A bagunça nossa de cada dia

 

Arrumar a rosqueta da parafuseta parece tarefa das mais fáceis. Quase ninguém imagina o desafio que se esconde por detrás dessa incumbência e, tampouco, a grandeza da missão. Talvez este assunto nem merecesse alguma reflexão ou os poucos minutos que este texto demanda para ser lido completamente. Afinal de contas, trata-se de coisa ordinária, que qualquer pessoa acaba tendo que fazer em algum momento da vida, seja em casa ou em outro ambiente qualquer, seja em uma gaveta ou no cômodo inteiro. Mas não subestimemos a oportunidade. As lições camufladas na bagunça do nosso espaço podem ser muito significativas. Basta um paninho de limpeza e uma mente clara para aproveitá-las bem.

De certa forma, e guardadas as suas dimensões, apertar a arruela da grapeta faz a gente compreender o sentido do mundo ao nosso redor porque tudo, absolutamente tudo, se reflete na dinâmica que imprimimos no cotidiano. Um bom exemplo disso é quando abrimos um armário cheio de coisas misturadas e só encontramos aquilo que procurávamos após revirar todas as prateleiras e fuçar nas dezenas de caixas, caixinhas e pastas guardadas aleatoriamente (algumas, inclusive, vazias!).

Olhando de fora, é complicado até imaginar se há alguma lógica naquela configuração. Mas quando colocamos a lupa para funcionar, vamos logo identificando as semelhanças com a nossa própria vida. Mais ou menos, é assim que fazemos: vamos jogando tudo dentro do armário, sem saber o que é útil ou o que ainda serve. Apenas acumulamos porque perdemos o filtro que nos ajudaria a discernir o que realmente é coerente com a gente mesmo.

São aquelas emoções disfarçadas de canetinha sem tinta ou lápis sem ponta que não conseguimos jogar fora, na expectativa (talvez) de que possam ressuscitar um dia. Em um canto qualquer guardamos um pedacinho de papel sem sentido nenhum que nos faz lembrar de algo que já passou e não importa mais, alimentando o vício do apego. Mas esse agarramento transcende o material, pois seguimos o caminho levando tudo dentro da bagagem: o que precisamos, o desnecessário e algumas coisas em dobro. Com muita frequência, corremos adquirir o mesmo item porque não o encontramos já que estava perdido no buraco cósmico que mora dentro do armário.

É quando a rebimboca da parafuseta para de funcionar por excesso de peso e somos intimados a dar um jeito na situação. Não tem por onde escapar e a hora da faxina torna-se o momento mais sensato a ser vivido. Desocupar as estantes é quase o mesmo que passar a vida a limpo. A gente tira tudo para fora, tentando visualizar o que juntou. Analisa cada item e dedica tempo pensando no seu significado e em como ele foi parar ali. Pondera como pretende prosseguir dali em diante e, então, chega a um denominador comum que permite priorizar o que ainda deve manter e exatamente em que lugar.

Estudei alguns anos para aprender a ajudar as pessoas a organizarem sua “bagunça” interna, mas ao me encarregar de ajustar a mola da grampola em alguns lugares por onde me voluntariei, percebi o quanto a estrutura externa requer igualmente um esforço para o qual nem sempre estamos preparados. Somos muito semelhantes nesse sentido. Todo mundo acredita ser capaz de se encontrar na bagunça e escolhe não ir a fundo porque já está acostumado daquele jeito. Mas há limites. Caso contrário, como localizar o produto de limpeza quando ele é um clandestino no armário das panelas?! Isto equivale dizer que, para cada coisa, existe um lugar certo.

Longe de mim fazer a apologia ao compulsivamente organizado. Não exageremos; o lugar certo até pode ser relativizado. Mas há tanto mal-entendido em decorrência da confusão que toma conta do nosso dia a dia que valeria a pena um mínimo de lógica, daquelas que qualquer pessoa entende por causa da sua coerência e não precisa de etiqueta na prateleira indicando o óbvio. Bem, isto é um outro departamento: o dos códigos de guerra secretos que existem para passar uma mensagem que apenas quem criou e os que vão receber sabem decifrar. O restante continua sem entender do que trata e guardando as velas no armário da limpeza.

Enfim, a questão toda é apenas para corroborar o que já se fala pelos corredores. O mundo ao redor é a nossa expressão. Ele não está bagunçado ao acaso. E se a gente não consegue sequer manter a própria casa organizada, como é que espera transformá-lo?

 

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