Reencontros e despedidas

Mary McLeod

Foto: thanks to Mary Mcleod

Quando nascemos, parece que somos colocados em uma linha do tempo contínua, sem que saibamos exatamente onde é o começo, o meio e o fim. Simplesmente vamos vivendo as experiências que surgem ao longo do caminho, mas não temos uma ideia precisa sobre a duração de cada uma delas. Em alguns casos, temos a impressão de que aquilo que está acontecendo não vai acabar nunca. A alegria é infindável ou, então, a dor é interminável. A situação é tão intensa que esquecemos da impermanência das coisas: tudo passa! E quando menos esperamos, passou. Ontem revivi tudo isto na pele do momento presente e pensei: olha só o universo reafirmando que tudo deve ser saboreado inteiramente, pois é o exercício que nos cabe.

Há uns 36 anos, conheci um jovem pianista muito talentoso. Na época, ele ainda estudava música e não tínhamos muita intimidade. Fazíamos parte da mesma família, mas a convivência era irregular porque as nossas vidas aconteciam em diferentes cantos do mundo. Porém, me lembro da admiração que sentia por ele e, principalmente, pelo que sua coragem em desafiar as tradições e convenções representava para mim. Aquele moço ganhava o mundo e com ele aprendi que todos nós podemos nos aventurar com aquilo que sonhamos. Sua persistência na formação de piano o levou para vários países e o presenteou com inúmeras oportunidades profissionais. Entre idas e vindas, ele voltou a morar no Brasil, mas eu nem tinha conhecimento de muitos detalhes até que, um dia, nos reencontramos em um jantar em sua casa. E eu, que me sentia frustrada por não tocar piano, acabei me tornando sua aluna regular.

Durante um ano, semanalmente, frequentei as aulas com entusiasmo. Entretanto, não estava aprendendo apenas a ler as notas na partitura e a tocá-las nas teclas do piano. Aliás, que piano de cauda maravilhoso. Acho que a vizinhança conseguia distinguir o horário de cada aluno. Muitos, bem avançados. E eu! Em todo caso, eram encontros recheados de cafezinho e papos divertidos. Em muitas ocasiões, seu companheiro também se juntava a nós e as conversas ganhavam um upgrade. Como ele é chef de cuisine, trocávamos receitas e recebi várias dicas gastronômicas. Foi assim que, rapidamente, as aulas deixaram de ser aulas e a amizade deixou de ser apenas amizade. Os laços foram se estreitando.

Frequentemente eu pensava: como a vida da gente é interessante mesmo. Você acha que aquilo vai durar para sempre, mas muda. E, de repente, você torna a viver novas oportunidades com as mesmas pessoas, de um jeito diferente. Então, você pensa: agora sim, estamos juntos! Mas a linha do tempo responde com uma viravolta e somos, de novo, impelidos às despedidas. Ontem, ajudando a fechar a última mala da mudança deles, entendi mais uma vez o conceito do desapego. É importante deixar ficar para trás aquilo que não precisamos mais carregar, pois assim abrimos espaço para a novidade. É saudável deixarmos ir para vivermos o novo e oxigenarmos a nossa alma. É assim que evoluímos, aprendemos e nos tornamos melhores.

Eles partiram morar em outro país. Dizer adeus é uma constante nessa linha da vida. Verdadeiro paradoxo para o coração que sente a dor da saudade que fica e se alegra com a vontade do reencontro. E, como ensina a metáfora do cavalo branco, a gente nunca sabe mesmo o fim da história. Que possamos, então, viver o instante de cada detalhe tal como ele se apresenta no nosso tempo e espaço.

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