A morte que cai bem

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Ainda estava escuro quando despertei com um sonho revelador. Daqueles que tira nossa vontade de dormir e a substitui por caraminholas construtivas. Não fosse assim, bastava virar do outro lado e cochilar até amanhecer. Mas esse tipo de sonho, e imagino que muitas pessoas também tenham essa experiência, é tão carregado de aprendizado que não podemos ignorar a oportunidade para mergulhar em seus sentidos.

Era um carro sem portas, pneus, nem teto. E também não tinha motor, mas se dirigia para um ponto bem determinado: uma luz muito forte prestes a explodir. As pessoas dentro do veículo e eu sabíamos que explodiríamos todos juntos, e aquilo não nos assustava. Ao contrário, sentíamos tranquilidade e segurança, e a certeza de que estar ali era uma escolha. Ponto. Me lembro apenas de tapar os ouvidos e me entregar aliviada: que aventura!

De repente, nos tornamos todos uma luz única. Foram milésimos de segundos, talvez, e uma vida inteira projetada naquela luz. E o maior sentido que encontrei para aquilo tudo é que morremos, de fato, todos os dias. Os ciclos se fecham, as pessoas seguem seus próprios caminhos, o mundo se transforma, e o universo conspira para tornar as experiências em lições que transmutam nossa ignorância em sabedoria de vida. Não é extraordinário isso?!

Tirei as mãos dos ouvidos e escutei um desejo: morrer estando bem comigo mesma e em paz com o mundo ao meu redor. Provavelmente, é um privilégio. Sem dúvida, resultado das nossas escolhas e da maneira como transitamos pelo existir. Há que se esforçar na tarefa de vir-a-ser para alcançar este feito. No caso, eu estava apenas de carona naquele carro volátil, mas entendi que esta possibilidade existe para todos nós.

Abri os olhos pensando que cada momento é único e jamais se repetirá. Isto amplia enormemente nosso compromisso com o viver, pois já afirmava um filósofo: é impossível tomar dois banhos na água do mesmo rio. É precioso descobrir e se abrir para os detalhes da vida porque, a qualquer momento, ela se ampliará dentro de nós e já não seremos mais os mesmos. Como dizia uma poeta: por isso mesmo, só podemos aproveitar o “instante-já”. Único momento em que somos. Então, que sejamos verdadeira e inteiramente.

Acordei sentindo que morrer todos os dias e após cada encontro com o outro e com a gente mesmo exige despedidas serenas e afetuosas. Sabendo que, se quisermos abraçar a chance de fazer e ser a diferença, a hora é aquela e nenhuma outra. Pois o relógio acelera o tempo para a eternidade, mas nada é para sempre. A brevidade da vida nos convoca a vivê-la em sua profundidade e intensidade. Para que tentar de outro jeito?

Levantei. Não da cama. Para a vida. Porque o instante presente é uma escolha permanente. E morrer para viver é a melhor existência possível.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A morte que cai bem

  1. Antonio Vitorino disse:

    Tocante! Grato pela reflexão. Bj

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