Gafanhotos contemporâneos

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Parece que eles estão vindo por aí com tudo que têm direito. Resolveram criar uma força tarefa para virar o mundo de ponta cabeça e assustar a humanidade. Mas não estão sozinhos. Muitos outros eventos vem cumprindo a tarefa de nos alertar sobre a urgência da mudança. A questão já não é mais quando, pois as predições ou profecias com data marcada tornaram-se absolutamente desnecessárias: o tempo é já!

E não adianta tentarmos ignorar tudo o que está acontecendo. As mídias estão aí, tornando irreversível o acesso à informação e abrindo todas as conexões possíveis para facilitar a formação das redes. Agora, trata-se apenas do “como” encarar a realidade nada funcional e transformar o afeto em algo substancialmente real em nossas relações com os outros e com o planeta. Preferencialmente de maneira positiva e amorosamente construtiva, é óbvio. O inferno já somos nós, mas como todo diabo é um anjo caído do paraíso, temos grandes chances de usar a nossa metade luz como farol.

Perrengue todos nós estamos vivendo, em alguma medida. Uns menos e outros muito mais, infelizmente. A corda continua arrebentando na ponta do excluído, provocando estragos irreparáveis. Estamos todos tateando os nossos medos, com as emoções à flor da pele. Uns menos e outros muito mais, felizmente. Assim a consciência vai se abrindo, nos deixando mais sensíveis e mais dispostos a provocar aqueles que ainda dormem em berço esplendido. Pouca coisa nos consola neste momento, mas uma importante certeza vem ganhando espaço: no final do dia, nunca estamos sozinhos. Isolados, ainda. Mas não abandonados.

Enquanto os pessimistas (muitos, inclusive, disfarçados de realistas) espalham o terror pelos vários cantos do mundo, uma multidão de gente está se mobilizando de maneiras diversas para equilibrar as forças. Não há mal que resista para sempre. Assistindo ao Duvivier outro dia, guardei um mantra no coração: desligue o foda-se, e uma certeza na cabeça: em vez de nos curvarmos ao sofrimento (naquela clássica postura de autopiedade), podemos implantar em nossas ações cotidianas, de forma cirúrgica, o espírito revolucionário e transformador. Afinal, precisamos nos preparar melhor para colher os frutos que plantamos.

Lá na frente, mas não muito longe, encontraremos pessoas com quadros mais agravados de alguma doença porque elas deixaram de se cuidar para evitar o sistema de saúde por causa da pandemia. Vamos nos deparar com as crianças e adolescentes que não conseguiram acompanhar aulas online por falta de recurso (delas ou da escola), e que sofreram alguma defasagem de conhecimento. Receberemos uma geração de jovens que buscam sua inserção em um mercado de trabalho falido e com profissões talvez até obsoletas. E também veremos a justiça do trabalho ainda mais sobrecarregada com os processos de funcionários injustamente demitidos ou prejudicados em nome da pandemia. Conviveremos com inúmeras famílias em luto pela ausência de alguém e outras tentando se reconfigurar por causa das separações que, segundo alguns advogados, aumentaram significativamente nesse período de quarentena.

Nossos governos colocam o combate aos riscos econômicos no topo da lista das prioridades, mas são muitos os outros desdobramentos da situação em que nos encontramos. É um reaprendizado geral, em todas as áreas. A recessão vai desacelerar o mundo, mas também exigirá um sistema econômico estruturalmente mais justo e equânime, podendo impulsionar a busca por formas mais conscientes de suprir nossas necessidades materiais. E isso, certamente, fará com que a roda passe a girar de outro jeito. Mas qual?

Tudo indica que este mundo despedaçado chegou ao seu limite. Pelo menos é assim que percebo e que venho ouvindo os insurgentes contestarem na batida de suas panelas. Por isso, vale lembrar: indignação de olhos e ouvidos bem abertos chama-se lucidez. É isso que sublinha a nossa responsabilidade com esse pontinho azul do universo. Então, um viva para essa rebeldia que pode nos resgatar da indiferença e nos colocar na condição de luta pela igualdade de direito, pela preservação da vida como um todo.

Dizem que o pulsar da rede vai se fazendo de acordo com as nossas vibrações. Portanto, como sugeriu o Gregório, desfoda-se: não desespera, mas acelera. Não se precipite, mas coloque-se de pé, pronto para agir. Desligue o piloto automático que diz que a vida é assim mesmo e não perca de vista a unidade, o centro vital em torno do qual o universo se faz sagrado para todos nós, indistintamente. Se faça presente, se faça ouvir. E acolha todos os gafanhotos que vieram para despertar os grilos falantes da humanidade. Que o mundo vire do avesso, para encontrar a ternura na nossa alma.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Gafanhotos contemporâneos

  1. Alia Taha Junqueira disse:

    depois do recolhimento as flores surgirão, continuamos na fé da jornada, assim como a natureza nos mostra que precisamos de secar … florescer e depois encantar.
    Bjs

  2. Ricardo disse:

    É como na música “Germinar”:
    “Tá na hora de levantar…tá na hora de reagir…de entender que somos gigantes”
    E gigantes em humanidade.
    Excelente reflexão!

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