Viagem com o tanque cheio

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Nada melhor do que um feriadão como desculpa para rompermos a rotina, inventando alguma coisa. Qualquer opção diferente da que estamos acostumado já é capaz de estimular a alma para sair da mesmice e oxigenar um cadinho mais a alegria de viver. Talvez seja uma das poucas necessidades básicas para a qual todos temos habilidade para atender, independente da nossa condição de vida. Só é preciso acessar nossa sacolinha de criatividade e usar uma das cotas de disposição.

Um simples passeio sem planejamento pode cumprir essa tarefa. Nada de novo, mas promissor, como visitar os amigos no interior em boa companhia ou fazer uma viagem longa, com empolgação e uma trilha sonora conciliatória. Muita conversa para colocar o assunto em dia e não deixar o cansaço tomar conta do trajeto. Sair sem compromisso e sem muito planejar. É uma aventura com ótimos requisitos para nos encantar.

Aliás, uma coisa que demorei aprender e aceitar melhor é que a ausência de planejamento também tem um grande potencial para nos surpreender positivamente. Para quem faz pesquisa isso reverbera como heresia, mesmo que saibamos, teoricamente, que nenhum projeto pode ser encarado como uma camisa de força. Sempre precisamos deixar espaço para acolher o desconhecido e, com essa prerrogativa, conseguimos nos adaptar às mudanças e flexibilizar diante do imprevisível.

Essa lição, entretanto, vem da prática, contradizendo qualquer esforço de controle rígido sobre tudo. É assim que a teimosia se ajoelha e reverencia o incalculável. Ao longo do processo, tudo vai se encaixando de acordo com o que é possível e aquilo que não se ajusta, é porque simplesmente não tem lugar para ser. A arte de improvisar talvez tenha nascido dessa consciência de que o fluxo do universo não nos pertence. Somos nós que surfamos em suas ondas e, para tanto, só precisamos abrir as nossas asas. Sim, aquelas que foram moldadas pelo compromisso de ampliar nossos horizontes e incluídas como brinde no nosso contrato de livre-arbítrio. Sem voos, rasantes ou nas alturas, não saímos do lugar comum. Mas essa escolha cabe a nós.

Claro, alguns desastres podem ser evitados. Por precaução, guardo essa “verdade incontestável” na manga desde que passei por um aperto na estrada. Meu filho e eu saímos de viagem e esquecemos completamente de abastecer o carro. Só nos demos conta disso quando a luzinha do combustível começou a piscar. Rodamos alguns quilômetros atentos às saídas dos postos e nada. Depois de um bom tempo na reserva encontramos uma alternativa do outro lado da pista, na frente da base da polícia rodoviária. Foi necessária muita explicação para o guarda nos autorizar a atravessar pelo meio do canteiro, pois não conseguiríamos pegar o próximo retorno.

Até hoje, acho que chegamos na bomba de gasolina empurrados pelo anjo-da-guarda (o que tem asas e faz milagres, não por aquele de quepe, distintivo e muita compreensão) porque o tanque já estava completamente vazio. Que apuro. Uma boa lição para testar nossa capacidade de lidar com o sentimento de impotência e entender que nunca sabemos das coisas até a véspera. Mas, no meio da crise, podemos descobrir que a fraqueza também é relativa e, quando menos esperamos, encontramos a força na medida exata da necessidade, a solução precisa para superar a situação, a chave certa para abrir a porta, a verdade que liberta, a solidariedade dos estranhos, o estímulo que faltava, e até a tampa perdida do tupperware. Mesmo no momento em que o tanque está vazio, encontramos aquela última gota que move montanhas de dificuldades no suspiro do universo.

Mas eu sei. Se não tivermos alguma coisa na bagagem para aguentar pelo menos parte da viagem, as coisas podem se complicar. Há um risco permanente a se considerar no momento exato em que inalamos o ar logo que nascemos. Por outro lado, é importante termos clareza da fragilidade dos nossos padrões e convenções. Nem tudo serve para a eternidade e, como me repito incansavelmente, a impermanência do todo é fato. Vamos pensar que a vida em si é forte e nós também somos, desde que estejamos dispostos a emancipar a nossa alma do medo, do “tudo certo dentro do vidrinho”, do tanque cheio de coisas que nos impedem de procurar novas passagens pela estrada (mesmo que elas sejam “oficialmente proibidas”).

A sutileza da vida está no agoraqui e se a alma estiver ausente neste tempo-espaço o mundo pode não dar certo. É praticamente inútil mantermos um olho no retrovisor e o outro no futuro que nem sabemos se existe lá na frente, se não criarmos um diálogo vivo e intenso com o momento presente. Essa miopia ressoa como se sempre tivéssemos querido o que sempre tínhamos tido, sem nunca nos darmos conta do que realmente temos disponível a todo instante: a luzinha que pisca no painel da mente, nos convidando para a(s)cender.

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