O silêncio que me habita

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Réhahn Photography @rehahn_photography

Imaginar que o silêncio é assustador e solitário apenas demonstra a nossa falta de conhecimento. Sem nenhum julgamento, que fique bem claro. O “desconhecimento”, neste caso, refere-se unicamente ao fato de não termos experimentado, ainda, silenciar a nossa mente. E como isto é mesmo difícil nesse universo tecnológico, que apita a cada minuto com novas informações. Às vezes, nem tão novas assim.

Logo que aderi ao WhatsApp, não me importava com a quantidade de grupos que fui sendo incluída. Alguns, inclusive, sem consulta ou autorização prévia. Provavelmente, não existam muitas pessoas que tenham conseguido resistir ao convite dos amigos para se juntar ao grupo da escola, nem da família que acha que tudo deve ser conversado coletivamente. Tem ainda o grupo do trabalho que se subdivide em “geral”, “nossa área” e “equipe de frente”. Esses são os mais complicados de driblar porque a pressão por uma resposta imediata é intensa. Ainda bem que os chefes já começaram a ser orientados a não invadir a privacidade dos funcionários no final de semana. Pelo menos há uma trégua.

Lembro-me bem de um grupo que criamos para compartilhar informações sobre um projeto novo e, apesar das regras claras que estabeleciam mensagens exclusivas sobre o trabalho, as pessoas teimavam em dizer bom dia e boa noite e a repassar correntes e frases de impacto. Foi necessária muita intervenção divina para inibir os “infratores” e alguns tiveram até que ser exorcizados no particular. A necessidade de expor pensamentos é constante, mas o bom senso nem sempre!

Recentemente, me adicionaram no grupo de um curso que tem mais de duzentos participantes. A proposta da faculdade era veicular informações gerais para facilitar e agilizar nossa vida acadêmica. As pessoas se empolgaram com o canal e começaram a se apresentar individualmente. Não parava de pipocar mensagem e, imediatamente, coloquei o grupo no silencioso. Com muita paciência, fui acompanhando a situação até o dia seguinte. Pensei: quando todo mundo tiver se apresentado, isso toma jeito! Que nada, a conversa começou a evoluir para tantos outros assuntos que ficou impossível ler tudo. Imagina: mais de duzentas pessoas trocando mensagens sobre diferentes assuntos quase que ao mesmo tempo. Não deu para resistir e fui logo saindo do grupo. Será mais prático buscar informações acadêmicas diretamente com a secretaria quando elas forem necessárias.

Em grupos de amigos também é impossível seguir a lógica dos assuntos. Alguém publica a notícia do falecimento de um familiar e dois balõezinhos depois vem outra pessoa anunciar o sucesso da festa na noite anterior. Já aconteceu de enviarem foto íntima no grupo do trabalho e até planiha de projeto no grupo da família.

Com o passar dos posts, eu mesma fui me retirando das diversas listas e reservando esforços para o estritamente necessário. Acredito que este relato seja extremamente comum e que inúmeras pessoas se sintam solidárias com essa decisão, seja porque elas já tenham se excluído de listas do WhatsApp ou porque pretendem escapar de fininho de algum grupo, logo em seguida. Dou o maior apoio!

O excesso de conexão com os outros tem nos afastado de nós mesmos. Confesso que há dias em que a primeira coisa que eu faço quando chego em casa é sentar confortavelmente no sofá e bisbilhotar o que está circulando nas redes sociais. Aproveito a desculpa para responder algumas mensagens e acabo excedendo. Até a minha gata já consegue identificar quando sou abdusida pelo celular. Ela fica me encarando por um tempo e, se demoro demais, ela mia avisando que preciso saltar da espaçonave antes que me perca nas nuvens.

Já fui repreendida por estar em um encontro de família e ficar teclando com amigos do outro lado do continente. Essa facilidade de pesquisar dúvidas na internet que surgiram no papo ao vivo é perigosa. Você pega o celular para checar uma informação e segundos depois já está vendo as fotos que o amigo publicou do congresso sobre o sexo dos anjos lá na Conchinchina. Quase não dá para acreditar na infinidade de janelas que vamos abrindo com poucos cliques. O apelo é forte: talvez seja mais confortável vagarmos pela net do que mergulharmos nas profundezas do nosso ser. Resistir a esse convite para existir no nosso silêncio é um desafio.

Para além da tecnologia, tenho encontrado, cada vez mais frequentemente, pessoas falando alto em lugares e espaços coletivos. Peguei um ônibus intermunicipal recentemente e, como era noturno, esperava fechar os olhos para tirar um cochilo pelo menos. Até teria conseguido, não fosse a dramática história de vida que estava sendo relatada umas quatro poltronas atrás. Se fosse um caso desinteressante, talvez, eu tivesse caído no sono. Quem sabe? Mas, ainda assim, me pergunto: onde está guardada a capacidade de nos colocarmos no lugar de si mesmo e nos aquietarmos?

O silêncio pode ser enriquecedor. Nos dá acesso a lugares mágicos porque nos permite abrir a porta de Narnia e adentrarmos um universo vasto. Uma dimensão particular, certamente, que nos habita e nos fortalece. A quietude tem esse dom de nos afastar dos ruídos externos e reconhecer os sons da nossa alma. Conheço pessoas que se refugiam do convívio social porque apreciam sua própria companhia e aproveitam esses momentos de silêncio para desbravar seus medos e angústias existenciais. E algumas que estão vazias de si e se misturam no barulho da multidão para não escutarem nada, nem mesmo os outros. Estas são muito comuns: elas falam pelos cotovelos e atropelam a fala dos demais interlocutores.

Em um texto que reli esses dias, o autor (David le Breton) defende que o silêncio é uma forma de “resistência política”. Faz muito sentido o que ele explica e sugiro a leitura. Tem pessoas que dizem tudo, silenciosamente. E outras que nos silenciam com suas palavras. Porém, no final do discurso, tudo pode ser uma questão sobre o quanto conseguimos suportar o silêncio e sustentar nossa leveza. O silêncio como resistência é também uma descoberta de si. E como diz Osho: “O silêncio é o domínio da linguagem, mas não se preocupe. O silêncio é o domínio de Deus, e, quando você souber o que é o silêncio, terá algo a falar.”

 

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