No paradoxo do desejo pelo outro

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Sarawut Intarob @sarawut_intarob

A palavra pode soar um tanto sofisticada, mas o significado de “paradoxo” é bem simples: aquilo que é e não é. Ou seja, algo que não tem lógica, nem nexo, e se apresenta de uma maneira contraditória. Um bom exemplo é quando dizemos “temos muito a conversar, vamos marcar um novo encontro para trocarmos mais ideias” e, alguns momentos depois, adicionamos “vou tentar abrir um espacinho na minha agenda apertada”. Tem também o clássico “eu preciso muito te ver”, seguido de “vai ficar difícil nos encontrarmos se você não vier aqui”. E assim por diante.

Clássicos, aliás, é o que não falta. Tem clichê para todos os tipos de gente e situações. E este parece ser o padrão mais comum das relações humanas no mundo moderno. Nestes casos, a pergunta básica, acredito, tem como o alvo a legitimidade do desejo. Mas este é apenas um ponto de vista. Há quem acredite que tudo se justifica pela complexidade que a vida urbana impõe ao nosso cotidiano. Porém, não se pode negar o fato de que não temos mais liberdade para priorizar o que realmente queremos, nem espaço em nosso cronograma de vida para realizarmos os desejos que nos habitam.

Por outro lado, pode ser que o fato, de fato, não seja fato, mas a ausência do desejo dentro de nós. Provavelmente eles tenham se mudado, sem deixar pistas, nem endereço. Ou talvez estejamos vazios deles. Às vezes, pode ter sido apenas uma vontade daquelas fraquinhas, que não move moinhos e acaba desaparecendo no primeiro sopro. É a casinha de palha do porquinho mais novo que só queria saber de brincar. Tem muita gente que gosta de se aventurar nas relações superficialmente, somente para se divertir.

Outras vezes, nos obrigamos a cumprir tabela só para não fugir do clichê e avançar rapidamente na relação, queimando etapas sem o menor cuidado com o outro. Como aconteceu com o porquinho do meio, ansioso para terminar logo sua casinha de madeira. Aparentemente firme, desmoronou em dois tempos.

Nestes dois casos, pode ter um fingimento qualquer ou, então, uma supervalorização do interesse como forma de expressão meramente, sem que se tenha um desejo genuíno em estabelecer ou aprofundar qualquer relação. Acreditamos que queremos, mas não desejamos. Pensamos estar dispostos, sem estarmos disponíveis.

São poucos os porquinhos mais velhos que constroem casas consistentes. Estes que conhecem a si mesmos e têm realmente clareza do que querem. Estes, capazes de aproveitar o momento presente para realizarem o que desejam, sem reservas. Pessoas assim não têm agenda engessada porque sabem muito bem conciliar o tempo com a oportunidade que se apresenta naquele instante. E aí, sobra espaço e disponibilidade para o encontro desejado com o outro. Não tem lobo mau que insista em ficar por perto!

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2 respostas para No paradoxo do desejo pelo outro

  1. Guilherme Azevedo do Valle disse:

    Oi amiga em breve vou te fazer uma proposta, que não é indecorosa, e testaremos a flexibilidade de sua agenda! Kkk

    Obs: não precisa publicar, aproveitei que estava a pensar no encontrar amigos em SP ( não vou comparar aos porquinhos! Vamos ver o que vai acontecer! Kkk) e recebi o teu texto

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