Quem navega em mim é o mar…

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“E quando alguém me pergunta / Como se faz pra nadar / Explico que eu não navego / Quem me navega é o mar” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho)

Tenho um amigo que sempre afirma que a vida simples é a mais satisfatória de todas e ele reforça isto nas suas escolhas cotidianas. É capaz de ver um por do sol com os pés para cima e acolher na sua alma o calor daquele cenário, se sentindo alimentado por dias a fio. Quando sai por aí, levando uma garrafa de vinho na mochila, consegue encontrar uma bela sombra para sacar a rolha e apreciar a vista. Isto lhe rende mais algumas semanas de pleno bem-estar e a batalha do trabalho árduo fica parecendo brincadeira de criança.

Nem vou argumentar o caso. Para mim, isto já está resolvido: é saber ser feliz! Uma lição disponível na simplicidade do cotidiano, mas pouco assimilada por nós. Há suspeitas de que esta propensão a tornar tudo mais pesado e complicado seja resultado do tipo de sociedade que vivemos. Na década de 90, inventaram até um novo termo para explicar o mundo que coloca as pessoas no seu pior desempenho: VUCA: volatilidade, incerteza, complexidade, ambiguidade.

Aliás, levar as coisas a ferro e fogo tem sido o lema de muitos nós quando se trata da perfeição de tudo e de todos. É uma espécie de crosta que criamos, desnecessariamente e por hábito, para nos mantermos ocupados com a ordem do dia, enquanto a vida acontece embaixo do nosso nariz, sem temperança. Uma forma de ignorarmos as incertezas, nos apegando às convenções.

Talvez, por isso, tenha me deixado invadir por essa placa na parede de um restaurante. A frase vem de uma música e eu nem me lembrava dela. Quando fui pesquisar encontrei outros versos que fizeram ainda mais sentido. Confesso, um sentido doído por me fazer entender o quanto tentamos controlar o mundo. E agora, todo esse esforço está sendo colocado em cheque. Quase todo mundo querendo saber para onde tudo isso vai nos levar e muitos, felizmente, buscando entender sua responsabilidade sobre os caminhos que precisam ser construídos de agora em diante. Pergunta-se muito, responde-se um pouco porque ainda sabemos quase nada sobre os novos tempos.

Há muitas “pessoas pensadoras” falando sobre como o mundo será daqui para frente, apresentando algumas possibilidades para os rumos das sociedades e todas elas são unânimes em dizer que nada será como antes. Olhando para o contexto mundial, só podemos concordar com essa profecia. Os caminhos estão totalmente afetados pelas experiências que vivemos no “instante-já” e isso exige de nós um jeito diferente de transitar pelo mundo e de se relacionar com ele no “instante-seguinte”.

Mas essa coisa de “plano futuro” e “projeto de sociedade” não existe mesmo! Podemos até estabelecer algumas ideias, definir metas, propor uma nova sociedade. Porém, no final do dia, tudo pode mudar. Mais do que antes, estamos constatando que já não somos os mesmos ao anoitecer. É impossível navegar em alto mar e querer controlar a direção das ondas. Talvez seja o caso, agora, de flexibilizarmos nossas convenções e, com toda a simplicidade necessária, autorizarmos o mar a navegar dentro de nós.

O momento oportuniza mergulharmos mais profundamente em nossos valores essenciais para garantirmos a qualidade da embarcação em primeiro lugar. Afinal, nem adianta posicionarmos o leme em determinadas situações se o barco estiver em condições precárias. Agora é hora de cuidar de todos, consolidando a simplicidade em si mesmo. É uma espécie de tarefa individual para o bem coletivo.

A normalidade sempre foi muito relativa, mas estamos constatando diariamente que  toda rotina é transitória. Tudo muda e nada é permanente. Quanto mais a gente se abre para o “inesperado”, menos sofre, menos planeja, menos estabelece expectativas complexas e complicadas. Tudo passa, inclusive o desespero, a angústia e o medo que experimentamos atualmente.

Dizem que são tempos difíceis, mas entendo que são tempos de uma única certeza: aprender a nadar na simplicidade do mar!

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2 respostas para Quem navega em mim é o mar…

  1. Dione Maria Menz disse:

    Andrea, como sempre, de uma sabedoria encantadora! Doce Andrea

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