O bálsamo do perdão

Anil Prabhudev

Foto: thanks to Anil Prabhudev

Sempre me disseram, diferentes pessoas e em momentos diversos, que o ressentimento faz muito mal para o nosso coração. Tem até aquela frase célebre, atribuída ao Shakespeare, ensinando: “a raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram”. Muitos ditos populares e ensinamentos religiosos poderiam ser listados aqui para reforçar essa ideia, mas nem precisamos estender o repertório. A lição é clara: nossas mágoas são apenas nossas e causam danos a nós mesmos, muito mais do que aos outros. Claro, também provocam o sofrimento alheio. Afinal, quem nunca se sentiu incomodado (para declarar o mínimo) com os sentimentos negativos que outra pessoa nutre à nosso respeito?

Quando alguém não está bem conosco, a gente acaba sentido o desconforto de alguma maneira. Não tem escapatória. A questão, talvez, seja dramática de equacionar justamente porque coloca em pauta aquilo que sentimos sobre o outro e sobre a situação compartilhada, somando-se àquilo que o outro sente sobre nós e sobre o que foi vivenciado. Cada pessoa com uma razão e um sentir próprios, na maior parte do tempo em divergência, quando se trata de conflitos. Assim, os resultados dessa operação podem ser complexos e devastadores. Acredito que todos nós, muito provavelmente, já passamos por alguma experiência nesse sentido e sabemos como dói.

Existem momentos em que reivindicamos a razão, mas ela não resolve nada porque o que fala mais forte é o sentir. E dói. Dói muito. E, neste campo sofrido, a gente acaba se perdendo no emaranhado de afetos, por vezes, desconexos e desconectados da realidade. Buscamos explicação fora de nós, mas descobrimos que a dor diz muito mais sobre as nossas próprias dificuldades do que gostaríamos de confessar em voz alta.

Portanto, o que difere, aumentando ou diminuindo o ressentimento, é a maneira como enfrentamos o fantasma da mágoa. Sim, ela se instala dentro de nós como uma assombração de plantão, armada para nos assustar e nos fazer recuar diante da mínima possibilidade de reconhecer as nossas faltas… e falhas!

Se não posso falar o que penso e sinto para o outro, comprometo minha própria consciência, que acaba se escondendo atrás deste não-ato. Evidentemente, dizer e demonstrar deveriam sempre ser acompanhados da sinceridade-amorosa. Isto demanda clareza sobre o fato de que só podemos expressar a nossa verdade, sabendo que ela é apenas um interessante ponto de vista. Nada a mais. Por isso, quando falo para o outro, preciso falar daquilo que me toca internamente, sem julgamento sobre o mundo exterior. Caso contrário, perco a capacidade de me posicionar e também de criar oportunidades para que a minha perspectiva seja questionada.

Enquanto pensarmos de forma comum, por exemplo, acreditando que a razão nos pertence, nossa mente permanece no lugar comum. Ao passo que, se olharmos os fatos por diferentes ângulos e com a mente e o coração abertos, há uma chance maior de nos colocarmos no lugar do outro e, por meio da empatia, nos dedicarmos à disciplina de criar uma mente que se oponha à negatividade. Ou seja, nenhum desafeto precisa ser interpretado de forma pessimista, mas não estou aqui sugerindo que a violência, por exemplo, esteja passível de atenuantes. Nem mesmo quando decorre de alguma patologia. Bem, pensando melhor, talvez, nesses casos, devamos buscar aplicar várias doses extras de compaixão e compreensão.

Meu ponto aqui é que oferecer ao outro o benefício do perdão não resolve em nada sua situação. A condição emocional-espiritual dos outros não está em nossas mãos e, muito menos, depende da generosidade do nosso perdão. Este só serve para ressonar a paz em nossa própria alma, deixando o coração sereno e a consciência tranquila. Isto, sim, é libertador. Só podemos perdoar a nós mesmos e aos outros dentro de nós. O que o outro faz com o nosso perdão, não importa. Basta desejarmos que aquela pessoa desfrute da mesma paz que nós.

Recolocar as coisas dentro do coração, nas suas devidas proporções e lugar, estabelecendo o que realmente é essencial para o nosso existir no tempo-espaço nos ajuda a renunciar ao sofrimento e a caminhar para estados de felicidade verdadeira. O perdão é um processo de purificação da alma. Da nossa, não da alma do outro. E um espírito livre de ressentimentos, abre um universo inteiro de otimismo diante da vida, em qualquer tempo-espaço.

Enfim, chega de lamúrias e vamos à tarefa de nos perguntar: o que tenho no fundo do coração? O que estou guardando neste lugar sagrado? O que isso tem de importante? Como isso me ajuda a ser uma pessoa melhor?

 

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para O bálsamo do perdão

  1. Sulla Mumme disse:

    Só encontramos a paz quando estamos em harmonia
    com todas as coisas do Céu e da Terra.
    O perdão nos liberta e nos sentimos Uno com o Universo .
    Andrea amo ler os seus textos tamanha sensibilidade em suas
    palavras

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