Um par de pés

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Foto: thanks to Alan Nielsen (@alannielsen1969) – Caminhando com Portinari – Terra Virgem Editora – http://alannielsen.com/caminhando-com-portinari/

Quanta inspiração pode provocar um par de pés? Impossível mensurar. Mais fácil é se render ao convite para percorrer os mesmos passos e voltar no tempo. Mas que caminhos foram esses que os trouxeram até a eternidade deste clique? Em que ritmo andaram, que aventuras viveram? Qual seria a história grudada nos seus calcanhares? Quantos sapatos apertados foram calçados ou de onde vieram todos os seus calos? Como resolver esses pontos de interrogação quando o interlocutor é anônimo? Talvez, mergulhando na própria imaginação e buscando o sentido, tal qual possibilita o significado dessa palavra, dentro de nós mesmos. Afinal, todos temos histórias impressas em nossas pegadas.

Vale sentir nas entranhas as nem tão estranhas emoções que esta imagem desperta. E também reconhecer a combinação perfeita entre a sensibilidade de quem viu a relevância da poeira sobre a pele, dos pés sobre o campo e da história de vida que aquele corpo carrega, ousando imortalizá-la. Talvez, sem mesmo saber, ao registrá-los, o olhar apaixonado pelo mundo por detrás da câmera tornou urgente a nossa tarefa de pensar as próprias andanças. Colocou em evidência a capacidade que temos de transitar, das mais variadas formas, nos mais diferentes universos simbólicos. Disponibilizou muitos estímulos para nutrir nossas reflexões. A mim, em especial, tocou igualmente um lugar de forças insuspeitáveis: a alma!

E, então, senti, embaixo dos meus pés, o pulsar da minha jornada e a importância das raízes deslocadas do meu mundo. Os pés nesta imagem têm dono, no caso, uma dona. A terra sob eles também. Não sei a quem pertencem, mas, como nada é por acaso, eles fazem parte de mim e me lembram de um conto que começou há 55 anos, mais precisamente num dia 19 de dezembro. Foi quando eu nasci, exatamente naquela mesma região de terras vermelhas, muito sol, calor humano e gente simples.

Era um dia normal, mas sair para a vida foi um desafio à parte. Nasci com os pés primeiro, pronta para visitar todos os cantos deste mundo e já contrariando a ordem natural que estabelece olharmos para o caminho antes mesmo de pisar no chão. Essa lógica subversiva me levaria longe, mas como poderia ser diferente para uma sagitariana? Lançar a flecha para depois correr atrás dela se tornou a minha dinâmica desde então. Pés na estrada, na maior parte do tempo. A alma em outras dimensões, sempre entregue e aberta para as múltiplas experiências, até mesmo quando a vida me convocava a lamber o mel no fio de uma navalha. Mas sempre percorri caminhos de superação, de autoconhecimento, de reafirmação daquilo que nunca deixei de ser: uma peregrina nata.

Procurando sempre manter a consciência aberta e alerta, os ensinamentos do cotidiano tiveram maior ressonância dentro de mim. As lições que precisei aprender ainda ecoam no meu coração e é ele que se mantém a bússola orientadora os meus passos. Sair do casulo foi apenas o primeiro ato; o desenrolar do meu conto passou a ser mera questão do tempo. Às vezes, nem tão bem aproveitado, mas, quando o lugar de prioridade mudava e eu tropeçava no meu desassossego ou me distanciava da minha essência, o chão se abria diante de mim como um sinal de alerta. E eu entendia a cada vez: era hora de acender alguma luz para iluminar novos atalhos. Com persistência e o apoio dos meus aliados na caminhada espiritual, sempre pude seguir em frente, e assim acontece a todos nós. O tempo é generoso e nos concede inúmeras oportunidades.

Trilhas tortuosas, passagens estreitas e muitas vias de mão dupla me mostraram que, quando cada coisa está no seu devido lugar, de acordo com a sua função, chegamos mais perto da iluminação. E o “devido lugar” é tão simplesmente o mundo interior que nos habita. A plena atenção nele nos faz diluir as ilusões e entender melhor a verdade relativa do caminho. Estar centrado no próprio prumo nos autoriza a questionar o devir que nos capturou ou que nos distraiu daquilo que realmente nascemos para ser. Nada é mais virtuoso do que uma alma que reconhece a luz dentro de si e permite que ela ilumine a sua estrada no tempo-espaço.

Olho para esses pés descalços, num campo em terras que nasci, e os acolho como um sinal claro de que toda história tem um impacto sobre nós e está entrelaçada com a nossa existência de alguma maneira. São poucos os graus de separação. Por isto, coloco a minha alma nesta imagem e me fortaleço na simplicidade de ser uma andarilha apenas. Sigo sendo um par de pés na estrada e me sinto realizada pelo encontro com as minhas raízes nesse universo de possibilidades que é viver intensamente o que tem para ser vivido, hoje, e eternamente agradecido. Amém!

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2 respostas para Um par de pés

  1. Lourdes disse:

    Parabéns por ter nascido neste 19 de dezembro e por seus pés galgarem o mundo com muita sabedoria. Minha admiração e carinho sempre mas especialmente hoje pela reflexão escrita e pelo aniversário. Beijos!

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