Vendo o visível, enxergando o invísivel

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Acampamento de Refugiados – Dhaka, Bangladesh

Quando eu era adolescente fiz um um curso de fotografia na escola em que estudei durante o intercâmbio. A ideia de registrar tudo me atraia e, empolgada, adquiri minha primeira câmera. Claro, na época, tudo era manual e ainda usávamos filme de rolo. Isto representava uma emoção à parte, pois era necessário usar o filme inteiro para, então, revelar as fotos, o que poderia levar a viagem toda ou longas semanas. Esperar esse tempo para ver o resultado daqueles cliques que não saiam da cabeça trazia certa ansiedade e, inúmeras vezes, culminava em frustração. Principalmente quando a foto não estava boa o suficiente porque faltava foco, o ângulo não tinha sido adequado, alguém estava de olhos fechados, tinha faltado flash ou a luz havia estourado. Quantos momentos perdidos entre um clique e outro porque era preciso rodar o filme e, nessa fração de segundos, a cena se desconstruía totalmente. Quantos momentos perdidos por causa da sobreposição de imagens, quando a empolgação era tanta que esquecia de avançar o rolo do filme. Mas a aventura era essa: acreditar que estava capturando o mundo e aguardar para ver seus detalhes depois.

Os anos foram passando e continuei fotografando por diversão. Confesso que quase nunca refletia sobre o que poderiam, de fato, significar aquelas ferramentas à minha disposição. Simplesmente clicava tudo o que me interessava e nem sempre interessava as pessoas, que não hesitavam em criticar as imagens dizendo que era muita vida real sem a personagem principal. A expectativa delas era me ver nas fotos e eu raramente entregava a minha câmera para outra pessoa me fotografar. Eu gostava mesmo era de compartilhar o mundo na minha perspectiva. Aquilo sim me colocava de joelhos e mexia com o meu imaginário: como vivem aquelas pessoas? Como aquilo aconteceu? De que maneira aquela realidade está conectada com a minha? Eram muitas indagações sem respostas, até porque eu, provavelmente, não tivesse maturidade suficiente para colocar os pontos de interrogação nos seus devidos lugares.

De qualquer maneira, sempre que apreciava o trabalho de outros fotógrafos, me sentia impelida a pensar sobre a realidade que estava sendo retratada e, aos poucos, fui entendendo que, por meio da fotografia, podemos entrar em contato com um mundo nunca antes imaginado. Estava ali o potencial daquelas ferramentas: um simples retrato se transformando em convite para mergulharmos no universo desconhecido. Afinal, uma imagem, por mais banal que possa parecer, revela nuances de uma longa história. E assim nos enriquece esta arte. E assim me mobilizou essa arte, pois, na incapacidade de aprimorar as habilidades técnicas e na limitação de transitar pelo mundo, passei a buscar nas imagens de alguns fotógrafos a minha própria visão sobre o existir.

E ao fazer isso, comecei a entender melhor a diferença entre ver o que aparece de forma visível aos nossos olhos e enxergar o que a realidade mascara. É interessante como o nosso posicionamento sobre as coisas muda quando a fotografia revela o invisível. Nosso olhar tende a se concentrar no óbvio porque, na maior parte das vezes, é para isso que fomos condicionados a dirigir a atenção. É como se a percepção fosse filtrando os detalhes, numa tentativa de nos manter na zona de conforto e quando, finalmente, este filtro se rompe pelo estado de alerta da nossa consciência, descobrimos que é impossível morar naquela mesma bolha que nos protegia.

Enxergar a realidade com os olhos críticos nos traz o compromisso também de dar visibilidade para o invisível. Que mudanças podem advir a partir desse movimento é difícil dizer. Talvez tudo seja relativo e dependa mesmo é da nossa postura de vida. Se queremos uma sociedade transformada em um lugar de bem estar para todos os seres vivos, denunciar as injustiças é um passo fundamental. Claro que há diferentes maneiras de fazer isso e a fotografia é apenas uma delas. E, mesmo sendo uma alternativa eficaz, há diversas formas de usar essa ferramenta que não necessariamente provoque alguma mudança de paradigma em nós. Mas está tudo certo. As escolhas que fazemos são aquelas que damos conta de fazer naquele dado momento de nossas vidas.

O fato é que podemos descortinar muitas coisas com um único clique. E isso fica evidente quando vemos algumas imagens da realidade social em que vivemos ou em que vivem outras pessoas distantes de nós. Hoje, transito por lugares e não consigo mais ver aquilo que é visível. Há sempre uma causa por trás da imagem, um pedido de socorro, um alerta, uma denúncia. Há também alegria e contentamento, por certo. Afinal, as pessoas e as situações conjugam o verbo amar e desamar o tempo todo, como onda do mar que vai de um jeito e pode voltar de outro. A vida não é uma reta constante e a impermanência de tudo nos ensina isto. Mas é justamente essa a questão: o instante pretensamente eternizado em uma imagem não é exatamente daquele jeito. O que tem de estático em uma fotografia é inversamente proporcional ao que tem de dinâmico naquela mesma imagem.

Por isso, quando registro o rosto de uma garotinha no acampamento de refugiados do Paquistão em Dhaka, não estou constatando apenas suas características físicas, mas a sua história de vida, marcada nos trajes que ela veste, no lugar em que se encontra, na forma como se comporta. E mais, junto com aquela imagem está também configurada a história do mundo, o que ocorreu com a humanidade desde sempre até aquele exato tempo-espaço. O modo como aquelas pessoas se organizaram, o descaso político e humanitário para com as condições em que vivem, entre outros tantos fatores, configuram a parte invisível que a fotografia nos faz enxergar e, diante dela, não tem como a alma se acomodar. A inquietude, porém, é positiva. Ela nos tira da mesmice da vida, mas precisa ser igualmente transformadora e “incomodar” outras tantas almas para que elas também se interessem pelo invisível das nossas sociedades. Assim, não me canso de reafirmar: é preciso termos olhos de ver e enxergar, ouvidos de ouvir e escutar, boca de falar e denunciar, e coração de sentir que a compaixão e a solidariedade são essenciais na nossa travessia!

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6 respostas para Vendo o visível, enxergando o invísivel

  1. PAULO ROBERTO SCHWAB disse:

    Cunhada, gostei muito dessa sua história e o reflexo na sua “andança’ pelo mundo. Reforçando a sua conclusão, me ocorreu a frase já batida, mas real “uma imagem diz mais que 1.000 palavras. Beijo. Paulo

  2. Marcela disse:

    Linda a sua mensagem. Obrigada por me ensinar tanto e inspirar a tantos outros. A prática do bem é inerente ao ser humano. Em alguns, está apenas adormecida.

  3. Ricardo disse:

    Andrea…texto muito reflexivo! E fácil ver o visível… o trabalho está em ver e compreender o invisível.
    Gostei da proposta do blog!

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