Nós, mulheres, somos raras!

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Sreemangal Tea Garden – Bangladesh

Era final da tarde, o sol estava se recolhendo e as mulheres terminando o primeiro turno de trabalho. Alinhadas com enormes fardos de folha de chá na cabeça, aguardavam sua vez para pesar a produção do dia, antes de voltarem ao lar. Roupas coloridas disfarçavam o cansaço no rosto. Um sorriso tímido escondia a curiosidade sobre a estrangeira que acabara de chegar. Olhos e ouvidos atentos acompanhavam a conversa com o responsável local, em uma tentativa, em vão, de explicar que fotografias não eram permitidas ali. Já era tarde. Várias imagens haviam sido registradas. Não tinha como voltar atrás, a não ser que eu as apagasse do cartão de memória. Mas jamais, porém, conseguiria apagá-las da minha própria memória.

Fotografar é uma arte que eu não domino. Pretensa é a minha vontade de sair pelo mundo e registrar tudo o que eu vejo com técnica impecável. Agora aprendi um pouco mais. Agora aprendi, sobretudo, que sem o enquadramento necessário, não há técnica que facilite nossos registros. Então, deixar que a lente seja direcionada pelos olhos do coração é a melhor estratégia.

Por outro lado, é a nossa visão de mundo que interfere neste olhar. Nosso coração está sintonizado com aquilo que pensamos, com as nossas expectativas sobre a vida. Compreender e conhecer melhor o “cenário” em que estamos mergulhando também faz uma enorme diferença. Sendo assim, é impossível olhar para aquelas mulheres no final de um longo dia de trabalho sem sucumbir em prantos.

Lágrimas de alegria por reconhecer a sua força e capacidade de produzir o sustento da família. Lágrimas de amor por me sentir acolhida em seus olhares compenetrados, acompanhando minha teimosia ao me expor para o responsável local. Mas lágrimas de vergonha pela posição privilegiada em que eu me encontrava. Lágrimas de tristeza pelas condições de trabalho a que elas são submetidas. E, no final, lágrimas de gratidão por viver essas situações com a consciência sempre em estado de alerta e de indignação.

As mulheres que trabalham nas plantações de chá recebem 150 takas (em torno de 1,7 dólares) por dia, pelo trabalho de quase 10 horas corridas. Sua tarefa é colher, pelo menos, 21 quilos de folha de chá ao longo da jornada. O fardo é rigorosamente pesado no final de cada turno e anotado em um caderno, cuidadosamente controlado por um homem, cuja função é de responsável local. Após a pesagem, elas depositam a produção na carroceria de um caminhão, que leva tudo para o processamento na central da fábrica. Só então elas deixam o local em direção às suas casas, geralmente 3 a 4 quilômetros de distância da fazenda, para dar início ao segundo turno de trabalho: cuidar da família e do pequeno espaço em que habitam.

Há tantas coisas a serem questionadas neste cenário: a desvalorização da mulher, as condições em que o trabalho ocorre, a exploração de empresas internacionais sobre a mão-de-obra dos países considerados pobres, o controle do trabalho sob o domínio de homens, e essa mania que estrangeiro tem de chegar nos lugares e criticar tudo o que vê, se achando no direito de denunciar tudo o que está em desacordo com os seus próprios costumes. Difícil ir a fundo em cada uma dessas questões de maneira imparcial. Meu lugar de fala está permeado das minhas raízes, minha lente está comprometida com os meus ideais. E eu nem tenho conhecimento suficiente para discutir todos esses assuntos. Mas tudo isso me impacta significativamente. Sou capturada por sentimentos diversos, inclusive o de revolta e, principalmente, de constrangimento pela humanidade que nos tornamos.

Tentei. Não consegui convencer o responsável local sobre a ingenuidade da minha câmera. Desconfiado das minhas intenções (talvez ele identificasse em minha expressão essa confusão de sentimentos), alegou que muitos jornalistas se fazem passar por turistas para reportar a exploração do trabalho dos “diminuídos”. Segundo ele, historicamente, isto já prejudicou as relações comerciais entre os países e a empresa (no caso, internacional) adotou a política de proibir fotógrafos, sejam eles quais forem. Parece que, no passado, alguns órgãos internacionais pressionaram a política local para que fossem adotadas medidas mais justas de trabalho.

Guardei a câmera, engoli a indignação e estava deixando o local quando algumas das mulheres vieram ao meu encontro e, gentilmente, se deixaram fotografar. Não falo a língua local e a tradução da conversa estava sendo intermediada por outra pessoa, mas pude reconhecer naquela atitude um sinal: não queremos ser invisíveis; queremos, sim, que o mundo nos enxergue! Senti uma alegria saltando pelos olhos, não pelas imagens que poderia registrar, mas por tudo o que aquele gesto delas representava..

Imagens singelas de mulheres fortes. Imagens que revelam a beleza por trás da vulnerabilidade social e cultural. Nenhuma fragilidade constatada, a não ser a do sistema socioeconômico em que vivemos e ao qual nos submetemos no chá das cinco. Na superfície das minhas expectativas encontro um mundo completamente diferente do que considero que deveria ter construído a humanidade. Falimos em nossa tarefa. Destituímos da vida exatamente aquilo que poderia equilibrar nossa existência. Nem ouso dizer o que. Temo, eu mesma, desconhecer.

Só sei que, jamais, pelo resto de minha vida, tomarei outra xícara de chá sem me lembrar daquelas mulheres. Cada gole terá um sabor diferente. Talvez um tanto amargado pela injustiça e pela desigualdade que testemunhei. Entretanto, por mais que eu acredite que as coisas sempre acontecem por alguma razão e nunca por acaso, não concebo nenhuma passividade ou omissão diante da realidade do sofrimento humano. Então, escolho corroborar a desconfiança do responsável local e adicionar ao meu chá doses de solidariedade feminina.

Nós, mulheres, somos raras!

 

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2 respostas para Nós, mulheres, somos raras!

  1. Bianca Schwab disse:

    Muito bom Andrea. Ja tinha visto o seu depoimento do youtube sobre o seu workshop de fotografia no Bangladesh… é um mundo de diferenças, e por isso mesmo nunca seremos iguais. Podemos ser solidários, e realizar um serviço, de bondade por ou para alguém… mesmo assim sempre teremos que seguir cada um a sua jornada não é mesmo? Olhar sem se ferir é um grande aprendizado, que eu ainda não consegui. Um beijo, com muitas saudades. Bi.

    ________________________________

    • Vc tem razão, seguimos nossos caminhos sempre e quanto mais alegria e amorosidade colocarmos nos nossos passos, melhor a caminhada para nós e para todos aqueles que cruzam nossa jornada. Obrigadaaaaa por suas palavras!! Beijos

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