Caminhos, caminhadas e caminhantes

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Andrea Silveira – @andreafsilveira

O chacoalhar do trem não tirou meu sono. Dormi super bem a noite inteira, depois de ter driblado a ansiedade de começar mais uma aventura. O friozinho na barriga sempre antecede a fila de embarque e enquanto não volto para a casa, ele é meu companheiro permanente. Contudo, nunca se torna um excesso de peso. Ao contrário, ele serve de intuição para algumas decisões de improviso. Se venta demais dentro de mim, espero um cadinho ou me posiciono em outros cantos. Acredito ser fundamental viajar sintonizado consigo mesmo e respeitar o ritmo da gente. Por isso, adoro experimentar novos destinos por conta própria. Ter a liberdade de ser coerente com aquilo que sentimos e damos conta de fazer é o melhor de todas as viagens possíveis.

Alguns amigos sempre desconfiam que sou incapaz de me aquietar e acho mesmo que eles têm razão. A causa é boa e peregrinar mundo afora é uma estratégia terapêutica muito eficaz. Além do que, como diz uma amiga muito querida: viajar é respeitar a alteridade. Esse aprendizado vindo diretamente da prática é transformador. Troquei, tranquilamente, o divã pela estrada. E como ainda não me dei alta, sigo testando os destinos para o caso de alguma referência ter mudado a teoria.

Nem vou listar os benefícios de colocar a alma na estrada porque cada pessoa tem que descobrir por si mesma. O que pode ser bom para mim, talvez desagrade o outro. Vai saber… tem gente que ama seguir trilhas e há também quem adora saltar do trem uma estação antes. Tem gosto para tudo e o mundo é tão diverso e acolhedor que consegue atender à todas as expectativas.

Desta vez, planejei conhecer uma pequena parte do caminho francês que nos leva até Santiago de Compostela, na Espanha. Apesar de ter decidido por poucos quilômetros de caminhada (110 km), em comparação ao trecho original (em torno de 940 km), considero um esforço bastante significativo para uma sedentária disfarçada. Em todo caso, nada melhor do que a vontade para provocar nossos limites e chutar as nossas fronteiras para o alto.

Quem desconhece a fama dos caminhos de Santiago de Compostela talvez sinta-se empolgado com a perspectiva deste relato. É uma caminhada e tanto, passando por lugares e situações inusitadas. Encontro com pessoas de todos os lugares do mundo e encontro do universo dentro de si. Em qualquer caso, é impossível negar o caráter espiritual do caminho. Mas, em cada um de nós, a caminha repercute de um jeito singular. E como digo com frequência: cada um tem o seu “caminho de Santiago” em algum momento da vida e não é, necessariamente, este disponível na Espanha.

Quem já é familiarizado com os depoimentos dos peregrinos pode pensar: “mais um texto sobre a experiência do caminho na net. Que repetitivo!”. Eu mesma li dezenas de blogs e dicas antes de escolher meu itinerário e concordo que dá uma certa preguiça as pessoas falando as mesmas coisas de maneiras diferentes (em que pese que a maioria fala quase do mesmo jeito!). Mas, enfim, queria saciar minha curiosidade com fatos concretos, então, embarquei sem compromisso.

Cheguei em Sarrià no trem matinal, desfrutando da cidade por um bom tempo antes de começar a caminhada no dia seguinte. Fiquei feliz por estar ali, mas com o avanço lento do relógio comecei a desenvolver uma impressão estranha: essa história de andar por esses caminhos é quase que literalmente pra inglês ver. Em poucas horas encontrei vários grupinhos deles. Só fui mesmo mudar de ideia sobre isso quando me deparei com um grupo grande vindo da Indonésia. Que pessoal divertido e festivo. Ajudou a desfazer minha primeira impressão!

Alguns insights rapidamente pularam na minha consciência, amadurecendo as ideias iniciais. Me lembrei de uma consulta recente com o homeopata que questionou minha imposição de tamanho esforço ao corpo físico. Na sequência, a fala de um amigo também muito querido que já havia feito o caminho me incentivava a seguir em frente com o desafio. Mas entre um e outro, em algum ponto, minha voz interior me convenceu a abandonar o tal passaporte de Compostela no fundo da mochila. Esse é o documento no qual você vai coletando carimbos ao longo das etapas para, no final, receber sua certificação em Santiago.

Afinal, quem precisa de carimbo??

Disse esse amigo que cumprir a tradição também pode ser uma curtição. Mas enquanto caminhava eu pensei: é necessário que seja uma coisa que tenha um sentido especial pra gente, caso contrário, ela perde mesmo o valor e o significado. E, então, me lembrei da coleção de tradições que já abandonei e do quanto me sinto muito mais leve e feliz por ter rompido certas convenções.

É isso. Quando sabemos qual é o nosso verdadeiro propósito com aquilo que nos propomos um horizonte de possibilidades se abre diante dos nossos pés e nos convida a criar o próprio caminhar. Não “temos que” nada. E tudo é válido quando toca a nossa alma pequena.

Neste momento, sinto que já ganhei a viagem e se as pernas não corresponderem à demanda da trilha, vou logo pegar um trem, um ônibus ou até mesmo um táxi pra chegar no próximo destino. Que importa como percorro o caminho? O propósito pode ser cumprido de diferentes formas (e meios de locomoção, neste caso).

Estou rindo muito agora. É de deboche comigo mesma. Me meto em cada uma….Mas como sempre digo, não precisa pressa, apenas a entrega. Mas como esse não é um blog sobre Compostela, vou concluir essa caminhada por aqui.

Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Caminhos, caminhadas e caminhantes

  1. Neuzi disse:

    Sim minha amiga, me reconheci aí, se não te disse a frase da alteridade, certamente já disse para alguém e acho isso tudo que você falou, pois mesmo com acompanhantes, o caminho será sempre seu. Bon voyage! Neste momento gostaria de estar nesse caminho também, mas ainda preciso fazer outros para chegar aí. Bjos

  2. Lourdes disse:

    Querida,
    Muitas caminhadas se completam antes mesmo de sua conclusão. A sabedoria está em saber e sentir onde está o final.
    Bjs

  3. dagmar duwe disse:

    Jóia!

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