A vida após a morte

Nem me lembro exatamente como recebemos aquele diagnóstico, porque despenquei completamente da minha órbita. Gravitava em torno do meu umbigo e ocupava quase todo o espaço da nossa relação com as minhas carências afetivas. Mas saber que o câncer do meu marido havia retornado foi o impulso preciso e precioso para que eu pudesse aterrar os pés no chão. Ver a esperança de vida soterrada por uma tomografia é como um terremoto de verdade. A diferença é que, no caso, os escombros não podem ser reconstruídos. Pelo menos, não nesta existência.

A aterrisagem foi dolorida, porém gradativa. Entre a revelação do laudo médico e o último suspiro do meu marido passaram-se 18 meses e muitas lições de vida. Alguns argumentariam: tempo suficiente para você se preparar para o inevitável. E o meu contra-argumento é: ninguém está totalmente preparado para a morte.

Por mais espiritualidade, religiosidade ou ceticismo que possamos ter, a hora do “adeus” ou do “te espero do outro lado”, é uma das experiências mais surreais da vida. Incontáveis pessoas já falaram sobre isto e, tenho certeza absoluta, que cada história é única. O luto não se repete. Cada um tem para si uma explicação lógica ou esotérica sobre a despedida, mas quando o momento chega, somos igualmente tomados de surpresa.

A dor amortecida pelo conhecimento prévio do fato nos domina quase que por completo. Substitui o brilho do olhar pela maresia das lágrimas. Engasga nosso sorriso, pesa nos ombros, estremece nossas pernas. São efeitos colaterais da partida e, quem vai, se esvai impassível de alguma forma. Mas quem fica, se quebra em pequenos pedaços. Às vezes tão pequenos que custa anos de investimento pessoal para o trabalho de autorrestauração. E é somente quando conseguimos começar a colar os primeiros cacos que prestamos conta a nós mesmos: lá se foi um pai exemplar, um irmão querido, um amigo fiel, um profissional competente, uma pessoa extraordinária e, no meu caso, um grande amor.

A vida não será mais a mesma, mas isso já virou um clichê porque a vida da gente é como pingo de chuva que cai no rio e desagua no oceano, para virar vapor de novo. É nuvem contínua de infinitos começos e finais, não necessariamente felizes na nossa perspectiva, mas sempre ricos em aprendizagem.

Dizer que a morte é uma dádiva pode parecer maluquice. Dizer que sou grata ao meu marido por sua morte, pode parecer insensatez maior ainda. Mas quem acompanhar de perto meu raciocínio vai concordar comigo em pelo menos um detalhe: quando a realidade te oferece uma oportunidade, a escolha é somente tua: você pode reclamar do copo ainda vazio ou apreciar a metade que está cheia. Meu marido me ensinou a optar pelo copo cheio de vida e a escolher o melhor de mim e das pessoas. E é assim que decidi honrá-lo: me alegrando com o cotidiano e construindo um mundo melhor para aconchegar meus sonhos.

A morte pode ser uma professora cruel, mas o morrer juntos, cada dia um pouquinho, é uma fonte de inspiração e sabedoria. Aprendi a (re)conhecer o potencial curativo do amor incondicional. Enquanto eu me desdobrava para cuidar dele, em todos os sentidos, o silêncio do seu estado de “quase coma” me lembrava da missão de nutri-lo de afeto, sem esperar retorno algum. Foram 4 meses numa estrada de via única e nunca, durante toda a minha existência terrena até agora, me senti tão plenamente generosa no amor. Antes, eu pensava que tal lição era mais comum na maternidade. Afinal, é o que dizem: os pais amam sem condições! Mas esta lição veio do leito de morte do meu marido, de forma intensa e, muitas vezes, até tensa.

Lembro-me da insegurança nas decisões, do questionamento constante sobre qual caminho seguir, da angústia de saber que nada sabia sobre tudo aquilo que estávamos vivendo. Lembro-me das dificuldades com os profissionais que vinham cuidar dos procedimentos médicos e da invasão total da nossa privacidade, 24 horas por dia. Em compensação, lembro-me carinhosamente dos momentos constantes de apoio dos filhos, familiares e amigos, tornando os dias mais suaves e os finais de semana mais curtos. Pessoas que viveram conosco o processo do desapego e que, certamente, guardaram para si sua própria versão da experiência.

Habitam dentro de mim lembranças vívidas do seu olhar absorto, anunciando uma viagem sem volta. Recordações que me emocionam até hoje, quando, finalmente, consigo falar sobre tudo isto. Praticamente, lá se foram 16 anos e somente agora me autorizo a tocar intimamente no desfecho da nossa história. Foi preciso caminhar mundo afora e me aventurar numa jornada interior sem precedentes para, então, costurar mais este ciclo.

Gratidão infinita é o que alinhavava os últimos capítulos da nossa história. Sei o que eu poderia ser se não tivesse compartilhado uma parte da minha jornada aqui com ele. Por outro lado, felicidade serena foi o ingrediente principal desta relação de amor verdadeiro. Tivemos nossos altos e baixos e soubemos (talvez mais ele do que eu) nos manter confiantes nos trilhos da montanha russa. A morte nos separou temporariamente, mas o morrer me conectou com aquilo que tenho de melhor dentro de mim: a coragem de me descobrir e de contemplar a solitude com a alma mansa.

O entendimento da finitude da matéria e da impermanência de todas as coisas foi, talvez, o ensinamento mais importante dessa relação. Muitas vezes, eu desejo que o tempo fosse outro e que eu já tivesse o amadurecimento de agora desde a nossa primeira caminhada juntos pela beira-mar, onde nos conhecemos. Mas quis o universo traçar nossos destinos de maneira que eu pudesse aprender que nos despedimos todos os dias daquilo que fomos, para sermos o que somos hoje. Por isso, sejamos completamente inteiros no agoraqui.

Deixo aqui a minha pequena homenagem e gratidão àquele que se foi e muito deixou.

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14 respostas para A vida após a morte

  1. Luiz Antonio Tannous disse:

    E assim, na sabedoria superior da força universal que nos guia, caminhamos lenta e inevitavelmente rumo à evolução de nosso ser.
    Mais um passo dado… Mais um desafio vencido…Mais um capítulo do livro da vida concluído!.

  2. LAURITA UTRABO disse:

    Que texto intenso e belo! Um depoimento de tanta sabedoria, vivenciada em experiências de um amor verdadeiro e incondicional.
    Muita gratidão a você, Andrea, por compartilhar de maneira pungente e poética, a profundidade de sua jornada de crescimento e sabedoria!
    Apesar do pequeno convívio que tivemos, carrego para minha vida duas grandes lições, que aprendi com ele, enfrentar a realidade com serenidade e prestar muita atenção à parte meio cheia do copo.

    • Laurita, gratíssima por suas palavras. Sempre me lembro de vcs trabalhando juntos e da admiração mútua que compartilhavam. Foram bons tempos e agora boas memórias. Um abraço afetuoso 🙂

  3. Lourdes disse:

    Lindo se permitir relatar teus sentimentos e mostrar que a finitude da vida de uns pode ser o recomeço para outros. Lembro bem desse teu tempo passado e admiro muito o teu tempo hoje. Parabéns pela tua melhor vida vivida em qualquer tempo.
    Bjs

    • Mamis querida!!! Teu carinho sempre foi muito importante e ter me acompanhado nesta caminhada sempre me inspirou, pois vc é exemplo de positividade e copo cheio de vida!! Gratidão!!!

  4. Antonio Vitorino disse:

    Que lindo! Catártico e cheio de sentimentos e sentidos ressignificados, com o esforço e coragem de se olhar para dentro. Simplesmente Translúcido e Luminoso, como a Vida após a Morte!
    Na falta de palavras que expressariam meus sentimentos, Parabéns! E obrigado por tudo isso e mais um tantão! Bjs

    • Antonio, meu amigo querido, sou eternamente grata por tuas palavras e, em especial, pelo carinho e apoio que sempre me dedicou. Saiba que parte dessa coragem foi motivada por vc. Um abraço no coração!!

  5. Rosana Pagani disse:

    Ainda emocionada por essa leitura tão clara, intensa e profunda. Que lindeza de viagem p dentro vc foi fazendo na vida. Que linda trajetória p ver-se. Obrigada por compartilhar. Bjs

  6. Sônia Maria Tavares Costa disse:

    Querida Andrea,
    Lendo o que nos mandou, deu para se colocar no seu lugar e vivenciar toda a sua trajetória…e, lembrar de alguns momentos juntos…
    Não foi fácil, mas tomou as decisões certas nas horas adequadas…e, em particular, fique sempre com as boas lembranças, as que ficaram em seu coração, as de muito amor e compreensão…e, um dia estarão mais uma vez juntos… só tenho gratidão…abraços fraternais,Sônia (depois de passarmos toda essa situação difícil que estamos vivenciando, possamos conversar/ abraçar/ tomar um café juntas).

    • Gratidão enorme, Sônia. E nessas lembranças estão também muitos dos encontros festivos de família em nossa casa. Foi, sem dúvida uma bênção a presença e apoio de vocês. Café com prosa e abraços marcado, com certeza!! Beijosss

  7. Eduardo Tavares Costa disse:

    Oi Andrea,

    Quando a Clarissa nos mandou o link, fiquei muito feliz com a notícia de que você gostaria que ela compartilhasse conosco seu texto com as reflexões sobre sua vida e passagem do Marcos para a vida espiritual. E pensei: o que será que ela escreveu sobre a vida após a morte?

    Como estou com dificuldades de visão, precisei acessar o seu site, copiar o texto e colocar num editor de texto para aumentar o tamanho da fonte para 48.

    Li com atenção e emoção o seu relato. Sua decisão de abrir seu lar para toda a família e permitir o tratamento do Marcos em casa, junto dos entes queridos, foi de uma nobreza e demonstração de amor que sempre me emocionou e emociona todas as vezes que lembro dele. Você foi valente e guerreira!!! E amorosa, acima de tudo. O texto que você postou sobre a Vida Após a Morte retrata isso e emociona a qualquer um, principalmente aqueles que conviveram mais de perto neste caminhar seu e do Marcos.

    Sei que ele está bem!!! E fico feliz em ver que você também está bem.

    Grande abraço e que Deus a abençoe hoje e sempre.

    Edu

    • Edu, foi uma “valentia” sustentada pelo apoio dos familiares e amigos, tenha a certeza disso. Sou grata por suas palavras e vibrações de amor e envio um forte abraço em seu coração! Que sejamos todos abençoados!!

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