O anjo do bem-mal

Jacob Alexander

Foto: thanks to Jacob Alexander

Um dia desses, me lembrei novamente da história da gotinha que evaporou do rio e teimava se reconhecer como chuva, enquanto precipitava sobre o oceano (https://ascendendoaluz.wordpress.com/2013/08/28/festa-com-as-estrelas/). Verdadeira crise de identidade, tolinha. No frigir dos ovos ou, para manter a lógica aqui, no fluir das águas, somos todas essas coisas e nenhuma delas isoladamente: água do rio, vapor, nuvem que passa, mar profundo!

Então, vamos imaginar ser um rio. Qualquer um. Podemos dizer que nós somos a água que corre entre as duas margens. Cada uma delas com características próprias e uma força particular, nutrindo nossas correntezas, sem pressa, e definindo nosso curso. Ajustar as margens do rio talvez seja tarefa em vão. Tirar um pouco daqui, outro acolá, impede nossas águas de se flexibilizarem entre os dois extremos para nos equilibrar. É como forjar o jeito de ser do rio, quando, o que ele precisa mesmo é aprender a usar sua potencialidade máxima para tornar-se o rio que nasceu para ser: oceano.

Os sábios ribeirinhos das comunidades do velho Madeira sempre me diziam: um rio novo não sabe de antemão qual é o seu curso. Ele vai sendo formado pela correnteza. Já o rio maduro, como um ancião, conhece melhor suas margens e assume sua força própria, ora moldando novos caminhos, ora deixando-se levar para o encontro com outras águas. É a serenidade que o amadurecimento traz. E dá para discordar disso?! Aprendemos a ser, sendo.

Mas um detalhe não pode ser ignorado: quando o rio é grande e volumoso nem sempre enxergamos suas margens. Elas podem parecer distantes demais, seja porque estamos tão distraídos com as nossas qualidades positivas ou tão deprimidos com os aspectos sombrios que teimam em nos cutucar, que nos tornamos limitados em nossa visão. Assim é a vida da gente: quando intensa demais, podemos nos perder nas águas turvas das emoções e temos dificuldade para tatear as fronteiras do nosso ser.

Em uma outra metáfora, passamos a perseguir as miragens, moinhos de ventos. E acabamos frustrados e desapontados quando nos damos conta de que nossas sombras vivem do reflexo da luz que brilha dentro de nós. De certa forma, temos a ilusão de que, para sermos luz, é preciso abandonar a sombra. Isto seria o mesmo que pedir para o rio escolher uma margem apenas.

Quanto maior o nosso auto-apreço, maior a ilusão sobre o nosso eu verdadeiro e mais dificuldade temos para acalentar nosso coração e serenarmos nossa mente. Não existe essa coisa de ser só bem, bom e positivo. Desabrochar a luz é também desbruxar as sombras. Somos anjos do bem e do mal. Nossas forças se unem, os opostos se complementam e, só assim, o rio corre pro oceano sagrado!

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