou mais, muito mais. Quem faz pesquisa por palavras-chave em plataformas de busca sabe bem o que estou falando. Enfrentamos uma enxurrada de possibilidades e seguidamente levamos um belo caldo. Quer ver um exemplo prático? Saia rapidinho dessa página e abra uma nova aba no seu navegador da internet para procurar informações sobre a previsão do tempo. Vai lá, eu te espero aqui…

Demorou voltar? Talvez você também tenha se perdido na chuva torrencial com mais de 60 milhões de links disponíveis. Difícil escolher o que ou quantos abrir? Não se preocupe. Se olharmos pela janela e esticarmos o nariz para fora, decerto conseguiremos descobrir, com mais simplicidade, se o sol está firme ou se o cheiro forte da umidade anuncia um provável toró. Ainda que o nosso fungador não funcione direito, eventualmente podemos confiar nos sinais de fumaça que conseguimos interpretar empiricamente. Será que precisamos mesmo dessa quantidade de fontes?

O impacto do excesso de informações sobre a nossa vida já se tornou tema de pesquisa para gerar mais conhecimento. Inclusive, criaram um termo como referência: infotoxidade. Agora, só falta receber também um código na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde. Verdade, existe um extenso registro para isso. Mas, se depender da velocidade com que nos contaminamos pelos meios de comunicação, isto ocorrerá muito em breve (se é que ainda não existe… não sei. Melhor dar um Google depois!). Só mesmo um bate-folha e reza forte para nos salvar dessa patologia.

Sim, quando imaginamos que todas as cartas estão sobre a mesa, tem sempre um trapaceiro que tira o coringa escondido da manga. Não, jamais qualificaria um cientista-pesquisador de girigote. Meu conhecimento não alcança esse tipo de avaliação. Para isso existem outros mecanismos que se dedicam a contabilizar o índice-h dos produtores do saber. O grande problema é que por trás dessa engrenagem está uma acirrada disputa de poder pela verdade.

É claro que esses indicadores científicos não coroam a pessoa como Deus no paraíso. Quiçá nas academias (não a da ginástica. A outra!). O fato é que tem muita gente cheia de pontos, falando grandes besteiras por aí. Como costumo brincar, tem uns batoteiros que torturam os dados até que eles confessem a verdade que o financiador da pesquisa quer ouvir. Mas como somos “meros” consumidores de informação, raramente questionamos se a fonte é confiável. Seguimos acreditando.

Para encontrarmos o meio termo é necessário nos desparamentarmos. Romper com a simplicidade do que somos e nos afastarmos do entendimento próprio sobre a vida e sobre o mundo pode nos adoecer intelectual e emocionalmente. Informações demasiadas representam um perigo incontestável, mas a ignorância é ainda mais mortal. Sem saber das coisas, vamos perdendo o direito de nos indignarmos. Por outro lado, devorar não importa o que como verdade não equivale a saber tudo. É fundamental questionar, mas sem ficar aqueles infochatos, ecochatos ou simplesmente chatos de galocha.

Dizem que não devemos nos relacionar com as suposições, mas os fatos também estão no campo da subjetividade. Dependendo do ângulo e do momento em que observamos os acontecimentos, eles podem nos contar uma história completamente diferente. Por isso, vale acionar a sabedoria interna para nos guiar na travessia por esse mundo misterioso, repleto de contadores de diferentes histórias sobre o mesmo evento. É melhor não nos conformarmos com as imposições sobre a verdade. Ninguém sabe de nada quando diz que sabe tudo sobre determinada coisa. Mas até que se prove o contrário, quem nasceu primeiro foi o ovo. Façamos, então, um bom omelete, assim salvamos as galinhas. Será?!

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Só sei que nada sei

  1. Sulla Mumme disse:

    Excelente texto! Mostra exatamente a realidade que vivemos; muitas informações em todas as áreas, até no simples ato de comprar um vidro de shampoo. São tantos rótulos, tantas variações, tipos e especialidades que às vezes saímos sem comprar nada, tamanha confusão. Quanto mais informações, mais dúvidas temos; realmente nós humanos com a ânsia do saber, do poder, do conhecer acabamos desafiando a nós mesmos que continuamos sem nada saber.

  2. Simone Lima Mioto disse:

    Adorei… Muitas informações em palavras simples e de fácil entendimento. Verdadeiro, pois no mundo de hoje, muitos acham que sabem tudo, enquanto simplesmente olhamos sua ignorância e seguimos a vida, tentando no meio de tanta informação….. Encontrar a verdade..

    • Simone, às vezes eu fico em conflito com o blog, pois é mais conteúdo na rede. Mas não resisto compartilhar e saio do conflito torcendo pra que não sobrecarregue a cabeça das pessoas. Então, obrigada por considerar o texto palatável, pois isso é gratificante!!

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