Quando a primavera floresce no outono

robert gary

Foto: thanks to Robert Gary Banhart

Fui promovida, há alguns anos (poucos!), para a categoria das “senhoras”. O processo se deu de forma nada gradativa, nem sutil. Simplesmente, da noite para o dia, comecei a perceber que eu já não era “você” e que as pessoas conversavam comigo mais formalmente. No início, achava engraçado e me sentia importante. Ficava lembrando daquela fase de criança em que desejamos ser tratados como adolescentes e, logo depois, queremos ser vistos como adultos. Quanta pressa desnecessária para chegar na próxima estação! Se ao menos confiássemos que o tempo chega na hora certa, economizaríamos muitas crises existenciais.

Mas parece que não nascemos sábios, só vamos aprendendo com o andar da carruagem e está tudo bem. É assim mesmo essa vida da gente. E as pessoas mais experientes (depois que fui promovida exclui o termo “mais velha” para esses casos!) têm razão ao dizerem que o tempo traz mudanças positivas. Já ouvi compararem nosso envelhecimento à evolução do vinho, alegando que ganhamos maturidade e podemos garantir maior satisfação na abertura da garrafa. Difícil discordar delas. Afinal, nos concentramos em aprimorar o conteúdo, já que o rótulo vai despencando paulatinamente. E está tudo bem também. É assim mesmo esse corpo da gente.

Viver a vida no verão é uma grande aventura e descoberta. Experimentamos de tudo (ou quase tudo), nos permitimos andar descalços pelos atalhos, ousamos algumas contravenções e o mundo sempre parece brilhar como o astro rei. Infelizmente, muitos de nós se tostaram no verão e não conseguiram guardar o bronze para curtir o inverno. Acabaram minguando no outono e não entendem as vantagens de mudar de categoria. Com essas pessoas aprendi que as nossas experiências são como sementes que jogamos no solo. Se a terra é mofa, de nada adiantará, pois elas irão apodrecer antes da primavera. Mas se o solo estiver fresco, a colheita será ainda melhor.

Quando alguém compara o ciclo da vida às estações climáticas, fico sempre pensando que é uma maneira um tanto rígida para definir a linha do tempo. Por mais que isto faça sentido, sou a favor de contrariar a ordem do processo e guardar o melhor de cada estação para aproveitar todas elas a qualquer momento. Acho perfeitamente viável (e desejável) reservar o calor do verão no coração para aquecer o inverno, por exemplo. Só temos a ganhar associando a vitalidade da juventude com a sabedoria da velhice. Escolhemos melhor as nossas batalhas e não persistimos na luta contra os moinhos de vento. Podemos desabrochar a primavera em pleno outono, e isto seria o mesmo que viver a inteireza da nossa alma: deixamos cair aquilo que não nos serve mais para cultivar apenas o perfume das flores. Que delícia!

Então, preferindo estabelecer novas conexões, resolvi aceitar minha promoção com tudo que ela me dá direito: esquecer que os anos marcaram o corpo, usar um par de óculos para enxergar de perto os detalhes da vida, vestir um calçado folgado para percorrer novos atalhos e ir sem pressa para saborear o caminho, seja lá onde ele me levar. Pois podem me chamar de senhora. Sou, sim, senhora de mim!

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Uma resposta para Quando a primavera floresce no outono

  1. Sulla Mumme disse:

    Andrea! Me identifiquei muito com suas palavras e entusiasmada
    pelas sabias palavras . Me sinto agora promovida e senhora de mim , já estou
    incorporando os termos em minha vida . Valeu 🙏🏼

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