Te amo até o extremo

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Kazi M.D. Jahirul @kazimd.jahirulislam

Um pulinho pra frente, mãos para o alto. Um pulinho pra trás, as costas se repousam na cadeira. Nos intervalos do apagar e acender das luzes, por causa da oscilação de energia, ela puxava os fios de cabelo para o rosto e depois os devolvia atrás da cabeça. A temperatura caía aos poucos e a chuva apertava lá fora da sala. Era mesmo um tempo inquieto e úmido, fazendo o corpo arrepiar de frio e de susto com o estardalhaçado dos trovões improvisados na janela. Mas o remelexo da adolescente não tinha relação com a tromba d’água, nem com a constante queda da luz. Ela era assim, especial em sua expressão e mantinha o ritual como uma forma de proteger seu mundo particular.

Naquela noite, quando cheguei no saguão da faculdade, ela já estava fazendo sua credencial para o curso. A mãe a acompanhava de perto, amorosamente. Certificava-se com a recepcionista sobre as possíveis saídas da sala e o horário do término da aula. Não queria se atrasar para buscar a filha, nem tampouco esperá-la em lugar incerto. Provavelmente temia perdê-la de vista ou, talvez, apenas desejasse estar ali para acolher a menina após suas descobertas. Como nos momentos em que o passarinho volta ao ninho, depois da experiência do voo livre, e se aconchega entre as asas maternais.

Aguardando na fila, eu observava a cena enquanto pensava sobre a importância daquele cuidado. Em situação genérica, ele significaria um excesso de atenção por parte da mãe de uma jovem já grandinha. Naquele caso, especificamente, sua atitude poderia estar relacionada ao fato da filha conviver com a Síndrome de Asperger. Era um espectro grande de possibilidades, mas nenhuma delas tão relevante quanto a demonstração de amor que enchia meu coração de ternura e me fazia pensar: como é fundamental  nos apoiarmos mutuamente.

Durante as aulas daquela semana, a cena se repetiu todos os dias. Mãe e filha chegavam cedo e se despediam na frente da catraca que dava acesso às salas de aula. A menina se sentava sempre na terceira fileira, fazendo praticamente os mesmos movimentos e sobressaltos. Grudava os olhos no ir e vir da professora e anotava algumas frases, parecendo atenta ao que era falado. Às vezes, se levantava e caminhava de um lado ao outro, no fundo da sala. Depois, voltava a se sentar concentrada em seu mundo. Imagino que ela ia, aos poucos, permitindo a abertura das fronteiras para que as informações fossem ocupando espaço. Ao contrário de muitos de nós, trazia a tarefa de casa pronta e entregava para a professora ler. Textos curtos e apaixonantes.

O curso era sobre escrita afetiva e a magia das palavras parecia tocá-la fundo. Suas contribuições eram de grande sensibilidade. Os demais alunos também colaboravam para tornar nossos encontros especiais. Foi uma oficina de aprender a escrever com a alma e não poderia ter impacto diferente do que esse de experimentar a doçura da vida pelo olhos dos outros. A técnica se tornou a menor parte do exercício de se expressar e cedeu lugar para as emoções.

Alguns participantes estavam percorrendo caminhos diferentes para chegar na simplicidade dos textos e todas as histórias que ouvíamos relatavam o extraordinário no cotidiano. Nasciam da sutileza dos detalhes e sintetizavam o universo que nos rodeia. Novas perspectivas sobre muitas coisas. Sentimentos que revelavam o sentido das experiências. Cada um tinha algo a contar sobre si e sobre o outro. Juntos formávamos um livro recheado de capítulos com estilo próprio. Entretanto, o que mais gritava aos meus olhos nesta edição era a disponibilidade afetiva de todos nós e a entrega daquela mãe.

Sim, a entrega da mãe para com a sua filha continuava capturando minha atenção e me emocionando. De certa forma, me fazia pensar nas situações adversas que passamos na vida e em nossa capacidade para superá-las. E também de como é gostoso estar vivo dentro de alguém e ter alguém vivo dentro da gente. Me fazia sentir esse amor incondicional que pulsa, estabelece pontes, nos conecta com as pessoas, com o mundo e, mesmo diante da mínima possibilidade de entrar no universo do outro, nos lembra da possibilidade de amar para além dos momentos que compartilhamos, para além do corpo físico e de suas características particulares, para além das fronteiras geográficas e das diferenças culturais, para além dos limites que o tempo insiste em nos impor.

Um amor assim deve ser do tipo que trazemos guardado na nossa memória genética e espiritual. Sustenta qualquer desafio facilmente porque não tem medidas. É capaz de enxergar o outro dentro do seu mundo próprio e respeitar sua particularidade. É um amor que estabelece raízes e, com a mesma intensidade, pratica o desapego fortalecendo as asas do outro.

Foi, sem dúvida, uma oficina de reconhecer a alma da palavra e escrever afeto!

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