Virando chinesa

sapa woman

A beleza do tempo – Sapa, Vietnã

 

As histórias do cotidiano são infindáveis. Quando a gente pensa que acabou, está apenas começando. Um tanto parecido com a vida em si: segue a lógica da eternidade: intensa, enquanto o momento presente dura, e tão impermanente quanto o instante-já. É um movimento repleto de prosa e poesia. Contos recheados de jogos de palavras que se formam para explicar os mistérios do caminho, e trocadilhos que ajudam a dar graça para a descoberta inevitável do protagonista de todos os enredos: o tempo. E nada melhor do que as cenas da vida real para resgatarmos alguns capítulos em nossa memória.

Vários anos atrás (não muitos!), desacreditava do “senhor da vida”, o tempo. Duvidava do seu impacto sobre nós, numa tentativa ingênua de negar que tudo passa e nada permanece como antes. Minhas amigas mais velhas (com pouca diferença!) já se enlouqueciam com os cremes anti-tudo e com os novos procedimentos de estética, investindo pesado na leveza do corpo para combater a lei da gravidade. Parte das conversas nas reuniões sociais era pura troca de receitas sobre como driblar o tempo para manter o padrão de beleza da nossa época. Do lado de fora deste círculo vaidoso, tentava apaziguar os comentários dizendo que envelhecer é um processo contínuo que começa com o primeiro sopro de vida. Por alguma razão, minhas amigas não se sentiam confortadas com esta ideia e reforçavam enfaticamente: você também vai chegar lá e quando isto acontecer, entenderá o que estamos dizendo. Hoje, compreendo melhor. Parece que “cheguei lá”, seja “lá” onde for. Como disse em outro texto: o outono está acontecendo. Mas, sem aquela preocupação com as transformações estéticas do processo.

Por outro lado, é interessante descobrir que chegamos na nova estação pelos olhos de outras pessoas. Isto faz a gente se perguntar sobre si mesmo, se observar na linha do tempo e buscar reconhecer suas marcas no corpo e na alma. E, às vezes, basta um olhar de escanteio, a intenção de ser gentil e um pequeno gesto para nos convidar a essa reflexão. Simples como uma afirmativa dentro do vagão do metrô: “por favor, senhora, sente-se aqui”. O aqui, neste caso, é o assento preferencial, reservado para pessoas com mais de 60 anos e outras categorias mais. Indicação clara daquele lugar que minhas amigas chamavam de “lá”.

Confesso que ouvi a frase com certo espanto. Deve ter sido algum engano, pensei de imediato. Não me encaixo em nenhuma das alternativas de prioridade e esta mulher está apenas sendo educada ao me oferecer a preferência. Afinal, ela mesma parece ter a minha idade ou mais. Sim, só poderia ser uma cortesia. Em todo caso, me coloquei a pensar: será que estou dando a impressão de ser mais velha? Seria o meu jeito de vestir? A minha postura, talvez? O penteado? Os poucos cabelos brancos? Se as minhas amigas estivessem por perto, certamente me alertariam: bem que nós te avisamos, não é?!

As estações, do metrô, foram passando, mas eu continuava presa naquela cena. Em alguns momentos ria da minha surpresa com tudo aquilo e, em outros, me dava conta de que, nos últimos tempos, a maturidade vem mesmo captando minha atenção com mais ênfase. Deve ser por causa do “inferno astral”, pois daqui uns dias vou realmente mudar de ciclo e é natural que a gente se sensibilize com esses assuntos. O tempo passa. É fato inexorável. Estava abduzida pelo o vazio fora do vagão, tentando organizar os pensamentos quando meus olhos retornaram daquele nada e me colocaram frente-a-frente com a minha imagem refletida no vidro da janela. Aí, sim, não pude me conter. Escanei, cuidadosamente, o meu perfil e enxerguei o que talvez pudesse explicar aquele gesto de gentileza: estou me transformando numa chinesa!

Discretamente, passei a mão no rosto, tentando esticar um pouco a pele para ter uma referência, e entendi, superficialmente, o que pode estar por trás da decisão de recorrer à cirurgia plástica para dar uma calibrada no visual. Não existe alternativa para o “bigode chinês”, nem para o despencar das pálpebras; é isto ou todo o resto oferecido pela indústria de cosméticos. Uma verdade que joga a gente num beco sem saída. É necessária muita autoestima para não se render ao padrão estético da nossa sociedade. Respirei fundo, me olhei mais uma vez na janela e sorri dizendo: dane-se, já tenho o meu chapéu asiático mesmo!

E foi assim que o meu bigode chinês praticamente desapareceu naquele sorriso. O semblante se transforma, amenizando as rugas, a gente rejuvenesce. A nova imagem me fez pensar que, talvez, esse sinal de expressão seja apenas uma estratégia do corpo para nos fazer lembrar de sorrir mais para as coisas da vida. Esta é a plástica que restaura nossa beleza essencial. É a melhor maneira de envelhecer, mesmo que tenhamos que ocupar, de fato, o assento preferencial.

Então, obrigada, senhora! Vou descer na próxima estação.

 

 

 

 

 

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