A fé que não faia…

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Ah! Gil… que belezura esse presente que você ofertou ao mundo. Dia desses foi seu aniversário, mas quem desembrulhou a prenda fomos nós. E fizemos uma festa linda, bem aqui, dentro do coração. Tenho certeza de que inúmeras pessoas celebraram sua vida, reacendendo em si mesmas essa fé que não costuma faiá.

Sempre é bom quando você nos lembra que não precisamos pedir uma audiência com Deus para entender que o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Basta fazermos a nossa parte com aceitação, amor e dedicação. Eu sei, você já vem explicando isso tudo tim-tim por tim-tim, desde que o samba é samba. Nunca te faltou rima para revelar que viver nessa coletividade, que nos classifica como humanos, não requer sermos super-homens, nem supermulheres. A magia da vida está na nossa porção híbrida e com doses generosas de diversidade, tolerância e respeito alcançaremos, sim, o apogeu da primavera.

Mas a vida das gentes, ultimamente, anda tentando se equilibrar no fio da navalha, Gil. Os corações das multidões estão aos prantos. É um descaso tão generalizado que mais parece a perpetuação da lua de Gorée sobre nós e continuamos derramando lágrimas claras sobre pele escura. Não há canto que mande a tristeza embora e uma dor profunda tem sido estampada nas nossas bandeiras. As pessoas ainda continuam olhando para o outro lado, dando a impressão de que tudo permanecerá do jeito que tem sido. São tantas as lutas e muitos os Haitis carecendo de uma luzinha. Chega a ser incompreensível a nossa lerdeza em transformar as velhas formas do viver. Não me iludo. Eu entendo: tem que morrer para germinar.

E estamos morrendo, todos os dias, a cada vez que um de nós é subjugado, ignorado ou injustiçado. Enterramos no meio do peito as incontáveis vidas abduzidas por ideologias infectadas pelos mais variados “istas” que a nossa sociedade venera. Devo confessar, meu querido Gil, eu não sou tão esotérica assim e, nessas horas, a fé parece faiá! Em contrapartida, essa cama de tatame em que tentamos folgar a nossa consciência não nos deixa aquietar, tampouco ficar esperando na janela. Temos, sim, batido nossas panelas, mas muitas outras continuam vazias. Pelo menos podemos nos alegrar em dizer que há um incansável trabalho de formiguinhas sendo feito, procurando converter as cigarras em aliadas.

Por isso, eu reconheço, meu querido: nem tudo está perdido e sempre podemos ressuscitar do chão. Estamos juntos na busca de um mundo apaziguado, mesmo que os caminhos e as ferramentas sejam diferentes. Estamos juntos na crença de que os nós das gravatas e dos sapatos devem ser folgados. Estamos juntos, alimentando o fogo eterno que vai aquecer um lugar de aconchego para os nossos iguais e afugentar o inferno para outro lugar.

Seguimos movidos pela fé, que Deus deu e que Deus dá, ainda que ela nos escape à compreensão em dias de chuva e de frio. E você tem razão, Gil: cada tempo em seu lugar e não adianta enfrentarmos esse mundo louco dando socos no ar. Claro, o melhor a fazer é reforçar a nossa disposição para nos levantarmos a cada tombo e aprendermos a dar um grito de amor mais agudo. É preciso bom humor para encarar as próprias desventuras e muito axé para sacudir as aflições, na certeza de que o que a gente pode, pode!

Então, que baixe o santo salvador, seja como for, pois toda ajuda é bem-vinda, já que a nossa semeadura é diária, permanente e eterna. Um cadinho trabalhosa, mas certamente frutífera. O cuidado com o plantio garante a qualidade da colheita e o tempo de espalhar as boas sementes é agora: que desabroche vida, saúde, amor, paciência, persistência, perseverança, compromisso, responsabilidade. É, Gil, plantou quem quis, planta quem quer. Mas ninguém pode negar que a variedade do bem é infinitamente proporcional à nossa capacidade de jardinar esse enorme canteiro que é a Terra. Verdade seja dita e bendita. Te

A fé está em tantos lugares e onde quer que passemos podemos fazer a diferença na vida de quem nossos olhos alcançam. Só precisamos nos desembaraçar para ascender à nota lá, bem no meio da nossa alma. A nós, a tarefa de fazer com que no mundo venha caber o ainda incabível. Mas que Maria não se zangue e nos perdoe. Chegaremos onde temos que chegar. Estamos nos organizando: pula aí, minha gente, e caminha mais depressinha, pois não podemos faiá!

Ah! Gil… que o teu coração de menino continue batendo forte como um sino, e que essa linda primavera compartilhada conosco seja mais um belo presságio de que o mundo é o mar onde o céu flutua. Rezarei por ti todos os dias, mas sem hora marcada que é para deixar os santos, os iogues e os orixás de plantão, prontos para derramarem sobre o planeta as energias transformadoras.

Aquele abraço, meu querido Gil. Um axé no coração!

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4 respostas para A fé que não faia…

  1. Lourdes disse:

    Linda conversa/homenagem de “niver” com Gil.
    Muita reflexão para cremos que “a fé não precisa faiá”.

  2. Dione disse:

    MARAVILHOSO Andrea. Obrigada pela partilha delicada e inspiradora.Bjs

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