A causa das causas

a causa

“Resistance is NOT a one lane highway. Maybe your lane is protesting, maybe your lane is organizing, maybe your lane is counseling, maybe your lane is art activism, maybe your lane is surviving the day. Do NOT feel guilt for not occupying every lane. We need all of them.” (@Lindss_tastic)

Venho oscilando entre “encavernar” e me “alienar” e imagino que muitas pessoas também estejam sentindo a maresia dessa onda que vai-e-vem-e-vai-e-fica cada vez mais intensa. Os sintomas? Uma espécie de embrulho no estômago sem aparente solução. Uma tontura na cabeça que faz o pensamento visitar continentes longínquos. Um aperto no coração causado por sentimentos que brotam em polos extremos.

O diagnóstico? Sensações físicas de uma dor impressa na alma. Essa alma sensível que todos nós carregamos em corpos de diferentes cores, formatos e tamanhos. Corpos que tanto nos distraem da causa e concentram nossa atenção apenas nos efeitos colaterais. O prognóstico? Ainda incerto, já que este sofrimento tem múltiplas causas e o tratamento está eternamente em fase experimental.

É um grande desafio não nos embolarmos no meio de tudo o que está acontecendo à nossa volta para persistirmos na própria referência. A tendência é confiarmos mais nas letrinhas miúdas da bula que nem enxergamos direito do que no chamado da nossa consciência. O processo é trabalhoso, mas não podemos culpar a pandemia, pois muitas das reflexões que têm alimentado nosso isolamento certamente já nos convocavam antes. É evidente que as sementes plantadas no interior da nossa casa só florescem porque encontram terreno fértil. Como alertam os antigos: cabeça vazia, oficina do diabo. Mas que bom a nossa mente não estar estéril. Sendo assim, o melhor remédio é puxar o fio do novelo aos poucos e ir tricotando um pontinho no inferno e uma laçada no sagrado, dessa forma agasalhamos nosso ser por completo. Sombra e luz em uma síntese.

Hoje, por exemplo, está um dia perfeito para avançar no tricô. Não para de garoar lá fora, nem aqui dentro. E a primeira oração do dia foi um pranto sentido. Doído que só. Também, não é para menos. É pela falta. Todas as faltas que tomam conta de todas as bandeiras deste planeta. Não é para menos. É para mais. Afinal, elas são numerosas e sem fronteiras. Desculpem-me pelo choro generalizado, mas é impossível conter as inúmeras lágrimas que gotejam das diferentes bandeiras, mesmo quando registramos nossa indignação por uma delas especificamente.

Todo sintoma tem uma causa, portanto nada de nos iludirmos achando que abaixar a febre com um antitérmico vai nos salvar. Por isso, o soluço compulsivo de hoje é pela causa de todas as causas, ainda que intolerável nomeá-la: “desalmanidade”. Pelo que indicam as nossas bandeiras, é o que está acontecendo com o mundo humano. Será que perdemos a capacidade de mediar a própria escuta? Ou será que estamos completamente surdos mesmo?

A questão é que, se sabemos o que sabemos, então precisamos fazer uma transformação mais profunda em nosso viver. Mas se ainda desconhecemos esse saber, o que mais precisa acontecer para que possamos nos apropriar dele e da responsabilidade de transcender? É isso que habita a minha caverna nos dias de garoa em meu coração e quando aposto todas as minhas fichas no despertar da humanidade, vem logo um acontecimento que asfixia a esperança. Sem palavras, sem ar, sem fé.

Vou logo pensando: não é o sistema que se corrompeu. Ele foi originalmente criado exatamente dessa forma para nos iludir e maquiar a dominação de uns sobre os outros. Dos brancos sobre os negros, dos homens sobre as mulheres, dos ricos sobre os pobres, dos opressores sobre os oprimidos. A sociedade foi criada de maneira a defender e proteger os interesses de poucos privilegiados, seja econômica, política ou ideologicamente. Então, quando alguém levanta uma bandeira específica, me sinto provocada a reconhecer nela a causa das causas.

O preconceito, o estigma, as injustiças, as desigualdades e o descaso são também estratégias que fragmentam a nossa luta, nos impedindo de reconhecer a verdadeira batalha. De certa forma, o caos que se estabelece em alguns confrontos soa mais como um antitérmico e apenas dispersa nossa disposição para combater a origem da doença. O que não significa que perdemos a luta. Claro, às vezes é necessário suprimir a febre para não convulsionarmos. O fato é que, depois que saímos do quadro de risco, nem sempre investigamos mais a fundo para encontrar uma solução eficaz e de longo prazo.

Enfim, podemos perder tudo no estalar dos dedos. Tudo pode ser tirado de nós em uma simples fração de segundo. Basta um joelho ou um gatilho. E estamos vivendo essa verdade na realidade do nosso cotidiano. Nada nos pertence, nem mesmo a vida que achamos que é nossa. Nem mesmo a vida que tomamos posse, dizendo ser a nossa. Mas se tudo é tão impermanente assim, por que rebimboca da parafuseta perdemos tanto tempo criando um projeto de sociedade que não se sustenta e é claramente desmontado pelo cruel ajoelhar-se sobre a vida do outro?

O empreendimento que estabelecemos para a nossa sociedade nos aprisionou na condição de ignorância e nos posicionou um passo atrás na jornada de sermos pessoas melhores. Não dá mais para simplesmente encaparmos a vida com inúmeras bandeiras. É preciso transcender e virar gente de fato.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

10 respostas para A causa das causas

  1. Neia disse:

    Só vc amiga pra conseguir colocar tão bem em palavras a aflição que estamos por dentro.

  2. Rosana Pagani disse:

    Chorando aqui. Meu gotejar virou Rio. É isso, bora nos unir para transcender. Obrigada por palavras tão certeiras. Liviuuuuu

  3. Alia Taha Junqueira disse:

    Muito bem colocada a situação atual…
    Orar e Fé para que o planeta consiga a transição e o ser humano acompanhe para um mundo melhor para a nova geração.

  4. Ricardo disse:

    Particularmente eu acredito no “despertar da sociedade”, mas com alguns acontecimentos violentos e descabidos. Mario Sergio Cortella propõe esperança como um verbo…”esperançar”, onde saímos do estado de aparente espera ou milagre da mudança, para a ação – e a partir dela, construímos e reconstruímos nossa identidade para encarar a realidade. Talvez nunca antes na história das sociedades uma palavra foi tão necessária ser praticada como “humanidade”.
    Texto com uma mistura de desabafo e crítica.

    Gratidão Andrea!

    • Agradeço suas palavras, Ricardo. Realmente, um desabafo crítico. É gratificante que ele seja acolhido por outras pessoas que também se importam com a humanidade e conjugam a esperança no cotidiano. Agir em tempos de tanta repressão e opressão é uma grande batalha. ainda bem que somos muitos! Abraço afetuoso 🙂

  5. pablosnr disse:

    Lindo 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s