Valeu pela surra!

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Depois de Nietzsche, dessa vez é hora de acender uma luz com os homens comuns. Mas, talvez, seja mesmo o caso de acender uma vela pelos homens confusos e implorar para que a Santa Padroeira das Compras tenha compaixão de todos eles e decodifique a listinha feita por suas esposas. Manhã de sábado, véspera de feriadão e o mundo inteiro parece ter saído de casa com a missão de encontrar o que faltou para completar o jantar da festa. É como se tivessem ouvido um anúncio para o caos, daqueles que mobiliza o medo de estragar a receita do prato principal e teletransporta as pessoas – digo: os maridos – para dentro do supermercado.

Sem nenhum julgamento e muito menos preconceito, as criaturas se engajam na missão como super-heróis, tentando salvar a batalha final sem terem a menor ideia do desafio a que se lançaram. Falta de alternativa, talvez? Vai saber. O que dá para inferir é que as coisas na cozinha ficam mais por conta da esposa ou da mãe e poucos homens sabem a diferença entre “aipo” e “salsão”. Neste caso, está fácil: não existe! Ambos são o mesmo talo, da família das umbelíferas. Mas quando se trata de outros vegetais menos usuais, o desconhecimento do repertório traz uma série de situações cômicas. Basta estar na sessão de hortifrúti para testemunhar o desespero dos corajosos de última hora.

– Senhora, por favor, o que é alho-poró?

– Por acaso é bem esse aqui na frente, senhor.

– E como eu escolho? Tenho que levar com mais folha verde ou esse com mais parte branca?

– Depende; qual é a receita? É para fazer o que?

– Hummm… não tenho certeza.

– Então, leva um meio termo, assim não tem como errar.

– E quanto eu pego? Minha esposa esqueceu de colocar a quantidade.

– Depende também do que ela vai fazer e para quantas pessoas, senhor.

– Vixe…. então acho melhor ligar para ela.

E quando você acredita que vai conseguir escapar de fininho, vira para o outro lado e quase tropeça em outro valente, solicitando ajuda para decidir qual tomate levar: italiano, momotaro ou caqui? Esse, pelo menos, já sabia que precisava chegar em casa em tempo para o molho ao sugo e economizou o telefonema. Resolveu rápido o assunto e zarpou para o caixa express. Mais algumas voltinhas para vencer minha própria lista e outros pedidos de socorro aqui e ali me fizeram observar que alguns homens estavam falando ao telefone. Santo celular. Deve ser o assistente da Padroeira das Compras. Claro, nem todas as conversas giravam em torno da missão impossível, mas uma “discussão” acalorada chamou minha atenção. Alguém, do outro lado da linha, parecia não acreditar na falta do produto requisitado, ao que o senhor, já com uma certa idade e muita segurança insistia em retrucar: “Eu já te disse, meu bem, não tem mais alface lisa aqui.  Eu sei qual é essa alface. Deve ter acabado. Posso levar da crespa mesmo?”

Não fiquei por perto para saber o placar final dessa quebra-de-braço, pois ainda tinha que encontrar a tal da farinha-biju. Então, parti pensando comigo mesma: caramba, a gente poderia ter aula sobre alimentos e como reconhecê-los nas gôndolas dos mercados desde cedo. Isto deveria ser uma matéria obrigatória no ensino básico e, quem sabe, também fizéssemos um tour guiado nas feiras livres para aprendermos a não confundir alho com bugalho. Seria de grande ajuda, independente de qualquer questão de gênero. Mas, na medida em que refletia sobre o tema e ria em segredo, também fiquei me perguntando: por que diabos alguém vai ao supermercado sem saber direito o que vai comprar?!

Hora da vingança. Na frente da prateleira de farináceos fiquei sem palavras. Na falta da farinha-biju, o que levar? Havia umas três marcas desconhecidas e nenhuma delas do jeito que eu precisava. Foi quando um senhor relativamente jovem chegou todo confiante e pegou um pacote delas. Não tive dúvidas:

– Você conhece essa farinha? Já usou?

– Sim, sim. É muito boa. Melhor do que essas outras duas. Pode levar tranquila.

Pronto. Dizem que a língua é o chicote da bunda. Sem julgamento, nem preconceito, voltei para casa com o traseiro marcado. Valeu pela surra!

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