Eu te devolvo o teu melhor

IMG_3032

Este texto foi originalmente publicado pela Editora Eureka, onde sou colunista. Não deixem de visitar o site (www.editoraeureka.com.br) e seguir também o Instagram no @eurekadigitalapp

Na mesma semana em que me mudei para o prédio onde moro atualmente, encontrei a vizinha do andar de cima no saguão de entrada e, com um sorriso constrangido, ela me deu as boas vindas, mas foi logo apresentando um pedido antecipado de desculpas: “Temos um filho pequeno em casa que acabou de aprender a jogar as coisas no chão. Nos desculpe por qualquer inconveniente!”

Durante algum tempo, fiquei matutando sobre aquele gesto. Quem tem ou já teve filhos pequenos sabe bem como é a rotina doméstica e o quão desafiador é criar nossas crianças dentro de um espaço delimitado. Haja criatividade para dar conta de preencher o dia com atividades lúdicas, educativas e prazerosas. Isso, por si só, é uma tarefa e tanto. Imaginem, então, colocar sobre ela o peso da preocupação com o impacto da nossa rotina na vida dos vizinhos.

Há quem possa alegar que tudo é uma questão de educação e bom senso. Certamente, esses parâmetros não podem faltar na convivência coletiva, mas o ponto que me prendeu a essa reflexão foi precisamente o seguinte: não passamos todos por isso em algum momento na vida?! Em especial agora, neste período de distanciamento social, em que precisamos e devemos ficar em casa por uma questão de saúde. Estamos todos no mesmo barco, neste caso. E, provavelmente, já navegamos por essas águas conhecidas em que crianças são crianças e agem como crianças independentemente da crise no planeta. E elas estão certas de se comportarem como crianças dentro de casa também, com tudo o que têm direito e com o nosso respaldo.

É assim mesmo que deve ser! Entretanto, muitas das piadas que andam circulando nas redes virtuais estão enfatizando a dificuldade de manter as crianças em casa na quarentena, como se a “culpa” fosse delas, por serem danadas de natureza. Praticamente, todas as mensagens defendem os pais e demonizam os pimpolhos. E então, mais uma vez, fiquei pensando no pedido de desculpas da minha vizinha e conclui que somos uma sociedade despreparada para entender a importância do nosso papel, como adultos, diante das crianças. Nos acostumamos demais a delegar aos outros a tarefa de formar os nossos filhos.

Pois a vida conspirou ao nosso favor, por mais difícil que seja assimilar isso como uma verdade possível. Em meio ao caos, estamos recebendo um presente muito especial. É como se esta crise estivesse batendo à nossa porta e dizendo: “Tome. Eu te devolvo o teu melhor. Aproveita esse tempo para passar a limpo a lição e preparar a tua alma.” Que extraordinário tudo isso que estamos vivendo. Que intenso poder compartilhar esse momento em família, entre adultos e crianças.

Claro, são tempos difíceis, como andam dizendo por aí. Era mesmo impossível imaginar, nos dias atuais, que passaríamos por uma crise mundial desta proporção fora das telas de cinema. Somos nós os protagonistas deste enredo e estamos rendidos pelo isolamento social, reclamam os mais inquietos. Mas não há melhor alternativa para enfrentarmos aquele que nos colocou de joelhos, ponderam os sensatos. Sejamos corajosos e pacientes, pois iremos superar tudo isso, incentivam os otimistas. E os pessimistas? Bem, para esses não há espaço, mas as piadas são bem-vindas. Porém, estejamos alertas em relação ao tipo de pensamento que elas insistem em reproduzir. Podemos, nós mesmos, acabar acreditando neles. Tenhamos em mente que o horário nobre agora é de uso exclusivo da sabedoria e esta experiência veio na hora certa, do jeito necessário, cheia de ensinamentos, em todos os sentidos.

Certamente, um frio na barriga nos incomoda ao tentarmos pensar em tudo que ainda está e pode vir a acontecer. São tempos incertos, sim. Entretanto, eles vieram acompanhados de muitos ensinamentos. São tempos que desafiam a nossa capacidade criativa e adaptativa. Provocam em nós sentimentos controversos e até mesmo antagônicos. Por outro lado, revelam aquilo que temos de mais importante quando se trata do desconhecido: o nosso potencial de aprendizagem.

Os sábios sempre afirmaram que o ser humano é capaz de aprender tanto no sofrimento quanto no amor. Mas nós assimilamos este pensamento concentrados apenas nas suas formas negativas ou positivas, sem valorizar o que existe, de fato, em comum nessas duas vias: a possibilidade de reinventar-se a partir da oportunidade dada, independentemente da situação. Esta é a verdade sobre o que estamos vivendo agora: um momento de grandes lições para que possamos transformar nossa humanidade. Um segundo tempo no jogo da vida para podermos virar o placar a favor dos valores essenciais. Podemos fazer novas escolhas para mudarmos o rumo da nossa vida e da sociedade em que vivemos.

E tem melhor maneira para que isso ocorra sem ser o ambiente familiar? E tem forma mais autêntica e pedagógica de vivermos essa experiência que não seja por meio das crianças? Não podemos continuar terceirizando nossas relações mais íntimas e as circunstâncias estão visivelmente colocadas para que possamos restaurar uma série de hábitos. Dos mais simples como brincar com os nossos filhos e também com os nossos pais, aos mais complexos como reconectar com a pureza da nossa alma.

Depois de refletir sobre tudo isso, resolvi enviar uma mensagem para a minha vizinha dizendo que eu prefiro o barulho dos brinquedos caindo no chão, da correria das crianças dentro de casa, da música alta dos adolescentes e das gargalhadas dos adultos diante deste cenário. Prometi não me mudar para a casa dela e aproveitar as brincadeiras, mas declarei a minha alegria em ouvir a vida acontecendo no andar de cima.

Vamos bater as panelas em nossas janelas também para celebrar esta comunhão familiar e para agradecer os tempos difíceis que vieram para mediar um novo mundo. O verbo mais necessário em nossas vidas hoje, mais do que sempre, é “esperançar”. Vamos conjugá-lo coletivamente, fortalecidos pela amorosidade, respeito e tolerância. Assim o caminho fica mais leve e nós mais confiantes!

Publicação original: http://editoraeureka.com.br/midia/eu_te_devolvo_o_teu_melhor.pdf

Instagram da Eureka: @eurekadigitalapp

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Eu te devolvo o teu melhor

  1. Jose Augusto Freitas disse:

    O teu melhor é sempre melhor. Parabéns Andréa.

    Atenciosamente :

    José Augusto Freitas

    17-98231.3114 jtconsultor2@gmail.com

  2. Luciane Bradasch Osternack disse:

    Andréa, linda! Que reflexão mágica, acolhedora, serena e necessária. Amei!

  3. Fernando Mo disse:

    Andrea, é sempre um prazer ler os seus textos e reflexões. Continue a destilar as doses homeopáticas de felicidade que nós agradecemos.

    Uma ótima semana.
    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s