Acendendo uma luz com Nietzsche

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A filosofia tem o dom de nos convidar a percorrer outras dimensões. É uma espécie de “pílula vermelha” que dá o acesso ao matrix existencial. Até podemos ficar tentados a escolher o comprimidinho “azul” (cuidado para não confundir as drogas aqui. Eu sei que o “remedinho azul” da modernidade é bastante competitivo, mas não é dele que estamos falando!) e nos manter na superficialidade, mas o apelo da consciência é mais forte quando já estamos na tarefa de virar gente grande. Então, é aquela lenda viva: depois do primeiro mergulho, não tem como voltar atrás. Não porque estejamos impedidos de mudar de ideia, mas porque somos impelidos a sair da inércia. Queremos mais sobre mundo e muito mais de nós mesmos.

O filósofo Nietzsche parece ter levado isso tudo muito à sério, embora, ele mesmo, tenha sugerido rompermos com a certeza de tudo. Assistindo uma aula sobre seus pensamentos recentemente, fiquei impressionada com a sua capacidade de abrir o portal diante dos nossos olhos e nos tirar do mundo dos sonhos. Bem, ele não é nenhum Morpheus, e eu, tampouco, sou Neo. Mas o danado faz parecer que a arte de se colocar em questionamento é libertadora de tal maneira que, mesmo diante do árduo trabalho de descascar nossas próprias camadas, queremos realizar a tarefa até o final. Sem preguiça de enfrentar o desafio que esta viagem representa.

Porém, descobrimos, de fato, que não há “um” único lugar para se chegar, nem “um” fim isolado para se cumprir. É uma viagem sem destino claro e são muitas as faces do nosso ser que precisam ser mexidas até que possamos encontrar o verdadeiro sentido de existirmos, se é que existe, realmente, uma verdade última. Mas as pequenas revelações a que temos acesso nos motivam a continuar buscando respostas, inclusive para as perguntas que ainda sequer formulamos. É assim que abrimos novas janelas e, muitas vezes, nos perdemos no processo porque as nossas indagações estão viciadas na base. Giacoia, o professor apaixonado pelo pensamento de Nietszche, disse com propriedade: “é muito mais importante do que antecipar uma resposta tranquilizadora, saber formular direito uma questão.”

Eles, os pensadores, falam sobre a tragédia da vida e explicam: o que a define são os altos e baixos que nos ocupam nesse eterno exercício de vir-a-ser. Entramos numa oscilação de ondas interessante e descobrimos que não há nada de negativo nisso. Ao contrário, é esse movimento que contribui para nos descobrirmos como únicos. Também entendi nesta aula que são os nossos feitos, ao longo da existência (e até ouso dizer no plural: existências), que nos configuram. Portanto, um viva para a possibilidade de ir abrindo frestas e compondo novas conexões!

Ou seja, que maravilha podermos nos reinventar permanentemente. Afinal, não somos algo que recebemos pronto ao nascer, mas tudo aquilo que construímos ao vivermos a vida que surge como oportunidade em nosso caminho. É fato: não podemos nos tornar aquilo que nunca fomos. Apenas revelamos, para nós e para os outros, o que vamos configurando a partir deste processo de individuação. Palavrinha difícil que esconde nenhum segredo: significa tão simplesmente “ser gente na primeira pessoa”! Trocando em miúdos, só conseguimos chegar naquilo que nos constitui como almas singulares sendo. Então, não há fórmula mágica: podemos apontar quem somos somente quando estivermos prontos. Porém, agora, precisamos acolher a questão libertadora: e quando é que estamos “finalizados”?

A vida é uma verdadeira epopeia, composta de longos versos de exaltação humana. Nem sempre compreendemos sua beleza, mas vamos fazendo, intuitivamente, um pouco de comédia (menos do que seria recomendável), outro tanto de drama (mais do que deveríamos suportar), numa narrativa sem fim sobre os heróis e guerreiros que somos e sobre como fazemos a roda girar no cotidiano do mundo. De certa forma, imprimimos uma dose particular de um realismo que nos aprisiona. É isso, ficamos no palco atuando de acordo com o que esperam de nós e desvalorizamos a preparação que temos nos bastidores, isto é, aquela que nos permite ser livremente por ensaio e erro. Nos submetemos à reprodução de um texto escrito que diminui a nossa capacidade de transcender a tudo e a nós mesmos.

Talvez eu esteja exagerando nas minhas elucubrações, mas essa história filosófica de que é necessário negar o mundo em vivemos para podermos ascender a um outro muito melhor é para deixar qualquer pessoa do avesso. Em especial quando o final do ano está batendo à nossa porta e pedindo uma renovação de votos. Até entendo que o tempo de existir é o existir no tempo e também reconheço que nossas percepções equivocadas à respeito da realidade nos levam a estabelecer um falso padrão a ser seguido, o que limita nosso potencial. Mas está na hora de atendermos ao convite do Chico, o Buarque, e “amar pelo avesso” a nós mesmos.

O mundo mundano é oco, mas nós não. E não fui eu que falei. Estou apenas repetindo: o inferno não são os outros. É o nosso próprio eu iludido, apegado à sua condição de ignorância. Então, só posso desejar muitas “pílulas vermelhas” para todos nós. Que elas sejam eficazes no tratamento da nossa alma e contribuam para ascendermos a um ano de maior engajamento com a missão de nos tornarmos quem somos: sagrados.

Boa sorte na formulação das suas perguntas e um feliz 2020 para quem ousar romper o casulo e acolher sua metamorfose!

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10 respostas para Acendendo uma luz com Nietzsche

  1. Ana Inês Souza disse:

    Lindo querida. Acabei de lê-lo na nossa mesa de almoço familiar. Que o sentido de Natal nos ajude a “acender a luz” nestes tempos tão sombrios. Bj grande pra ti. Ana

  2. lourdes disse:

    Ótima reflexão num tempo de muita conturbação.
    Que em 2020 possamos estar num constante “vir a ser” impulsionados para muitas vidas plenas.
    Beijos querida

  3. Neia Nogueira disse:

    Um 2020 mais intenso na busca de nós mesmos e daquilo que nos torna mais completos e felizes. Como sempre, amo a forma como vc consegue exprimir sua luz interior. Feliz Ano Novo de novas buscas!

  4. Maria Idalina Cassim de Carvalho disse:

    Oi, Andrea

    Gosto muito do seu blog. Me ajuda muito a refletir, procurar me desvendar
    enfim, abrir minhas janelas. E vc escreve de um jeito tão fácil e claro que
    parece que estamos tomando um café e conversando.

    Aproveito para te desejar um 2020 muito feliz e abençoado.

    Bjs

    Maria Idalina
    Enviado via iPad

    • Olá Idalina, que alegria receber tua mensagem e saber que se sente tocada pelo conteúdo do blog.
      Desejo um novo ciclo de muitas realizações pra vc e, tomara, um café pessoalmente pra gente colocar a conversa em dia!
      Um abraço afetuoso!!

  5. Sejam excelentes uns com os outros!

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