Nada é o que parece ser

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Andrea Silveira – @andreafsilveira

Sempre ouvi dizer que as coisas não são exatamente como parecem ser. Inclusive, me lembro da propaganda de um shampoo contra caspa que usava exatamente este chavão para promover a ideia de que tomamos por pressuposto algo, acreditando que é o que parece, mesmo não o sendo.

Parece um jogo de palavras, mas não é. A ideia pode parecer confusa, mas também não é. O que tem por trás disso é, de fato, uma lógica perfeita. E ela nos intima a aguçar a percepção em tal nível que jamais conseguiremos voltar a olhar “as coisas” sem buscarmos entender em que condições elas se apresentam como são.

As ilusões são criadas e reforçadas a partir do princípio de que tudo é o que é. Ou, como dizem por aí, que as coisas existem por si mesmas. Isto faz com que a gente se apegue a determinadas verdades e as tome como absolutas, aumentando nosso sofrimento. Por isto, drenar as ilusões é um alento muito grande. Aceitar que tudo é relativo e só existe em função das condições em que se apoia é o caminho para encontrarmos a paz interior.

Por exemplo, suponhamos que alguém tenha feito algo muito ou pouco grave. Como consequência, isto nos magoa e ficamos aborrecidos com a pessoa. Somos cobrados a perdoar, mas não conseguimos porque a pessoa agiu errado conosco. Podemos até conceder a ela a indiferença, mas jamais desculpá-la. O enredo é triste e o cenário caótico. Então, vamos tentar desconstruir isso e veremos que tudo é relativo mesmo!

Primeiro, a ideia de gravidade só existe porque atribuímos uma graduação para dar importância a algo. É a nossa percepção, baseada em experiências e referências acumuladas, que interpreta o que está sendo observado e o classifica: bem, mau, grave, irrelevante, feio, bonito, merecido, desmerecido, e assim por diante. Ou seja, a coisa em si não existe. Ela precisa de uma referência para ser reconhecida.

Ainda, o que alguém faz pode não representar aquilo que a pessoa é. Quando confundimos a “ofensa” com o “ofensor”, perdemos de vista a essência e a natureza da pessoa, que é a mesma que a nossa. Se, ao contrário, conseguirmos abstrair a pessoa do comportamento, talvez possamos entender que não há fundamento para ficarmos com raiva dela e que a mágoa não se refere ao “ser”, mas decorre do que percebemos da sua atitude.

Certo e errado também são referências que aprendemos e usamos para rotular o mundo. Mas as perguntas são: qual a história de vida daquela pessoa? Em que condições ela se desenvolveu? E a minha história e condições de aprendizado?

Inúmeras vezes, somos levados a reagir contra essa lógica porque ela faz com que deixemos de culpar tudo e todos, convocando a nossa responsabilidade pelo próprio sofrimento. Como disse uma amiga recentemente: somos nós mesmos que criamos o nosso umbral. Sabe, aquele lugar escuro, frio e pegajoso em que as “almas pecadoras” são aprisionadas nos filmes de vida após a morte, nada mais é do que a nossa mente iludida com todos esses preconceitos e culpas.

As coisas são vazias delas mesmas e somos nós que vamos preenchendo os espaços com as nossas interpretações enviesadas. É a nossa mente equivocada que vai atribuindo significados, valores, conceitos para tudo que observa. De fato, sofrimento e felicidade são potenciais que nós mesmos criamos, na medida em que construímos essas ilusões.

É que a aparência das coisas nos atrai. Talvez, por isto, saímos por aí nos apegando às primeiras impressões como se elas carregassem as respostas para as nossas perguntas existênciais. Ritos, religiões, conceitos providos de aignificados para nos ajudar, aparentemente, encontrar nosso “eu maior” (aliás, o único que somos!).

Porém, ao aceitarmos que as coisas existem apenas em função das suas condições, ampliamos o entendimento daquilo que observamos e vamos nos afastando do sofrimento, possibilitando que a vida seja mais feliz. A sabedoria vai amadurecendo e a gente vai vivendo melhor.

Se percebermos o quanto essas convenções refletem as estruturas rígidas que criamos, nos daremos conta do vazio que representam e nos remeteremos de volta ao próprio vazio que somos. É nesse lugar que podemos repousar a mente, pois é na vacuidade que existimos como possibilidade infinita de vir a ser luz.

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Uma resposta para Nada é o que parece ser

  1. dagmar duwe disse:

    Querida Andrea! Gostei do teu artigo ” Nada parece ser o que é” Concordo que a nossa atenção deve ser redobrada, aí analisar fotos cotidianos.

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