A voz alta da consciência

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metrô paulistano

Hora do rush. Não temos como escapar do cenário caótico, turbinado pelo vai-e-vem dos carros, ônibus e das milhares de pessoas que fazem lembrar um formigueiro em plena atividade. Visualmente, chega a ser assustador todos aqueles corpos passando uns pelos outros, alguns se esbarrando, outros se empurrando. É uma enxurrada de gentes, capaz de nos levar de um ponto ao outro pela correnteza incontrolável dos passos. É preciso cuidado e se colocar na direção certa do fluxo, caso contrário, teremos dificuldades para nadar na contramão.

Esse é o cotidiano urbano na grande metrópole e as pessoas estão acostumadas com esse ritmo. Por que razões, nem vou discutir. Que projeto de sociedade está (des)colado nesta rotina, vale questionar. Cada um pode fazer este exercício e buscar entender seu próprio papel na manutenção do sistema, tal como ele é. O que estamos fazendo, individualmente, para contribuir com isso tudo ou para transformar essa realidade cabe a nós mesmos responder. E nem precisa ser em voz alta. Somos senhoras e senhores da nossa consciência e o nosso compromisso primeiro é para com o eu interior. De mais a mais, há tantas maneiras de colaborar para que o mundo seja melhor que fica impossível mensurar a forma mais eficaz e determinar o “jeito certo” de intervir na sociedade.

Hora do rush. Mas eu me sinto um tanto cigarra, sem pressa para chegar, sem compromissos inflexíveis. Atenta à movimentação das formigas, procurando não bloquear o trânsito, tentando respeitar o compasso. Observo o padrão que se repete a cada parada do trem: saem menos pessoas do que as que tentam entrar. Faço as contas rapidamente e concluo que serão necessárias algumas paradas até chegar a minha vez. Mas entro na fila, que só aumenta em todos os lados. Então, ouço uma voz alta, em tom de total repreensão, dizendo: “A senhora não acha uma esculhambação furar a fila?!”

Sem coragem de olhar para a pessoa, continuei com a cabeça voltada para frente, pensativa. Pelo linguajar utilizado, fui logo imaginando que se tratava de alguém com mais idade. Quem fala “esculhambação”, provavelmente viveu sua juventude nos anos 70. Mas a curiosidade driblou a covardia e encarei de frente o senhor de barba e cabelos brancos logo atrás de mim, com uma expressão visivelmente de revolta. Ele tinha razão: furar fila é uma injustiça no meu dicionário também.

A resposta disparou sozinha, em tiro certeiro: “Desculpe, senhor, não sabia que tinha uma fila formada. Eu não reparei.” E assim, a “furona” abandonou seu lugar e foi para o final da fila. Continuei pensativa e, secretamente, comemorei a vitória do meu comparsa de gíria. Aquilo era, de fato, uma esculhambação. As pessoas parecem ter perdido a oportunidade do bom senso, da gentileza, da educação. Se empurram, cortam a frente dos outros, param no meio da passagem, sentam em lugar preferencial sem o direito da prioridade, falam alto no telefone, fingem (?) que apenas elas existem no mundo e se acham merecedoras de todos os benefícios (im)possíveis. É só um jeitinho, só dessa vez, não vai prejudicar ninguém…

Por alguns segundos, fiquei rindo dentro de mim e agradeci mentalmente aquele senhor por ter sido meu porta voz. Ele falou, em voz alta, aquilo que eu mesma pensei logo que a moça cortou a nossa frente. Queria eu ter tido a sua firmeza, mas as pessoas andam se sentindo tão autorizadas a expressarem sua agressividade que venho adotando a política do invisível para evitar confusão: observo, fico indignada, processo aquela negatividade interiormente e devolvo em vibrações de amor. Como sempre diz uma amiga querida: devolvo ao universo com partículas de consciência! Nada de discussões, nem intervenções moralistas. Sim, um dia, essas partículas expandirão na mente das pessoas.

Minha satisfação, entretanto, entrou em choque. Imediatamente recuperei a lucidez e aquilo que parecia um ato de bravura se desfez diante do fato de que duas outras pessoas também haviam furado a fila. Mas eram homens!

Então é assim? – pensei eu. Este senhor se acha no direito de repreender a mocinha, mas não dirige sequer uma palavra aos homens que agiram da mesma maneira que ela?! Que bravura é essa? Estava reunindo esforços para pontuar aquela desigualdade quando o trem chegou, a porta se abriu e fomos empurrados para dentro do vagão. Mas não poderia deixar aquilo passar. Dois pesos e duas medidas?

No hiato dos meus pensamentos, porém, o “herói do metrô” solta mais uma pérola, na maior tranquilidade: “Que esculhambação, heim meus senhores?! Furar a fila é muita falta de civilidade, pra dizer o mínimo. Está faltando cidadania e vergonha na cara. Os senhores pensem bem nessa atitude. Que sociedade é essa?!”

Do outro lado, um silêncio absoluto. Na minha cabeça, fogos de artifício.

Embora continuasse pensando que o justo mesmo teria sido repreender aqueles dois homens no mesmo momento em que a moça levou a bronca, assim eles também seriam “incentivados” a voltar para o final da fila (ou não!), não pude conter a alegria de ouvir minha consciência falando em voz alta novamente, através de outra pessoa.

Hora do rush. A realidade humana se reflete no corre-corre da cidade e escancara a nossa fragilidade ética.

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2 respostas para A voz alta da consciência

  1. Lourdes disse:

    Sempre muito bons seus textos. Nem sempre comento mas os leio todos . Adoro!!!

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