O velho normal

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Ser mais do mesmo o tempo todo não é tão legal / Já pensou, tudo sempre tão igual? / Tá na hora de ir em frente / Ser diferente é normal! / (Adilson Xavier / Vinicius Castro)

Destilo doses homeopáticas de felicidade porque a vida nos brinda com pequenas e diárias gotas de alegria, independentemente das circunstâncias. Transitamos entre momentos de bem-estar e de vulnerabilidade de forma permanente e saber reconhecer esse movimento dentro da realidade das nossas emoções nos permite sentir a grandeza do viver. A tragédia da vida não são os altos e baixos. A vida é assim mesmo: uma oscilação constante entre o velho e o novo, entre aquilo que foi ou poderia ter sido e as possibilidades infinitas de sempre tornar-se.

É como se vivêssemos um longo período de outono. Estação perfeita para o desapego gradativo daquilo que não nos serve mais. Talvez, se demoramos muito tempo para renovar nossas árvores seja por estarem carregadas demais de folhas secas. Mas o exercício do “deixar ir” é o mesmo, afinal, não existe a ideia do retorno, senão enquanto ilusão. Nada volta.

O tempo sem início ficou para trás e agora é hora de proteger o planeta, que sempre encontra meios de se regenerar. Não que esse cuidado tivesse sido dispensável antes, apenas que o momento presente demanda a sua prioridade absoluta. Em um de seus discursos, Amma, líder espiritual do sul da Índia, nos lembra que a mãe Terra já viveu com e sem os dinossauros, sabendo exatamente quais são as estratégias necessárias para continuar gestando a vida neste planeta. E, não, eu não sou adepta da teoria de que estamos vivemos o apocalipse da transformação humana. Mas não tenho dúvidas de que recebemos recentemente uma notificação, com letras garrafais, sobre a inevitabilidade das mudanças estruturais.

Porém, é aquela tal história: só muda quem reconhece a necessidade da reforma íntima e a sociedade será sempre um espelho desse resultado, qualquer que seja ele. Conversando sobre o assunto com algumas pessoas queridas, concluímos que tem muita coisa em evidência atualmente e é primordial admitirmos para nós mesmos que o “novo normal” está em construção no tempo imediato. Todos os dias, há muitos séculos, estamos caminhando para uma configuração diferente. Como as coisas serão daqui para frente, não deve ser uma preocupação, mas o reflexo do nosso esforço individual na direção da garantia da qualidade/condições de vida e de direitos universais. Façamos, cada um de nós, a nossa parte nessa rede entrelaçada de seres vivos.

Certamente, quem já vinha fazendo algum tipo de questionamento ético e buscando ampliar a consciência, vai continuar nessa toada. Não é nenhuma pandemia que vai acelerar seu processo lindo de se repensar neste universo de probabilidades. De forma um tanto tosca, quem já era do “bem” vai manter a mesma frequência vibratória. Mas para quem está (ou sempre esteve) acometido pelo efeito Dunning-Kruger (sim, aquela teoria que explica como algumas pessoas sentem dificuldade de reconhecer sua própria limitação e acabam ignorando e/ou negando as oportunidades e a importância de se aprimorarem e/ou mudarem), a realidade continuará sendo vista na mesma perspectiva. Para essas pessoas, não há espaço para outra condição senão a da miopia.

Mas vamos resumir essa conversarada. O que está escancaradamente colocado é: ontem já não cabia, hoje menos ainda; ontem já pedia mudança, hoje isso não ficou diferente. Ontem já fomos, hoje ainda estamos em vias de ser amanhã. Contudo, não adianta apenas adaptarmos nosso comportamento a uma outra normalidade se não transmutarmos, de fato, a nossa mentalidade. O que tem de diferente hoje (talvez, muito talvez!), é a urgência dessa convocação.

Então, estamos no outono, desapega. Fica em paz com as folhas secas porque elas viram adubo.

Adeus, velho normal!

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4 respostas para O velho normal

  1. Davi Pinheiro disse:

    Também tenho a inquietação de entender o sentido da vida. Acredito ter conseguido dar uma resposta definitiva sobre qual o sentido da vida com base na Teoria do Infinito Bilateral em minha página na internet. (será que eu sofro do efeito de Dunning-Kruger? kkkk tudo é possível) Grande Abraço! https://davipinheiro.com/qual-o-sentido-da-vida/

    • Davi, gratíssima pelo teu comentário. Muito interessante a tua página e vou acompanhar tuas publicações pra entender melhor essa teoria. Uma coisa, entretanto, arrisco dizer: nada é tão definitivo assim…. rsrsrsrsrs! Abraço tb!! 🙂

      • Davi Pinheiro disse:

        Eu é que agradeço Andrea, satisfação de me comunicar com semelhantes, um privilégio. Verdade com relação a relatividade das certezas, elas nos servem de norte até outra conclusão melhor chegar. Fico muito feliz pelo seu interese em meus artigos. Grande abraço querida!

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